quarta-feira, 31 de maio de 2017

ONDE É QUE TINHA A CABEÇA?


Continuamos com a carta, datada de 8 de Maio de 1967, que José Saramago enviou a José Rodrigues Miguéis.

Depois de lhe comunicar que esteve uns dias em Paris avisa que vai mudar de registo e escreve:

Sabe que fui promovido a crítico literário? E da Seara, ainda por cima, que é coisa fina. Eu conto: Aqui há meses telefona-me o Costa Dias a dizer que queria falar comigo. Que era, que não era, e vai daí vem o convite. Abri a boca de puro pasmo. Encontrámo-nos, e eu, honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões Contra: falta de preparação e de grau universitário, pouco tempo disponível ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. A nada o Costa Dias se moveu. Que eu sou um sujeito assim, que eu sou um sujeito assado, e por aí fora. Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número, escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.

Num texto publicado, 29 de Outubro de 2010, aqui no Cais do Olhar, fazíamos um pequeno apanhado das críticas que Saramago escreveu para a Seara.

Copiamos esse apanhado:

José Saramago publica a sua primeira crítica na “Seara Nova” no nº 1459 referente a Maio de 1964, e a última aparece no nº 1476, referente a Outubro de 1968.
Numa crítica a “O Ser e o Ter” de José Marmelo e Silva, e publicada na “Seara Nova” nº 1472, referente a Junho de 1968 escreve:

“José Marmelo e Silva há-de vir a dar muitas dores de cabeça aos historiadores da nossa literatura. Entretanto, vai incomodando os críticos encartados ou aqueles que, como nós, sem carta nem diploma, vão fazendo o que podem para dar conta do que lêem aos leitores de boa fé.”

José Saramago, para além das acima referidas, colocou como “assustada condição” não fazer crítica de livros de poesia.

Enquanto crítico da “Seara Nova” debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís:  “As Relações Humanas” e  “Homens e Mulheres”. Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar “génio” a Agustina Bessa Luís. 

A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus “Dias Comuns”:
“Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).
Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?”

Abordando um outro livro, “Eva” de Sá Coimbra, Saramago considera-o, entre outras coisas, “uma oportunidade perdida” O autor (”sou um homem do foro e estou habituado à análise critica das provas antes de condenar…”) dirige-lhe uma carta querendo saber dos porquês da análise de Saramago. Na volta o crítico diz: “Valerá a pena responder? Então se eu tenho chamado obra-prima ao livro de Sá Coimbra ele perguntar-me-ia também porque?"  Acaba por colocar o seguinte ponto final na história:

“O ponto final é mesmo um ponto final. Tenho outras críticas a fazer (mas valerá a pena?) e Sá Coimbra outros romances a escrever. Marco um encontro a Sá Coimbra para daqui a vinte anos. O mais certo é estarmos ambos esquecidos. Não nos demos, pois, demasiada importância…”

A última crítica de José Saramago na “Seara Nova”,  aborda dois livros: “O Despojo dos Insensatos” de Mário Ventura e “O Delfim” de José Cardoso Pires.

Sobre a crítica ao livro de Cardoso Pires há-de escrever, a 22 de Julho de 1994, um texto que consta do Vol. II dos “Cadernos de Lanzarote”:

“Agora eis-me perante os fantasmas de opiniões que expandi há quase trinta anos, algumas bastante ousadas para a época, como dizer que Agustina Bessa Luís “corre
o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”. Apesar da minha inexperiência, e quanto sou capaz de recordar, creio não haver cometido grossos erros de apreciação nem injustiças de maior tomo. Salvo o que escrevi sobre “O Delfim” do José Cardoso Pires: muitas vezes me tenho perguntado onde teria eu nesse momento a cabeça, e não encontro resposta…”

Hoje, relida a crítica, percebe-se o espanto de Saramago ao” não saber onde tinha a cabeça” quando se debruçou sobre “O Delfim”.

Conhecendo-se o Saramago de então, não é fácil encontrar motivos para não ter entendido (?) o que Cardoso Pires queria com o livro.

Só Saramago nos poderia responder, e nunca o fez claramente.

Uma boa altura para lembrar o estafado "ninguém é perfeito!" 

OLHAR AS CAPAS


Ingénua Perigosa

Raymond Chandler
Tradução: Mascarenhas Barreto
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 164
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Parecemos dois namorados – disse eu – Estamos aqui sentados a conversar naturalmente como se não tivéssemos qualquer preocupação. Simplesmente, porque ambos sabemos que, à noitinha, estaremos na cadeia.
Voltou a erguer o sobrolho. Prossegui:
- Você, porque Clausen o tratava pelo nome próprio e deve ter sido a última pessoa com quem ele falou. Eu, porque tenho andado a fazer todas as coisas que um detective particular nunca deve fazer. A ocultar evidência, a esconder informação, a descobrir corpos e a não procurar de chapéu na mão esses encantadores e incorruptíveis polícias de Bay City. Oh, estou farto. Fartíssimo. Mas, esta tarde paira no ar um ar silvestre. Não me parece que isso me importe. Talvez esteja apaixonado.
- Você esteve a beber – observou lentamente,
- Apenas Chanel nº 5, beijos, o brilho pálido de uma pernas encantadoras e o convite trocista de uns intensos olhos azuis. Coisas inocentes.
Pareceu mais triste do que nunca.

