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terça-feira, 3 de março de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS

O livro está repleto de calão.

Não é que algum desse calão não fosse perceptível,  mas um glossário sempre ajuda a compreender melhor a atmosfera. Foi isso a que se dedicou, para além de tradução, o Mário Henrique-Leiria.

Se bem que as traduções, por aqueles tempos, não fossem bem pagas, mas esperemos que lhe tivesse dado para umas cigarradas e uns bons gins tónicos.



OLHAR AS CAPAS


Rififi

Auguste le Breton

Tradução: Mário-Henrique Leiria

Prefácio: Marcel Sauvage

Capa: Zé Paulo

Colecção Alibi nº 2

Edições 70, Lisboa s/d

Os arredores, Paris, o pesadelo, as ruas, os fantasmas…

Quando a barraca do Sueco ficou à vista, tirou o pé do acelerador e, num último reflexo, arrumou o carro junto ao passeio.

Foi meia hora depois que dois pasmas de giro encontraram o carro. O garoto continuava a dormir. Tony, o tísico, estava caído sobre o volante. Os braços tinham escorregado para o assento. As suas tripas formavam um avental sangrento, sobre as galdinas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Bater Sempre Também Cansa… Mas às Vezes até é Pouco: Como Um Jornal de Economia Salvou Luiz Pacheco

Luiz Pacheco e Nicolau Santos

Capa: Ilídio J.B.Vasco

Guerra E Paz Editores, Lisboa, Agosto de 2025

Setúbal, 24 de Julho de 1995

Meu Caro Nicolau Santos,

Vai mais uma artigalhada. O calor não apoquenta só o Mário Viegas, que foi às gavetas buscar retalhos do Mário-Henrique Leiria para compor (?) a crónica dele. Também me lixa a mim; estou a escrever às sete da matina. Daqui para mais tarde a minha capoeira transforma-se num micro-ondas e eu, sem ar condicionado e as duas ventoinhas, era um Pacheco de Churrasco.

Atenção, isto não é uma reclamação. Apenas um esclarecimento.

Um forte abraço

Luiz Pacheco

segunda-feira, 23 de junho de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Permito-me lembrar que Mário-Henrique  Leiria está bem representado na Biblioteca da Casa, veja-se a etiqueta Mário-Henrique Livros.

A E-Primatur iniciou, em Maio de 2017, a publicação das Obras Completas de Mário-Henrique Leiria constituída por três volumes.

Faltava-me o II volume. Comprei-o ontem no último dia da Feira do Livro deste ano.

A obra completa de Mário-Henrique Leiria tem como responsável Tânia Martuscelli, crítica de literatura e de arte, professora da Universidade do Colorado/Boulder nos Estados Unidos.

Desconhecia que houvesse alguém tão especializado na obra de Mário-Henrique Leiria e o quanto isso o divertiria. Tania Martucelli tem a ideia de que conseguiu reunir todos os textos constantes do espólio do autor e vários outros materiais dispersos.

Mário-Henrique Leiria não se considerava um escritor mas um tipo que escrevia umas coisas quando a veia, aliada a um grande gin-tonic, resolve ser boa companheira.

Depois de 1951 começou a andar de um lado para o outro.

«Teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil (não, não era arquitecto, carregava tijolo), etc., pelas terras onde andou: a Europa cristã e ocidental, o Mediterrâneo norte-africano, o Oriente Médio e até, dizem, os países socialistas. Não ia aos Balcãs porque tinha medo, todos lhe diziam que lá os bigodes eram enormes e as bombas estoiravam até no bolso. Um dia teve de passar por lá. Os bigodes eram realmente grandes, mas toda a gente sabia rir. Tirou o casaco e bebeu que se fartou. Em 1958 meteram-se-lhe ideias na cabeça e foi até Inglaterra, para aprender coisas. Não aprendeu e voltou. Entre 1959 e 1961 foi casado e não fez mais nada. Em 1961 foi para a América Latina donde voltou nove anos depois. Por lá conseguiu ser, entre outras actividades menos respeitáveis, planejador de stands para exposições, encenador de teatro e até director literário de uma editora. Fizera progressos»

Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu nestas suas novas-velhas-andanças?

Mas este é o trabalho possível e louve-se a iniciativa.

Claro que o autor já mandou descer mais um gin e está ainda a gargalhar porque ele sempre foi um campeão de perder textos, e textinhos, divertia-se a escrever e a esconder o que escrevia.

