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quarta-feira, 2 de outubro de 2024

IN MEMORIAN AUGUSTO M. SEABRA


Crítico de cinema e música com intervenção em variadíssimas outras áreas, Augusto M. Seabra deixou marca indelével no espaço da crítica das artes em Portugal ao longo do último meio século. Tendo começado pela crítica musical no jornal A Luta, em 1977, prática que nunca deixou, foram os seus textos sobre cinema que tiveram maior alcance, tendo feito parte da equipa de críticos de jornais como o Expresso nos anos 1980 e sido um dos fundadores do Público.

Como crítico de cinema, foi sempre alguém interessado em conciliar a atenção à vertente popular desta arte, o legado das épocas clássicas (em 1982, por exemplo, chamou ao E.T. de Steven Spielberg, em texto no Expresso aquando da estreia mundial do filme em Cannes, O Filme do Nosso Deslumbramento) com a descoberta e defesa das cinematografias ditas “periféricas”, fora do eixo Europa/América. Em Portugal, foi assim um dos críticos mais ativos na divulgação dos cinemas das várias regiões da Ásia, incluindo China continental, Japão, Hong Kong, Taiwan, Filipinas ou Índia, e mais tarde também do Irão (tendo sido, certamente, dos primeiros a chamar a atenção para Abbas Kiarostami). A atividade de crítico levou-o à função de jurado em diversos festivais internacionais de cinema, sendo aqui de destacar a sua presença no festival de Cannes de 1993.

A tudo isto juntou-se então a atividade de programador, que encarou como um prolongamento do trabalho na crítica. Dois exemplos entre muitos: em meados dos anos 1990 foi responsável pela programação de cinema de um acontecimento importante no panorama cultural da Lisboa de meados dos 90, uma espécie de festival multidisciplinar que levou o título genérico de “Mistérios de Lisboa”; mais recentemente, foi durante vários anos programador do Doclisboa, onde animou a secção “Riscos”, destinada a interrogar, de forma sempre estimulante, várias franjas da produção mundial na órbita do “cinema do real”, entre a pura experimentação formal e a exploração, por exemplo, de registos diarísticos e autobiográficos.
Last but not the least, impõe-se lembrar que, enquanto crítico, Augusto M. Seabra foi para além do horizonte mais habitual desta prática. Com frequência, os seus textos ultrapassaram em muito o domínio estrito da análise de obras ou espetáculos, transformando-se em reflexões continuadas sobre o papel das instituições e da política cultural no nosso país. A esse outro nível, a sua intervenção foi mais uma vez feita de conhecimento, memória, ponto de vista, e, o que não é nada despiciendo, raro espírito de independência, nunca poupando a priori quaisquer entidades, grupos ou instituições - disso não se excluindo a Cinemateca.
Presença regular na Cinemateca, Augusto M. Seabra foi homenageado na Cinemateca em junho de 2021 com uma carta branca que espelhava a abrangência do seu conhecimento, que deixou de parte títulos óbvios optando por um conjunto de títulos dos mais variados registos e origens geográficas. Nessa mesma data, decorreu na Cinemateca a cerimónia pública de doação do acervo documental de Augusto M. Seabra, que por sua vontade foi tematicamente confiado a diferentes instituições, tendo este organismo recebido a sua vasta Biblioteca e Mediateca de Cinema.
Um mês decorrido sobre a sua morte, a Cinemateca recorda-o agora na mais rara qualidade de realizador através do documentário que correalizou com José Nascimento sobre Manoel de Oliveira.»

Texto tirado do site da Cinemateca Portuguesa


MANOEL DE OLIVEIRA: 50 ANOS DE CARREIRA

De Augusto M. Seabra, José Nascimento

Portugal, 1981 – 51 min | M/12

Ao longo do ano de 1981 a televisão pública iniciou a emissão de um magazine de cinema. Chamava-se Ecran e os seus autores eram o crítico Augusto M. Seabra e o realizador José Nascimento. Ali, a dupla refletia sobre as estreias, os ciclos da Cinemateca (uma memorável retrospetiva de Fritz Lang), mas também sobre as questões da política do cinema nacional e as suas condições de produção (recorde-se o episódio-manifesto, A SITUAÇÃO DO CINEMA PORTUGUÊS). Produzido como um episódio especial (daí a diferença de duração e daí o fim da série, já que a direção de programas não aceitou a ousadia), os coordenadores assinalaram os 50 anos da carreira de Manoel de Oliveira, quando o realizador estreava FRANCISCA e se preparava para abandonar a famosa casa na Rua da Vilarinha. A sessão completa-se com excertos do programa Tv Artes de Alexandre Melo, Isabel Colaço e José Nascimento, integrado no Ciclo “José Nascimento – Nem Verdade, Nem Mentira”. 

O filme de José do Nascimento e Augusto M. Seabra exibe-se no dia 3 de Outubro, pelas 21,30 horas na Cinemateca

segunda-feira, 8 de março de 2021

VELHAS CASAS, VELHAS HISTÓRIAS


Da necessidade de pegar num qualquer número da Vértice, para ilustração de um texto do Cais, peguei num em que existem algumas páginas dedicadas a Manuel de Oliveira.

Manuel de Oliveira é como está em toda a evocação da Vértice, se teclar Manuel de Oliveira a Wikipédia pergunta-me: «Será que quis dizer Manoel de Oliveira?»

Como não sei as razões da passagem de Manuel para Manoel, por hoje, respeito como vem na revista.

Num texto intitulado O Cinema e o Capital, publicado na revista Movimento de Outubro de 1933, Oliveira começa por dizer:

«O cinema é, de todas as artes, a mais sujeita ao capitalismo, pelo custo fabuloso do seu material e meios técnicos, e ainda pela dependência esmagadora dum público mal orientado por uma forte propaganda que cuida demasiado de estrelas e astros, e nada de ideias e processos artístico»

E termina assim:

«É portanto necessário acabar com o cinema-negócio. É necessário arrancar a indústria do cinema das garras nefastas do capitalismo. É necessário que o cinema seja apenas isto: um órgão de criação artística, e de acção educativa e social.»

Na Vértice também é publicada uma entrevista que Lauro António fez a Oliveira e publicada no Jornal de Letras e Artes de Fevereiro de 1964.

Pegue-se na parte final da entrevista:

«Perguntámos a Manuel de Oliveira quais os seus projectos imediatos. Respondeu-nos que o mais amadurecido era a adaptação de A Velha Casa, romance de José Régio.

- O projecto foi submetido à provação do Fundo de Cinema Nacional?

- Sim. Foi. E até tinha razões para esperar que fosse atendido. A verdade é que não fui, mais vez.

- E então desiste?

- Desistir, não desisto. Fico na expectativa…

- E se voltar a ser negado?

- Procurarei outras soluções…

Perderam-se na poeira dos tempos as expectativas de Manoel de Oliveira, também acabou por não encontrar outras soluções que o terão levado simplesmente a desistir do projecto.

Mas segundo João Bénard da Costa (2º volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras):

Régio foi influência maior obra de Oliveira, Agustina gosta de o recordar «menino entre os doutores». Os temas da obra de Régio ecoam na de Oliveira, e os mestres de Régio foram, através dele, os mestres de Oliveira»

Agustina Bessa Luís teve uma declarada fascinação por Régio e a sua obra, que a levaram a escrever (Caderno de Significados) que Régio «é um dos nossos autores pior interpretados. Mesmo os seus discípulos o interpretam mal, porque especulam sobre a pluralidade dos seus meios e dos seus fins, mas não compreendem, na verdade, o homem vitorioso.

Muitas vezes eu olhava para José Régio, à minha maneira desprotegida e vazia de conceitos, e surpreendia nele uma ambição fabulosa; como se não houvesse linguagem para ele exprimir o que sabia, como se não houvesse sequer um mapa do corpo humano que ele conhecia».

José Régio considerava A Velha Casa (cinco romances publicados entre 1945 e 1966) o melhor da sua obra. Sempre manifestou a ideia da impossibilidade de a transcrever para o cinema, Manuel de Oliveira não ignorava essas dificuldades,  mas ainda chegou a trabalhar com Régio na adaptação das primeiras cenas que serviram de base para o trabalho a apresentar ao Fundo de Cinema, para a obtenção de um subsídio, que foi recusado.

O oportunismo e a mediocridade, principalmente em tempos de ditadura, andaram sempre de mãos dadas, fosse para que arte fosse.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

SARAMAGUEANDO


Creio que mesmo que vivêssemos duzentos anos, haveria portas nossas que continuariam fechadas. Porquê? Porque não sabemos abri-las. Freud chegou para abrir umas quantas, mas é certo que não as abriu todas, e até que chegou Freud e outros como ele, essas portas estavam fechadas. De qualquer modo, as pessoas tinham vivido, os escritores tinham escrito coisas magníficas, Shakespeare não tinha precisado de Freud. Provavelmente, as portas que cada um pode abrir talvez não sejam suficientes para poder exprimir de uma forma completa quem és, porque se pudesses abri-las todas, algumas delas seria melhor voltar a fechá-las imediatamente porque o espectáculo podia não ser agradável. Quem sabe se o melhor será nunca chegarmos a dizer quem somos.

José Saramago em O Amor Possível de Juan Arias

Legenda: fotograma de Fanny Owen de Manuel de Oliveira

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Agustina Bessa-Luís nunca demonstrou uma grande simpatia pelas adaptações que Manoel de Oliveira fez de alguns dos seus livros.

«Ela gosta de não gostar, eu gosto que ela não goste. É um conflito artístico. Eu não posso filmar o livro. Ela quer que eu filme o livro. Mas impossível. Faço cinema. Não faço literatura.» 

Legenda: fotograma de Vale Abraão

segunda-feira, 6 de abril de 2015

FILME MAIS E MAIS!


 Desde o fundo mais fundo dos tempos que admiro Manuel de Oliveira como o único português (reparem que não digo «como um dos poucos portugueses» para quem o cinema é mais alguma coisa do que um mero motivo de comércio ou de comichão estética acidental, mas o seu meio de expressão de artista verdadeiro. Só isto explica a tenacidade com que a Manuel de Oliveira, num país sem decentes tradições cinematográficas, conseguiu vencer todos os entraves, impostos pela gaguez ambiente, legando-nos por fim o Acto da Primavera e a Caça, dois extraordinários documentos da sua límpida maioridade de artista.
Mas a obra de Manuel de Oliveira traz ainda outra marca, já patente em Douro, Faina Fluvial, que me doeria esquecer, mesmo neste depoimento escrito à lufa-lufa: o seu amor pelo Povo. Não pela palavra abstracta Povo. Mas pelo povo-povo, de carne e osso, que cheira a suor, fala português, ama, odeia, curva-se e canta aquela espantosa Verónica de Acto da Primavera.
Isto no meio de total indiferença do mesmo povo que o desconhece.
Não importa, Manuel de Oliveira! Continue. Filme mais e mais! Os artistas nasceram para esse destino. Para descobrirem, corajosos, as breves eternidades do Presente e esperarem pelo Futuro (de que cada vez todos temos mais saudades!).

José Gomes Ferreira em Seara Nova nº 1417, Novembro de 1963

Legenda: imagem de Acto da Primavera de Manoel de Oliveira

domingo, 5 de abril de 2015

OS MORTOS ESTÃO A VER TUDO


Há dias, ManuelS. Fonseca lembrava que os mor­tos estão a ver tudo e quem o convenceu foi William Holden em Sunset Boulevard. Está morto, vira-se para a sala escura e diz:


José PachecoPereira no Público traz à colacção a morte de Manuel de Oliveira e coloca o titulo:



Legenda: os miúdos festejando a passagem do comboio em Aniki Bóbó

sábado, 4 de abril de 2015

UM CINEASTA DEMASIADO GRANDE


Descontados os levianos fervores dos meus verdes anos (era o tempo em que se lia o Sadoul, nunca partilhei a admiração com que alguns dos meus colegas envolviam a obra de Manuel de Oliveira, nem nunca soube tirar dela qualquer ensinamento. Num país em que a prática cinematográfica nunca deu frutos por aí além, sempre me quis parecer que as afinidades reivindicadas por alguns novos cineastas eram, consciente ou inconscientemente, uma forma de atenuar sobretudo a sua profunda solidão cultural, inventando a obra de um antepassado ilustre, ainda que exemplarmente frustrado por carências disto e daquilo. E já que andamos nesta vida só para arranjar sarilhos, também me parece que, não raras vezes, se serviram do nome e do prestígio de Manuel de Oliveira para fins pouco louváveis como, muito recentemente, num lamentável «documentário» sobre Sever do Vouga que, infelizmente, envolve outros nomes que não podem estar à mercê de empreendimentos daquele teor. Estou a pensar no Paulo Rocha, no Fernando Lopes e no Lopes Graça, e só não insisto nesse ponto por duas razões: porque me obriga a um longo desvio e porque me é penosos o simples facto de o mencionar.
(…)
Manuel de Oliveira faz, no contexto português, parte da pequena minoria de cineastas católicos (os outros são o Paulo Rocha e, numa escala bem mais modesta, o autor destas linhas) para quem o acto de filmar implica a consciência de uma transgressão. Filmar é uma violência do olhar, uma profanação do real que tem por objectico a restituição de uma imagem do sagrado, no sentido que Roger Caillois dá à palavra. Ora, essa imagem só pode ser traduzida em termos de arte, no que isso pressupõe de criação profundamente lúdica e profundamente ligada a um carácter religiosos e primitivo. (No meu ver, reside aqui a relutância destes cineastas em mostrar os seus filmes antes do acto da situação ser cumprido). Acontece, no entanto, que uma atitude dessa ordem se funda em valores supérfluos que precisamente se opõem aos valores de proveito engendrados pelo racionalismo positivista, não sendo por isso de espantar que, mau grado algumas episódicas consagrações por dever de ofício consagrador, este aristocrata que, muito saudavelmente, teima em se divertir como um doido à nossa custa regresse em breve ao torrão natal mais esquecido e incompreendido que nunca. O problema, de resto é só este: o país tem (inexplicavelmente um cineasta demasiado grande para o tamanho que tem. Portanto, das duas uma: ou alargam o território ou encurtam o cineasta, Como nos tempos que correm é difícil alargar um território, sugiro que se apequene o cineasta cortando-o às fatias e servindo-o frio ao público do Grande Auditório da Fundação Gulbenkian.
Resta dizer que, como todos os grandes e revolucionários filmes, também este tem o condão de desmascarar os imbecis e de propor uma lição de modernidade cinematográfica para quem a quiser entender.

João César Monteiro sobre o filme de Manoel Oliveira O Passado e o Presente em OsQue Vão Morrer Saúdam-te.

Legenda: imagem do filme Vale Abraão de Manoel de Oliveira

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O PRIMEIRO HOMEM A NÃO MORRER


Há um verso de Afonso Duarte:

Eu posso lá morrer, terra florida!

Miguel Torga, junto à campa rasa de Afonso Duarte:

Mas tínhamo-nos acostumado à eternidade da tua presença.

O acor John Malkovich participou em três filmes de Manoel de Oliveira: O Convento, Vou para Casa e Um Filme Falado.

Quando soube da sua morte, disse:

O Manoel é um caso. Era um exemplo de um ser com individualidade própria, alguém completamente único, com um ponto de vista, uma visão. Eu adorava-o. Fiquei chocado quando soube da morte. Todas as pessoas que conheceram o Manoel assumiram que ele ia ser o primeiro homem a não morrer.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


A vida é um enigma, não é legível. E são os rituais que a permitem ler.

Manoel de Oliveira citado por João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens, Proféticas e Outras.

Legenda: fotografia de Michael Barata.

JUSTA E MERCIDA HOMENAGEM


Artigo publicado na Seara Nova nº  1415 de Setembro de 1963

MANOEL DE OLIVEIRA (1908-2015)


Morreu o cineasta português Manoel de Oliveira.

Tinha 106 anos e era o realizador mais velho do mundo.

Nos anos da ditadura, Manoel de Oliveira chegou a ser preso pela PIDE, durante dez dias, devido a alguns diálogos inconvenientes no seu filme A Caça.

É a partir de O Passado e o Presente, em 1971, que relança uma carreira que acaba em dimensão internacional, a partir sobretudo dos anos 90.
Fazia filmes.

Eram as suas verdadeiras férias.

A única coisa que me consola e onde eu posso descansar, verdadeiramente descansar, é quando estou a realizar um filme. Nem quando estou a escrever fico animado, se vem a ideia, tudo bem, mas se não vem, fico muito inquieto. Depois, quando vem a ideia, é-se feliz e escreve-se, mas é enquanto realizo que sinto a paz e o sossego. Esqueço que tenho de me levantar cedo, esqueço-me de comer, esquece-me tudo, e estou ali.

Legenda: imagem do Público.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:
Já pensou em reformar-se?
Respondeu:
Tenho vários amigos que já se reformaram. Eles adoram. Vão à pesca e ao basebol, viajam pela Europa, jogam às cartas, passam belos momentos. E eu? Ia aborrecer-me de morte… Talvez um dia diga o contrário mas, para já, só quero trabalhar. Sabe, a minha mulher é muito mais nova do que eu e adora viajar. Eu tenho de ir atrás dela senão ela vai dizer-me, “Oh, estás tão velhinho”, e isso seria irritante. Ela mantém-me jovem e provavelmente acabará por me levar para a tumba mais depressa. Talvez um dia deixem de me dar dinheiro para filmar devido à minha idade. Se o fizerem, acho que vou responder-lhes: “Seus idiotas, olhem para o Manoel de Oliveira.”

Woody Allen, entrevistado por Francisco Ferreira, no Expresso.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

OLHAR AS CAPAS


Muito Lá de Casa

João Bénard da Costa

Assírio &Alvim, Lisboa Dezembro de 1993

«Morreu a mulher mais bela do mundo / Tão bela que não só era assim bela / como mais que chamar-lhe marilyn / devíamos mas era reservar apenas para ela / o seco sóbrio simples nome de mulher / em vez de marilyn dizer mulher».
Assim começa o belíssimo poema de Ruy Belo chamado "«a Morte de Marilyn». E agora reparo que, na citação do poema e neste parágrafo, o adjectivo belo (no feminino, no masculino, no comparativo de superioridade ou no superlativo absoluto) já apareceu cinco vezes. «Em vez de Marilyn dizer mulher» ou em vez de Marilyn dizer bela («não havia no mundo melhor mais bela»). Não havia, não houve e talvez não haja nunca mais.
Pelo menos, assim. Marlene, eu sei e lembro-me do que vou escrever. Mas Marlene foi a vos e o corpo acessos por Sternberg e Marilyn foi a voz e o corpo acesos por vários (Wilder, Cukor, Hawks, Hathaway, Logan – grandes médios e pequenos faróis)  e simultâneamente o corpo e a voz que ela acendeu. Bastava que surgisse para tudo ser luz: uns perceberam-no e quedaram-se maravilhados; outros, não sei se o perceberam, mas a maravilha acontecia igualmente. Não vou repetir a conversa sobre actrizes e «stars». Já disse o que tinha a dizer. Mas o que nunca houve foi outra luminosidade assim.
E esse é o nome da beleza.
Muitos dos que trabalharam com ela (Tony Curtis, por exemplo, em Some Like It Hot) disseram não sentir nada. Pode ser. Mas a única verdade que conta é que, quando a vemos, sentimos tudo. Que grande actriz? Sim, mas muito mais do que isso: que enorme mistério. Mistério que obcecou dezenas de poetas, de escritores, de pintores, mistério de que nem Mailer nem Warhol (no seu celebradíssimo retrato) captaram um décimo sequer. Embora Mailer tenha escrito na sua controversa biografia uma das cisas que mais pode aproximar-se do mistério Marilyn. «One might literally have to invente the idea of a soul in order to approach her». «The idea of a soul», no sentido que Agustina e Manoel de Oliveira lhe dão quando pôem na boca de Fanny Owem-Francisca a frase «a alma é um vício». O cinema também o é, como já escrevi, e por isso temos que inventar literalmente as duas ideias (alma e vício) para nos aproximarmos de Marilyn. Ou para percebermos porque tanto ela se aproxima de nós e porque tanto nos aproximamos dela. «She was infinitely she».   

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

AINDA HÁ ESTRELAS NO CÉU


Nesses tempos em que ele ia ao cinema com regularidade, em que isso era quase uma necessidade física, também teve fixações por algumas actrizes. Também se apaixonou pelas estrelas.

Até pode, aqui mesmo, falar de algumas, como a Jeanne Moreau, a Geraldine Chaplin, a Anna Karina, a Carole Laure, a Hanna Schygulla. Eram paixões platónicas, mas lá que havia um bater mais forte do coração com a sua presença, isso havia. Quando as luzes das salas se apagavam, e o filme ia começar, havia sempre alguém que dizia Chiu!!! Ajeitava-se melhor na cadeira e esperava, às vezes com ansiedade, a chegada das eleitas.