- As mulheres são capazes de debilitar terrivelmente um homem, não acha? - inquiriu

terça-feira, 30 de maio de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Numa crónica publicada no Expresso de 4 de Junho de 1988, João Carreira Bom chamava a Oliveira e Costa «O Inimigo Público».

Oliveira e Costa era então Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do X Governo Constitucional chefiado por Aníbal Cavaco Silva.

Foi esta semana condenado a 14 anos de prisão por prática de burla qualificada enquanto esteve à frente desse cancro que dá pelo nome de BPN.

A crónica de João Carreira Bom, ver imagem acima, terminava assim:

Os portugueses continuarão a ser os maiores pagadores europeus, embora continuem a ter os piores transportes, as piores estradas, as piores escolas, os piores subsídios de desemprego. Assim, se pagam, não é porque grande vantagem pública no seu sacrifício individual: é porque têm medo, é porque a isso são obrigados, como obrigados são a esvaziara os bolsos, em lugar ermo, face à pistola de um malfeitor.

Das voltas e reviravoltas da nossa justiça, e após conhecimento da condenação de Oliveira e Costa, Carlos Rodrigues Lima escreveu, no Diário de Notícias, um imperdível texto de opinião:


DEPOIS DIALOGUEM


Mais tarde na vida, disse aos meus filhos que a compaixão é uma virtude fantástica, mas que não a devemos desperdiçar com aqueles que não a merecem. Se alguém vos agarrar pelo pescoço, deem-lhe um pontapé nos tomates, e depois sim, dialoguem.

Bruce Springsteen em Born to Run

segunda-feira, 29 de maio de 2017

UM MURRO NO ESTÔMAGO


O Hank não era uma cabeça tonta. Não havia nada de apalhaçado nele. Mesmo em jovem, identificava-me completamente com ele. Não precisava de experimentar nada que Hank fizesse para saber sobre o que ele cantava. Nunca tinha visto um pisco-de-peito-ruivo chorar mas conseguia imaginá-lo e sentia-me triste. Quando cantou «the news is all over town», eu soube de que notícias se tratava, ainda que na verdade não soubesse. Assim que pudesse, iria também ao baile gastar os sapatos. Vim a saber mais tarde, que Hank morrera no banco de trás de um carro no dia de Ano Novo, fiz figas, e esperei que não fosse verdade. Mas era verdade. Era como se uma grande árvore tivesse caído. A notícia da morte do Hank foi um murro no estômago. O silêncio cósmico nunca soou de forma tão gritante. Ainda assim, soube, instintivamente, que a sua voz nunca desapareceria ou definharia – uma voz que lembrava uma bela trompa.

Bob Dylan em Crónicas

A FESTA DOS LIVROS


Francisco Vale, editor da Relógio d’Água, no seu livro Autores, Editores e Leitores, escreve:

Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas na Feira do Livro de Lisboa com um «até para o ano, se ainda houver livros».

Ainda há livros, e tenho a firme convicção que, apesar de tudo o que tem por aí aparecido, os livros sempre existirão.

Ontem, li no Diário de Notícias, que os editores estão preocupados com o festival de comes e bebes que se vai realizar durante a Feira do Livro.

Compreendo os editores, mas não vejo os motivos da preocupação.

Quem vai aos livros pode pelo meio beber um fininho, comer uma fartura ou um pratinho de caracóis.

Quem for só pelos comes e bebes – e não estou a ver que isso aconteça… - também pode passar por um stand e trazer um livro.

Vai-se a um jogo de futebol e também se vai à bifana e aos couratos.

Tudo pode estar ligado, já dizia o velho.

MAIS UMA!

TRUMPALHADAS


Ferreira Fernandes, na sua crónica no Diário de Notícias, escreve que Donald Trump é um carroceiro.

Nem mais!

domingo, 28 de maio de 2017

QUOTIDIANOS


Foi apanhado em flagrante, frente ao Pingo Doce da Nossa Senhora da Conceição, a vender uma base de cocaína.
A policia, que o vigiava por achar estranha a sua postura, deitou-lhe a mão quando o viu entregar algo e a receber dinheiro em troca. Mas, após busca exaustiva, não conseguiu encontrar-lhe nada.
Certos de que estavam "a ser ludibriados", os investigadores da PSP de Vila Real decidiram "revistar o cão".
Nada no pelo mas, bem dissimulados na trela animal, estavam seis pacotes de heroína e duas bases de cocaína. Mesmo assim o Pinóquio negou. Não sabia de nada e a haver droga só podia ser do cão.
Vai ser presente ao juiz de instrução criminal.

