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quarta-feira, 27 de março de 2019

CONSERVADO EM ALCOOL


 Chegamos ao fim da revisitação das entrevistas do Luiz Pacheco antologiadas em O Crocodilo Que Voa.

Estas são as duas últimas perguntas que Ricardo Nabais e Vladimiro Nunes fizeram a Pacheco na entrevista que foi publicada pelo semanário Sol em Janeiro de 2008.

A quem acha graça hoje em dia?

Agora acho muito pouca graça. E aqui então não se pode. Já mandei uma gaja aí à merda. Porque isto é um ambiente deprimente. Sexualmente isto é um desgosto. Mas aqui há namoros! É claro que vocês estão cá meia hora e depois arejam. Mas para a pessoa que cá fica… o que vale é que estou isolado... Também é muito cedo para dizer que estou mal. Ainda estou a experimentar. Em oito dias, só hoje é que fui conhecer o andar de cima. Ainda me desnorteia, não sei onde é o elevador. De resto, isto parece-me muito bom. É melhor do que eu supunha. Mas é difícil achar graça a alguma coisa com esta idade. Tenho 82 anos, porra! Há aquela coisa que é a PDI, a Puta Da Idade, o caruncho...E o velho, geralmente, é egoísta. Ou é mais egoísta do que o novo. Mas estou a falar de coisas muito tristes…

Convenhamos que, ao longo da vida, o Luiz Pacheco também não se tratou muito bem.

Não, tratei-me! Fui conservado em álcool. A questão é que não havia dinheiro para grandes rambóias. Não estou taralhoco de todo. Estou é um bocadinho desmemoriado e tomo muitos medicamentos.

sábado, 23 de março de 2019

ADORAVA DESEMPREGAR-ME



Há um texto em que fala de ter um emprego das nove às cinco ou viver como se quer. «Vou ter prazer na vida, fazer o que bem entendo.» Isso decide-se assim?

Não, são coisas que aparecem. E depois houve o 25 de Abril, que deu dinheiro a muita gente, não só a mim. Não é escolha, é feitio, são acasos. A vida é muito variada.


Mas parece uma opção, até porque saiu daquele emprego seguro na Direcção-Geral de Espectáculos.

Adorava desempregar-me. O Nicolau Santos, que foi director do Diário Económico (DE) e que agora é vice-director do Expresso, pagou adiantado e convidou-me a ir para o DE. Havia uma página de regabofe, de crítica de cinema, uma coisa de artes. Durante meses escrevi para lá. Aquilo era pago, primeiro, a 30 contos. O que era muito bom na altura. Mais tarde passou para 35 contos. Depois disseram-me que fazia parte de uma grupo que ia ser saneado no jornal. O Nicolau perguntou-me se não queria ir para o Público e saí do DE. Quando lá cheguei, disseram-me que não podia escrever como escrevia. Era na revista, onde estavam o Lobo Antunes e um psiquiatra qualquer. Davam-me 50 contos por crónica.

Quanto tempo durou essa colaboração?

Trabalhei lá até o Nicolau sair. Houve qualquer merda lá no Público, gajos despedidos, e ele saiu. Estive no Público com outros novos colaboradores e era ‘escritor e polemista’. ‘Ai querem que eu vá para aí fazer sangue?’ Tinha jeito para a porrada, sim…

Era uma espécie de Vasco Pulido Valente bolchevique.

Era. Mas só dei porrada em dois gajos. No Esteves Cardoso, porque, de repente, tinha um nome muito acima do que vale. Não é mau rapaz, mas é um bocado pateta. E dei a outro, que não conheço pessoalmente, o José Eduardo Agualusa. Um gajo que lá havia, o [Torcato] Sepúlveda fez-lhe uma punheta, escreveu sobre o romance dele, Nação Crioula. E então pensei: ‘Este gajo, o Sepúlveda, não vê que o outro é um aldrabão?’. Vai daí, dei uma porrada ao Agualusa, mas a porrada era também para o outro. Isso deu-me gozo, fiz o gosto ao dedo.

Mas foi-se embora outra vez.

Depois saiu o Nicolau, e eu, nem é tarde nem é cedo, escrevi-lhe: ‘Não somos siameses mas você é que me meteu no Público. Você sai, eu também saio’. Agora, o gozo que dá um gajo abandonar o emprego…

Esteve muito tempo na Direcção-Geral dos Espectáculos.

Entrei em 1957 e estive lá 14 anos. Como é que se arranja empregos? É por conhecimentos. O meu pai era amigo de um chefe de secretaria e foi lá comigo. Iam abrir seis vagas em Janeiro. Fui logo a correr. Tinha a vantagem do cartão da Inspecção, que permitia chegar a um cinema, a um teatro, ou a uma praça de touros, e entrar.

E a saída, como foi?

Outra grande alegria. Fui lá uma manhã e escrevi um requerimento ao ministro a pedir a demissão.


Porquê?

Já não podia ver aquela merda. O chefe de serviço até me perguntou: ‘Então o senhor Pacheco está a fazer mais um livro?’ De repente, ganha-se asco aos ambientes.

sexta-feira, 15 de março de 2019

O VOTO NÃO É ASSEXUADO



Por falar em borla, tem conseguido equilibrar as suas finanças?

Ainda estava no lar do Príncipe Real quando, com a história daquela Manuela Ferreira Leite e do défice dos três por cento, vi a coisa mal parada. Porque eles dão-me, há anos já, um subsídio. Foi até o Tio Patinhas, o Balsemão, que, quando foi primeiro-ministro – não foi muito tempo, mas foi – deixou lá um saco azul, um buraco que não tinha cobertura legal nenhuma. A certa altura, arranjou um decreto em que instituía o chamado ‘mérito cultural’. O Alçada Baptista tinha-me encontrado na Avenida da República e, como sabia que eu estava muito à rasca, a viver mal, tinha-me perguntado: ‘Ó Pacheco, não lhe convinha uma bolsa de sete contos?’. ‘Ó Doutor António, se você me falasse num conto de réis, eu ainda acreditava, agora sete contos não acredito; mas é claro que me fazia jeito’. Depois saiu o decreto do Balsemão e solicitei a bolsa. Primeiro foram dez contos, depois vinte, foi subindo.