Ora, como não podia deixar de ser, também se deixou enfeitiçar pela luminosidade da Marilyn Monroe. Aqui, sim, as coisas fiam mais finas. É que tudo começou com a famosa fotografia do calendário, mais tarde reproduzida em várias revistas, e que ele viu, no início da sua adolescência, no escritório do tio advogado, no rés-do-chão do velho casarão da rua Direita em Chaves.

Era o corpo nu da Marilyn, deitado de lado sobre uma coberta amarrotada de veludo vermelho, os cabelos loiros soltos e revoltos, a olhar para quem a olhava.

Para expulsar demónios, esgotar energias e esquecer insónias, avançava, em grandes passeios de bicicleta, pela estrada de Braga. Chegava até Curalha onde, anos mais tarde o Manoel de Oliveira iria filmar, com o povo da aldeia, o Acto da Primavera. Ele ficava-se a olhar o rio, a levada e as azenhas e, como os miúdos de uma fita de Fellini, dizia adeus aos passageiros da carreira.

Dos filmes de Marilyn, desses anos 50 (Os Homens Preferem as Loiras, Rio Sem Regresso, O Pecado Mora ao Lado, paragem de Autocarro, O Príncipe e a Corista, Quanto Mais Quente Melhor), para ser franco, não se recorda deles, na sua adolescência, mas sim de os ver mais tarde, no Porto, no início dos anos 60, em matinés clássicas ou em sessões de Cine-Clube.

Mas tem a certeza que passaram, quer no cinema da rua de Santo António, em Chaves, quer no Avenida, de Vila Real, pois recorda-se bem de aí ter visto as fitas com o James Dean e o Sementes de Violência, do Richard Brooks, com Bill Haley and his Comets a tocarem o Rock Around the Clock, que já se dançava em festinhas particulares mais atrevidas, com o Only You, dos Platters.

Quanto à comédia do Hawks, Os Homens Preferem a Loiras, ele quase jurava que foi exibida no Avenida, pois tinha todos os ingredientes que podiam agradar ao grande público, embora com uma ironia mordaz nas entrelinhas, ou se quiserem, entre os planos: boa disposição, viagens de transatlântico, a excelente dupla Marilyn Monroe/Jane Russell, Paris em pano de fundo, beijos ao luar, muitas canções, a fabulosa cena do tribunal, e um final feliz com dois casamentos… Ele põe a tocar do Abarracamento o CD da Marilyn e ouve, mais uma vez deliciado, o tema em que ela diz a trautear, que os diamantes são os melhores amigos das raparigas…

Depois?... Bem… Depois nem tudo foi perfeito como nos filmes. Em 1961 sai esse pungente Os Inadaptados, do John Huston, a partir de uma história de Henry Miller, que ele viu no Batalha, no Porto. Era o princípio do fim. Não se sabe onde acaba a ficção e começa a realidade.

Em Os Inadapados, Marilyn, Clark Gable e Montgomery Clift, vagueiam, perdidos, entre a cidade de Reno e o deserto do Nevada. Solidão e desamor. E, depois dos dois homens conseguirem prender o cavalo preto selvagem, a tensão sobe, para além da força das cordas, e ela foge, a gritar: Assassinos! Aldrabões! Por que não se matam e ficam felizes?

Clark Gable é vítima de um ataque cardíaco, após a rodagem do filme. Clift tem um acidente, devido ao qual morre, dois anos depois. A 5 de Agosto de 1962 é encontrado o corpo sem vida de Marilyn, na sua casa de Brentwood, sobre uma cama com lencóis azulados, o telefone desligado, uma agenda de moradas aberta, um frasco vazio de Nembutal. Ele sempre pensou: Uma história mal contada.

Mas, como no final de Os Inadaptados, em que havia uma réstea de esperança, no derradeiro diálogo entre o Clark Gable e a Marilyn, também ele procura afastar o medo e sair da solidão, e exclama: Ainda há estrelas no céu!

Eduardo Guerra Carneiro em Outras Fitas

sábado, 11 de dezembro de 2010

MANOEL DE OLIVEIRA


Nasceu no Porto. 
Há 102 anos que Manoel de Oliveira anda por aqui.
Faço filmes, são as minhas verdadeiras férias.