Do Jornal de Notícias

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

SER CRIANÇA OUTRA VEZ


16-6-1965
Hoje apeteceu-me voltar aso meus 12/14 anos, ser criança outra vez, lembrar-me do meu álbum de artistas de cinema! Com outro espírito já, sensível à beleza de outro modo, colo neste meu companheiro de a má reprodução de fotografia de uma bela mulher: Marie Laforêt.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

sábado, 27 de maio de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Conquistador

Almeida Faria
Desenhos: Mário Botas
Editorial Caminho, Lisboa, Abril de 1990

Acreditei durante muito tempo ter vindo ao mundo de um modo diferente de toda a gente. Foi minha avó Catarina – e as avós nunca mentem – quem me meteu esta ideia na cabeça. Costumava contar-me que, num dia de nevoeiro, de manhã cedo, apesar do nevoeiro, o faroleiro João de Castro tinha ido à praia da Adraga apanhar polvos, quando deu comigo metido num ovo enorme, com a cabeça, as pernas e os braços de fora.
Como testemunhas presenciais minha avó citava um cavaleiro maneta, mestre equestre, que para ali ia montar acompanhado pelos seus três peões de brega, recrutados entre os mais aparvalhados das aldeias, Eles e o faroleiro assistiram estremunhados ao estranhíssimo espectáculo. E os cinco disputaram entre si quem iria ficar comigo. A meio da discussão foram atacados por uma cobra-marinha que estava a guardar-me. Mas João de castro, com a lança que lhe servia para espetar os polvos entre as rochas, cortou-lhe a cabeçorra diabólica. Assim conquistando o direito à minha posse.
Este faroleiro, de aqui em diante meu pai, vivia com a mulher. Joana Correia de castro, no cabo da Roca, e por não terem filhos lhe interessava ficar com o enjeitado, quase normal uma vez saído da casca. E lá me levou ao colo, ora ao colo ora às costas, por atalhos e a corta-mato, até às pedregosas alturas da Roca, na esperança de não encontrar ninguém mais, para não ser obrigado a explicar quem era a criança a chorar esfomeada. Nunca na vida meu pai desmentiria a sogra, que não lhe perdoava a pobreza nem o ter-lhe roubado a única filha, três vezes mais nova que ele. E Joana, minha mãe para todos os efeitos, deve ter gostado desse filho-mistério que primeiro a assustou porque tinha seis dedos no pé direito, e logo a comoveu por vir roxo de frio, mal embrulhado numa capa impermeável.
Por muito que meus paus receassem irritar os ânimos difíceis de Catarina ao porem em causa o seu relato, não compreendo que o não fizessem mais tarde, caso fosse outra a verdade. Sempre subscreveram a versão da minha avó, e aos poucos me acostumei a ser uma ave rara. 

QUOTIDIANOS


E onde é que nós íamos mesmo na conversa? Ah, é verdade! No mudar de vida, na prevenção de que, agora, como na canção que já soube de cor. «há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber…»

João Gobern em Boca Doce

sexta-feira, 26 de maio de 2017

OLHAR AS CAPAS


Elegia Para Um Caixão Vazio

Baptista-Bastos
Capa: José Pinto Nogueira
Edições O Jornal, Lisboa, Fevereiro de 1984


Percorri um caminho incalculável, um tempo de analogias e de conhecimentos, obedecendo, impotente, a leis naturais que me vão destruindo e degradando. Estou cansado de perseguir: notícias, mulheres, o êxito, a felicidade. Ambiciono uma agitação ordenada, saturei-me do alvoroço aflito, já pouquíssimas coisas me melindram, consegui curar-me de chagas e de remorsos, expulsei-me eu próprio do sonho. Reconheço-me por aquilo que fui realizando, seria difícil o contrário, mas tudo o que fiz parece-me inútil, um intolerável lugar-comum; e já perdi todas as disponibilidades: fui reduzido e reduzi-me. O grito, a imprecação, a viva-voz são mais contundentes, mais eficazes do que a palavra escrita. De aí, talvez, que as histórias contadas de geração para geração (a verdade coral, a oralidade) se tenham mantido mais vivas, mais coloridas do que a palavra escrita. Nunca consegui viver e reflectir com rigor e escrúpulo o que vi. Sempre existi num universo de ideias e de alegorias, e a realidade é-me implacavelmente fastidiosa. Mas houve tempo em que julguei ser impossível acreditar em outra gente, em outro local, em outro destino. É; eu sei, tudo isto é deprimente, inacabado até ao fim dos tempos, sem que nada me tenha notificado do prazo. Todavia, só disponho deste povo, deste país, destes hábitos, desta monotonia, deste corpo e desta consciência. Queira ou não, sou impelido a eles, a com eles convizinhar, eis o meu fado, a minha sina.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A SEGUNDA VEZ QUE ME ROUBA UM PRÉMIO