Até que Santana Lopes lhe atribuiu um valor mais razoável: 600 euros.

Havia uma senhora, que ainda é viva, a Maria João Rolo Duarte, mãe do Pedro (Rolo Duarte). Nunca a conheci, mas ela tinha uma página de espectáculos e televisão n’A Capital e começou a escrever uns textos: ‘Então o Luiz Pacheco não tem um subsídio capaz?’. Uma vez, encontrou o Santana Lopes, o Pedro… Bom rapaz, não lhe perdoam por ser um gajo das discotecas e por ter mulheres boas. E ele é bonitote, acho que até ganhou em Lisboa por causa disso, porque as mulheres são mais do que os homens e o voto não é assexuado. Bom, mas a Maria João encontrou-o numa recepção qualquer e disse-lhe: ‘Ó senhor doutor, então o Luiz Pacheco tem um subsídio tão baixinho?’. E tinha. Ele prometeu-lhe que me ia dar mais dinheiro. E deu. Ao fim de uns meses, recebi um aumento de 60 contos. Com retroactivos, foi uma abada bestial.

sexta-feira, 8 de março de 2019

NÃO VALE A PENA CHEGAR AOS 70 E 80!


A última entrevista da colectânea O Crocodilo Que Voa foi feita por Ricardo Nabais e Vladimiro Nunes e publicada no semanário Sol em Janeiro de 2008.
Com algumas passagens desta entrevista, despedimo-nos deste Luiz Pacheco que durante algum tempo fartou-se de gozar com as larachas – e não só! – com que entretinha aquele pessoal dos jornais e revistas que, em busca de sensacionalismo invadiram os lares de idosos por onde Pacheco passou os últimos anos de vida. Claro que há excepções. Alguns que o foram entrevistar leram-lhe os livros, sabiam dos seus percursos
A entrevista é delirante.
Aliás, este juntar de entrevistas em livro é um material que não pode ser dispensado por quem queira conhecer as muitas das facetas da vida bem remendada da Pachecal Figura.

«O Luiz Pacheco também já deu algumas golpadas.

Já dei algumas.


Qual foi a pior?

Isso não posso dizer. E também não se avalia assim.

Qual a que lhe deu mais gozo?

Deram-me todas muito gosto. Tive aí uma actividade durante 50 anos [como editor da Contraponto]. O gosto que tenho é nos livros que vendi a cinco ou a 20 paus e hoje valem contos de réis. Também assinados, com dedicatórias, numerados. Agora é uma senhora, cunhada do Manuel Alegre, uma jornalista, que está outra vez a fazer edições da Contraponto.

Um dos últimos livros que o Pacheco editou foi Villa Celeste, de Hélia Correia, em 1999.

Ela agora fez um romance.

E tem publicado vários livros na Relógio D’Água.

Está a ter mais nome, até ganhou um prémio, parece-me. Já não a vejo há muito tempo. Quando eu estava em Palmela, foi lá com o marido, aquele rapaz dramaturgo, do Público, que também foi premiado… o Jaime Rocha… Ela escrevia lá para as Azenhas do Mar, porque gosta de ambientes húmidos. É gira. E um bocado tosca, maluca…

Mas era uma das escritoras novas de que o Luiz Pacheco mais gostava.

Era sim senhor.

Até porque entretanto já se tinha fartado do Pedro Paixão e do Miguel Esteves Cardoso.

O Pedro Paixão ainda é vivo, esse gajo?

É. E o Miguel Esteves Cardoso também.

Esse é um estupor. Ele, a mãe e o pai. É o gajo da televisão, não é?

Não. Esse é o Miguel Sousa Tavares.

Pois é. Desculpem. Não, do Esteves Cardoso gostava muito. Era um gajo giro. Depois fez aquela laracha d’ O Amor é Fodido. Os livreiros até tapavam o título. Conheço dois que taparam. Ele está a fazer o quê? Engordou muito, não foi?


Voltou a fazer crónicas para o Expresso, mas sem o mesmo sucesso de antigamente.

Nunca gostei muito dele em crónicas. Nunca me convenceu muito. Já o topava desde o Independente. Depois esteve numa revista com graça, a K.»

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

QUERO VÊ-LA CHEGAR



«Mas não estás com mau aspecto.

Eu nunca esperei acabar nisto.


Nisto, como?

Eh pá: com criadas, auxiliares, assistência médica. Fazem-me a cama, limpam-me o quarto.

Não te sentes sozinho?

Não. Tenho uma memória muito razoável. Já não posso ler, já não posso escrever, de modo que repiso o que vivi. Depois há malta que vem cá e me conta umas coisas de que eu já não me lembrava.

Não escreves, mas podias ditar para um gravador.

Eu cheguei a ter um Diário Falado, gravado para as cassetes.

E onde é que estão essas cassetes?

Algumas deve-as ter o Paulo. Outras perdi-as nas pensões, nos sanatórios, por aí… Um diário, escrito ou falado, torna-se um vício, uma espécie de dependência. Mas depois também passa.


Ouve lá: quais os escritores portugueses actuais que pensas que serão lidos daqui a 50 anos?

Os que vierem nos programas escolares. Achas que os putos agora lêem A Sibila? É uma maravilha aquele livro, mas que miúdos urbanos de hoje é que vão ler aquilo? O Pessoa perdura, de certeza. Não sei se o Saramago e o António Lobo Antunes têm tomates para continuar. Não faço ideia do Herberto. Esse é diferente, é poesia, mas a prosa dele também é muito boa. Mas quem é que lê hoje Os Passos em Volta?

Muita gente, e jovem.

Ai é!? O Herberto é muito complexo. Não será o nosso maior poeta, mas é muito bom.»

Pensas na morte?

