Nunca aprendemos tudo sobre despedidas.
O livro do
Julian Barnes é um livro do diabo.
Demorei algum tempo a lê-lo.
São apenas 185 páginas, «composto em caracteres da família
Caslon, inspirados na tradição holandesa do século XVII e originalmente desenhadas, em 1722, pelo
tipógrafo William Caslon (1692-1766) – um trabalho que influenciou toda a
história da tipografia moderna».
Relembro o
que por aqui escrevi, nos princípios de Março, sobre Barnes:
Saiu o último livro do Julian Barnes e é
mesmo o último.
Li apenas O Papagaio de
Flaubert e gostei.
Diverti-me bastante. Ainda lembro: «A
felicidade é como o sarampo. Se se apanha muito cedo arruína-nos a saúde».
Barnes tem 80 anos. Nasceu em Janeiro de
46, eu nasci em Março de 45.
Deveria ter lido os restantes livros de
Barnes. Não se proporcionou. Estive, agora, na livraria, com a Partida,
que é o seu último livro, nas mãos. Os livros estão caros, sempre estiveram.
Folheei-o, não o comprei porque, um dia destes, hão-de perguntar-me por livros
que me querem oferecer.
Neste momento, Barnes, luta contra um
cancro, ou o cancro luta contra ele, depende dos pontos de vista. Poderá fazer
mais alguma coisa? Na livraria, pacientemente copiei:
“Será que tenho uma lista de desejos,
agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor
Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico
obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de
Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme,
excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades
europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas
nevadas de uma distância em que não sinta frio”.
A Quetzal, que edita o livro, publicita:
«Partindo da história de um casal de
namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e que decide
tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa
deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a morte.
Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste
balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes
americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira
com um final triste».
Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os
leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas
expressões da vida. E despede-se deles.
Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo
aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a
minha partida oficial, a minha última conversa convosco».
CRÍTICAS DE IMPRENSA
«Uma despedida elegante de um escritor
cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review
«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance
elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal
«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e
vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books»
Na crítica que Helena Vasconcelos fez
para o Público deu-lhe 5 estrelas, adianto que acho uma idiotice
colocar estrelas nas críticas aos livros e aos filmes
Partida, o romance em que Julian
Barnes nos diz adeus.
Para um livro sobre as indecências da velhice e a aproximação da morte, Partida é, surpreendentemente, muito divertido. Julian Barnes diz ser um alegre pessimista, facto amplamente demonstrado neste sombrio relato das inúmeras “partidas” que a natureza prega, ao mostrar que nenhum de nós tem o poder de controlar as mutações do corpo e da mente na cavalgada a caminho do desaparecimento e do olvido.
Julian Barnes resolveu despedir-se dos seus leitores.
Sim, claro, ficam os livros e após a Partida, todas as partidas são sempre difíceis, mas pela parte que me toca, terei ainda que ler os livros de Barnes que não li, certamente me divertirei e voltarei sempre a O Papagaio de Flaubert.
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