Carta de Jorge de Sena, datada de 4 de Maio de 1969, para Eugénio de Andrade:

Fisicamente e espiritualmente, estes meses têm sido muito difíceis para mim. Sofro terrivelmente de saudades da Europa, maiores e piores do que as que viera sentindo nestes dez anos de ausência, e isso paralelamente coincidindo com um período de dissensões e canalhices no meu Departamento, com a mediocridade mais triunfante do que nunca (em grande parte resultado da minha ausência de seis meses, em que aproveitaram para retomar posições e ascendência). E coincidindo também com uma vaga de direitismo repressivo na América, capaz de dar a volta ao estômago mais indiferente (e, ao mesmo tempo, vejo as esquerdas repetindo estupidamente todos os erros e provocações que, no Brasil, culminaram na revolução militar com o aplauso da média burguesia que hoje aperta o cinto). Além disto porque, porque, vindo exausto e enfraquecido, mergulhei num trabalho insano, os meus nervos estão à flor da pele, e a minha irritabilidade que, na maior parte dos casos faço por engolir (uma das artes das Américas é refinada: levar a pessoa a explodir, para ser ela quem tem a culpa… - e nisto os Estados Unidos são, no convívio, tão canalhas como o Brasil) não podia ser mais dolorosa e sensível. Tudo isto foi coroado com uma coisa em que não tinha fé, mas alguma esperança, até pelo desafogo económico que me traria momentaneamente, e que guardarás para ti, se não é coisa sabida à boca pequena: eu era o candidato do Diário de Notícias para o magno prémio que foi para o Torga (por sinal, é a segunda vez que este diabo me rouba um prémio a que não concorria pessoalmente). E se o não ganhei agora, depois de toda a promoção propagandística que me rodeou, é evidente que o não ganharei nunca.



Legenda: página do Diário Volume XI em que Miguel Torga «justifica» ter aceite o Prémio Diário de Notícias que, segundo Sena, lhe estaria destinado e lhe traria algum desafogo económico.

VIAJANTE VENCEDOR


Como a alma do caminho de ferro são as viagens de longa distância, o comboio de mercadorias que se vê serpentear pela via abaixo puxado por uma máquina puff puff é o viajante o vencedor o melancólico sistema que faz a vida.

Jack Kerouac em Viajante Solitário

À LUZ DE CANDEEIROS


Numa manhã de sol, três pombos descansando num candeeiro.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

POSTAIS SEM SELO


Entre todas as injustiças, nenhumas clamam tanto ao Céu como as que tiram a liberdade aos que nasceram livres e as que não pagam o suor aos que trabalham.

Padre António Vieira 

VIGÉSIMO PRIMEIRO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Enlouquecia.

Dizia: já não existo.
Como se fosse Deus

António Rego Chaves em Três Vezes Deus


Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

OLHAR AS CAPAS


Armadilhas Do Acaso

Peter Cheyney
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 285
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Quando a campainha de partida soou, O’Day meteu pelo carreiro que levava das traseiras do paddock ao recinto fechado. Parou, a ver os cavalos saltarem o primeiro obstáculo. Achava que um concurso hípico de obstáculos era uma daquelas coisas de que se gostava ou não gostava. Pessoalmente não tinha ideias preconcebidas a esse respeito – o que significava que estava aborrecido.
Os espectadores aproximaram-se das vedações, enquanto os cavalos transpunham a curva e entravam na recta. Ao passarem, O’Day reparou que o seu era o penúltimo e, então, sim, não lhe restaram dúvidas de que estava aborrecido. Encolheu os ombros. Paciência!

terça-feira, 23 de maio de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Uma das muitas vezes que vi Belarmino, filme-reportagem de Fernando Lopes. foi na noite de 10 de Outubro de 1972, na televisão a preto e branco da ditadura.

O filme fechava um breve ciclo dedicado ao cinema português.

Guardo o recorte do Diário Popular desse dia e onde Baptista-Bastos deixou uma breve evocação:

Era uma vez um filme à procura de espectadores. Foi há tantos anos que muitos dos que nele participaram só de vago se recordam: os dias vararam os meses, outra década surgiu, e o que figurava como imprecação e cólera – é, apenas, a ingénua aspereza de um protesto. O tempo sugere estas direcções inesperadas: o índice moral altera-se e as porções de coisas que entendêramos como verdades inarredáveis irão, sempre, obedecer a outros estatutos, «Belarmino» (é necessário dizê-lo) nasceu de projectos asseados e da urgência que tínhamos em cometer alguns desacatos. Gente considerável viu no seu comovido inconformismo um panfleto contra a fome e o desespero de um homem – quando era, tão-sòmente, a forma humilde de manifestarmos a incomodidade de termos trinta anos e de viver em Portugal perfilados na mesma coragem de ser campeões sem murro, poetas sem rima, cronistas sem coluna, bebedores sem bebida. Amantes sem amor. O filme procurava os espectadores que jamais teve: estreado num cinema de bairro, apoiado pela grita e pelo entusiasmo dos cineclubes – essa noite foi um alvoroço e uam discreta esperança. A peregrinação das conversas, entre o Vává, o Ribadouro e o Monte Carlo, num esquerdismo festivo que desejava áulicos e trompetistas da nossa efémera glória, cumpriu-se durante alguns meses. Mas «Belarmino», no Aviz era a desolação e o riso; um filme à procura daquela gente para quem Belarmino-o-homem afinal se dirigira sempre: «às vezes as palmas apeteciam-me mais do que as bolas de Berlim com que enganava a fome.» O recado que queríamos dar foi apressado, certamente; foi tosco, desajeitado e parvo, talvez. Mas esta noite, quando a Televisão fizer correr o filme para dois milhões de espectadores, há uma que estará a dobrar o cansaço para aquém do tempo, a sonhar as mesmas cóleras e as mesmas imprecações. E, talvez, a pensar que os miúdos desta cidade se recusam, hoje, a ser campeões. Campeões de quê? Campeões de quê?
Responde lá, ó Belarmino…



O Helder Pinho foi o responsável por vender a ideia ao Mário Castrim para que o Belarmino fizesse parte de um dos Encontros do Diário de Lisboa-Juvenil:

O retrato de um antigo lutador de boxe, Belarmino Fragoso, através das suas deambulações por uma Lisboa que já não existe. A solidão, o medo e a derrota cruzam-se num filme que baralha o documentário, a ficção e a entrevista num passeio por antigas salas de cinema e clubes nocturnos.

Para um catálogo da Cinemateca dedicado a Fernando Lopes, escreveu Manuel Monzos:

O Fernando fez um dos filmes que mais estimo e admiro. É o Belarmino. Apesar de não o achar perfeito, tenho por ele um enorme carinho, não somente pelo filme em si, mas, e talvez principalmente, por aquilo que pude sentir e aprender do que pode ser também o cinema.
A primeira vez que o vi foi há muitos anos, ainda era um miúdo e desde então recordo-o pela estranha sensação de surpresa e espanto com que fui confrontado com algo tão directo, tão próximo e tão real.
Foi um dos meus tios que nos fez vê-lo, a mim e aos meus primos, porque para além do que ele gostava do filme, trabalhavam nele dois dos seus amigos, o Manuel Jorge Veloso e o Augusto Cabrita.
Isso para mim já era divertido, pois através do meu tio eu também os conhecia.
Mas o que realmente me impressionou foi o próprio filme. Tudo o que nele se encontrava me era próximo. Era Lisboa, a Baixa e mesmo o meu bairro, a Mouraria. As ruas por onde andava, as pessoas com quem me cruzava.
Era o estádio do meu clube e o clube do bairro, a Barros Queirós, o Arcádia, o largo de São Domingos, onde muitas vezes encontrei Belarmino Fragoso, um tipo a quem eu até cumprimentava quando nos cruzávamos.


Pela primeira vez via um filme que me dava a sensação de poder estar lá, era um mundo palpável de coisas reais e que eu conhecia. E isso era fantástico. Essa possibilidade que descobria com aquele filme, daquilo que o cinema permitiria.
Nessa época ainda não pensava vir a dedicar-me ao cinema, mas dos fi lmes que via nos cinemas de bairro, como o Royal, o Rex, o Liz, o Cine-Oriente, ou nas grandes salas como o Império, o Monumental, o Tivoli, o Alvalade, o
Avis, os cinemas da rua dos Condes, nas escolas, salões paroquiais ou no Centro Espanhol, nesses primeiros filmes que via apenas com a emoção inocente de quem «vê» uma história, entre eles recordo bem o Belarmino por isso.
Essa capacidade de usar e reproduzir o real. E também o modo como era feito, mesmo sem perceber nada disso nessa altura, aquilo usava a montagem de um modo novo e surpreendente para mim e não tinha nada a ver com
o que eu vira até então. Aquilo foi forte e marcou-me. Mesmo hoje é um filme que revejo com enorme carinho e considero dos melhores filmes Portugueses.

Belarmino é um dos Amigos Pensados que o Alexandre O’ Neill deixou estampado na Feira Cabisbaixa:

TIVESTE  jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeões com jeito,
é a nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
– e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Belarmino:
Quando ao tapete nos levar
a mofina;
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.

Uma das perguntas do Baptista-Bastos no filme do Fernando Lopes:

- Belarmino, tu és um homem ou um animal?


- Um pugilista é sempre um homem.


Belarmino Fragoso morreu a 19 de Abril de 1982.

Baptista-Bastos escreveu a notícia, o requiem por aquele bailarino em pleno ringue, um movimento perpétuo, um vigor que não se estilhaçava, um vulcão de poder e de força.