Penso, mas não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

O INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA


Continuamos às voltas com O Crocodilo Que Voa onde estão reunidas entrevistas concedidas por Luiz Pacheco a diversos jornais e revistas.
Depois da entrevista conduzida por João Pedro George, chegamos a uma outra boa entrevista. Foi conduzida por Rodrigues da Silva e publicada no JL 30 de Agosto/13 de Setembro de 2005 - «Um Diário Inteiramente Livre»
Não faz parte do livro que reúne as ebtrevistas, mas reproduzimos a abertura que Rodrigues da Silva escreveu para apresentação da entrevista: 

«É um diário sem paralelo na literatura portuguesa porque não foi escrito para ser publicado. Aliás, boa parte dele perdeu-se ou anda perdida, nem Luiz Pacheco, o seu autor, sabe por onde. De qualquer modo, o Diário Remendado, que, com posfácio de João Pedro George, a Dom Quixote vai lançar na primeira semana de Setembro vai de 1 de Novembro de 1971 a 12 de Dezembro de 1975, vivia Pacheco em Massamá. Agora, com 80 anos feitos em Maio, vive num lar de idosos, onde o JL o foi encontrar. Para redescobrir o mesmo Pacheco de sempre. Um homem vertical, que, a despeito da velhice e da decadência física, não é habitado pela menor amargura, antes mantém inalterável o seu proverbial humor mordaz e a sua constante auto-ironia.
Conheço-o vai para 50 anos, devo-lhe muito (como todos aqueles a quem o Pacheco, em finais de 50, «impingiu» edições quase clandestinas dos primeiros livros do Herberto e do Cesariny, autores em que, salvo ele, nenhum editor apostava), e o Luiz Pacheco está igual. Não, não está. Fez em Maio 80 anos, já não edita livros, já não isto, já não aquilo, nem já bebe, o Pacheco. Mas é o mesmo. O mesmo tipo que, aos 20 anos, optou por um modo de vida e assumiu-o, nunca disso se queixando. Se a liberdade tem como contraponto a responsabilidade, Luiz Pacheco é disso um paradigma. Porque jamais lhe ouvi um lamento. E, sempre mordaz, jamais também o vi invejar fosse quem fosse. Uma tarde desta reencontrei-o num lar de idosos, ali ao Príncipe Real. Ouve mal, vê muito pouco, já não consegue ler, nem escrever, tão-pouco distingue sequer a comida no prato; usa fraldas, habita um quarto despido de quase tudo, está ligado ao mundo por um telemóvel e pela rádio, mas fartámo-nos de rir os dois com as piadas dele, porque o Pacheco continua possuído de um humor e de uma ironia absolutamente invejáveis. Muito do que me disse não é possível publicar-se numa entrevista, mas o que a seguir se poderá ler dá o tom. O tom de um homem que soube aceitar a velhice e (por que não dizê-lo?) a decadência física com essa imensa nobreza que se chama sabedoria. Por isso, quando lhe perguntei pela morte, o Pacheco disse que sim, advertindo, porém: «Não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar».

E a entrevista começa assim:

«Como é que te sentes aos 80 anos, tu que dizias que não passavas dos 40, dos 50, dos 60 e por aí fora?

Olha, passei.

Como é que passas o tempo aqui?

Aqui!? Tu já foste ali à sala de espera? Nem vás. Aqui não há pessoas. Há moribundos a imitar pessoas. Um gajo não vem para aqui para se curar ou melhorar. Vem… Eu farto-me de rir quando me falam de qualidade de vida. De vida? Aqui! Farto-me de rir. Mas não estou mal. No Natal passado vieram aí uns tipos visitar-me e deram-me um leitor de CD e um rádio. É com isso que me entretenho. E com o telemóvel, que é uma boa coisa. Televisão não vejo, ouço, para não me deixar isolar demasiado.

Ainda lês?

Não. Cada dia vejo pior. Pedi-te para me trazeres uns JL mas só leio os títulos. E também ouço mal. Há dias, a miúda da cozinha bateu-me à porta a dizer que o almoço era arroz de pombo. Pensei: «De pombo! Devem ter morto os pombos todos do jardim». Afinal não era arroz de pombo, era arroz de polvo, porra. Devo ter ouvido mal, mas só percebi quando meti o garfo à boca. É que também já não vejo o que está no prato. Um gajo vai perdendo isto, depois aquilo… Foder não é indispensável. Deixar de ver e de ouvir é que é pior, mas cá me aguento. O instinto de sobrevivência é muito forte.

Como é que passas o tempo aqui?

Aqui!? Tu já foste ali à sala de espera? Nem vás. Aqui não há pessoas. Há moribundos a imitar pessoas. Um gajo não vem para aqui para se curar ou melhorar. Vem… Eu farto-me de rir quando me falam de qualidade de vida. De vida? Aqui! Farto-me de rir. Mas não estou mal. No Natal passado vieram aí uns tipos visitar-me e deram-me um leitor de CD e um rádio. É com isso que me entretenho. E com o telemóvel, que é uma boa coisa. Televisão não vejo, ouço, para não me deixar isolar demasiado.

Ainda lês?

Não. Cada dia vejo pior. Pedi-te para me trazeres uns JL mas só leio os títulos. E também ouço mal. Há dias, a miúda da cozinha bateu-me à porta a dizer que o almoço era arroz de pombo. Pensei: «De pombo! Devem ter morto os pombos todos do jardim». Afinal não era arroz de pombo, era arroz de polvo, porra. Devo ter ouvido mal, mas só percebi quando meti o garfo à boca. É que também já não vejo o que está no prato. Um gajo vai perdendo isto, depois aquilo… Foder não é indispensável. Deixar de ver e de ouvir é que é pior, mas cá me aguento. O instinto de sobrevivência é muito forte.»

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

AGORA NÃO RESPONDO MAIS NADA


Terminamos a entrevista que João Pedro George fez a Luiz Pacheco, uma das melhores entrevistas que fazem parte de O Crocodilo Que Voa.
Tem um final mesmo à Pacheco, põe o jornalista a andar, porque está cansado, tem de ir mijar e comer qualquer coisa…

Vai sair na Dom Quixote, em breve, um diário inédito, o Diário Remendado...

Aquele diário é uma conversa comigo mesmo, um desabafo... e é um fragmento de um fragmento do meu diário... é uma amostra, um fragmento daquele período, entre 1971 e 1975... deitei muita coisa fora... tirei mais de metade...

Inclusive o relato do 25 de Abril...

