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domingo, 19 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


O meu pai foi um marxista-leninista. 

Nas nossas conversas entendia que eu, acima de tudo, deveria ler Marx e Engels. Por Marx ainda li o que se entenderia por fundamental, até porque, mais tarde, o João César Monteiro apareceu a dizer que no Marx está tudo, Lenine é que foi muito pouco. 

Este Manual de Marxismo-Leninismo, de diversos autores, - 2 volume num total de 739 páginas - foi comprado pelo meu pai no Festival Internacional do Livro e do Disco, realizado no Centro Cultural de Belém em 1977, traduzido por Carlos Grifo, revisto por Manuel Gusmão, editado por Novo Curso Editores, em Setembro de 1975, Venda Nova/Amadora:

«Só uma classe determinada, os operários urbanos e, em geral, os operários fabris, industriais, está em condições de dirigir todo o conjunto de trabalhadores e explorados na luta para derrubar o jugo do capital, no momento em que este é derrubado, na luta para manter e consolidar a vitória com o objectivo de criar um regime social novo, socialista, e em toda a luta pela total supressão das classes». Lenine, citado na página 239 do 2º volume.

Livros apenas folheados porque, como a carne é fraca, li mais Raymond Chandler, mas retive que, como ensinavam os clássicos do marxismo-leninismo,  a  revolução socialista leva os trabalhadores ao poder, dirigidos pela classe operária.

sexta-feira, 13 de março de 2026

PAISAGENS

o verão estende a sua sombra até aos joelhos

em que a luz se dobra: a isso chamávamos Outono

 

Na campânula do nevoeiro o plátano

incendeia a cinza: oiro e vermelho

inverosímeis como uma tempestade

eléctrica no écran da janela;

uma floração delirante do olhar

afectado pelo crepúsculo

recordado na paixão.

Depois

a água gris lavará tudo

excessivamente.

 

Manuel Gusmão  

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

APRENDE A FALAR

aprende a falar – diz

a rosa: escreve de noite

e que o meu múltiplo sol

te guie inúmeros

os caminhos, põe-te numa sala

com a luz apagada

onde chegue acesa

a de uma outra, e

frágil,

ao papel que para ela

voltas. então, falas

das paixões, da pétala

que cai no interior

do coração

e navega na sombra do

sangue,

de assombro em

assombro.


Manuel Gusmão

sexta-feira, 4 de abril de 2025

REOLHARES


A secção Reolhares, a propósito dos 15 anos deste Cais, em que decidimos copiar textos que por aqui foram publicados, também dizem respeito ao que já foi apresentado em Olhar as Capas.

É o caso de hoje.

Na Biblioteca da Casa encontramos duas edições de Nuno Bragança: a que foi apresentada em 20 de Fevereiro de 2015 e foi editada pela Morais Editora, volume nº 2 da Colecção Círculo de Prosa e esta, editada pela Assírio e Alvim, (Dezembro de 1985), volume nº 5 da Colecção A Phala.

Comprei a edição da Assírio, a um preço bem acessível, num vão de escada da Rua Edith Cavel, porque está enriquecida com um prefácio de Manuel Gusmão, a razão primeira é que se trata de um grande livro que fica muito melhor com um grande prefácio.

« Estive na Cidade e vi lá uma desagradável balbúrdia.

Eu estava no pátio em frente ao Tribunal; e estava a beber água porque tinha muita sede. Nisto, gritos, patadas e pedidos de socorro: tudo dentro de uma capelista. Quando vi um polícia magro a limpar o cacete à aba do casaco percebi que o sarilho era curioso, porque o polícia era magro (o que me pareceu muito curioso). Fui ver e tive custo em perceber o que a capelista me explicou em lágrimas de raiva.

Parece que um homem que estava a comprar tabaco zangou-se com a Justiça e declarou que se ia queixar ao Ministro. Mas também estava ali um advogado, e disse ao homem que aquilo era asneira grossa.

«Porquê?», perguntou o homem.

«Por causa da Independência Jurisdicional», disse o advogado.

«O que é que isso quer dizer?», perguntou o homem que não era letrado.

«Quer dizer que ninguém manda nos Tribunais porque eles mandam em si mesmos ou seja uns com os outros.»

A bofetada foi tão grande que meia hora depois o homem se queixava da mão.

Custou-me um bocado não pregar um par de murros na capelista.