E AINDA NOS DÃO DINHEIRO


Neste dia, em vez de dar aula, fui conversar com o metodólogo. Perguntei-lhe se devia falar caro ou falar acessível; e ele achou, comigo, que devia falar acessível, porque serei «sempre diferente deles». Isto de ser «diferente deles» vem lembrar outro assunto de que falámos – se não neste, noutro dia. – O do professor que sente a necessidade de se impor ao aluno pelo alardeamento de uma vastidão e complicação de conhecimentos com que o amachuca e que se irrita ou inventa, se necessário for, quando o aluno lhe pergunta qualquer coisa que ele não sabe. Por mim, nego-me a impor-me desta maneira medrosa e desonesta e será, como tem sido, sempre sem vergonha que direi que não sei. Se não houver este ano há para o outro ou para de aqui a cinco o aluno que compreende que o professor não é um livro aberto. «O meu melhor professor foi um professor de Inglês que não sabia nada de Inglês» – disse o meu metodólogo; ora quem o julgou o campeão dos professores creio eu que não foi o metodólogo; foi o aluno do Liceu.
Mas onde haverá papel (e memória abundante e precisa?) para registar tudo quanto nós conversámos? Neste dia o assunto que mais abordámos foi o professor. Falei-lhe de um para encantador meu amigo e já agora, para fechar este parágrafo, deixo aqui aquela encantadora confissão da Lourdinhas, tão boa indicação do que, em última palavra, deve ser o Professor: «Então a gente anda aqui tão feliz e no fim do mês ainda nos dão dinheiro?»

Sebastião da Gama em Diário

OLHARES




Rotunda das Olaias.
Todos os anos, por Maio, o espectáculo dos jacarandás floridos na cidade.

UMA TERRÍVEL VONTADE DE DEIXAR-ME IR...


A falar de comboios, Alice Vieira, no seu livro de crónicas Bica Escaldada, conta da morte de Leon Tolstoi numa estação de caminho-de-ferro:

Um dia, sem que até hoje alguém tenha conseguido explicar a razão, o velho Leão Tolstoi fugiu de casa, apanhou um comboio, saiu dele quando já estava muito longe, e deixou-se morrer, sozinho, na pequena gare de Astapovo. Sempre me pareceu a maneira mais digna de se morrer – sobretudo, como era o caso, aos 80 anos, depois de já se terem apanhado e perdido todos os comboios essenciais de uma vida.

Das razões de Leão Tolstoi, conta José Jorge Letria, num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 15 de Maio de 2017:

No dia 14 de Novembro de 1910, Leon Tolstói morreu de pneumonia na estação de caminhos-de-ferro de Atapovo, na província de Riaz, depois de abandonar a casa onde vivia e onde Sofia Andreievna, sua mulher e valiosa colaboradora durante muitos anos, permaneceu.
A relação conjugal fora afectada pela decisão do autor de Guerra e Paz de prescindir de metade dos seus direitos de autor. Sofia nunca aceitou essa decisão, como não aceitou a metamorfose perada na vida e nos hábitos do marido que repudiou a condição aristocrática de ambos, passou a andar descalço e começou a servir-se a si próprio nas refeições.
Uma parte significativa da inquietação que esteve na origem desta radical mudança está presente no texto de Uma Confissão, livro publicado em 1882, quatro anos antes de A Morte de Ivan Ilitch. Também rejeitou a autoridade da Igreja Ortodoxa, que o excomungou em 1901. Em tempo de ruptura e crise escreveu no seu diário: “Tenho uma terrível vontade de deixar-me ir.”

Sobre a morte de Tolstoi, o poeta brasileiro Mario Quintana escreveu Poema da gare de Astapovo:


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se …e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E entao a Morte,
Ao vê-lo tao sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

DEUS NÃO PODIA PERMITIR UMA COISA DESSAS!


Mas sempre vos direi que em todo o tempo foram os homens dignos de comiseração. E vocês sê-lo-ão igualmente. Confesso-vos que penso em vós com alguma apreensão. Pergunto a mim mesmo, frequentemente, que será do mundo, que será da presente civilização quando se esgotar o petróleo? É claro que o petróleo há-de acabar, como tudo. Fura-se a terra afanosamente, em solo firme e no fundo dos mares, e vai-se-lhe chupando essa mal cheirosa seiva de que depende toda a nossa vida. E quando não houver mais nada para chupara? Conheci um homem muito católico, e não menos obtuso, que me respondeu um dia quando lhe falei neste assunto: “O petróleo nunca mais acaba. Deus não podia permitir numa coisa dessas!” Não sabia o pobre diabo que Deus tem permitido coisas terríveis uma das quais foi ter-se descoberto o petróleo.
E como vai ser depois? Como andarão os automóveis? E os aviões? Saberão vocês, meus queridos tetranetos, o que é um automóvel ou o que é um avião? Talvez os conheçam como eu conheço os coches de Suas majestades que se guardam nos museus, e alguns bem lindos, por sinal. E depois? Andarão vocês de coche? Isto na hipótese da terceira guerra mundial deixar sobreviventes.
É claro que não me esqueço de que as ciências e as técnicas não param de progredir, e que as descobertas futuras são insuspeitadas, mas deve ser muito difícil substituir o petróleo nas suas aplicações. Vocês é que o saberão.

Rómulo de Carvalho em Memórias

TRUMPALHADAS


As trumpalhadas são mais que muitas.

Donald Trump não inspira confiança.

Ele e a corte que escolheu para a casa Branca.

Não há dia em que não se fale de  «impeachment».

Soube-se agora que Cuba condenou a mensagem com que o presidente dos Estados Unidos se dirigiu ao povo cubano para assinalar a sua festa da independência, ocorrida no sábado.

Num comunicado lido na televisão estatal cubana, o Governo de Raul Castro considerou que o presidente norte-americano foi mal aconselhado, sendo a mensagem descrita como questionável e ridícula.

As autoridades cubanas reagiam a um comunicado emitido pela Casa Branca por ocasião da celebração da independência cubana, no qual é referido que o despotismo cruel não pode apagar o desejo de liberdade dos cubanos, que merecem um governo que defenda de maneira pacífica os valores democráticos.

Mesmo o governo dos EUA está ciente das afirmações desajeitadas e contraditórias do bilionário que se tornou presidente, tanto em política internacional como nos assuntos internos. 

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domingo, 21 de maio de 2017

MAIS OLHARES


A última música foi «Come Together» dos Beatles e o José António Portela convidou todos os artistas, que tocaram e cantaram na Gala, e quem quisesse, para subirem ao palco e cantarem, em coro, o «Come Together».
Estes são alguns dos artistas e faltam mais mas, quando estava todo o povo e me aprestava para fazer o boneco, a máquina exigiu que mudasse de bateria e bateria não existia.
Acidentes de percurso.
Entre o Paulo e o Duarte está o Daniel Bacelar que não quis deixar de marcar presença. 
Ainda gritaram pela «Marcianita» mas, mais uma vez, saiu para bingo. 

OS CROMOS DO BOTECO


Eu e o Nuno Potes.
O Nuno levou uns caixotes de vinis para ir vendendo durante a Gala dos Anos 60 no Centro Cultural do Cartaxo. 
Ainda deu para trazer uns epezinhos que, por estes dias, apresentarei por aqui.

OLHARES


É uma chatice, mas cada geração entende que a sua é sempre a melhor.
Faço parte dos anos 60 e, garanto, que outras podem ser boas, mas aquela, desculpem lá, foi um must.
Como ontem alguém disse, teve de tudo: Maio 68, Primavera de Praga, Vietnam, a nossa guerra colonial e… muita música, GRANDE MÚSICA, para melhor dizer.
Gente entusiasta e variada formaram bandas que nos ajudaram a passar tempos difíceis. A guerra dispersou muitos, mas eles passaram a encontrar-se, voltaram a pegar nas guitarras, nas baterias, nas teclas.
Andam por aí e, uma vez por ano, por iniciativa do António José Portela,     encontram-se, no Cartaxo, na Grande Gala.
Só este ano tive a oportunidade de estar presente e fiquei encantada.
Apesar, dos anos, aquela gente toca e canta para caramba!
E quando o José Manuel Concha arrancou com o «Let’s Twist Again», a malta não resistiu mais e vá de twistar.
Alívio de alma.
E até à próxima gala, que já tem data marcada: 19 de Maio de 2018.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


… por isso não me despeço. Vou ficar por aqui enquanto gostar e sei que hei-de gostar enquanto cá estiverem as pessoas por causa de quem gosto. Vou só descansar um bocadinho e voltar com fato novo. Feito de fitas, feito de mim. Também nisso não vou mudar. Não sei fazer ou falar de outra coisa. Até já.

                            João Bénard da Costa, final de Os Filmes da Minha Vida, os Meus   
                           Filmes da Vida

Nota do Editor: João Bénard da Costa morreu a 21 de maio de 2009,

Legenda: Fotograma de A Palavra de Carl Dreyer, 1955

sábado, 20 de maio de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


Ninguém o disse melhor que o senhor Presidente da República, que afirmou que “a vitória na Eurovisão deu 'mais 20 centímetros' aos portugueses”. Sim, excelente, andamos todos com mais 20 centímetros, mas onde é que está o metro e meio que perdemos como nação há 20 anos para cá, com a perda de poderes do Parlamento português, com a assinatura de tratados como o Orçamental, com a subjugação a um modelo de crescimento medíocre em nome das “regras europeias”, com acordos como o Acordo Ortográfico, que fez proliferar as normas da ortografia do português, em vez de as unificar, ficando nós com a mais pobre, com os cortes no ensino da língua e da projecção da cultura, com a ênfase na diplomacia económica e o definhar das instituições como o Instituto Camões?
O mais grave de tudo é que os 20 centímetros que o Salvador Sobral trouxe são em grande parte mérito dele, e o metro e meio que perdemos é demérito nosso. Foi o resultado de uma política de dolo que a União Europeia usou, com destaque para ao Tratado de Lisboa, que tirou às escondidas e sem debate público poderes que ninguém conscientemente deu à União, em detrimento da soberania nacional, foi o resultado dos desastres de Sócrates que nos levaram ao resgate e da política para forçar eleições em 2011 do PSD, foi o resultado da nossa apatia cívica face ao que é verdadeiramente importante, em contraste com as excitações futebolísticas. Foi o resultado de um sistema político no qual a dimensão cultural, histórica e expressiva da língua e da sua ortografia foi deitada ao lixo, por uma espécie de engenharia diplomática que se revelou um desastre, ficando todos pior do que o que estavam.


