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quinta-feira, 16 de julho de 2026

LEDA SERENIDADE DELEITOSA

Leda serenidade deleitosa,
que representa em terra um paraíso;
entre rubis e perlas doce riso;
debaixo de ouro e neve cor-de-rosa;

presença moderada e graciosa,
onde ensinando estão despejo e siso
que se pode por arte e por aviso,
como por natureza, ser formosa;

fala de que ou já vida, ou morte pende
rara, suave; enfim, Senhora, vossa;
repouso na alegria  comedido:

Estas as armas são com que me rende
e me cativa Amor; mas não que possa
despojar-me da glória de rendido.

Luís de Camões em Sonetos

domingo, 14 de junho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 Neste domingo, juntamos mais algumas canções construídas com versos de Luís de Camões e salientamos a galega Uxia cantando Verdes são os Campos.

Voltamos a lembrar as poucas manifestações de não concordância na ideia de Alain Oulman pôr artistas a cantar Luís de Camões:

«Quando, em Outubro de 1965, a cidadã Ivone Maneiras teve conhecimento que Amália Rodrigues publicara um disco a cantar Luís de Camões, escreveu uma carta ao Director do Diário Popular.

O vespertino aproveitou a carta para fazer um inquérito a algumas personalidades.

Já nos referimos à opinião de José Gomes Ferreira.


Passados todos estes anos, consigo compreender a posição do poeta mas não concordo com ela. Aliás, José Gomes Ferreira teve para com Luís Cília uma posição de desagrado com as músicas que Cília fez para poemas seus.

A talhe de foice, e por mera curiosidade, publicamos uma carta patética de um colaborador de A Voz, jornal católico, monárquico e salazarista, sobre a lírica de Camões e a voz de Amália.

O recorte pertence à edição de 16 de Fevereiro de 1966»:





sábado, 13 de junho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Pelo menos, uma vez por ano, fala-se de Luís de Camões.

Cantar os nossos poetas sempre deu algum falar por aqui.

Em Março de 2019, publicámos no Cais do Olhar este texto e amanha voltaremos ainda a este tema:


«Há uma Amália antes e depois de Alain Oulman.

Não sou dado a grandes conhecimentos da matéria, mas se assim penso assim, escrevo.

Quando, em Outubro de 1965, Alain Oulman musicou poemas de Camões para a voz de Amália, Amália Canta Camões, os intelectuais tiveram reacções diversas.

José Gomes Ferreira não concordou e respondeu assim ao Diário Popular:

«Não estou disposto a ouvir. Não quero ouvir. Mas acho mal. Existem obras-primas da música portuguesa, como por exemplo, “Os Madrigais”, de Luís de Freitas Branco, inspiradas em poesias de Camões. Claro que também existiu a Engraxadoria Camões. Para cada um - seu paladar».

Se bem que tenha um número bem razoável de poemas seus musicados, José Gomes Ferreira nunca simpatizou com a ideia.

A excepção é o trabalho com Fernando Lopes Graça.

A tal ponto que, em 28 de Setembro de 1970, enviou à Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais a seguinte carta:

«De regresso de férias, encontrei a vossa carta de 21 de Setembro de 1970 a que me apresso a responder, com os meus melhores cumprimentos.

O pedido de autorização ao sr. José António Matildes para musicar o meu poema de Poesia III, “Ó pinheiro verdadeiro” honra-me muito, mas infelizmente não posso conceder-lha por motivo de “princípios estéticos” pois discordo inteiramente da chamada música ligeira quando adaptada aos meus versos, escritos sem essa intenção.

Claro que esta recusa nada tem de pessoal. Peço-lhe até que explique ao Sr. José António Matildes que as canções e as baladas aparecidas recentemente na rádio e em discos com versos meus são todas clandestinas, feitas sem a minha autorização. Ao Sr. José António Matildes devo, pelo menos, essa delicadeza que muito me sensibilizou.

Em resumo: incito-o a fazer a música que lhe apetecer sem me pedir licença!»

Em contraste, é interessante ir buscar o exemplo de António Gedeão que, nas suas Memórias, escreve que muito deve a Manuel Freire e às músicas que fez para poemas seus:

 «Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»




quarta-feira, 10 de junho de 2026

OH! NÃO ME FUJAS!

Oh, não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura!
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da Fortuna a força dura.
Que imperador, que exército se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo?
O que tu só farás, não me fugindo.
 
Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que, nesses fios de ouro reluzente,
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?
 
Nesta esperança te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou na virtude de teu gesto lindo
Lhe mudarás a triste e dura estrela!
E se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E se me esperas, não há mais que espere!»
 
Já não fugia a bela Ninfa tanto,
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas lhe dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso de alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.
 
Oh, que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

Excerto do Canto IX de Os Lusíadas

terça-feira, 9 de junho de 2026

NUM BOSQUE QUE DAS NINFAS SE HABITAVA

Num bosque que das ninfas se habitava,

Sibela, ninfa linda, andava um dia;

E, subida em uma árvore sombria,

as amarelas flores apanhava.

 

Cupido, que ali sempre costumava

a vir passar a sesta à sombra fria,

em um ramo o arco e setas que trazia,

antes que adormecesse, pendurava.

 

A ninfa, como idóneo tempo vira

para tamanha empresa, não dilata,

mas com as armas foge ao Moço esquivo.

 

As setas traz nos olhos, com que tira.

Ó pastores! fugi, que a todos mata,

senão a mim, que de matar-me vivo.


Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 8 de junho de 2026

ESTÁ O LASCIVO E DOCE PASSARINHO

Está o lascivo e doce passarinho

co o biquinho as penas ordenando,

o verso sem medida, alegre e brando,

despedindo no rústico raminho.

 

O cruel caçador que do caminho

se vem, calado e manso desviando,

com pronta vista a seta endireitando,

lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

 

Desta arte o coração, que livre andava

-posto que já de longe destinado -,

onde menos temia, foi ferido;

 

porque o Frecheiro cego me esperava,

para que me tomasse descuidado,

em vossos claros olhos escondido.

Luís de Camões em Sonetos

quarta-feira, 20 de maio de 2026

NO MUNDO POUCOS ANOS

No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me tão cedo a luz do dia escura,
que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, não quer ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
pátria minha Alenquer; mas ar corruto
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Abássia fera e avara,
tão longe da ditosa pátria minha!

Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 27 de abril de 2026

EM PRISÕES BAIXAS

Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me questava assi ordenado.

Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.

Mas minha estrela, que eu jágora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.

Luís de Camões em Sonetos

quinta-feira, 9 de abril de 2026

DAI-ME UMA LEI

Dai-me uma lei, Senhora, de querer-vos,
por que a guarde, sob pena de enojar-vos;
pois a fé, que me obriga a tanto amar-vos,
fará que fique em lei de obedecer-vos.

Tudo me defendei, senão só ver-vos
e dentro na minha alma contemplar-vos;
que, se assi não chegar a contentar-vos,
ao menos que não chegue a aborrecer-vos.

E, se essa condição cruel e esquiva
que me deis lei de vida não consente,
dai-ma, Senhora, já, seja de morte.

Se nem essa me dais, é bem que viva
sem saber como vivo, tristemente,
mas contente porém de minha sorte.

Luís de Camões em  Sonetos

terça-feira, 3 de março de 2026

DOCE SONHO, SUAVE E SOBERANO

Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano,
se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
pois sempre nas verdades fui mofino.

 

Luís de Camões em Sonetos

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

QUANDO, SENHORA QUIS AMOR QUE AMASSE

Quando, Senhora, quis Amor que amasse
essa grã perfeição e gentileza,
logo deu por sentença que a crueza
em vosso peito amor acrescentasse.

Determinou que nada me apartasse:
nem desfavor cruel, nem aspereza;
mas que em minha raríssima firmeza
vossa isenção cruel se executasse.

E pois tendes aqui oferecida
esta alma vossa a vosso sacrifício,
acabai de fartar vossa vontade.

Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida;
acabará morrendo em seu ofício,
sua fé defendendo e lealdade.

Luís de Camões em Sonetos

terça-feira, 23 de setembro de 2025

MEMÓRIA DE MEU BEM

Memória de meu bem, cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus Fados,
deixai-me descansar com meus cuidados
nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
dos sucessos, que espero, infortunados;
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi nüa hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
leixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabe a vida nestes ermos,
que neles com meu mal acabarei
mil vidas, não ua só, dura memória!

 

Luís de Camões em Sonetos

terça-feira, 22 de julho de 2025

BUSQUE AMOR NOVAS ARTES

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luís de Camões em Sonetos

terça-feira, 10 de junho de 2025

MUDAM-SE OS TEMPOS , MUDAM-SE AS VONTADES

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

Luís de Camões em Sonetos

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

QUAL TEM A BORBOLETA POR COSTUME

Qual tem a borboleta por costume,

que, enlevada na luz da acesa vela,

dando vai voltas mil, até que nela

se queima agora, agora se consume,

 

tal eu correndo vou ao vivo lume

desses olhos gentis, Aónia bela ;

e abraso-me, por mais que com cautela

livrar-me a parte racional presume.

 

Conheço o muito a que se atreve a vista,

o quanto se levanta o pensamento,

o como vou morrendo claramente;

 

porém, não quer Amor que lhe resista,

nem a minha alma o quer, que em tal tormento,

qual em glória maior, está contente.

 

Luís de Camões em Sonetos

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

DOCES LEMBRANÇAS DA PASSADA GLÓRIA

Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz uma hora,
que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho na alma a larga história
deste passado bem que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro de esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.


Luís de Camões em Sonetos

terça-feira, 23 de julho de 2024

TANTO DE MEU ESTADO ME ACHO INCERTO

Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando,
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.

 

Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 17 de junho de 2024

LINDO E SUBTIL TRANÇADO

Lindo e subtil trançado, que ficaste
em penhor do remédio que mereço,
se só contigo, vendo-te, endoideço,
que fora cos cabelos que apertaste?

Aquelas tranças de ouro que ligaste,
que os raios do Sol têm em pouco preço,
não sei se para engano do que peço,
se para me matar, as desataste.

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
e por satisfação de minhas dores
como quem não tem outra, hei-de tomar-te.

E, se não for contente o meu desejo,
dir-lhe-ei que, nesta regra dos amores,
por o todo também se toma a parte.

Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 10 de junho de 2024

TRANSFORMA-SE O AMADOR NA COUSA AMADA

Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois com ele tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semi-deia,
que, como o acidente em seu sujeito,
assim como a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como matéria simples busca a forma.

Luís de Camões em Soneto

terça-feira, 28 de maio de 2024

ALEGRES CAMPOS, VERDES ARVOREDOS

Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;

silvestres montes, ásperos penedos,
compostos em concerto desigual,
Sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regar-vos-ei com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.

 

Luís de Camões em Sonetos