Porque é que estes advogados não se contentam com falar nos tribunais? E sobretudo não há direito que uma capelista se ponha aos berros só por causa dum episódio corriqueiro.»

segunda-feira, 27 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


Ruy Belo: Coisas de Silêncio

Duarte Belo e Rute Figueiredo

Capa e fotografias: Duarte Belo

Textos: Luís Miguel Cintra, Manuel Gusmão, Rute Figueiredo

Assírio & Alvim, Lisboa, Junho de 2000

Reconhecemo-nos ainda. Gostamos do mar e da terra a céu aberto. Árvores, searas, pedras, montes. Da praia. Dos campos. Das igrejas. Das aldeias e das cidades com passado e com ruas muito grandes. Dos textos antigos. De cartas e postais. E dos livros. E do povo. Das procissões. Dos cafés. Do cemitério. De ir ao cinema. Ler o jornal. Mozart e Bach. Não sabemos pôr gravata. Ainda temos camisas aos quadrados e vestimos camisola. Não gostamos da manha e da astúcia. Somos pobres. Temos o sol e só o que nos toca o coração. Alguns amigos mais. E carregamos nos ombros o amor da vida toda e uma enorme saudade de Deus. Somos católicos. Acreditamos na alegria e na pureza. Sabemos que o homem é Deus feito carne.

Reconhecemo-nos. Somos assim generosos, é verdade. Sem esforço. E não vamos mudar. Não sei se somos um grupo nem seremos com certeza uma geração, somos uma maneira de ser. E na poesia do Ruy nos encontramos.

Sou e quero ser irmão ou herdeiro dessa gente. Como o Duarte, legitimamente. E reconheço nas fotografias do Duarte, como na poesia do Ruy, a passagem das nossas vidas, os lugares, as nossas casas, os objectos a que nos afeiçoámos ou demos sentido, a memória dos nossos corpos, dos nossos encontros, dos nossos grandes amores ou da nossa paixão. A minha casa. Reconheço também o meu pai. Mas reconheço sobretudo o espaço. Ou o tempo. «O Tempo Sim o Tempo Porventura». Estas fotografias, o seu pudor, são o retrato de uma ausência. São fotografias da morte. Violentas. O que resta de um cidadão, a mudança das idades, as coisas que tinha, os lugares onde esteve ou onde estava, a roupa que vestiu, o que ficou do que escreveu. São o retrato do tempo que foge, imenso. Mas mais ainda, tanto, o retrato do que falta. Falta a vida neste vazio, neste espaço que vai da terra ao céu. E esse espaço, esse vazio, é exactamente o espaço das palavras do Ruy. O espaço do que vive. Perante a morte, constantemente, nesse único momento que se confunde com a solidão mas abraça o mundo inteiro e que nos dá a nós a dimensão da vida. Tão imensa diante do tempo que talvez nem na paixão possa encontrar a sua desejada desmedida. Tão grande que convoca Deus. E já não sabemos de que ausência falamos.

Texto de Luís Miguel Cintra

sexta-feira, 26 de abril de 2024

OS DIAS LEVANTADOS

O 25 de Abril é um dia e são dias,

meses, anos. É daquelas datas

que se  constelam, que estão

antes de hoje, que hoje ecoam ainda,

e que tremulizarão no depois de hoje

como a memória de uma outra

possibilidade no conflito dos reais.

Porque foi um processo de irrupção

de imensas vozes e corpos

no teatro da história

tal como a fazemos.

Porque foi um processo de

transformação do nosso espaço-tempo

e das nossas formas de habitar.

Porque foi a liberdade e a

democracia como emancipação

Porque foi a política como poiesis.

 

Manuel Gusmão, autor do libreto para a ópera Os Dias Levantados de António Pinho Vargas sobre o 25 de Abril, estreada no Teatro São Carlos em 25 de Abril de 1998.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

UMA OUTRA MANEIRA DE IRMOS FICANDO MAIS POBRES...

 

Ainda a morte do poeta Manuel Gusmão ocorrida no dia 9 de Novembro.

Um outro poeta, Luís Filipe Castro Mendes: lamentando, nos dias que correm, a não presença física de Manuel Gusmão:

«Grande poeta, com poemas que iluminarão sempre os nossos caminhos, ele foi também um crítico e ensaísta de primeira água, um professor que marcou gerações de jovens com o seu saber e o seu estímulo e uma voz culta e serena, sem nunca deixar de estar aliada às forças de progresso e emancipação.

Perdemos um dos maiores da nossa geração!»

