Neste
domingo, juntamos mais algumas canções construídas com versos de Luís de Camões
e salientamos a galega Uxia cantando Verdes são os Campos.
Voltamos
a lembrar as poucas manifestações de não concordância na ideia de Alain Oulman
pôr artistas a cantar Luís de Camões:
«Quando,
em Outubro de 1965, a cidadã Ivone Maneiras teve conhecimento que Amália
Rodrigues publicara um
disco a cantar Luís de Camões, escreveu uma carta ao Director do Diário
Popular.
O vespertino aproveitou a
carta para fazer um inquérito a algumas personalidades.
Passados todos estes anos,
consigo compreender a posição do poeta mas não concordo com ela. Aliás, José
Gomes Ferreira teve para com Luís Cília uma posição de desagrado com as músicas
que Cília fez para poemas seus.
A talhe de foice, e por
mera curiosidade, publicamos uma carta patética de um colaborador de A
Voz, jornal católico, monárquico e salazarista, sobre a lírica de Camões e
a voz de Amália.
O recorte pertence à edição
de 16 de Fevereiro de 1966»:
Pelo
menos, uma vez por ano, fala-se de Luís de Camões.
Cantar os nossos poetas sempre deu algum falar por aqui.
Em
Março de 2019, publicámos no Cais do Olhar este texto e amanha
voltaremos ainda a este tema:
«Há uma Amália antes e depois de Alain Oulman.
Não sou dado a grandes conhecimentos da matéria, mas se
assim penso assim, escrevo.
Quando, em Outubro de 1965, Alain Oulman musicou poemas de
Camões para a voz de Amália, Amália Canta Camões, os intelectuais tiveram
reacções diversas.
José Gomes Ferreira não concordou e respondeu assim ao Diário Popular:
«Não estou disposto a ouvir. Não quero ouvir. Mas acho
mal. Existem obras-primas da música portuguesa, como por exemplo, “Os
Madrigais”, de Luís de Freitas Branco, inspiradas em poesias de Camões. Claro
que também existiu a Engraxadoria Camões. Para cada um - seu paladar».
Se bem que tenha um número bem razoável de poemas seus musicados, José Gomes
Ferreira nunca simpatizou com a ideia.
A tal ponto que, em 28 de Setembro de 1970, enviou à
Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais a seguinte carta:
«De regresso de férias, encontrei a vossa carta de 21 de
Setembro de 1970 a que me apresso a responder, com os meus melhores
cumprimentos.
O pedido de autorização ao sr. José António Matildes para
musicar o meu poema de Poesia III, “Ó pinheiro verdadeiro” honra-me muito, mas
infelizmente não posso conceder-lha por motivo de “princípios estéticos” pois
discordo inteiramente da chamada música ligeira quando adaptada aos meus
versos, escritos sem essa intenção.
Claro que esta recusa nada tem de pessoal. Peço-lhe até
que explique ao Sr. José António Matildes que as canções e as baladas
aparecidas recentemente na rádio e em discos com versos meus são todas
clandestinas, feitas sem a minha autorização. Ao Sr. José António Matildes
devo, pelo menos, essa delicadeza que muito me sensibilizou.
Em resumo: incito-o a fazer a música que lhe apetecer sem
me pedir licença!»
Em contraste, é interessante ir buscar o exemplo de
António Gedeão que, nas suas Memórias, escreve
que muito deve a Manuel Freire e às músicas que fez para poemas seus:
«Suponho que foi pela sua actuação que a
minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»
Oh, não me fujas! Assi
nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura!
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da Fortuna a força dura.
Que imperador, que exército se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo?
O que tu só farás, não me fugindo.
Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que, nesses fios de ouro reluzente,
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?
Nesta esperança te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou na virtude de teu gesto lindo
Lhe mudarás a triste e dura estrela!
E se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E se me esperas, não há mais que espere!»
Já não fugia a bela Ninfa tanto,
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas lhe dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso de alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.
Oh, que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
Dai-me uma lei, Senhora, de querer-vos,
por que a guarde, sob pena de enojar-vos;
pois a fé, que me obriga a tanto amar-vos,
fará que fique em lei de obedecer-vos.
Tudo me defendei, senão só ver-vos
e dentro na minha alma contemplar-vos;
que, se assi não chegar a contentar-vos,
ao menos que não chegue a aborrecer-vos.
E, se essa condição cruel e esquiva
que me deis lei de vida não consente,
dai-ma, Senhora, já, seja de morte.
Se nem essa me dais, é bem que viva
sem saber como vivo, tristemente,
mas contente porém de minha sorte.
Memória de meu bem,
cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus Fados,
deixai-me descansar com meus cuidados
nesta inquietação de meus amores.
Basta-me o mal presente e os temores
dos sucessos, que espero, infortunados;
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.
Perdi nüa hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
leixai-me, pois, lembranças desta glória.
Cumpre acabe a vida nestes ermos,
que neles com meu mal acabarei
mil vidas, não ua só, dura memória!
Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz uma hora,
que comigo ganhais pouca vitória.
Impressa tenho na alma a larga história
deste passado bem que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.
Vivo em lembranças, mouro de esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.
Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.