Mostrar mensagens com a etiqueta Mário-Henrique Leiria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário-Henrique Leiria. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

NOIVADO


Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tónic

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

RELACIONADOS


Mário-Henrique Leiria está bem representado na biblioteca da casa.

Veja-se a etiqueta Mário-Henrique Livros.

Acontece que a editora E-Primatur iniciou, em Maio de 2017, a publicação das Obras Completas de Mário-Henrique Leiria constituída por três volumes.

O terceiro, e último volume, foi publicado em Junho deste ano e nele constam manifestos, textos críticos e afins, bem como cartas e postais.

A obra completa de Mário-Henrique Leiria tem como responsável Tânia Martuscelli, crítica de literatura e de arte, professora da Universidade do Colorado/Boulder nos Estados Unidos.

Desconhecia que houvesse alguém tão especializado na obra de Mário-Henrique Leiria e o quanto isso o divertiria. Tania Martucelli tem a ideia de que conseguiu reunir todos os textos constantes do espólio do autor.e vários outros materiais dispersos.

Mário-Henrique Leiria não se considerava um escritor mas um tipo que escrevia umas coisas quando a veia, aliada a um grande gin-tonic, resolve ser boa companheira.

Depois de 1951 começou a andar de um lado para o outro.

«Teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil (não, não era arquitecto, carregava tijolo), etc., pelas terras onde andou: a Europa cristã e ocidental, o Mediterrâneo norte-africano, o Oriente Médio e até, dizem, os países socialistas. Não ia aos Balcãs porque tinha medo, todos lhe diziam que lá os bigodes eram enormes e as bombas estoiravam até no bolso. Um dia teve de passar por lá. Os bigodes eram realmente grandes, mas toda a gente sabia rir. Tirou o casaco e bebeu que se fartou. Em 1958 meteram-se-lhe ideias na cabeça e foi até Inglaterra, para aprender coisas. Não aprendeu e voltou. Entre 1959 e 1961 foi casado e não fez mais nada. Em 1961 foi para a América Latina donde voltou nove anos depois. Por lá conseguiu ser, entre outras actividades menos respeitáveis, planejador de stands para exposições, encenador de teatro e até director literário de uma editora. Fizera progressos»

Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu nestas suas novas-velhas-andanças?

Mas este é o trabalho possível e louve-se a iniciativa.

Claro que o autor já mandou descer mais um gin e está ainda a gargalhar porque ele sempre foi um campeão de perder textos, e textinhos, divertia-se a escrever e a esconder o que escrevia.

Mas repito: Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu por esse mundo fora?

Nova repetição: mas pronto! É o trabalho possível, um trabalho dignificante para a literatura portuguesa e para esse futuro que se não ler o Mário-Henrique não sabe o que perde e tão pouco merce ser futuro.

Acredito que Mário-Henrique Leiria sentirá uma lágrima rebelde aflorar-lhe aos olhos, pedirá mais um gin e agradecerá do fundo do coração.

O 1º Volume reúne Fragmentos da Minha Vida Real, os Contos do Gin-Tonic, os Novos Conto do Gin, Fábulas do Próximo Futuro, Contos Extraídos de Depoimentos Escritos, Contos Inéditos e Dispersos, Casos de Direito Galático, o Mundo Inquietante  de Josela,  a banda desenhada Mário e Isabel, a novela Diapasão , Teatro e Guiões.

O 2º volume é dedicado à poesia e reúne toda a sua obra poética incluindo inéditos e textos nunca antes compilados em livro

Comprei o 1º volume da Obra Completa do Mário-Henrique Leiria na Feira do Livro deste ano e, oportunamente, irei comprar os outros dois volumes. É que há um bom número de textos escritos que não fazem parte das obras publicadas.

No programa de Mário Gin Tónico Volta a Atacar, Mário Viegas escreve:

«Quantos textos inéditos (?), perdidos, semi-publicados (?) não andam por aí??
Onde estão os grandes amigos deste Mário??? É urgente reuni-los num livro. Este espectáculo e este programa aqui estão para o provar e dar uma ajuda!»

Passaram 30 anos sobre estas palavras.

Muito tempo? Tempo demasiado?

Mais vale tarde que nunca, diria a minha avó materna.

A Obra Completa do Mário Gin-Tónico está aí, Mário Viegas.