E mais um poema de Manuel Gusmão:

Revolução orbital: vai-se a rosa transformando
na coisa múltipla, amante e amada, na acção
que assim a faz e nos acidentes mínimos – paisagens,
estações dos dias e das noites, dos anos da história.
Ondula no cérebro a fronteira que as margens da luz
desenham. E a rosa é uma hélice que vibra
no ar que a respirar obriga(s): torção dos pulmões,
do tronco e do sexo, dos nomes e dos vocativos
que se respondem: como um coração que deflagra
a rosa faz do ar que te falta a terra de onde nasces
e o chão sobre que danças.

 

Legenda: fotografia de Luís Eme

terça-feira, 31 de outubro de 2023

E O QUE TE DIZ ELA A TI...

E o que te diz ela a ti … essa canção
que só pode ser ouvida por quem
na sua própria voz cantando a escuta?
– Nada lhe peço que me diga Apenas
que venha que continue a chegar
até mim com a sua morte a viver
oferecida viva e sem remédio.

E há então… uma tal soturna idade
uma tão violenta doçura… agora
que para sempre… por momentos
adia o meu morrer.

Manuel Gusmão

terça-feira, 17 de outubro de 2023

VARIAÇÕES DO BRANCO

Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora

em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco

parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

 

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

 

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente

mas que a humidade salina já a espaços mordeu,

recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

 

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

 

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa

rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta

ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

 

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.

Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso

que guarda e distribui a memória embaciada do azul

e do verde, do oiro e da prata — uma lembrança vã.

 

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

 

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como

se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –

e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

 

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia

enquanto esperas por alguém que não virá

 

Manuel Gusmão

quinta-feira, 30 de março de 2023

A TUA MÃO

A tua mão conhecia outros gestos, como

contactos com matérias mais pesadas. Outras

formas mais duras e elásticas: corpos

atómicos, em relevo nas margens da luz,

estremecendo crepitantes.

Manuel Gusmão em Resumo: a poesia em 2013

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

PÔE UMA PEDRA

Põe uma pedra
uma pedra sobre a infância
Para que de vez se cale essa respiração
contida suspensa no escuro
Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre
essa infância essa fala ininterrupta essa
falagem que falha e promete e inventa
os sonhos e as promessas e o riso sem porquê
Para que de vez se interrompa a esperança esse
mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:
Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa
que é a infância, as vozes da noite no poço.
Apaga a infância isso que falta sempre à chamada
e para sempre trocou já os desejos e os medos.


Manuel Gusmão

domingo, 15 de maio de 2022

OLHAR AS CAPAS


Uma Paixão Inocente

João Miguel Fernandes Jorge

Capa: João Botelho

Edições Cotovia, Lisboa Dezembro de 1989

Conheci Ruy Belo em 1989, após ter publicado os meus primeiros poemas. Um dia, durante um almoço na cantina da Cidade Universitária, Ruy Belo apareceu-me à frente com o tabuleiro da sua refeição. Vinha com ele o Manuel Gusmão, seu colega de curso, que tinha sido quem me publicara dois poemas na revista O Tempo e o Modo.

O Manuel Gusmão disse-me: «O Ruy Belo quer conhecer-te, pois gostou dos teus poemas e falou deles para o Km Zero. Tratava-se de uma folha literária do jornal de Castelo Branco, na qual acabaria por publicar alguns poemas.

A partir desse almoço fomos ficando amigos. Uma amizade que acabaria por perdurar. Por sua sugestão, levou o meu primeiro livro para a Moraes Editores e escreveu o prefácio desse livro.

Ruy Belo era um homem justo, profundamente bondosos. E era, sobretudo, um homem de grande saber.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

UMA PEDRA NA INFÂNCIA

Põe uma pedra

uma pedra sobre a infância

Para que de vez se cale essa respiração
contida suspensa no escuro

Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre
essa infância essa fala ininterrupta essa

falagem que falha e promete e inventa
os sonhos e as promessas o riso sem porquê

Para que de vez se interrompa a esperança esse
mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:

Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa
que é a infância, as vozes da noite do poço.

Apaga a infância isso que falta sempre à chamada
e para sempre trocou já os desejos e os medos.

Já não vais a tempo, ela enredou sem remédio
as vidas os nomes a tua condenação. Mas vai.

Para que se cale de vez essa respiração que se ri
na cara da morte, nos olhos do enviado de deus

recita o que o ditado ditou: Põe uma pedra sobre
a infância e ouve a era a folhagem que cobrem

o céu em ruínas.

