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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

JOSÉ FONSECA E COSTA (1933 - 2015)


Partiu o José Fonseca e Costa.
Foi ontem, num domingo de grandes enxurradas.
Uma das vozes mais interessantes do Cinema português.
Não interessa que seja velho ou novo, mas que seja cinema.
SérgioFigueiredo, hoje, no Diário de Notícias lembra um documentário da Diana Andringa em que conta que em 1957 foi preso pela PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista.
Quando saí da prisão, a primeira coisa que quis fazer foi saber o que era o Partido Comunista Português.
Fez-se militante do partido e acabou por se afastar.
Para o mês que vem, certamente, a Cinemateca fará um In Memorian.
Vale a pena revê-lo.





Balada da Rita, canção de Sérgio Godinho da Banda Sonora de Kilas, o Mau da Fita.

Legenda: fotografia do Correio do Ribatejo

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC




E vou trabalhar para uma casa no Areeiro, onde estão agora As Chaves do Areeiro, que fazia uns acessórios para automóveis. Como tinha muito jeito de mãos puseram-me a fazer em gesso uns moldes aerodinâmicos, cinematográficos. Ah, porque a minha cultura começa a ser cinematográfica. Tive tantos dias de expulsão e castigo no liceu que passava o tempo a ir para o Paris ou para o Jardim Cinema ver filmes. Até entrei para o Cineclube Imagem, que era vermelho, e tinha lá dentro o Vasco Granja, o Henrique Espírito-Santo, o José Fonseca e Costa. E houve uma altura, até, em que a PIDE prendeu a direcção toda do Cineclube Imagem.

Foi para mim uma autêntica escola, não só de cinema, mas também daquilo em que o cinema, como qualquer outra das artes, deve ter a sua função política. Isto em tempos já muito politizados. Por leituras, e depois pelo cinema, e por estes contactos, comecei a ser aquilo a que hoje se chama uma pessoa de esquerda.
Sem nunca ter pertencido ao PCP, não deixei de ser aliciado pelo PCP, e de qualquer modo era um ponto de referência, sempre. E nessas relações no decorrer da vida, nas Áfricas, quando regresso, a dirigir a Ulisseia, depois no etc do Fundão, no “Diário de Lisboa”, é natural que tivesse sofrido, nomeadamente no “Diário de Lisboa”, pressões que não vinham apenas da censura.

Muitas vezes voto no PCP e não é por causa do PCP, é por causa de mim. O que tenho a ver com o PCP? Nada. Gosto de ir votar porque a junta de freguesia é ali na Rua da Esperança, e vota-se ao domingo, e ao domingo aquilo é uma aldeia. Até os cavalheiros podem aparecer de chapéu, porque é quase tudo emigrantes, de Ovar, daqui e dacolá. Põem os seus melhores fatinhos, as esposas ou viúvas também, e é-me ternurento ver como aquela gente vai tão respeitosamente votar. Então, eu gosto de ver aquilo e também vou.Isso explica por que vai votar....

Como vê, não é por causa da “democracia”.

Mas porque é que vota no PCP?

Sou totalmente fiel à minha condição. Não tenho qualquer ilusão sobre de onde venho, como fui sendo e agindo. E sou de tal modo fiel a isso e a convicções iniciais nunca perdidas, que posso não me interessar em particular pelo partido comunista, mas por certas ideias comunistas, mesmo aquelas que passaram primeiro pelos Bakunines, ou pelos comunistas utópicos, como o Charles Fourier, com o falanstério. Eu venho dessa família de socialistas idealistas, onde meto um certo comunismo inicial que nada tem a ver com o Estaline, se calhar nem com a revolução de Outubro, sabendo-se que a revolução de Outubro começou por assassinar os de facto socialistas, revolucionários.

Está mais próximo da minha condição e formação enquanto pessoa.
Isto tem que ver com as ideias e a minha integração num sítio.
A minha Lisboa é muito pequena. Falo dela como o meu Triângulo das Bermudas. A casa da Rua das Madres onde vejo, enquanto os arquitectos deixarem, a mesma nesga de rio que via quando era miúdo. Parece que o Norman Foster vai dar cabo disto. O tal muro de betão que uma certa Lisboa pôde fazer parar há meia dúzia de anos vai ser transferido simplesmente para o outro lado da 24 de Julho.
Aquilo é uma pequena aldeia, eu de manhã vou tomar o meu cafezinho ao mais pequeno estabelecimento do mundo, que é a Geninha, tenho lá a voz do bairro, o mulherame todo, sei logo tudo. Aquele português que lá se fala é do melhor Gil Vicente, nomeadamente as mulheres, e eu delicio-me. Reencontro aí uma língua portuguesa que é escusado estar a ler a Agustina.