O quanto gostaria que esta E-Imprinatur, outras editoras, seguissem esta reunião de obras completas de autores que deixaram um espólio que andará por aí  ao abandono, por aí perdido.

Tantos e tantos autores nessas condições e, assim de repente, lembro-me do Eduardo Guerra Carneiro.

A Obra Completa de  Mário-Henrique Leiria foi publicada com o apoio dos leitores através de um funcionamento colectivo.

Em cada volume pode ler-se este avisos:

«De acordo com a legislação autoral em vigor, a E-Imptimatur tentou localizar os herdeiros de  Mário-Henrique Leiria, sem sucesso. Os representantes legais devidamente identificados poderão entrar em contacto com a editora para se elaborar contrato de direitos.»

De uma carta de Mário-Henrique Leiria, Carcavelos 25 de Novembro de 1973, para Isabel, ou Maruska, ou o grande amor da sua vida:

«Quanto ao meu livro (Novos Contos do Gin), já está em primeiras provas. Talvez esteja na rua lá para meados de Dezembro. Achei que tinha historietas demais e tirei um monte delas, não gosto de chatear demais os leitores.
Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do "Diário de Notícias"? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!»

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


não entres meu amor
não entres
senão depois de teres a
certeza
de que tudo que irás
encontrar nada é
comparado com o nosso
excesso de claridade
a claridade dada pelo tempo

Mário-Henrique Leiria em Imagem Devolvida

Legenda: imagem Shorpy

sexta-feira, 17 de maio de 2019

PRAZERES


Teria para aí os meus 16 anos quando bebi o meu primeiro gin-tónic.
Na inauguração, no Largo da Graça, da delegação do Banco Português do Atlântico.
Estava com o meu pai e lembro-me de um criado, chegar ao pé de mim, com uma bandeja na mão onde estavam copos com um líquido esbranquiçado, gelo e uma rodela de limão. Imaginei serem limonadas. Era gin-tonic. Bebi e fiquei cliente.
Um dia, conheci o Mário-Henrique Leiria, li os Contos do Gin-Tonic, e se já interiorizara que o gin-tonic é a melhor bebida do mundo, dúvidas deixaram de existir.
Diz o Joe Could que o gin liga a bomba da memória e um velho slogan publicitário do gin «Tanqueray» conta que as histórias românticas de um bêbado são mais credíveis se vierem de alguém que andou a beber gin «Tanqueray».
Passados uns 60 anos pela inauguração da delegação bancária, acordo pelas manhãs a saber que o fígado já não pode pacificamente com o gin-tonic.
E tão amigos que eles eram!
Há uma velha canção do Cole Porter, «Two Little Babes in the Wood», em que se ouve:
«Descobriram que a fonte da juventude é uma mistura de gin e vermute.»

Legenda: imagem de um gin vermute.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

OLHARES


Conheci o pintor Artur Bual numa exposição de quadros seus no S.N.I., coio da propaganda salazarista.

Alguns anos mais tarde, O Helder Pinho levou-nos a visitar na cave-casa-estúdio que o Bual possuía na Amadora, a dado ponto da conversa,  entre latas de atum, azeitonas, queijinhos frescos, pão alentejano, um garrafão de tinto, lembrei-lhe o S.N.I.

Muito calmamente respondeu: «Fomeca, meu caro, muito espaço no estômago».

 Não acrescentou nem mais uma palavra e eu fiquei, parvamente, a olhar.


Mário-Henrique Leiria, meu mestre de gin, e não só, amiúde dizia que «posso morrer de fome mas não peço esmola», ou ainda «para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Mas isso era o Mário-Henrique Leiria, um louco genial, e não podemos exigir que todos fossem, ou sejam, como ele.

Receio bem que, daqui por uns anos, quase ninguém saiba quem foi , o que por aqui andou a fazer.

Como tantos e tantos outros.

Conheci-o antes do 25 de Abril, por mero acidente liquido no “Expresso Bar”, ali no Largo da Trindade. Uma atracção imediata, um espanto que não mais se esquece. Um excelente contador de histórias rasgadas por um humor colorido, gritante, irresistível, demolidor, corrosivo, mas a desfazer-se em ternura.


Um louco genial, que gargalhava frente à angústia. Era cruel e entendia que a «crueldade é somente um processo quotidiano de exprimir qualquer coisa», ou como disse o O’Neill: «um amigo que desconfia da amizade. Por instinto. No fundo tem medo que o apanhem nas filigranas de uma ternura qualquer». Aliás como viemos a saber pela leitura de Depoimentos Escritos, um livro lindíssimo, também cruel. Nele se conta a história de uma paixão que teve por uma alemã, Dietlinde de seu nome, «uma ariana pura» e como ansiava ter uma vida calma com fedelhos pendurados nos joelhos, doces natais. A ariana fugiu com outro, que ela considerou ser o amor da sua vida, e para além de o deixar destroçado e exigir o divórcio ainda lhe levou quadros, discos de música de Natal, música russa e brasileira, jazz.


No meio do processo o Mário acaba por se apaixonar, loucamente, pela advogada da mulher, um amor impossível.


Legenda: Artur Bual e Mário-Henrique Leiria

quarta-feira, 9 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


…uma espécie de lobo velho que nem sequer já acredita na alcateia.

domingo, 29 de outubro de 2017

PAPÉIS DATADOS


Conheci o pintor Artur Bual numa exposição de obras suas no SNI, o coio da propaganda salazarista.

Muito anos mais tarde, mais o Helder Pinho, o Karlos faria, abancámos, numa patuscada, na cave que ele tinha por atelier/habitação na Amadora: latas de atum, azeitonas, queijinhos frescos, um garrafão de tinto.

Parvamente, a meio daquilo tudo e de muita converseta, lembrei-lhe o SNI.
Muito calmamente respondeu:

- Fomeca, meu caro, muito espaço no estômago.

Nem mais uma palavra.

Se parvo fui, parvo fiquei.

Faltavam muitos anos para ouvir o Mário-Henrique Leiria dizer: «Posso morrer de fome mas não peço esmola», ou ainda, «para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Mas isso era o Mário-Henrique Leiria, um louco genial e não podemos exigir que todos fossem como ele.

Aprende-se com as muitas merdas que vamos dizendo e fazendo.

Com aquela parvoeira no atelier/habitação do Bual, a sua resposta, tomei uma lição para a vida.

Receio bem que o Mário-Henrique Leiria tenha caído no esquecimento. Apenas alguns moicanos, provavelmente os últimos, ainda sabem quem seja e lhe conheçam as pinturas e os livros.

Conheci-o antes do 25 de Abril, por mero acidente líquido no «Expresso-Bar», ali no Largo da Trindade.

Uma atracção imediata, um espanto que não mais se esquece. Um excelente contador de histórias, rasgado por um humor colorido, gritante, irresistível, demolidor, corrosivo mas desfazer-se em ternura.

Um louco genial, que gargalhava frente à angústia. Era cruel e entendia que a «crueldade é somente um processo quotidiano de exprimir qualquer coisa», ou como dele disse o O’Neill: «um amigo que desconfia da amizade. Por instinto. No fundo tem medo que o apanhem nas filigranas de uma ternura qualquer.»

Aliás, como viemos a descobrir com a publicação de Depoimentos Escritos, um livro cruel cheio de beleza. Pela sua leitura ficamos a saber de uma paizão louca que teve por uma alemã, Dietlinde de seu nome, uma «ariana pura» e ele a ansiar por uma vida calma com fedelhos pendurados nos joelhos, doces natais, que ela sempre recusou.

A ariana acabou por fugir com outro, que ela considerou ser o amor da sua vida, e para além de o deixar destroçado e exigir o divórcio, levou-lhe quadros, discos com música e canções de Natal, música russa e brasileira.

(29 de Outubro de 2000)

Legenda: esta fotografia do «Expresso-Bar» tem alguns anos, estava o botequim em obras não sei se de restauro ou destruição. Terei que por lá passar… 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PROJECTO DE SUCESSÃO


Para o Mário Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra.

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos.

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nú em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio. 

Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias. 

António Maria Lisboa

Legenda: poema de António Maria Lisboa encontrado no espaço do Legado de Mário Henrique Leiria

sábado, 16 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Continuo lucidamente bêbedo, como de costume. Sabes que a felicidade é, afinal, uma coisa simples? Resume-se em conseguir não ter dores durante cinco minutos... só cinco, já bastam.

Mário-Henrique Leiria

Legenda: Claridade dada pelo tempo, de Mário-Henrique Leiria.