Também então havia uma pedra no canto do quarto
Alio onde a noite começava, era uma pedra e depois
crescia, petrificava-se no seu coração de pedra
dividia-se e eram várias crescendo; ocupando
todo o espaço do sono, do sonho do mundo.
Pesavam no teu peito procuravam-te os olhos
que de pedra ficavam e o grito era uma pedra
que na garganta subia contra a outra pedra.
O próprio ar golpeado era e dividia a voz
pedra contra pedra, o deserto a perder de vista.

Põe uma pedra sobre outra pedra. Inventa uma
outra infância de que possas recordar-te.
Obedeces ao poema e é sem espanto que vês:
nada acontece. Não há

nenhuma voz na voz dos condenados.

Manuel Gusmão

segunda-feira, 25 de abril de 2022

NO IMPONDERÁVEL AZUL CELESTE


 É, andei por aí.

 Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem sido assim esta vida. E houve aquele dia, 25 de Abril de 1974.

 Dizem que por um Abril houve uma revolução, outros dizem que houve um golpe de estado, outros ainda que houve uma abrilada, sucederam coisas gritadas nas ruas, outras soavam nas sombras clandestinas.

 Na escola disseram aos miúdos que tinham que ir para casa, estava a acontecer qualquer coisa em Lisboa.

 Que comemoramos hoje? Que resta daquele dia?

 O chefe de redacção telefonou ao repórter, gritou-lhe: Salta da cama. A Revolução está na rua e é precisos escrevê-la!

 Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que hoje não posso ver nenhum sinal, daquilo que o 25 de Abril trouxe.

 Podemos saudar o desespero que nos invadiu perante algo que falhou?

 Estragaram a tua festa pá!, cantaram no outro lado do Atlântico.

 Houve quem dissesse que as revoluções são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, e quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

 O 25 de Abril é um dia e são dias. É daquelas datas que se constelam que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje.

 Quase sem darmos por isso, milhares de pessoas invadiram as ruas, ofereceram pão e cravos aos soldados, deram as mãos, sorriram, dos olhos saltavam sonhos e esperanças.

 Alguém perguntou como era possível tanta e tanta gente quando meses antes, semanas antes, dias antes, eram tão poucos aqueles que apareciam para escrever palavras de ordem nas paredes da cidade, colar cartazes, distribuir uns panfletos impressos a stencil…

 Será a memória curta? Apaga-se com facilidade?

 O apagamento de memória é chocante.

 Deste dia até ao 1º de Maio, é provável que muitos devem ter dormido, mas não se lembram bem. Uma semana de loucura já ninguém me tira, posso não ser feliz mas poucos chegaram tão perto disso a que chamam felicidade.

 É preciso ter vivido os anos terríveis, o tempo do desprezo, um tempo de ratazanas, para que aquele dia tivesse sido o que foi, um navio de sonho, uma nave de loucos, protagonistas duma enorme esperança, depois figurantes de um grande desencanto.

 Terá sido assim há tanto tempo?

 A ditadura acabou por ser derrubada por militares que antes desprezávamos.

 Dezassete horas e 45 minutos bastaram para abater um regime que oprimiu o povo português durante 47 anos, 10 meses, 34 dias e algumas horas.

 Teremos feito tudo para que as novas gerações fossem mais felizes?

 Vale a pena assinalar a data quando nos esquecemos de ensinar a importância que aquele dia nos trouxe? Olham-se as pessoas de hoje, os jovens de hoje, formam um grupo largo e variado mas, olhando bem, estamos todos muito mal no retrato de conjunto…

 Algures, numa dobra da história, alguma coisa falhou. O cantor, de viola às costas, acabou por dizer que houve alguém que se enganou.

 A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém.

 Naqueles dias, quase poderíamos dizer que a paisagem mudara para sempre.

 As paisagens até podem mudar, o resto… o resto… o resto… é uma chatice… um busílis de questão…

 O escritor perguntava e respondia: para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar.

 Um dia voltaremos a encontrar-nos todos no imponderável azul celeste.

 E recomeçamos a busca dum país liberto, duma vida limpa e dum tempo justo.

 Mas será que ainda verei alguém desenhar os nomes daqueles que, na sombra, nos lixaram a festa?