Mas repito: Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu por esse mundo fora?

Nova repetição: mas pronto! É o trabalho possível, um trabalho dignificante para a literatura portuguesa e para esse futuro que se não ler o Mário-Henrique não sabe o que perde e tão pouco merce ser futuro.

Acredito que Mário-Henrique Leiria sentirá uma lágrima rebelde aflorar-lhe aos olhos, pedirá mais um gin e agradecerá do fundo do coração. 

domingo, 20 de abril de 2025

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


No último dia de Março de 1979, o Diário de Lisboa, anunciava que ia começar a publicar, em folhetim, O Imenso Adeus de Raymaond Chandler, numa tradução de Mário-Henrique Leiria, há muito esgotado.

Para a apresentação do folhetim foi pedido ao Eduardo Guerra Carneiro para que realizasse a tarefa. Uma feliz ideia, porque o Eduardo sabia mesmo do assunto: de livros, de copos, de policiais, do Mário-Henrique Leiria, do Raymond Chandler, de cartas que há muito devia ao Zé Emílio, e tudo isso, algo mais que ele sempre esgalhava muito bem, ajudou-o no Itinerário encomendado pelo chefe de redacção.

Como se pode ler acima no recorte do Diário de Lisboa, chamou-lhe Com Chandler e Marlowe nos Bares do Cais do Sodré, e que o Eduardo nunca incluiu em nenhum dos livros onde reuniu crónicas e textos publicados na imprensa.

Começa assim:

«Marlowe entra no “English-Bar”, despe a trincheira, sacode-a da chuva de Março que, em morrinha, como em Vigo ou no Porto, ainda pinga, atira o chapéu para o bengaleiro e pede um “gimlet” duplo.
Humphrey Bogart está ao balcão e sorri-lhe, de esguelha, com o paivante aceso ao canto da boca. A “magrinha” ainda não tinha chegado. Eu bebia gin tónico, numa mesa do canto com o Chandler. O Mário-Henrique Leiria não pôde vir: mandou recado a dizer para bebermos dois ou três copos por ele. Lauren Bacall chegou agora, senta-se à nossa mesa e pede-me um cigarro na sua voz rouca, inconfundível. Reparo que Bogey está com ciúmes. Como não quer a coisa, de uma velha telefonia vem uma música de piano: “Casablanca”. Afinal Bogart deve estar ainda à espera da Ingrid Bergman. Chandler, que nada tem a ver com isto, começa a falar da Cabeleira de Prata.»

Agora pode entrar o tal Zé Emílio que é história que se pode ler na página 54 do tal caderdinho de capa vermelha onde, como dizia o velho, tudo anda ligado:

«Eu sei bem que te devo carta mas, sabes bem: words, words pouco valem para a saudade, é a palavra exact, saudades de ti, ó meu amigo a quem não disse quanto queria. Cheguei a ir, sabes , como no «Imenso Adeus» do Raymond Chandler, beber dois copos, para mim e para ti, a um outro lugar dos que gostavas. Mas, que é isso? A lírica ternura de que às vezes me acusavas.»

E, para fazer um The End adequado para este Itinerário, desengate-se um pedacinho do policial que aqui nos trouxe:

«Gosto dos bares à tardinha, logo que abrem. Quando ainda há ar fresco e limpo e tudo está luzidio e o tipo do bar dá a última olhadela aoa espelho para verificar se a gravata está direita e o cabelo bem liso. Gosto das garrafas arrumadas nas prateleiras do fundo e dos copos bem brilhantes e da sensação de antecipação que se tem. Gosto de ver o homem misturar a primeira bebida da tarde e pô-la no bar com o pequeno guardanapo bem dobrado ao lado. Gosto de a saborear sem pressa. A primeira bebida sossegada num bar sossegado – é estupendo!
Eu concordei.
- O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é intenso e o terceiro é rotina. Depois só resta despir a rapariga.
- E isso é mau? – perguntei-lhe.»

sábado, 11 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO

A palavra continua a ser dita e todos nós sabemos que o pensar não está a sair pelos olhos, pelos ouvidos e pelo nariz e que também nos é arrancado muitas vezes pelas costas.

Mário-Henrique Leiria

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

FAZIA HOJE 102 ANOS... SE AINDA POR CÁ ANDASSE... E QUASE NINGUÉM O LÊ!

«Nasci em 2 de Janeiro de 1923.

O horóscopo diz que Saturno me previu que a primeira mão que olhei directamente era de forma ainda hoje desconhecida.

Durante quase toda a minha infância fui perseguido pela presença constante antiquíssima máquina de costura que pretendia encontrar-se (e quando digo encontrar ponho, evidentemente, o caso do sexualismo actuante) com uma locomotiva que, de cabelos desgrenhados, uivava perdida no espaço. Daí as reminiscências, que ainda hoje tenho, da existência duma noite enigmática por onde eu caminhava exaustivamente, pisando rostos de crianças já mortas há séculos.»

Mário-Henrique Leiria em Fragmentos da Minha Vida Real

 

 «Nunca consegui perceber nada de coisa nenhuma, nem sequer de mim.»

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

«… e agora vou acabar de ler um bom e saudável romance policial e liquidar o resto da garrafa de vodka (“Bogka” para fingir que sei russo) que está ao alcance da minha mão direita (como bom deus pagão que posso perfeitamente ser, não tenho o “Filho” à mão direita, mas sim um objecto de maior libertação e realidade).»

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

Mário-Henrique Leiria, meu mestre de gin, e não só, amiúde dizia: «posso morrer de fome mas não peço esmola», ou ainda «para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

«Agora tenho de sair. A carta acaba aqui. Vou tentar angariar subsistência, que eu, às vezes, até tenho o vício de comer... calcula, vícios burgueses...

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos


Mário-Henrique Leiria nasceu a 2 de Janeiro de 1923 e morreu a 9 de Janeiro de 1980.

Há quem diga que morreu de fome, de prolongado abandono. O Luiz Pacheco não concordava e escreveu: «Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito.» 

Jorge Listopad:

«Nada de Passadismos para os «Secos & Molhados», disseram-me.

Por isso hoje começo por Mário-Henrique Leiria que morreu há uma semana. Tão presente. Escritor e poeta que baralhou as cartas de todas as convenções, o humorista de origem melancólica, magíster da ironia mordaz e terna, ao observar o mundo como o fruto surrealista de coincidências artísticas, realmente muito «chateado» com a desordem da ordem.

Lisboeta, nasceu em 1923. Curriculum: Belas-Artes, não acabadas, movimento surrealista, marinha mercante, caixeiro de praça, metalúrgico, caminheiro (estradeiro, como diz Mário de Andrade), Europa Latina, Balcãs, Transibéria (?), Carcavelos,  Carcavelos-hospital.

Autor de poesia, de centenas de textos jornalísticos, de contos, cujo livro Contos do Gin-Tonic em 73, no último marcelismo, foi um best-seller pela qualidade e livre respiração.

Chegaram depois a sua casa e disseram-lhe:

- Mas você não consegue escrever coisas compridas! Isso que faz é uma miséria.

- Coisas compridas, como?

- Bem, romances, crónicas autênticas, ensaios sólidos.

.-Não, isso não sou capaz.

- Então você não é um escritor.

- Pois não. Quem se atreveu a chamar-me tal coisa?
- Desculpe. Mas uma coisa comprida, por favor, não arranja?

- Quando as coisas vão a ficar maiores, deito logo fora. Compreende, não é?


«Estava a jantar no PING-PONG com uma amiga realmente simpática.

Na altura do conhaque a acompanhar o café, lembrou-se de repente: «e se este fosse o último?»

Pediu mais outro conhaque, mesmo antes de acabar o que estava a degustar.

À porta, quando saía, o Tião Medonho atirou-lhe quatro de 38 exactas, abaixo do diafragma, e foi-se embora.

Isto de religião é uma coisa tremendamente complicada, sempre tenho dito. E a minha mãe confirma.»

Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tonic 

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O 25 DE NOVEMBRO EXISTIU?


Durante a ditadura salazarista, o poeta António Gedeão, num poema, a que Manuel Freira colocou música, disse-nos que eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Hoje, imensos jovens não sabem o que foi o 25 de Abril, muitos mais ainda, não sabem o que foi o 25 de Novembro.

A história do que foi o 25 de Novembro de 1975 ainda não está feita. Como se diz no Aqui de Setembro de 1976: «houve um golpe. É o mínimo em que há unanimidade de certezas.»

