domingo, 3 de maio de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Milhares de mães não desculpam a Igreja por ter passado o Dia da Mãe  de 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição, para o primeiro domingo de Maio.

Segundo o Instituto Nacional de Estatistica, o número de crianças nascidas em Portugal aumentou 3,7% no ano passado, para 87.764, sendo que cerca de um terço dos bebés são filhos de mães estrangeiras. anunciou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Legenda: pintura de Giuseppe Zocchi.





sábado, 2 de maio de 2026

NORMALMENTE, O POVO VOTA MAL

 «O meu ponto é apenas chamar a atenção para um facto chocante. Há quatro anos, convocados a escolher entre Montenegro e Moreira da Silva para liderar o PSD, 26.975 militantes não hesitaram e votaram massivamente no agora primeiro-ministro. O resultado foi claro: 72,5% para Montenegro e uns curtos 27,5% para Moreira da Silva.

Há um fosso que separa Moreira da Silva de Montenegro: um tem carreira profissional, percurso internacional (na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico e, agora, na Organização das Nações Unidas) e experiência governativa; o outro tem um passado apenas tribunício, complementado, sabemos agora, pela promoção de uma empresa familiar com uma carteira de clientes intimamente ligada ao seu percurso partidário regional.

Porque escolheram, então, os militantes do PSD Montenegro? Não foi certamente por questões de posicionamento ideológico: Montenegro opunha-se a Rio, mas escolheu para coordenar a sua moção o autor da moção do anterior líder, o agora ministro Miranda Sarmento. Os motivos são outros. No que é uma lei de ferro, os partidos de poder fecharam-se, desligaram-se da sociedade, não estão interessados em líderes com percursos autónomos, e os critérios que organizam as escolhas internas dependem de uma teia de cumplicidades irrelevante — quando não perniciosa — para a governação, mas decisiva para conquistar o aparelho.

O desfecho não poderia ser outro: entre Moreira da Silva e Montenegro, a escolha foi clara. Não surpreende, depois, que os resultados sejam os que se veem — sobre Gaza, sobre Trump e Putin, e na governação do país.
»

Pedro Adão e Silva no Público

MÚSICA PELA MANHÃ


Que música para amanhã de hoje?

Será Bella Ciao, ouvida ontem no final dos festejos do 1º de Maio na Alameda

Conta a Wikipédia:

«"Bella Ciao" (adeus, querida) é um canto popular italiano que se tornou um hino global de resistência, liberdade e antifascismo, marcando a luta dos partigiani contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Embora associada à resistência, a letra original de autor desconhecido narra a despedida de um guerrilheiro que antecipa a sua morte na luta contra as tropas nazifascistas.»

 A provável letra original da canção tem como tema as duras condições de trabalho nos arrozais padanos:

Stamattina mi sono alzato, o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, stamattina mi sono alzato,

ho trovato I'invasor!

A lavorare laggiù in risaia

Sotto il sol che picchia giù!

E tra gli insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, e tra gli insetti e le zanzare,

duro lavoro mi tocca far!

Il capo in piedi col suo bastone, o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, il capo in piedi col suo bastone

E noi curve a lavorar!

Lavoro infame, per pochi soldi, o bella ciao bella ciao

Bella ciao ciao ciao, lavoro infame per pochi soldi

E la tua vita a consumar!

Ma verrà il giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, ma verrà il giorno che tutte quante

Lavoreremo in libertà! 


Tradução em português


Esta manhã, eu me levantei, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida, esta manhã, eu me levantei

 

e encontrei um invasor!

 

Para trabalhar lá no arrozal, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! Para trabalhar lá no arrozal

 

Sob o sol que nos derruba!

 

E entre os insetos e os mosquitos, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida, e entre os insetos e mosquitos,

 

Um trabalho pesado que tenho que fazer!

 

O chefe está de pé com uma vara, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! O chefe está de pé com uma vara

 

E nós curvados a trabalhar!

 

Trabalhe infame, por pouco dinheiro, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! Trabalho infame, por pouco dinheiro

 

E tua vida a consumir!

 

Mas chegará o dia em que todos, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! Mas chegará o dia em que todos,

 

trabalharemos em liberdade!


A versão partigiana

Stamattina mi sono alzato,

 

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

Stamattina mi sono alzato,

ed ho trovato l'invasor.

O partigiano, portami via,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

O partigiano, portami via,

ché mi sento di morir.

Se io muoio da partigiano,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

Se io muoio da partigiano,

tu mi devi seppellir.

E seppellire sulla montagna,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

E seppellire sulla montagna,

sotto l'ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

E le genti che passeranno,

Ti diranno «Che bel fior!»

«Questo fiore del partigiano»,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

«Questo fiore del partigiano,

morto per la libertà!»


Tradução em português


Nesta tradução, a palavra «resistente» designa um membro de força militar irregular que se opõe a um invasor externo ou a um exército de ocupação.

 

Acordei de manhã

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

Acordei de manhã

E deparei-me com o invasor

Ó resistente, leva-me embora

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

Ó resistente, leva-me embora

Porque sinto a morte a chegar.

E se eu morrer como resistente

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

E se eu morrer como resistente

Tu deves sepultar-me

E sepultar-me na montanha

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

E sepultar-me na montanha

Sob a sombra de uma linda flor

E as pessoas que passarem

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

E as pessoas que passarem

Irão dizer-me: «Que flor tão linda!»

É esta a flor do homem da Resistência

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

É esta a flor do homem da Resistência

Que morreu pela liberdade



sexta-feira, 1 de maio de 2026

REOLHARES



OS MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE


Se agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25 não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de Maio.

Dirá então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer - obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava. Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.

Já foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores querem voltar e pedem amnistia,

Tomás e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.

Neste dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar. Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o

assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.

Que ao longo deste texto são relembrados.

Faltava um ano para Grande Festa.

1º DE MAIO À MINHA MANEIRA


De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.

José Gomes Ferreira em Intervenção Sonâmbula

Legenda: Retrato de José Gomes Ferreira de Ofélia Marques.

O MEU PRIMEIRO DE MAIO

Sozinho, sempre sozinho,

mesmo quando vou a teu lado.

 

De ti que constróis o rumor das cidades

e no campo, semeias, lavras,

e pisas

o sabor do vinho.

 

Sozinho, sempre sozinho.

aqui  vou a teu aldo

eu, o poeta, operário de palavras

- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -

instrumentos de pureza irreal

que tornam a Realidade

ainda mais real

e transformam os bairros de lata

em futuras cidades de cristal

num planeta de paisagens de prata

onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,

da brancura do linho

e das foices de gume doirado

cantarão um dia connosco a Internacional

- que eu continuarei a cantar sozinho,

sempre sozinho,

a  teu lado.


José Gomes Ferreira em O Diário, s/d