Esse corte foi deliberado... eu não gosto daquele texto... era uma resposta aos gajos que faziam artigalhadas mais ou menos inventadas com o título “O meu 25 de Abril”... aquilo era tão presunçoso... não foi só um gajo, ainda foram uns quantos... se tu fores consultar os jornais na altura verificas isso... era uma paródia a esses gajos... Como é que foi o seu 25 de Abril? Ó pá, os colhões do Padre Inácio... já ninguém liga ao 25 de Abril...

Foi de pijama para o Largo do Carmo...

Mas não foi de propósito... eu estava em casa, sozinho, o Paulo tinha ido para o liceu, estava a rever provas do Pacheco versus Cesariny... de repente chateei-me, não tinha telefonia, não tinha televisão, não tinha nada, chateei-me de rever provas e disse vou ali beber uma cerveja e quando venho de beber a cerveja há o barbeiro que me diz «ó senhor Pacheco, olhe que há revolução em Lisboa». Então enfiei o sobretudo que me deu o marido da Natália Correia e fui para Lisboa... não foi de propósito que eu fui para o Carmo de sobretudo e pijama... Agora não respondo mais nada… Estou cansado… são 80 anos, caramba! Vá, pira-te que eu tenho de mijar e tenho de ir comer qualquer coisa…

sábado, 26 de janeiro de 2019

UMA VIDA UM BOCADO ATRIBULADA...


Na entrevista que Luiz Pacheco deu a João Pedro George fala-se do livro «Mano Forte», dezassete cartas que Luiz Pacheco escreveu a António José Forte:

E o livro Mano Forte, a correspondência para o António José Forte?

Quem conheça um pouco da minha vida sabe que eu tive uma vida  atribulada, com fugas de casas, de terras, de mulheres, de calotes e cobradores, da polícia e até dos ladrões, de ambientes… eu sempre tive o cuidado, quer em Setúbal, quer nas Caldas da Rainha, quer na Macieira, quando aparecia uma ameaça de ser preso ou ter que mudar rapidamente de casa, de não andar carregado com dossiers cheios de tralha… ficou-me muita tralha perdida para aí… ainda bem que ficou…

Mas gostas do resultado final do livro?

Dali não vem mal ao mundo. Podia vir se isto fosse uma edição que não tivesse venda. Isto é muito cuidado. Se teve venda alguém ganhou, ganhou a tipografia, ganhou a fábrica de papel, ganhou também o editor… Eu tenho uma certa cagança nisto. Repara, eu estou aqui no quarto, não saio à rua há mais de um ano e de repente estou na montra da FNAC… é uma maneira de sair daqui.

Lembras-te de ter escrito aquelas cartas e aqueles postais?

Não me lembrava de nada. Publiquei cartas minhas para na cadeia do Forte de Caxias e do Forte para mim no Pacheco versus Cesariny. Isto é nem mais nem menos o resultado de um gajo que teve uma vida fodida, ou variada, salta de Lisboa para Setúbal, de Setúbal salta para as Caldas da Rainha, salta para Almoinha, Sesimbra, salta para Vieira do Minho. As cartas também são para vários sítios porque como o Forte era funcionário das bibliotecas itinerantes andava por Vieira do Minho, Portalegre, Santarém, Tomar…

Qual a memória que guardas do António José Forte?

O que não está aqui feito e também agora não interessa fazer era valorizar, dar o seu justo valor à figura do Forte. Eu tentei convencer o Bernardo Sá Nogueira... não quis, achou que não… O Forte nunca foi um gajo de se evidenciar muito, de se por em bicos de pé… é claro que este livro era uma boa oportunidade de chamar a atenção para o Forte… Olha, não quero falar de mortos. Aqui no lar já há muitos mortos. Aqui está tudo morto. O gajo da cadeira de rodas… Quando passa aqui o cortejo, à hora de almoço, à hora de jantar…

Como é que esta correspondência aparece passados tantos anos?

Um tipo sabe que fulano, António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais, guardou, morreu, foi parar às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra… repara, é uma edição de 1000 exemplares a um preço, mais 100 a outro preço, numerados, com mais 30 a outro preço, numerados também, uns em romanos e outros em árabe. É o intuito do alfarrabista a valorizar as cartas que lá tem. Seja como for, o livro está cheio de disparates. Passaram a vida a foder-me.

Como por exemplo?

O título, desde logo o título. Eu não conheço as cartas nem os postais, mas duas dezenas de cartas e três postais nunca podem ser “cartas fortes”, que era como o Bernardo, no início, lhe queria chamar… há uma carta maior, mas o resto são tudo cartas pequeninas… O Bernardo Sá Nogueira diz sobre estes postais que era “escrita premeditada no pressuposto de publicação”. Isto é um disparate, é a armar em esperto. Quem vê os postais que vêm ali, em fax-simile… então um gajo escreve um postal destes a pensar que vai ser publicado? Eu agora quase não escrevo postais com o objectivo de não serem publicados. Escrevo muito poucos postais e cartas, então, é um caso sério. Aqui já não é o interesse amigo de guardar um papel de um gajo que lhe mandou, aqui é já o interesse meramente mercenário de fazer dinheiro com o papel. No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo. Ainda mais nessa altura, no tempo do antigamente, do fascismo, a carta era uma expressão livre, claro que os gajos muitos cautelosos nem cartas nem postais escreviam. Agora eu escrevia imenso… Este livro é uma golpada. É evidente. Por exemplo, a fotografia na capa… é uma maluqueira como outra qualquer… Dá ideia que eu é que sou um exibicionista, que gosta de vir nas capas… é para chamar, para vender mais… Isto faz vender. A fotografia e o nome fazem vender…

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

UM PRÉMIO POLÍTICO


João Pedro George pergunta a Luiz Pacheco a sua opinião sobre José Saramago:

É muito meu amigo. Foi muito porreiro comigo na altura do Diário de Lisboa. E noutras ocasiões. Um dia apareceu-me no sanatório do Barro, em Torres Vedras, com a Isabel da Nóbrega... quando se foram embora puseram uma nota de cinco contos, disfarçadamente, na gaveta da mesa de cabeceira... Quando ele recebeu o Nobel foi lá a Palmela uma filha minha, com o marido e com os dois filhos, e diz-me assim: “ah, tu tens é inveja do Saramago”. Tenho agora inveja do Saramago… nunca quis prémio nenhum quanto mais agora o Nobel… quem tem inveja do Saramago é o Lobo Antunes e muita… porque o Lobo Antunes deve ter-se convencido que com o seu mérito próprio ganhava o prémio... ora o prémio não é um prémio para mérito próprio, o prémio é um prémio político, o prémio é dado com pontaria, com muita pontaria...