Diz a historiadora Raquel Varela,  Público 25 de Abril de 2011:

«Embora o encontro entre Álvaro Cunhal e Melo Antunes a 25 de Novembro esteja documentado, acredito que o acordo tenha decorrido alguns dias antes do golpe que pôs fim à crise político-militar e terminou com a duplicidade de poderes nas Forças Armadas. Até porque os Nove poderiam adivinhar que as unidades militares afectas ao PCP não deixariam de responder a uma insurreição militar, como acontecera a 28 de Setembro de 1974 e 11 de Março de 1975».

José Saramago que, muito bem sabia do que estava a falar, disse: «Perdeu-se em Portugal muita coisa desde o 25 de Novembro. Perdeu-se sobre tudo a vergonha».

Adelino Gomes no Público de 26 de Novembro de 2000:

«Quem desencadeou o 25 de Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traiu os seus homens ou evitou a guerra civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde chegavam as ligações ao MDLP? Quantos grupos funcionavam dento do Grupo dos Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (RMN) ou a Região Militar sw Lisboa (RML)?; o posto Avançado da Amadora, comandado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML, e Conselheiro da Revolução, Vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia?

0 25 de Novembro existiu?

INFORME


 Texto de Mário Henrique-Leiria publicado no nº1 do semanário Aqui dirigido por quem sempre disse que, para além de outras coisas, pertenceu ao movimento surrealista.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

CANÇÕES DE ENTARDECERES


Ah!, os entardeceres!...

Conheceu o Mário-Henrique Leiria na redacção do jornal República e passou a acompanhá-lo em algumas tardes no Bar Expresso, no Largo Trindade Coelho, mesmo ao lado do jornal.

O Mário é um tipo inclassificável, mas espantosamente fascinante.

Claro que poucos o conhecem e muitos menos o leem.

Pois é do Mário-Henrique o mote escolhido para o pôr-do-sol que o Rui Ornelas fotografou. O mote já, largamente, por este Cais foi (re)dito, mas acha-o, simplesmente brilhante e não hesita na sua repetição:

«… encostou-se no parapeito da janela aberta e ficou a olhar o entardecer discreto e melancólico.»

Falando-se de Mário-Henrique Leiria, tirando-se citação de um dos seus contos do Gin-Tonic, entendeu-se voltar a Françoise Hardy, precisamente a um dos seus álbuns a que chamou «Françoise-Gin-Tonic-Hardy», editado em 1980, e, naturalmente a canção seis da Face A que, justamente, Françoise chamou «Gin Tonic».

Dois gin-tonics, um bar de hotel, talvez em Londres, ou Paris, ou Berlim, mesmo Bruxelas, um piano triste palavras algo falsas, desencontradas, paraísos artificiais ditos indefinidos…

domingo, 17 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL

          Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                   João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

A toda a largura, e no topo da sua 1ª página, o ultra-fascista jornal Época de 17 de Março de 1974, colocava em letras garrafais:

PÁGINA TRISTRE
UM GRUPO DE INSUBORDINADOS FEZ DESLOCAR UMA PEQUENA COLUNA MILITAR EM DIRECÇÃO A LISBOA APROVEITAND O  UM AMBIENTE DE BOATOS FABRICADOS INSIDIOSAMENTE NO PAÍS E NO ESTRNGEIRO OS REBELDES RETROCEDERAM E FORAM PRESOS

Na mesma 1ª  página fazia publicar este libelo em defesa da pátria:


Os jornais deste dia davam conta da rebelião abortada, e em caixa, reproduziam a nota da Direcção-Geral de Informação.

«Reina a ordem em todo o País»

Assim terminava a lacónica nota, em que o governo de Marcelo Caetano revelava que já tinha conhecimento de que se preparava um movimento de características e finalidades mal definidas mas fácil foi verificar que as tentativas realizadas por alguns elementos para sublevar outras unidades não tinham tido êxito.
O governo dizia ao País que conseguira colocar um ponto final nas movimentações militares.

E parecia acreditar nessa ilusão.

Quem não acreditava era o incorrigível Mário-Henrique Leiria que, numa carta que há-de ser datada (22 de Março de 1974) desde Carcavelos para a sua«Querida Beluska» estar perante uma palhaçada, porque na farda não se pode acreditar nem no boné. Preocupante para o Mário era o drisco de ser deepjada da casa onde vivia com a mão e a tia, o cão Vodka e onde meter 7.000 livros, toneldasa de mobília idiota.

Recebi ontem o teu pacote medicinal. Agradeço como se seve. Chegou mesmo na hora, tu estás sempre atenta às coisas. É espantoso! Um beijão, se quiseres aceitar. Pode ser?

Por aqui, houve o que sabes e até muito mais. No fundo, mais uma palhaçada, que na farda não se pode acreditar nem no boné. Contarei, se valer a pena, quando cá vieres. Aqui não. Os meus papéis estão vigiados, tal como o telefone, mas isso não tem importância nenhuma, até porque eles sabem que eu sei que eles sabem…

Cá por casa há problema, mas não fiques preocupada, por favor. É assim:

Tivemos a notícia, no domingo, que o prédio foi vendido e vai ser demolido para dar lugar a mais uma pequena colmeia de obcecados… Muito bem. O diabo é que eu tenho duas velhas, 17 divisões, um cão, 7000 livros, toneladas de mobília idiota, sei lá…! E além disso, pago só 550$00!!! Oh pasmo! Mas é verdade. Nem de outra maneira podia ser, pois a média geral aqui de casa não chega a 3000$00 por mês.

Aí está. A gaita é que vou para a rua e, neste magnífico país ultra-inflacionário, um cochicho onde não cabe nada com o máximo de quatro assoalhadas (como se chama aqui) vai logo para entre 4000$00 e 5000$00 e já não é mau…

Um bode dos grandes…

Vou ter de aguentar. Não sei como, mas vou. E o diabo é que isto está a deitar as velhas abaixo… e eu sempre a fingir que tudo há-de ir pelo melhor.

Sabes, querida, o cansaço tem o seu limite. Tem mesmo.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos


Esta reprodução do Diário Popular de 17 de Março mostrava que a população das Caldas da Raínha, naquele domingo, fez a sua vida normal indo comprar, ao Mercado, na praça central da cidade como habitualmente, frutas, legumes  e flores. 

domingo, 21 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


As Troianas

Eurípedes

Adaptação: Jean-Paul Sartre

Tradução: Helena Cidade Moura

Capa: Mário-Henrique Leiria

Colecção Teatro Vivo nº 1

Plátano Editora, Lisboa, 1973

Poséidon


Pobre Hécuba, não! Não morrerás nas mãos dos teus inimigos. Dentro em pouco, quando te embarcarem, cairás no meu reino, o mar, onde só eu mando, e farei de ti rochedo, junto da tua pátria. As vagas se quebrarão contra ti e toda a noite ecoarão o eu lamento infinito.

Agora ides pagar. Fazei a guerra, mortais imbecis, devastai os campos e as cidade, violai os templos e os túmulos, torturai os vencidos. Rebentareis também. Todos.

sábado, 28 de outubro de 2023

ENGANO

O ruído dos motores tornara-se ensurdecedor. Depois, de súbito, tudo ficou em silêncio.

Foi à janela e olhou.

Lá em baixo os carros tinham parado, exactamente em frente à mansão. Abriram-se as portas e as fardas começaram a sair, algumas de bota alta, olhando para cima.

Recuou um pouco, para não ser visto lá de fora. Encostou o cano da stein ao canto da janela e, aguentando com firmeza na anca, atirou a primeira rajada num movimento sabiamente circular e continuou.

Enganara-se. Pela primeira vez.

Vinham apenas dizer-lhe que fora eleito Presidente.

 

Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tónic

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Este é o 3º Volume da Obra Completa de Mário-Henrique, publicado em Junho de 1919.

Para além dos textos e desenhos dispersos, nunca publicados em livro, o volume reúne o Conto de Natal para Crianças, oferecido em Dezembro de 1972 a Álvaro Belo Marque, também as cartas escritas à Doce Isabelinha, ou Maruska querida, outras coisas mais, no fundo a Venerável legista que estava, por parte da mulher alemã, a tratar do divórcio de Mário-Henrique Leiria e por quem, extraordinariamente, se apaixonou e que constam de Depoimentos Escritos.

O 2º volume da Obra Completa contempla a Obra Poética e o 4º volume a Obra Gráfica, talvez que pelo próximo Natal cheguem à Biblioteca da Casa.

Com a vossa permissão, repetirei o Outro Lado das Capas que, aquando do 1º volume, aqui foi publicado:

 

Mário-Henrique  Leiria está bem representado na Biblioteca da Casa, veja-se a etiqueta Mário-Henrique Livros.

Acontece que a editora E-Primatur iniciou, em Maio de 2017, a publicação das Obras Completas de Mário-Henrique Leiria constituída por três volumes.

O terceiro, e último volume, foi publicado em Junho deste ano e nele constam manifestos, textos críticos e afins, bem como cartas e postais.

A obra completa de Mário-Henrique Leiria tem como responsável Tânia Martuscelli, crítica de literatura e de arte, professora da Universidade do Colorado/Boulder nos Estados Unidos.

Desconhecia que houvesse alguém tão especializado na obra de Mário-Henrique Leiria e o quanto isso o divertiria. Tania Martucelli tem a ideia de que conseguiu reunir todos os textos constantes do espólio do autor.e vários outros materiais dispersos.

Mário-Henrique Leiria não se considerava um escritor mas um tipo que escrevia umas coisas quando a veia, aliada a um grande gin-tonic, resolve ser boa companheira.

Depois de 1951 começou a andar de um lado para o outro.

«Teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil (não, não era arquitecto, carregava tijolo), etc., pelas terras onde andou: a Europa cristã e ocidental, o Mediterrâneo norte-africano, o Oriente Médio e até, dizem, os países socialistas. Não ia aos Balcãs porque tinha medo, todos lhe diziam que lá os bigodes eram enormes e as bombas estoiravam até no bolso. Um dia teve de passar por lá. Os bigodes eram realmente grandes, mas toda a gente sabia rir. Tirou o casaco e bebeu que se fartou. Em 1958 meteram-se-lhe ideias na cabeça e foi até Inglaterra, para aprender coisas. Não aprendeu e voltou. Entre 1959 e 1961 foi casado e não fez mais nada. Em 1961 foi para a América Latina donde voltou nove anos depois. Por lá conseguiu ser, entre outras actividades menos respeitáveis, planejador de stands para exposições, encenador de teatro e até director literário de uma editora. Fizera progressos»

Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu nestas suas novas-velhas-andanças?

Mas este é o trabalho possível e louve-se a iniciativa.

Claro que o autor já mandou descer mais um gin e está ainda a gargalhar porque ele sempre foi um campeão de perder textos, e textinhos, divertia-se a escrever e a esconder o que escrevia.

Mas repito: Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu por esse mundo fora?

Nova repetição: mas pronto! É o trabalho possível, um trabalho dignificante para a literatura portuguesa e para esse futuro que se não ler o Mário-Henrique não sabe o que perde e tão pouco merce ser futuro.

Acredito que Mário-Henrique Leiria sentirá uma lágrima rebelde aflorar-lhe aos olhos, pedirá mais um gin e agradecerá do fundo do coração.

O 1º Volume reúne Fragmentos da Minha Vida Real, os Contos do Gin-Tonic, os Novos Conto do Gin, Fábulas do Próximo Futuro, Contos Extraídos de Depoimentos Escritos, Contos Inéditos e Dispersos, Casos de Direito Galático, o Mundo Inquietante  de Josela,  a banda desenhada Mário e Isabel, a novela Diapasão , Teatro e Guiões.

O 2º volume é dedicado à poesia e reúne toda a sua obra poética incluindo inéditos e textos nunca antes compilados em livro

Comprei o 1º volume da Obra Completa do Mário-Henrique Leiria na Feira do Livro deste ano e, oportunamente, irei comprar os outros dois volumes. É que há um bom número de textos escritos que não fazem parte das obras publicadas.

No programa de Mário Gin Tónico Volta a Atacar, Mário Viegas escreve:

«Quantos textos inéditos (?), perdidos, semi-publicados (?) não andam por aí??

Onde estão os grandes amigos deste Mário??? É urgente reuni-los num livro. Este espectáculo e este programa aqui estão para o provar e dar uma ajuda!»

Passaram 30 anos sobre estas palavras.

Muito tempo? Tempo demasiado?

Mais vale tarde que nunca, diria a minha avó materna.

A Obra Completa do Mário Gin-Tónico está aí, Mário Viegas.

O quanto gostaria que esta E-Imprinatur, outras editoras, seguissem esta reunião de obras completas de autores que deixaram um espólio que andará por aí  ao abandono, por aí perdido.

Tantos e tantos autores nessas condições e, assim de repente, lembro-me do Eduardo Guerra Carneiro.