RELACIONADOS


"Eu compro isto tudo", disse Manuel de Brito, fundador da Galeria 111 e um dos maiores coleccionadores de arte portuguesa do século XX - que é cerne da actividade do centro de arte com o seu nome, no Palácio Anjos, em Algés - quando chegou à porta da casa de Mário- -Henrique Leiria, para onde correu depois de o amigo Carlos Lobo da Cunha o ter avisado que os seus herdeiros estavam a deitar fora tudo o ele que deixou, ao morrer prematuramente, aos 57 anos, em 1980.
Quem nos conta a história é a viúva de Manuel, Maria Arlete Alves da Silva, a propósito da inauguração de O Legado de Mário Henrique Leiria, marcada para quinta-feira, dia 30: "De repente, na minha garagem, estava toda a casa dele - as arcas com trabalhos, os móveis, as travessas e os pratos, três ou quatro mil livros, milhares de revistas e jornais, a correspondência, os quadros, os manifestos surrealistas, os discos, os filmes e as máquinas de filmar, as pastas com desenhos, as peças de barro e cobre, catálogos das exposições e móveis, alguns insólitos, outros desenhados por ele... Parecia que nunca mais acabava."

Rita Bertrand na revista Sábado, Março de 2017

Legenda: Mecanismo da Revolução, 1948, colagem sobre papel de Mário-Henrique Leiria, tirado do catálogo do Legado de Mário Henrique Leiria

OLHAR AS CAPAS



O Legado Mário Henrique Leiria na Colecção Manuel de Brito

Coordenação do catálogo: Maria Arlete Alves da Silva
Texto: António Gonçalves
Capa: imagem da Exposição Surrealista de Lisboa, Janeiro de 1949
Paginação e Arte final: Susana Ferreira
Edição da Câmara Municipal de Oeiras, Fevereiro de 2017

O exemplo prático ao qual temos acesso nesta exposição refere-se à aquisição que Manuel de Brito fez aos familiares de Mário Henrique Leiria, que, após a sua morte, se quiseram desfazer de todo o núcleo de “coisas” que lhe pertenciam. Este  núcleo de “coisas” eram todos os pertence de Mário Henrique Leiria, onde se encontravam obras de sua autoria e de seus pares: manuscritos, entre os quais se encontra a sua correspondência, a sua biblioteca, os seus objetos pessoais, os seus filmes, as suas revistas, alguns móveis e memórias da infância. Ao tomar esta decisão Manuele de Brito vem salvar a memória de um dos nomes relevantes no contexto do surealismoa e da arte nacional – Mário Henrique Leiria.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

COMO SOBREMESA NÃO ESTÁ MAL!


Em 1979, o Diário de Lisboa, publicou em folhetim, O Imenso Adeus de Raymaond Chandler, numa tradução de Mário-Henrique Leiria. A apresentação do folhetim foi feita pelo Eduardo Guerra Carneiro com o título Com Chandler e Marlowe nos Bares do Cais do Sodré publicado no Diário de Lisboa de 31 de Março de 1979 e que o Eduardo nunca incluiu em nenhum dos livros onde reuniu crónicas e textos publicados na imprensa.

Começa assim:

Marlowe entra no “British-Bar”, despe a trincheira, sacode-a da chuva de Março que, em morrinha, como em Vigo ou no Porto, ainda pinga, atira o chapéu para o bengaleiro e pede um “gimlet” duplo.
Humphrey Bogart está ao balcão e sorri-lhe, de esguelha, com o paivante aceso ao canto da boca. A “magrinha” ainda não tinha chegado. Eu bebia gin tónico, numa mesa do canto com o Chandler. O Mário-Henrique Leiria não pôde vir: mandou recado a dizer para bebermos dois ou três copos por ele. Lauren Bacall chegou agora, senta-se à nossa mesa e pede-me um cigarro na sua voz rouca, inconfundível. Reparo que Bogey está com ciúmes. Como não quer a coisa, de uma velha telefonia vem uma música de piano: “Casablanca”. Afinal Bogart deve estar ainda à espera da Ingrid Bergman. Chandler, que nada tem a ver com isto, começa a falar da Cabeleira de Prata.
Interrompo Raymond para lhe contar uma história insólita, mas verdadeira. Esta, do parágrafo seguinte:
-Era um jantar em casa do Buda, ali junto à Escola Politécnica. Como de costume, raparigas bonitas, boa comida, muito vinho, muito álcool. Presente: o Mário Henrique-Leiria que traduziu o teu «The Long Goodbye». Conversas sobre a América do Sul, guerrilheiros, generauis de opereta ou de bananas, prisões, copos, a receita do «gimlet» que o Terry Lennox conta – partes iguais de gin e sumo de lima, mais nada. De repente – acredita, sócio! – a conversa começou a ficar tão quente, tão quente, que a gente foi à varanda p’ra apanhar fresco. Olhámos: a Faculdade de Ciências estava a arder!

Na notícia da morte de Mário Henrique-Leiria, que o Eduardo Guerra Carneiro escreveu para o Portugal Hoje, 14 de Janeiro de 1980, lembra o parágrafo atrás transcrito e acrescenta:

O que não escrevi faço-o agora – é que dizias, com o humor negro sempre engatilhado: «Como sobremesa não está mal!»

Legenda: fotografia de Rui Ochôa, Expresso

segunda-feira, 24 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


A música é talvez a última companhia dos solitários.

Mário Henrique-Leiria em Depoimentos Escritos

Legenda: Joan Crawford e Sterling Hayden num fotograma de Johnny Guitar

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


… já lá vão tantos anos que talvez o que me reste na memória seja apenas aquela saudade melancólica que embeleza tudo. Sei lá.

Mário-Henrique Leiria

Legenda: fotografia de André Aciman

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

COMPREENDE, NÃO É?


Mário-Henrique Leiria nasceu a 2 de Janeiro de 1923 e morreu a 9 de Janeiro de 1980.

Há quem diga que morreu de fome, de prolongado abandono. O Luiz Pacheco não concordava e escreveu: Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito. 

Jorge Listopad:

Nada de Passadismos para os «Secos & Molhados», disseram-me.
Por isso hoje começo por Mário-Henrique Leiria que morreu há uma semana. Tão presente. Escritor e poeta que baralhou as cartas de todas as convenções, o humorista de origem melancólica, magíster da ironia mordaz e terna, ao observar o mundo como o fruto surrealista de coincidências artísticas, realmente muito «chateado» com a desordem da ordem.
Lisboeta, nasceu em 1923. Curriculum: Belas-Artes, não acabadas, movimento surrealista, marinha mercante, caixeiro de praça, metalúrgico, caminheiro (estradeiro, como diz Mário de Andrade), Europa Latina, Balcãs, Transibéria (?), Carcavelos,  Carcavelos-hospital.
Autor de poesia, de centenas de textos jornalísticos, de contos, cujo livro Contos do Gin-Tonic em 73, no último marcelismo, foi um best-seller pela qualidade e livre respiração.
Chegaram depois a sua casa e disseram-lhe:
- Mas você não consegue escrever coisas compridas! Isso que faz é uma miséria.
- Coisas compridas, como?
- Bem, romances, crónicas autênticas, ensaios sólidos.
.-Não, isso não sou capaz.
- Então você não é um escritor.
- Pois não. Quem se atreveu a chamar-me tal coisa?
- Desculpe. Mas uma coisa comprida, por favor, não arranja?
- Quando as coisas vão a ficar maiores, deito logo fora. Compreende, não é?

domingo, 8 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Imenso Adeus

Raymond Chandler
Tradução: Mário Henrique-Leiria
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 101
Livros do Brasil, Lisboa, s/d