Depois faço a Calçada do Combro a pé e estou na Lisboa do Chiado romântico, onde sempre trabalhei.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Q'UÉ QUE VAI NO PIOLHO?



CINCO DIAS, CINCO NOITES


de José Fonseca e Costa
com Vitor Norte, Paulo Pires, Ana Padrão, Canto e Castro, Teresa Roby, Miguel Guilherme

No próximo dia 21 de Maio, pelas 19,00 Horas, na Sala Félix Ribeiro, A Cinemateca vai exibir, Cinco Dias, Cinco Noites, filme de José Fonseca e Costa.

Do programa da Cinemateca:

Cinco dias, Cinco Noites adapta um romance de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal) numa revisitação dos anos quarenta portugueses e a uma história de resistência ao regime: a história de um fugitivo à polícia política que passa a fronteira a salto. O argumento é de Fonseca e Costa e Jennifer Field, a música de António Pinho Vargas. “Um filme é, em si mesmo, uma obra de arte. Com uma característica particular: a de que nele intervêm e se complementam para o resultado global muito diversas formas de criação artística. Tomar à partida a história de uma novela, mesmo que respeitando a sua mensagem fundamental não significa mera transposição da novela para o cinema. […] O filme "Cinco dias, cinco noites" poderá neste sentido justamente chamar-se um filme de Fonseca e Costa” (Álvaro Cunhal, Março de 1996).

terça-feira, 14 de junho de 2011

TERÇA FEIRA DA LADRA




“É terça-feira
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
de madrugada

E a rapariga
desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender
juras falsas
amargura
ilusões
trapos e cacos e contradições


É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração é incapaz de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz


É terça-feira
e a feira da ladra
quase transborda
de abarrotada


E a rapariga
vende tudo o que trazia
troca a tristeza
pela alegria


E todos querem
regateiam
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradições


É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz


É terça-feira
e a feira da ladra
fica enfim quieta
e abandonada
e a rapariga
deixou no chão um lamento
que se ergue e gira
e roda com o vento
e rodopia
e navega
e joga à cabra-cega
é de nós todos
e a ninguém se entrega


É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz”





Sérgio Godinho, “É Terça-Feira” é uma canção que faz parte da banda sonora do filme “Kilas, o Mau da Fita” de José Fonseca e Costa, 1980 e consta do álbum de Sérgio Godinho “Pano Cru”, 1981 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


No “Diário de Lisboa” de 1 de Abril de 1972, José Saramago  publicou um “Recado para Fonseca e Costa”:

Não vou muitas vezes ao cinema português. Desgostos sucessivos me afastaram de filmes que, por serem portugueses, deveriam falar da vida deste país e, portanto, de mim. Ora, quase sempre, se a minha teimosia e boa fé forçavam a resistência, aquilo que se passava diante dos meus olhos desolados não me dizia respeito, não era comigo. Agora que falo destas coisas, vem-me a vontade de dizer que a maior parte da produção cinematográfica nacional tem características eminentemente lunares: inerte, árida e (perdõe-se-me a ironia fácil) com buracos… Se, contra a opinião de Fonseca e Costa, gosto de “O Recado”, é porque este “tecnicamente imperfeito” filme não é inerte, não é árido e, quanto a buracos, não me lembro. A não ser aquele da parede da casa em ruínas onde Francisco é assassinado, aquele buraco por onde se vê o mar deserto e o céu vazio, enquanto fora dos nossos olhos um corpo sangra sem remédio e morre sem companheiro…
Algumas pessoas dirão que me mostro pouco exigente. Sou exigente. A prova de que o sou está precisamente, rigorosamente no facto de ter gostado do filme. Defeituosos apenas sofrivelmente interpretado, é preciso que haja neste filme algo de muito sério, de muito grave, de muito vital para nós, para poder resistir a esta exigência.
Sei muito bem que desloco do contexto e do sentido, ao citá-las aqui, estas palavras de Fonseca e Costa: “Foi um filme feito com muito medo”. Mas abuso delas decididamente para as modificar um pouco na forma e tudo no significado. Aqui está a minha versão: Foi um filme feito apesar do muito medo”. Mas fez-se. Ora (será preciso repeti-lo?) o que conta é precisamente o que se faz.