 

Montagem concedida com textos de:

 Jorge Silva Melo, Virgílio Martinho, Baptista-Bastos, José Saramago, Rui Cardoso Martins, Chico Buarque, Manuel António Pina, Manuel Gusmão, Rodrigues da Silva, João Gobern, José Mário Branco, Eduardo Galeano, Mário Dionísio, Cristina Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

Legenda: pintura de Vieira da Silva

quarta-feira, 20 de abril de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO

Um assunto para ser tratado com pinças e,mesmo assim, como lembra Saramago em Abaladas Espingardas,  há que ter o cuidado de as pinças estarem desinfectadas.

Pode-se não concordar com as ideias, a política, o que quer que seja, do Partido Comunista Português mas esta capa do Público de 17 de abril, é simplesmente miserável.

Não há nada, mas mesmo nada, que permita perceber o que a direcção do jornal, quis com esta capa.

Outro motivo não existe senão o achincalhamento do Partido.

Os biltres que poiaram esta capa, desconhecem que ideias, sejam elas quais forem, se combatem com palavras.

O poeta Manuel Gusmão:

«Ser comunista, hoje, é lutar contra a injustiça social; é acreditar no fim do Estado; é querer o fim da luta de classes; é acreditar na igualdade entre todos; é querer o fim da exploração da humanidade; é acabar com a propriedade. Marx, para alguns, ainda está vivo, até nas universidades americanas. Mas 90 anos depois, nada disto pode ser separado da democracia. Porque não se pode ver a floresta sem se ver as árvores, todas e cada uma.»

Ou José Saramago, num velho dia, a responder à jornalista brasileira Marília Gabriela, espantada pela sua fidelidade ao Partido:

«Não há outra coisa!...»

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


«Vou de uma palavra a outra que entretanto mudou

e já não sei como voltar à primeira.»

Manuel Gusmão 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

OLHAR AS CAPAS


Soeiro Pereira Gomes: Na Esteira da Liberdade
Catálogo da Exposição do Centenário
7 de Novembro de 2009 a 14 de Março de 2010

Coordenador: David Santos
Textos:
Marta da Luz Rosinha
David Santos
Luísa Duarte Santos
Manuel Gusmão
Capa: Júlio Miguel Rodrigues
Edição da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira/Museu do Neo-Realismo
Vila Franca de Xira, Novembro de 2009

Precisamente três meses antes de morrer, escreve as suas disposições testamentárias que entrega ao seu irmão Jaime Pereira Gomes:

«As minhas últimas disposições
Prevendo que pouco tempo terei de vida, expresso aqui as minhas últimas disposições. Peço ao meu querido irmão Jaime que as ponha em prática.
1 -  Os direitos de autor do meu romance Esteiros, assim como de quaisquer outras publicações minhas, ficarão a pertencer ao meu partido – o Partido Comunista Português.
2 - O manuscrito e as cópias do meu romance inédito Engrenagem ou Embate serão destruídas, por não lhe achar mérito bastante para ser publicado.
3 - Aos meus sobrinhos João Paulo e José Pedro será dada metade da minha
 corrente de ouro. A medalha da mesma ficará para a minha mulher.
4 - O meu irmão Jaime ficará com a minha cigarreira de prata, e os meus    
outros irmãos e irmãs poderão escolher, entre os meus fracos trastes,
 qualquer lembrança.
 5 - Ao meu afilhado (o filho do escritor Alves Redol) será entregue um pequeno talher de prata que está num estojo, e também a minha caneta e lapiseira.
 6 - Os meus botões de punho serão entregues à camarada Carlota. À camarada Margarida será dado o meu relógio de pulso, se, antes, não lhe tiver oferecido um novo.
7 - Os meus livros serão entregues, em partes equivalentes, às bibliotecas do Alhandra Sporting Club e Sociedade Euterpe Alhandrense, excepto os livros de técnica agrícola, a que o Partido dará o destino que entender,
                                               Em 5 de Setembro de 1949

                                       Joaquim Soeiro Pereira Gomes»

sexta-feira, 1 de março de 2019

POSTAIS SEM SELO


O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez.

Manuel Gusmão 

domingo, 17 de fevereiro de 2019

ETECETERA


O poeta e professor universitário Manuel Gusmão recebeu a Medalha de Mérito Cultural como reconhecimento do Governo português.