A Obra Completa de  Mário-Henrique Leiria foi publicada com o apoio dos leitores através de um funcionamento colectivo.

Em cada volume pode ler-se este avisos:

«De acordo com a legislação autoral em vigor, a E-Imptimatur tentou localizar os herdeiros de  Mário-Henrique Leiria, sem sucesso. Os representantes legais devidamente identificados poderão entrar em contacto com a editora para se elaborar contrato de direitos.»

De uma carta de Mário-Henrique Leiria, Carcavelos 25 de Novembro de 1973, para Isabel, ou Maruska, ou o grande amor da sua vida:

«Quanto ao meu livro (Novos Contos do Gin), já está em primeiras provas. Talvez esteja na rua lá para meados de Dezembro. Achei que tinha historietas demais e tirei um monte delas, não gosto de chatear demais os leitores.

Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do "Diário de Notícias"? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!» 

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

POSTAIS SEM SELO



Como uma canção que continua ao longe, quando o sol se põe.

Mário-Henrique Leiria

sábado, 18 de março de 2023

GIN E PIMENTAS


 

Só sei de uma maneira de beber gin. A receita clássica, ou seja:

Gelo, rodela de limão de casca amarela, aprisionada entre os cubos de gelo, gin e água tónica, de preferência Schweppes que, lamentavelmente, por estes sítios não tem quinino, apenas essência.

Num jantar familiar impingiram-me gin num enorme balão.

Não armei um enorme pé-de-vento que noutros tempos teria saído.

Mas já estou velho!...

Simpaticamente apenas perguntei o que é que estava junto com o gin. Disseram-me que era zimbro, cardamomo, pimenta cubeba, pimenta rosa, pimenta sichuan, anis estrelado.

Sorri e lembrei-me do Mário-Henrique Leiria, o escritor que bebia Gin. 

E obrigatoriamente lembrar que o Público, na sua «colecção composta de 10 obras de grandes autores, raras ou descontinuadas nas editoras, que foram escolhidas pelos leitores, através de votação, a partir de 188 títulos sugeridos», publicou, no dia 4 de Março, como primeiro volume os Contos do Gin-Tonic do Mário-Henrique Leiria.

Comprem, leiam esta autêntica maravilha.

Também uma velha história: o meu avô, nos jantares de domingo, uma vez por mês, o dinheiro era muito curto, comia-se galinha assada no forno, no final bebia uma gotinha de Genebra.

A garrafa durava uma eternidade e, depois de vazia, servia de botija para as noites de Inverno.

sexta-feira, 17 de março de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Nunca consegui perceber nada de coisa nenhuma, nem sequer de mim.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

Legenda: Documentos de identidade de Mário-Henrique Leiria, retiradas do Público, 30 de Dezembro de 2022.

quinta-feira, 31 de março de 2022

BEM, DEIXEMO-NOS DISTO

Andei a (des)arrumar livros e fiquei com o Mário-Henrique Leiria nas mãos. Ontem coloquei um extracto de Depoimentos Escritos. Hoje mais um, e o livro já está arrumado na prateleira:

«Demiti-me de tudo. Estou só. Aliás, sempre estive. Agora dizem que sou anarquista, inimigo do Estado. Talvez seja, não sei. O que eu não sou, com certeza, é oportunista.»

quarta-feira, 30 de março de 2022

NO CAIR DA NOITE

… e agora vou acabar de ler um bom e saudável romance policial e liquidar o resto da garrafa de vodka (“Bogka” para fingir que sei russo) que está ao alcance da minha mão direita (como bom deus pagão que posso perfeitamente ser, não tenho o “Filho” à mão direita, mas sim um objecto de maior libertação e realidade).

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

terça-feira, 1 de março de 2022

QUOTIDIANOS

 Dias tão difíceis, tão impossíveis que o mundo vai vivendo.

O ateu empedernido que é, arrisca-se a perguntar, sabendo de antemão a resposta:

Onde está Deus que não desfere um tiro certeiro no bunker daqueles biltres loucos?

A mexer em papelada encontrou esta frase de uma carta do Mário-Henrique Leiria para o Mário Cesariny:

«Continuo lucidamente bêbedo, como de costume. Sabes que a felicidade é, afinal, uma coisa simples? Resume-se em conseguir não ter dores durante cinco minutos... só cinco, já bastam...»