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

VENDEU-SE À MALUCA!


Continuamos com a excelente entrevista que Luiz Pacheco deu a João Pedro George. Estamos no capítulo em que Pacheco denuncia que Fernando namora plagiou Vergílio Ferreira. Um caso que deu mesmo que falar.

E aquela história do Fernando Namora, O Caso do Sonâmbulo Chupista?

Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… e eu estou em Agosto na cervejaria Trindade com o Serafim Ferreira e com o Herberto Helder, que se está a queixar que aquela gaja, a Maria Estela Guedes, tinha feito um livro com textos que tinha roubado, e de repente o Serafim diz: «Ó pá, isso plágios é o que para aí há mais, eu tenho lá em casa a edição especial da Aparição que me deu o Vergílio Ferreira com coisas anotadas que o Namora lhe roubou...» E eu estou a ouvir aquilo e estou calado. No dia seguinte telefono para a Amadora, onde mora o Serafim, e pergunto: «Ouve lá, aquela tua conversa de ontem, aquilo era blague de café ou era a sério?» «Não, tenho cá o exemplar da Aparição. Combinámos então o terrível crime nas escadinhas do duque, em que ao cimo das escadinhas eu digo: “ouve lá, tu vais fazer um panfleto e eu edito-te e vamos ganhar um bocado de massa os dois, estamos em Agosto, agora não se vende nada mas vende-se em Setembro». E ele disse: «Eu não posso fazer» – não perguntei porquê, devia favores ao Vergílio Ferreira ou ao Namora, porque o Serafim é um bocado marçano. E eu disse: «Então passa-me para cá isso e faço eu». Estive semanas ou talvez mais, um mês ou dois, a confrontar na Biblioteca Nacional, foi tudo verificado... eu mostrava às pessoas e as pessoas concordavam, aquilo era tudo roubado, o Namora, no Domingo à Tarde, tinha copiado partes do Aparição, do Vergílio Ferreira. Fui então ao O Jornal ter com o Rodrigues da Silva: «Ouve lá, achas que isto aqui é publicável?» Resposta dele: «Ó pá, o José Carlos Vasconcelos é muito amigo do Namora, nem pensar...» Ninguém queria publicar aquilo. Estavam com medo do Namora. Tive eu de publicar, melhor, tive de arranjar um gajo, o Vítor Belém, ele é que fez a edição. O Belém foi comigo à Tipografia Mirandela, na Travessa Condessa do Rio, perto da Calçada do Combro... era a gráfica desses gajos da extrema-esquerda… aquilo foi composto, eu revi provas, num papel muito ordinário... saiu num folheto de 8 páginas, fiz 5 ou 6 mil exemplares. Despachei tudo, vendeu-se à maluca, alguns iam parar as caixas do correio.

E as reacções?

O Dinis Machado foi com a mulher ao Hospital do Rego interceder para eu não publicar o folheto. A célula do PCP na Trindade, o B.B., o Virgílio Martinho, o Dácio e outros juntaram-se e condenaram-me... diziam que eu me tinha vendido ao Vergílio Ferreira, que tinha sido pago pela direita para dizer mal de um escritor da esquerda. Ora o Namora era tão de esquerda como o Vergílio Ferreira. Dizia-se que o Vergílio Ferreira me tinha dado um fato novo e 50 contos. A reacção do Vergílio Ferreira vê-se na Conta Corrente, o gajo lamenta-se e tal… O Namora disse que me processava e não sei que mais... O meio literário não é fácil, não é melhor nem pior que os outros... agora avançar neste meio é facílimo...

Legenda: imagem tirada do blogue «Esplanar»

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

DESCOBRI UM LIVRO GIRO...


Ainda a entrevista de Luiz Pacheco a João Pedro George:

O Luiz foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso de O Que Diz Molero. Como é que isso se passou?

Eu estava em Massamá e tive a informação de que a Bertrand me queria editar a Obra Completa. Um dia fui à Bertrand, na Venda Nova, e encontrei o Dinis Machado, que foi gentilíssimo comigo e com o Paulo... encheu-o de álbuns, papel, livros... e deu-me as provas do Molero – portanto a minha crítica saiu no Diário Popular antes de o livro estar à venda. No dia seguinte comecei a ler aquela merda, aquilo são dois gajos a discutir, e eu disse ao gajo onde estava o meu filho Paulo, o Henrique Garcia Pereira: «O pá, eu estou fodido com este gajo, este gajo foi tão simpático comigo e com o meu filho, deu-me tanta merda, e agora isto é uma porcaria, não se percebe nada». Até que de repente entrei na cegada da cena de porrada com os camones no Bairro Alto... aquilo tinha uma coisa, é que era um livro que já não era escrito com medo da censura, via-se que havia ali... o gajo não era nenhum novato, já tinha escrito 3 romances policiais... havia ali de repente uma força, porque estes gajos se tivessem um bocadinho de vergonha não publicavam os livros que publicaram durante o fascismo… bom, então escrevi o artigo «Descobri um Autor». Só na semana seguinte é que o Molero saiu à venda. Estava na feira do livro e apareceu-me o Afonso Praça: «Olha, comprei aquela coisa do Molero por causa da tua crítica, opá julguei que estavas a gozar, mas tinhas razão, aquilo é muito giro…» Depois disse muito mal do Reduto Quase Final, numa entrevista ao B-B. Um gajo também não escreve só obras-primas, há altos e baixos... Se um gajo vai  facilitar, a não pensar, se o gajo não é o leitor mais exigente de si mesmo, está fodido, tem a classificação que merece. Eu de facto não descobri autor nenhum, descobri um livro giro…

sábado, 1 de dezembro de 2018

NOTA DO AUTOR POR CAUSA DA PROVÍNCIA



O seu primeiro livro como escritor foi a Carta-Sincera a José Gomes Ferreira?

Isso era uma carta, um panfleto, não era um livro. O meu primeiro livro foi a Crítica de Circunstância, edição Ulisseia e do Vítor Silva Tavares. Foi o gajo que de facto começou comigo e começou com coragem porque eles sabiam que o livro ia ser apreendido. E foi! Agora, a carta ao Gomes Ferreira, escrita em 1953, foi o meu primeiro texto com alguma dimensão, com alguma pontaria. Eu mandei-lhe o texto numa carta registada com aviso de recepção. Recebi o aviso de recepção assinado pelo José Gomes Ferreira mas ele nunca deu resposta. O Gomes Ferreira não percebeu aquela carta. Aquilo era uma irritação e uma homenagem, uma irritação porque ele estava a abandalhar-se como escritor e uma homenagem porque o Gomes Ferreira tinha sido um dos meus ídolos de juventude. Esse texto foi escrito para um projecto meu, do Cesariny e do Lisboa, que era “Duas gerações, Três cartas”. Eu escrevia uma carta ao Gomes Ferreira, o Cesariny ao Gaspar Simões e o Lisboa ao Casais Monteiro. A carta do Lisboa (“Carta Aberta ao Srº. Dr. Adolfo Casais Monteiro”) está naquela edição da Assírio & Alvim, o tijolo cor-de-rosa, organizada pelo Cesariny. Lembro-me perfeitamente de o Lisboa ter estado comigo na Inspecção dos Espectáculos, no r/c, na Calçada da Glória, com uma máquina muito velha, ele a ditar-me a carta e eu a escrever a carta à máquina. Dali o Lisboa foi ao Diário Popular para ser publicada como resposta à entrevista do Casais Monteiro ao Gaspar Simões... para elucidar esse texto do Lisboa há que ler a entrevista... Não sei se ele chegou a ir ao Popular, não sei se se arrependeu pelo caminho. Ora como é que essa carta chega à mão do Cesariny? Não sei. O que eu sei é que quando tentei fazer um trabalho sobre o Casais Monteiro, eu na altura não tinha envergadura para fazer aquilo, lembro-me que estava no Café Portugal, no Rossio, com um livro do Casais... aquele primeiro livro... o livro de ensaios... o Lisboa disse-me, muito sacana e perfurante: “estás a agarrar-te ao Casais porque não tens tomates para te agarrares ao José Régio”. É natural que o Lisboa tivesse preferência pela poesia do Régio ou que considerasse o Régio mais importante que o Casais... a poesia do Lisboa é muito mais achegada à poesia do Casais do que ao Régio. No Lisboa não havia problemas metafísicos, nem de Deus, nem do Além nem nada disso, como há no Régio e não há no Casais. Ora, anos depois, já eu estava no Pote d’Água, o Cesariny pediu-me para publicar a Carta-Sincera na Antologia em 1958, a colecção dele, que era feita na Rua Nova do Loureiro, na Editora Gráfica Portuguesa. O título completo era Carta-Sincera a José Gomes Ferreira com uma Nota do Autor por causa da Província.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

É O QUE DIZEM QUANDO ALGUÉM MORRE



Chegamos à entrevista que João Pedro George fez a Luis Pacheco, em Maio de Maio de 2005, no blogue Esplanar, e antologiada em O Crocodilo Que Voa:

Como é que se tem dado aqui neste lar?

Há uns tempos andei com a ideia de fazer um trabalho sobre lares. A má fama dos lares é justificada... e não sabes tu da metade do que se passa aqui... há aqui casos humanos dramáticos, por exemplo, a senhora do quarto aqui ao lado... à noite têm de lhe mudar a fralda... passa horas a berrar “srª empregada, srª empregada...” Ninguém aparece... eu ainda lá fui uma vez... aqui não há campainha de alarme, não há telefone. Também, o que é que isso interessa, no lar de Palmela havia telefone mas tocava-se e não estava lá ninguém... Esse lar de Palmela era o lar nº 1, o melhor do país, segundo a Deco. Era um modelo. O projecto do lar deve ter sido gamado do estrangeiro. Era um lar invulgar, com todas as condições. Mas o ambiente era muito desumano, era uma espécie de aldeia turística. Falo disso no último texto do Isto de Estar Vivo, o “Memorial do Recolhimento”. Era um lar no meio de uma serra, com o ar puríssimo de Palmela, uma construção nova, em arco, sem vizinhança, sem casas à volta... Era muito bonito... Fui para lá logo quando aquilo começou... no início, a fase de promoção, serviam um bacalhau altíssimo, as torradas pareciam as das pastelarias da Baixa, dois andares de torradas, molhadas em manteiga, o café com leite vinha com dois pacotes de açúcar... depois, um dia, começou a aparecer só um pacote... vieram as economias... as torradas passaram a ter só um andar com uma lambidela de margarina... Agora este aqui, do Príncipe Real, já se aproxima mais da generalidade. Por exemplo, as giletes que eles dão aqui algumas já barbearam mortos. Tu não fazes ideia... Isto é um armazém de pré-cadaveres, é uma parada de monstros. Há um gajo que não tem uma perna, anda de cadeira de rodas empurrado por um velhinho de 88 anos, há outro que é cego, tem glaucoma, mais a namorada, que é horrorosa, mas como ele não vê também não faz mal... outro tem alzheimer, o sr. Américo, entra aqui, de boné e pijama, dá uma volta pelo quarto, às vezes vai à casa de banho, sai, não repara em ninguém, não diz nada... há outro que é o sr. Vergílio, anda pelos corredores a rir e a assobiar, são dois fantasmas... Há uma que anda aqui a passear de um lado para o outro, diz “ai, ai, ai”, depois vai bater na outra que está sempre sentada na cama, vai lá mexer... não têm mão nela... com estes gajos não se pode estar a discutir, é comprimido, água para o bucho, não vai um vão dois, fica a dormir dois dias seguintes... Isto agora aqui são os últimos dia do condenado. Aqui a lei é morrer devagar. Está uma a morrer ali, ou já morreu, não sei, estou eu a morrer aqui, está outra a morrer ali... A ver quem morre primeiro… “Já foi”, é o que dizem quando alguém morre. Agora já sei o que vão dizer quando eu morrer. 

sábado, 3 de novembro de 2018

O RESTO É O MEU TRABALHINHO


Abrimos as páginas de mais uma entrevista de Luiz Pacheco. A de hoje foi publicada no JL em Setembro de 1997, feita pelo Rodrigues da Silva e o Ricardo de Araújo Pereira com o título A Velhice do Guerrilheiro da Escrita:

Foi preciso chegares a um lar de terceira idade para finalmente, estares bem da vida?

E como nunca estive.

Quanto é que pagas por isto?

Pago 185 contos, que dá mais de 200 por causa dos remédios que são à parte.

Donde é que vem essa massa?

120 contos do Ministério da Cultura – é do Fundo de Fomento Cultural. Já me aumentaram aqui (tinha só 90). Mas a minha reforma de funcionário público (foram só 14 anos) – são 31.700$00 E tenho ainda mais oito contos da SPA. Isto tudo dá 160 contos.

Falta algum. Donde é que vem?

O resto é o meu trabalhinho. Quando vim para aqui tinha 500/600 contos. Sabes que o Mário Soares deu-me 650 contos, não sei se do bolso dele, se donde. Nem me interessa, para mim até pode ser lavagem de dinheiro. Bom: com 500/600 contos dava para três meses aqui. E vim. E há ainda os 55 contos por crónica para o Público.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

MAS É MELHOR DO QUE ESTAR MORTO


Entramos hoje na entrevista que Luiz Pacheco deu a Paula Moura Pinheiro e publicada no Já, Julho de 1996, compilada em O Crocodilo Que Voa.

É hipocondríaco? Anda há quarenta anos a ameaçar que morre e afinal está a enterrar todos os outros.

Deixe-os ir. Os que vão á minha frente vão todos bem. Há uns anos o Saramago teve uma pataleta e eu liguei-lhe logo: «Tu não te deixes morrer que ainda temos de ir juntos ao funeral do Pires.» Há gente da minha idade que passa o tempo nos médicos, nos exames, nas análises. Eu devo ter dez doenças mortais mas só me apanham lá em último caso. E você não faz ideia das noites que eu passo aqui. É assim: adormeço por volta das oito horas, porque tomo um remédio. Durmo duas horas. Depois acordo. O remédio é diurético e eu tenho de urinar de duas em duas horas e de tomar de seis em seis dias. E é assim toda a noite. Foi assim toda a vida. Tive o meu primeiro ataque de asma quando tinha três meses. Mas sempre é melhor do que estar morto.

Porque é que finalmente se filiou no PCP?

Antes de 74 eu admirava o partido, mas sempre soube que não era talhado para guardar segredos. Não queria que me arrancassem as unhas ou me dessem bofetadas. Agora é diferente. E essa história de que o comunismo está acabado é mentira. Tenho gosto em estar no PCP, é uma coisa platónica.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

QUE MAIS GOSTAVA DE TER NO NATAL?


Na entrevista que Luiz Pacheco deu a João Paulo Cotrim, chegando aos finalmente, o jornalista pede-lhe uma mensagem para as novas gerações.

Pacheco atira-lhe:


João Pedro George há-de aproveitar a saída pachecal para dar título à biografia que publicou sobre Luiz Pacheco.

Entramos agora na entrevista que Cláudia Galhós fez ao Pacheco e publicada no Blitz de Dezembro de 1995.

Mudando de assunto e porque esta entrevista vai sair quase no Natal. O que é o Natal para si?

Para mim é uma estupidez. Não se compreende que haja um dia de felicidade, de fraternidade, de grande ternura quando durante todos os outros dias do ano, é tudo a andar à porrada. É isso que me dá muita raiva no Natal. Beijinhos, beijinhos, festas… assim é que as pessoas se redimem de tudo o que fazem durante o ano?

Costuma comemorar o Natal?

Não. Há poucos dias, o meu filho Paulo espantosamente disse-me assim: «O João Miguel – que é o irmão . já te falou alguma coisa do natal?» Ele sabe que não ligo nenhuma a isso mas gostei que ele dissesse, é a primeira vez que se lembra. Não acho piada nenhuma.

Qual era a prenda que mais gostava de ter no Natal?

Para mim? Um pulmão novo, um coração novo, uma picha nova. Assim uns acessórios.

Legenda: pintura de Édoaurd Manet

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

É QUE EU SOU UM GAJO MUITO FRIORENTO


Entramos hoje em mais uma entrevista de Luiz Pacheco que, como as restantes, se encontram antologiadas em O Crocodilo Que Voa.
O enfoque recai na entrevista feita por João Paulo Cotrim e publicada na revista Ler, Verão de 1995.

Na esmagadora da maioria das entrevistas feitas ao Pacheco, lá aparecia a perguntinha de como é que ele se inscrevera no Partido Comunista Português.
As respostas do Pacheco têm variantes mas a base é apenas uma: o funeral do José Carlos Ary dos Santos.

«Pois é, mas eu também só entrei para o partido quando me apareceu uma hérnia. Nessa altura, mandei um recado ao José Casanova: «Psst! Quero entrar para o partido como extrema-unção.» Isto não obriga a nada, nem aqui há uma esperança revolucionária. É porque é giro, um gajo morre e vai lá com a bandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a Morais Soares, com eles aos gritos – Ary, amigo, o partido está contigo! – e pendei: «Isto é o que me convém, porra! Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me deixa aconchegado. Sabe, é que eu sou um gajo muito friorento.»

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

SOU O GAJO DAS CALÇAS CURTAS



Pontas soltas de perguntas e respostas na entrevista que Mário Santos fez a Luiz Pacheco, antologiada em O Crocodilo Que Voa:

Aliás, parece que a necessidade é que desde sempre o estimula a escrever…

Claro. Mas eu vou fazer umas merdas duns artigos para uns jornais de merda, ou uns editores de merda, fazer artigalhadas para ganhar uma trampa? Não preciso! Tenho dinheiro que chegue para o quarto, a roupa é dada! E de repente considerei-me morto! Durante os últimos dez ou oito anos lia policiais e livros de cowboys… Quando vim para aqui disse: agora tenho que me defender! E trabalhei mais agora aqui, desde Abril do ano passado do que em dez anos.

Deixou os policiais e os cowboys. Tem lido o que se publica por aí»

Tudo! Aí é que está a gaita. Não há nenhum gajo que tenha agora publicado que eu não tenha comprado… Comprei Estrela de Seis Pontas, do meu camarada Álvaro Cunhal, e gostei muito. Cinco Noites… é uma merda, mas este é muito bem feito.

Mas você próprio não «exibiu» essa imagem?

Repare nas minhas calças: sou o gajo das calças curtas. Porquê?
Porque não mando fazer um fato desde 1957 ou 1958! E por caso tinha um bom alfaiate, mas o último fato não o paguei e nunca mais lá fui… «O gajo anda de calças assim para provocar, para se mostrar original.» Não é! Eu vejo aí é calças a três e quatro contos, e eu ia dar três contos por um par de calças? Jamais de ma vie, porra! Se me dão calças compridas, visto-as, dão-me curtas, eu visto-as! Quero lá saber… São dadas! Essa carneirada acha de mim uma coisa, eu acho deles, outra! Agora, isto não tem nada a ver com a obra que fiz!

A ideia da morte perturba-o?

Estou sempre à espera de não acordar no dia seguinte! Aliás, tenho um problema de que não se vai rir: como é que eu vou avisar que estou morto? Já me perguntaram porque é que eu não ponho o telefone ao pé da cama… Olha que ideia fantástica! O meu filho do Pinhal Novo agora vem cá muitas vezes, o meu filho do Montijo nunca aqui veio… E está no Montijo, tem carro, estava aqui em meia hora! Morro e ao fim de oito dias está aqui um fedor que não se pode… Quero lá saber! Mas eu tenho uma vida tão doente, que sou é um moribundo alegre, tenho espírito de convalescente… Mas já estou a ficar chateado disto… Fui criado numa casa com muita gente e aqui estou muito sozinho…

Legenda: pormenor da capa do livro Mano Forte

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O POSTALINHO


Continuamos com as entrevistas do Luiz Pacheco antologiadas em OCrocodilo Que Voa.

Hoje entramos na entrevista feita por Mário Santos e publicada pelo Público, Março de 1995.

A primeira abordagem do jornalista aponta para a distribuição de livros que o Pacheco editava, servindo-se do Bilhete-Postal, da entrega do livro à cobrança:

A distribuição sigilosa é uma visitação dos inícios da Contraponto ou não encontrou editor que o pusesse nas livrarias?

E o taco? Olha este! Isto é uma chatice, mas é infalível! Porque eu sei que nenhum gajo vai receber o livro sem primeiro pagar ao carteiro! Eu nisto estou muito calhado, neste esquema do postalinho. Comecei a usá-lo em 1951, porque havia também a questão da PIDE: o livro escusava de ir às livrarias. Era um processo de venda semiclandestina…

Se o leitor estiver interessado no modo como funcionava o processo de distribuição do Pacheco, encontrará, neste blogue, na etiqueta LUIZ PACHECO EDITOR, uma série de histórias sobre o assunto.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

OLHÓ PACHECO! SACANA LIBERTINO ESCRITOR


Esperávamos, ansiosos, pela serenidade de Setembro mas acontecem-nos temperaturas agostonianas. Resta-nos hoje um, breve, mergulho na segunda entrevista que o Crocodilo que Voa guardou de Luiz Pacheco, publicada em O Inimigo de Abril de 1994 e teve a conduzi-la Baptista-Bastos: «Olhó Pacheco! Sacana Libertino Escritor»:

Fala de outros autores:

O Saramago. Gosto imenso do Saramago como pessoa, como camarada do partido, e pelas suas capacidades de trabalho. Devo-lhe muitos favores e finezas e atenções.
O Saramago é o grande vencedor do 25 de Novembro. Escrevia umas coisas no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias, confundiu o Beckett com o Ionesco, enfim, coisas a esquecer. E aquele Manual de Pintura e Caligrafia é uma chatice. Ele tem um romance que escamoteia, Terra do Pecado, e eu não sei porque é que ele não o republica, não o envergonha nada, aquele romance datado, em comparação com outros da mesma época. Daqui a cinquenta anos, depois da morte dele, vai haver um editor espertalhão que o publicará… Mas o Saramago avançou com o Memorial do Convento, e é o grande impacte. Mas temos de ter cuidado com o que dizemos.

Que significa essa precaução?

É que há toda uma maquinaria editorial, E um tipo sabe que, se mete lá a mão, levam-nos o braço e o corpo todo, se possível a alma e o resto… a pilinha… Já antes do memorial, o Saramago tinha publicado Levantado do Chão, ao qual dediquei uns artigos no Diário Popular, que me impressionou muito. E até as peças de teatro dele são coisas muito giras. Que Farei com Este Livro?, está muito acima do que por aí se faz. Republicou, mais tarde, na Caminho, a sua poesia, um horror!, e ele bem sabe que é um horror. O Memorial é excepcional. O Ano da Morte de Ricardo Reis é uma montagem bem feita. A Jangada de Pedra não consegui ler aquilo de fio a pavio. O Evangelho li duas páginas e pensei. «Nunca li a Bíblia, já não vou ler isto!» É muito comprido. Já não tenho tempo nem vista. Dei-o ao meu filho.

E os outros? Já que estamos numa espécie de listagem.

Gajos que considero fora da carroça: o Ferreira de Castro, o Fernando Namora, o Lobo Antunes (que já não consigo ler, não leio mesmo), o Vergílio Ferreira. Este é um grande escritor, lá isso é, e tem uns três livros muito bem conseguidos, é um tipo de craveira mental, mas tem deixado escapar alguns disparates indesculpáveis. E isso é muito triste num escritor como o Vergílio Ferreira, que também não posso detestar.