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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

OLHAR AS CAPAS

Tereza Batista Cansada de Guerra

Jorge Amado

Capa: Manuel Dias

Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1983

O mar se abriu e se fechou. Tereza suspira aliviada. Gereba pergunta’

- Tem mais algum? Se tem, a gente aproveita e joga no mar. por aqui perto descarreguei a minha falecida.

Tereza lembrou-se daquele que não chegara a ser, arrancado do seu ventre antes da hora do nascimento. Pôs a mão sobre a de mestre Januário Gereba, Janu do bem-querer, fazendo-o mover o leme, mudar o rumo da saveiro, dirigindo-o para pequena enseada entre bambus na margem do golfo, escondido remanso. Estende-se Tereza na popa do saveiro:

- Venha e me faça um filho, Janu.

- Sou bom nisso como quê.

Ali, na barra da manhã, rio e mar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

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 Suor

Jorge Amado

Capa: Luís Duran

Livros Unibolso nº 100

Editores Associados, Lisboa s/d

Largou o violino em cima da cama. O caderno de sambas caiu no chão, dobrando as folhas. Ele não se moveu. Que lhe importava? Chegou ao buraco do quarto e ficou olhando os telhados negros da cidade anciã. As ladeiras eram os braços da cidade esticados para o céu.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

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São Jorge dos Ilhéus

Jorge Amado

Capa: Clóvis Graciano

Livraria Martins Editora, São Paulo, 1968

No dia 2 de janeiro o “Jornal da Tarde” estampava um telegrama, datado de Nova Iorque, que anunciava uma grande queda nos preços do cacau. Dos quarenta e sete mil-réis, alturas em que pairava no dia 31 de dezembro, descera a trinta. Não chegou a haver, naquele dia, maior agitação entre os coronéis e os pequenos lavradores. Estavam ainda entregues à animação das festas de começo de anoa, a maioria curtindo a ressaca da noite de primeiro. No outro dia a tabela marcava vinte e nove mil-réis. Já aí os fazendeiros começaram a assustar-se. Há muito que o cacau não baixava dos quarente e dois mil-réis. 

quarta-feira, 23 de julho de 2025

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Tenda dos Milagres

Jorge Amado

Capa: Manuel Dias

Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1983

Mas é um pão! Ai, meu Deus, um pão de mel! – Eclamou Ana Mercedes, dando um passo à frente, a destacar-se, palmeira tropical, da massa de jornalistas, professores, estudantes, grã-finas, literatos, vadios, ali reunidos, no amplo salão do grande hotel, à espera de James D. Levenson para a entrevista coletiva.

Microfones das estações de rádio, câmaras de televisão, refletores, fotógrafos, cinematografistas, um cipoal de fios elétricos, e por entre eles a jovem repórter do Diário da Manhã atravessou, risonha e rebolosa, como se encarregada pela cidade de receber e saudar o grande homem.

Rebolosa é termo chulo e falso, adjetivo vil para aquela navegação de ancas e seios, em compasso de samba, em ritmo de porta-estandarte de rancho. Muito sexy, a minissaia a exibir-lhe as colunas morenas das coxas, o olhar noturno, o sorriso de lábios semiabertos, um tanto grossos, os dentes ávidos e o umbigo à mostra, toda ela de oiro. Não, não ia a rebolar-se, pois era a própria dança, convite e oferta.

O americano saíra do elevador e detivera-se a olhar a sala e a deixar- -se ver: um metro e noventa de estatura, o físico de esportista, o jeito de ator, cabelos loiros, olhos azul-celeste, cachimbo, quem lhe daria os quarenta e cinco anos de seu curriculum vitae? As fotos de página inteira nas revistas cariocas e paulistas eram responsáveis pelo mulherio presente, mas todas imediatamente constataram: o material ao vivo excedia de muito os retratos. Que homem! Despudorada! — disse uma delas, de peitos de rola; referia-se a Ana Mercedes. Fascinado, o sábio fitou a moça: vinha decidida em sua direção, o umbigo de fora, nunca vira andar tão de dança, corpo assim flexível, rosto de inocência e malícia, branca negra mulata. Veio e parou em sua frente — não era voz, era gorjeio:

 - Alô, boy

-Alô! – gemeu Levenson, retirando o cachimbo da boca para beijar-lhe a mão.

domingo, 25 de maio de 2025

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O Cavaleiro da Esperança

(Vida de Luís Carlos Prestes)

Jorge Amado

Publicações Europa- América, Lisboa, Novembro de 1976

Um dia, amiga, te narrarei o resto desta história. No dia da liberdade, quando o Herói partir novamente no seio do povo para a festa da democracia. Te falei dele nos dias da luta, de triunfo, de exílio e de sofrimento. Te disse da sua grandeza, do seu génio, do seu heroísmo. E, agora que o conheces, jamais o desespero habitará o teu coração por mais densa que seja a noite da tirania. Sabes que em breve despontará o amanhã da liberdade. Quando ele e o povo romperem as cadeias e partirem. Iremos com eles, negra, será uma festa, cordial e alegre, a liberdade e o amor.

sábado, 19 de abril de 2025

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Jubiabá

Jorge Amado

Colecção Livros do Brasil nº 10

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Se não fosse a greve o seu corpo de afogado seria depositado na areia e os siris chocalhariam como chocalhavam no corpo de Viriato, o Anão. Brilha a luz de um saveiro. O vento levará até ele a melodia do realejo que o velho italiano toca? «Um dia», pensa António Balduíno, «hei de viajar, hei de sair para outras terras.»