Discurso de Graça Fonseca, Ministra da Cultura:

«Há conjugações perfeitas como esta, de estar aqui neste lugar quase mágico, quase ficção, que é a Biblioteca do Palácio da Ajuda e prestar homenagem a um poeta e ensaísta como Manuel Gusmão, que certamente não levará a mal que o caracterize também como uma biblioteca, tanto de si mesmo, como de nós enquanto linguagem e poesia. Mas há também lugares ingratos e um deles é encerrar esta cerimónia e colocar as minhas palavras depois das de Manuel Gusmão, tão bem e tão musicalmente lidas por Fernanda Lapa e Ana Gusmão. O que me cumpre, assim postas as coisas, é reconhecer o óbvio e declarar esta medalha como aquilo que ela pode representar face a um autor como Manuel Gusmão. Ela não vem afirmar o mérito cultural de um poeta em que os séculos de tradição são convocados para criar um depoimento singular e incisivo sobre os dois séculos em que viveu. O mesmo sobre um professor e ensaísta lúcido, dedicado e que criou, nos seus textos, formas e pontes de leitura dos grandes autores da poesia portuguesa do século XX, muitos deles seus pares e contemporâneos, como Herberto Helder e Carlos de Oliveira. Se as palavras pouco podem, quanto mais as medalhas. Prefiro, a tudo isto, olhar para esta medalha como uma homenagem ao poeta Manuel Gusmão e, através dos seus textos, à grande literatura portuguesa do século XX e aos seus pares, a José Gomes Ferreira, a Carlos de Oliveira, a Nuno Bragança, a José Cardoso Pires, entre tantos outros. Digo-o porque tanto enquanto autor, como crítico ou investigador, o diálogo fez parte da forma poética de Manuel Gusmão, na procura de beleza como uma exultação comunicável e partilhável. Termino evocando uma poderosa associação de conceitos que Manuel Gusmão utilizou para dar título a um dos seus livros de ensaios: tatuagem e palimpsesto. Esta condição paradoxal de permanência e reescrita, de perenidade e reutilização, que não deixa de ser testemunhada por estas estantes que nos rodeiam, parece-me encerrar muito do percurso poético, autoral e pessoal que hoje homenageamos. O que me resta é, agora, reconhecer tudo isto e agradecer a Manuel Gusmão por dignificar, com o seu nome, este mérito cultural que não se reconhece, mas que se diz, tal como a poesia, até contra as evidências. Somos todos, por assim dizer, bibliotecas, mas uns têm a sorte de dedicar toda uma vida à Biblioteca, agora com maiúscula».

Um poema de Manuel Gusmão:

E o que te diz ela a ti … essa canção
que só pode ser ouvida por quem
na sua própria voz cantando a escuta?
– Nada lhe peço que me diga Apenas
que venha que continue a chegar
até mim com a sua morte a viver
oferecida viva e sem remédio.
E há então… uma tal soturna idade
uma tão violenta doçura… agora
que para sempre… por momentos
adia o meu morrer.

QUOTIDIANOS

1.

O nível cultural, intelectual da maioria dos nossos juízes não se recomenda.

Também podemos sobre Direito, duvidar do que andaram eles a aprender na Faculdade.

Há dezenas de casos de péssimas atitudes e decisões de juízes, mas peguemos nesta.

Uma advertência registada foi a pena disciplinar aplicada a Neto de Moura, juiz do Tribunal da Relação do Porto que desvalorizou uma agressão grave praticada pelo marido contra a “mulher adúltera”, num acórdão de Outubro de 2017.

O Conselho Superior da Magistratura determinou essa pena disciplinar com apenas quatro votos, tendo sido necessário ao presidente usar o voto de qualidade. Outros quatro membros do conselho defenderam a aplicação de uma pena de multa e os sete que votaram a favor do arquivamento do caso optaram pela abstenção. Numa anterior decisão igualmente controversa – oito votos a favor e sete contra - o órgão de tutela dos juízes recusou arquivar o caso, como sugeria o conselheiro que analisou o processo.


Recorde-se que o citado juiz nos dois acórdãos de 2017 que fundamentaram a abertura do processo disciplinar de que foi alvo (foram detectadas outras decisões do mesmo autor, mais antigas, com argumentações semelhantes, mas a responsabilidade disciplinar por aquelas já havia prescrito), o juiz desembargador do Tribunal da Relação do Porto apelida as vítimas de adúlteras, mentirosas, falsas e desleais, cita a Bíblia, invoca costumes religiosos e tradições que as punem com a morte ou normas legais de antanho que permitiam aos maridos o direito de as matar.

O advogado do desembargador Neto de Moura diz que o juiz irá recorrer da advertência para o Supremo Tribunal de Justiça.

2.

O que se vai conhecendo sobre  a gestão dos diversos Conselhos de Gerência da Caixa Geral de Depósitos, são uma vergonha,

Luís Marques no Expresso: