A contra capa
do livro assinala, quando o povo no 25 de Abril invadiu os escritórios da
censura e destruíram documentos preciosíssimos sobre a nefasta censura.
A ignorância
mata!
Em Portugal
existiu censura: às imagens, às palavras, ao pensamento.
Em Novembro
de 1945, Salazar disse:
«Declaro não ter nunca percebido esta
incoerência que ninguém ainda me explicou claramente: por que motivo se exige
atenta fiscalização dos géneros deteriorados – o arroz, o bacalhau, a manteiga
– e se descura completamente a higiene do espírito, não a aceitando para os
baixos sentimentos?
Conheci a censura. Mas, não tendo gosto
pelas memórias ressentidas, só muito raramente falo dela. Ainda há pouco toquei
nesse terror quando reli Os Demónios – não Os Possessos –
na tradução do António Pescada, a quem tão grata sou por me ter permitido ler
sem desconfiança os meus romances russos. Está nele incluído o capítulo que
Dostoievski se viu forçado a retirar aquando da publicação. Escreveu um outro,
totalmente diferente. E a chave do enigma respeitante à personagem principal
caiu no lodo. «Que nunca mais, que nunca mais isto aconteça», é o voto que faz
qualquer leitor. E, no entanto, está a acontecer.
Não pela força de um poder instituído e
frequentemente muito estúpido, mas pela força de um poder massificado,
igualmente estúpido, igualmente autorizado por um puritanismo executório. É uma
polícia da opinião que não parece imposta e que se aloja no interior de cada um
para desencorajar a ousadia, sendo que a ousadia não está hoje na infantil
libertinagem sexual e sim no dar palavra e dar figura ao que o homem e a
natureza têm de terrível, de necessário, de indomesticável. Dar a palavra ao
que é inominável, afrontar o tabu, eis a tarefa.
Não podemos deixar que uma cruzada de higienização se estenda à arte.»
Hélia Correia
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