Um dia ele tomará um navio, um navio como aquele holandês que está todo iluminado, e partirá pela estrada larga do mar. A greve o salvou. Agora sabe lutar. A greve foi o seu ABC. O navio vai largar. Os marinheiros souberam da greve, contarão em outras terras que aqueles negros lutaram. Os que ficam dão adeuses. Os que vão limpam lágrimas. Por que chorar quando se parte? Partir é uma aventura boa, mesmo quando se parte para o fundo do mar, como partiu Viriato, o Anão. Mas é melhor partir para a greve, para a luta. Um dia António Balduíno partirá num navio e fará greve em todos os portos. Nesse dia dará adeus também. Adeus, minha gente, que eu já vou. Zumbi dos Palmares brilha no céu. Sabe que o negro António Balduíno não entrará mais pelo mar, para a morte. A greve o salvou. Um dia ele dará adeus e agitará um lenço do tombadilho de um navio. A música do realejo chora uma despedida. Mas ele não dará adeus como estes homens e mulheres da primeira classe, que dão adeus para os amigos, para pais e irmãos, para esposas chorosas, para noivas tristes. Ele dará adeus como aquele marinheiro loiro que está no fundo do navio e agita o boné para a cidade toda, para as prostitutas do Tabuão, para os operários que fizeram a greve, para os malandros que estão na Lanterna dos Afogados, para as estrelas onde está Zumbi dos Palmares, para o céu claro e a lua amarela, para o velho italiano do realejo, para Antônio Balduíno também. Ele dará adeus como o marinheiro. Adeus para todos, que ele fez a greve e aprendeu a amar a todos os mulatos, todos os negros, todos os brancos, que na terra, no bojo dos navios sobre o mar, são escravos que estão rebentando as cadeias. E o negro António Balduíno estende a mão calosa e grande, e responde ao adeus de Hans, o marinheiro.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

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 Gabriela, Cravo e Canela

Jorge Amado

Prefácio: Ferreira de Castro

Capa: António Domingues

Colecção Século XX nº 29

Publicações Europa-América, Março de 1960

Essa história de amor – por curiosa coincidência, como diria D. Arminda – começou no mesmo dia claro, de sol primaveril, em que o fazendeiro Jesuíno Mendonça matou, a tiros de revólver, D.Sinhàzinha Guedes Mendonça, sua esposa, expoente da sociedade local, morena mais para gorda, muito dada às festas de Igreja, e o Dr. Osmundo Pimentel, cirurgião dentista chegado a Ilhéus há poucos meses, moço elegante, tirado a poeta. Pois naquela manhã, antes de a tragédia abalar a cidade, finalmente a velha Filomena cumpria sua antiga ameaça, abandonara a cozinha do árabe Nacib e partira, pelo trem das oito, para Água Preta, onde prosperava seu filho.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

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Mar Morto

Jorge Amado

Colecção Livros de Bolso Europa-América nº 6

Publicações Europa- América, Abril de 1971

Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia. Os velhos marinheiros que remendam velas, os mestres de saveiros, os pretos tatuados, os malandros, sabem essas histórias e essas canções. Eu as ouvi nas noites de lua no cais do mercado, nas feiras, nos pequenos portos do Recôncavos, junto aos enormes navios suecos nas pontes de Ilhéus. 0 povo de Iemanjá tem muito que contar. Vinde ouvir essas histórias e essas canções. Vinde ouvir a história de Guma e de Lívia, que é a história da vida e do amor no mar. E se ela não vos parecer bela a culpa não é dos homem rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um homem da terra, e dificilmente um homem da terra entende o coração dos marinheiros. Mesmo quando esse homem ama essas histórias e essas canções e vai às festas de D. Janaína, mesmo assim ele não conhece todos os segredos do mar. Pois o mar é mistério que nem os velhos marinheiros entendem.

terça-feira, 28 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS

Os Velhos Marinheiros

Jorge Amado

Colecção Século XX nº 48

Publicações Europa-América, Lisboa, Junho de 1965

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro D’Água. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranquila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a Lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Baía. Presenciada, no entanto, por testemunhas idóneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca em boca, representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor do nosso tempo).

sexta-feira, 14 de junho de 2019

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Com o Mar Por Meio- Uma Amizade em Cartas

Jorge Amado e José Saramago
Selecção, Organização e Notas de Paloma Jorge Amado, Bete Capinan e
Ricardo Viel
Companhia das Letras,  Rio de Janeiro, Novembro de 2017

Também vão publicados, os parabéns pelo Prémio Camões, não sendo exemplar, é exemplo. Tanta miséria moral mal escondida, tanta inveja, tanto desejo de morte por trás das fachadas compostas de muitos que, num momento, vão ser juiz e sentença. Não obrámos nós assim quando estivemos no júri da União latina. E certamente assim não obrei eu quando me bati pelo Prémio Rainha Sofia para João Cabral…  Meu querido Jorge, viveste mais e mais intensamente do que eu, sabes como muitas vezes é difícil (ou terrivelmente fácil) compreender certos comportamentos humanos. Quando estiveres a receber o prémio, pensa só nos teus leitores, são eles que valem a pena.
Creio entender o que se passa com o teu romance. Quando a ideia inicial de uma narrativa nos parece clara, claríssima, óbvia até, é quando mais vamos ter de sofrer para encontrar-lhe o bom caminho. Nunca sofri tanto, eu, como neste Ensaio Sobre a Cegueira, tão simples, aparentemente, que podia ser explicado em meia dúzia de palavras. Já tenho a meta à vista, mas o que me custou só eu sei. Não te digo que teimes – é o que tens feito toda a vida -, digo-te que não temos outra sina que pelejar com as palavras, e se é certo que elas sempre acabam por ganhar, ao menos que não fiquem a rir-se de nós.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS

Capitães da Areia

Jorge Amado
Publicações Europa-América, Lisboa, Maio de 1970


De punhos levantados, as crianças saúdam Pedro Bala, que parte para mudar o destino de outras crianças. Baradão grita na frente de todos, ele agora é o novo chefe.
De longe, Pedro Bala ainda vê os Capitães da Areia. Sob a Lua, num velho trapiche abandonado, eles levantam os braços. Estão em pé, o destino mudou.
Na noite misteriosa das macumbas, os ataques ressoam como clarins de guerra.
Anos depois os jornais de classe, pequenos jornais, dos quais vários não tinham existência legal e se imprimiam em tipografias clandestinas, jornais que circulavam nas fábricas, passados de mão em mão, e que eram lidos à luz de fifós, publicavam sempre notícias sobre um militante proletário, o camarada Pedro Bala, que estava perseguido pela polícia de cinco estados como organizador de greves, como dirigente de partidos ilegais, como perigoso inimigo da ordem estabelecida.
Nos anos em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais (únicas bocas que ainda falavam) clamavam pela liberdade de Pedro Bala, líder da sua classe que se encontrava preso numa colónia.
E no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. E apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

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Navegação de Cabotagem
(Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei)

Jorge Amado
Publicações Europa-América, Lisboa, Novembro de 1995

Romancista de putas e vagabundos, classifica-me com menosprezo um graúdo da crítica literária. A classificação ma agrada, passo a repeti-la para definir minha criação romanesca.
Gosto da palavra puta, simples, límpida, tenho horror aos termos prostituta, marafona, pejorativos e discriminatórios. Em três palácios de governo relembrei que sou apenas um romancista de putas e de vagabundos, colocando o acento na palavra puta com júbilo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

OLHAR AS CAPAS


De Como o Mulato Porciúncula Descarregou seu Defunto

Jorge Amado
Colecção Antologia Best-Sellers
Editorial Organizações, Lisboa 1962

O gringo aportara ali há muitos anos, era calado e loiro, nunca vi ninguém gostar tanto de cachaça. Dizer que emborcava a branquinha como se fosse água não é vantagem, poi isso todos nós fazíamos, Deus seja louvado!, mas ele podia passar dois dias e duas noite mamando garrafas e não se alterava. Não dava para falador, não puxava briga, não cantava canções de outros tempos, não vinha recordar seus desgostos passados. Caladão era, caladão ficava, só os olhos azuis se apertavam, cada vez mais miúdos, uma brasa vermelha dentro de cada vista, queimando a azul.
Contavam muitas histórias sobre ele, algumas tão bem amarradas que dava gosto escutar. Tudo por ouvir dizer, porém, pois da boca do Gringo nada de certo se sabia, boca trancada, não se abrindo nem nos dias de festa gorda, quando as pernas ficavam como chumbo de tanta cachaça acumulada nos pés. Nem mesmo Mercedes, cujo fraco pelo Gringo não era segredo para nenhum de nós, curiosa como ela só, jamais conseguira arrancar sequer um dado preciosos sobre a tal mulher que o Gringo matara em sua terra e sobre o homem por ele perseguido anos a fio, por lugares sem conta, até lhe enfiar a faca no bucho. Quando ela perguntava, nos dias de cachaça maior que o respeito, o Gringo ficava olhando ninguém sabe o quê, com seus olhos miúdos, olhos azuis, agora rubros, apertadinhos, e articulava um som como grunhido, de duvidosa significação. Essa história da mulher com dezassete facadas nas partes baixas, nunca consegui saber como veio parar ali, entupida de minúcias, e mais o caso do moço patrício dele, perseguido de porto em porto, até o Gringo lhe enfiar a faca, a própria com que matara a mulher com as dezassete facadas, todas nas partes baixas.