- Eu estive nos comandos. Eles não aceitam tipos feitos de algodão em rama. Fui ferido e o trabalhinho que os médicos nazis me fizeram não teve muita graça. Sinto-lhe as consequências.
- Eu sei Terry. Você, sob muitos aspectos, é um tipo muito simpático. Eu não estou a julgá-lo. Nunca o julguei. Simplesmente você já não existe.
Já deixou de existir há muito. Está bem vestido, todo perfumado e tão elegante como uma prostituta de cinquenta dólares.
- Isto faz parte do disfarce - respondeu-me quase desesperadamente.
- Mas você diverte-se, não diverte?
A boca torceu-se-lhe num sorriso amargo. Depois encolheu os ombros
expressivamente, à latina.
- Claro que me divirto. Tudo quanto hoje existe é teatro. Não há mais nada.
Aqui - e bateu no peito com o isqueiro - não há nada. Eu estou pronto, Marlowe. E já o estava há muito. Bom, parece-me que não há mais nada a dizer.
Ele levantou-se. Eu levantei-me. Ele estendeu a mão esguia. Eu apertei-a.
- Até à vista, Sr. Maioranos. Gostei muito de o conhecer, apesar de o nosso contacto ter sido tão breve.
- Adeus.
Ele voltou-se, atravessou o escritório e saiu. Fiquei a ver a porta fechar-se. Ouvi-lhe os passos afastarem-se no corredor que pretendia ser de mármore. Tornaram-se cada vez mais fracos até que deixei de os ouvir.
Mas continuei à escuta. Porquê? Seria que eu esperava que ele parasse de repente e
voltasse para trás e falasse comigo até que eu deixasse de me sentir como me sentia? Mas ele não voltou. Foi a última vez que o vi.
E nunca mais vi nenhum dos outros - excepto os polícias. A esses, ainda não se inventou um processo de lhes dizer adeus.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

RECADOS


Na revista Ler nº 38 Primavera/Verão 1997 abordava meio século do movimento do surrealismo em Portugal, mais concretamente em Lisboa.

«Foi uma explosão de Liberdade. Isso não é coisa que se esqueça, irmãos! E eles, digo: o Cesariny, o Lisboa, o Seixas, o António Domingues, noutra banda o António Pedro, o França, o O’Neill, Moniz Pereira, tinham que lutar em duas frentes: a do regime e seus acólitos (pide, fachos) e a dos neo-relaistões e seus próceres, já lançados na correria para o sucesso e as coroas, as massinhas.»

Mas, neste artigo, Luiz Pacheco fala particularmente do Mário-Henrique Leiria:

«Não referi atrás um nome principal: Mário-Henrique Leiria. Propositadamente, deixei-o esquecido. Mas a fingir. O Mário morreu em 1980. Não sei quem, nem como, nem para quê, teceram-lhe uma legenda de morte na miséria, no abandono. Não dei por tal. Da última vez que o visitei na Vivenda Xavier, em Carcavelos, estava doente, acamado. Mas dotado do humor mordaz que sempre lhe conheci. Rimo-nos muito, como de costume. Não viveria no luxo, tão-pouco caíra no lixo. Diminuído no físico, alerta e destro no espírito. E com obra feita e com obra por publicar. O Mário-Henrique Leiria, em matéria escrita, é o único surreal que resistiu e ganhou público. As várias, sucessivas edições dos seus livros na editorial estampa, os Contos do Gin-Tonic e os Novos Contos do Gin, será a melhor prova de que ele atingiu uma massa de leitores muito mais novos, aos quais o Surreal e surrealismo lisboeta ou estranja, é mera etiqueta a desprezar. Mas não já o feroz humor, o total non-sense das historinhas que o Mário foi colhendo numa vivência de trota-mundos e Aventura sem igual nos companheiros de 1947. E uma turbulência revolucionária – quem, agora, o poderá capazmente recordar? Viajou, lutou, terá andado metido em múltiplas causas perdidas, pois tal era o seu feitio e o seu destino. Há dois livros dele que prefiro e, até, pensei em reeditar. São obras únicas: Conto de Natal e Lisboa ao Voo do PássaroOra, por mão do Artur Manuel do Cruzeiro Seixas recebi há pouco uma edição espanhola, bilingue, e lindíssima, do poema Claridade Dada pelo Tempo. A ser editada como convinha, era mister, o Leiria e nós merecíamos, custava uma fortuna. Mesmo assim, é livro a ler, a ter no recanto dos reservados preciosos. O Mário-Henrique, com uma personalidade vincada e nada disposto a grupelhos e mentores, em 1947 e nos anos seguintes, ficou Bastante isolado. Que se fale nele, portanto. E noutro morto, também votado ao silêncio: o suicida João Rodrigues que tem, segundo suponho, por aí família e ninguém lhe liga nenhuma.»

sábado, 8 de outubro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Querem tornar-me rico. Isto assim não pode ser. Vou ficar na miséria. Ou tratam já do caso, ou apresento queixa no Foro Central.

Mário Henrique-Leiria em Casos de Direito Galático

sexta-feira, 24 de junho de 2016

sábado, 4 de junho de 2016

TALVEZ NÃO SAIBA


Textos de Mário-Henrique Leiria publicados no República, s/d.