José Pacheco Pereira no Público

AS CASAS


As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa


José Tolentino Mendonça

NÃO HÁ POVO COMO O PORTUGUÊS


Carta de José Saramago, datada de 8 de Maio de 1967, para José Rodrigues Miguéis:

Leva uma pessoa quase uma vida a sonhar com Paris, e depois chega lá, olha em redor, vê o Sena que é assim a modos que o Tejo visto do outro lado do binóculo, e murmura, decepcionado: «Afinal é só isto?» Pois é, é só aquilo. Duas horas depois, porém, começa a sentir-se que a cidade vai entrando, e daí a nada levantamos a bandeira branca: rendição! Foram quatro dias de re-descoberta, que é aventura bem melhor que a descoberta. Vi o que era possível ver em tão pouco tempo e andei quilómetros de enfiada, ali, a pé. Imagine se eu ia perder uma passada que fosse… Ficou-me foi a ideia fixa de voltar…
Mas descobri uma coisa muito séria: é que nós, portugueses, somos, afinal, um excelentíssimo povo! Talvez eu esteja enganado, mas não creio que os franceses (ou os parisienses) mereçam a cidade que têm. Aquilo pode ser a douce France, mas o povo é que não tem nada da tal douceur de vivre tão apregoada. Ponho-me a pensar que grande troca seria pôr em Paris os alfacinhas e em Lisboa (vá lá) os parisienses. Faziam-se duas grandes cidades… A sério: ou eu estou muito enganado, ou não há povo como o português. Apelo para a sua experiência de vagamundo. Estou errado?

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sexta-feira, 19 de maio de 2017

OLHARES


Brasileira do Chiado.

CANTO DE BAR




Canta, cantor esquecido, tuas valsas de angústia!

Aqui o canto de bar
onde vêm parar os que serão suicidas,
gente de todas as nações falando todas as línguas,
emigrados de todos os países.
Aqui o canto de bar
onde ancorou o jogador arruinado
e as mulheres que perderam o número dos amantes
e os moços que sonharam vidas que não puderam ter.
Onde os cantores esquecidos cantam valsas lentas e antigas
que trazem a recordação de lares despedaçados.
Onde vieram parar os maltrapilhos perdidos para sempre
e onde as valsas cantadas por vozes arrastadas,
que lembram multidões de coisas,
já não trazem a mínima saudade.
Aqui onde se sabe indiferentemente
que o homem saído há pouco
estendeu a corda e se enforcou na escada.
Aqui onde se joga tudo sem interesse
porque já não há nada para jogar.
É o canto soturno
onde não entra sol nem lua.
Janelas fechadas, só fumo e luz vermelha.
Homens de todas as raças de olhos desiludidos,
mulheres de todas as raças de cabelos desgrenhados.
Aqui o canto de bar
onde veio parar o lixo de todas as nações.
(Todos que estavam a mais nas cidades e nos lares…)

Canta, cantor esquecido, tuas valsas de angústia!

Mário Dionísio em Novo Cancioneiro


Legenda: pintura de Douglas Gray

MOSTRAR EM VEZ DE DIZER


Tinamos um concerto marcado no Hammersmith Odeon, um recinto no coração de Londres. Quando encostamos ao passeio junto à porta, o cartaz luminoso Diz: «FINALMENTE!! LONFRES ESTÀ PRONTA PARA BRUCE SPRINGSTEEN». Parece-me que o tom não é lá o melhor para nos apresentar. Talvez seja… demasiado pretensioso? Ao entrar, sou inundado por um mar de pósteres colados em tosos os espaços possíveis e folhetos em cada cadeira a proclamar-me como o PRÓXIMO ESTRONDOSO SUCESSO! Era como o beijo da morte! Geralmente é melhor deixar que seja o público a decidir sobre essas coisas. Estou com medo e chateado, mesmo muito chateado. Sinto vergonha por mim e sinto-me ofendido pelos meus fãs.. Não é assim que as coisas funcionam. Eu sei como funcionam. Já o fiz antes. Bico calado e tocar. O meu negócio é o negócio do espetáculo, ou seja de mostrar em vez de dizer. Não se diz nada às pessoas; mostra-se às pessoas e deixamos que elas decidam. Foi assim que cheguei aqui: MOSTRNDO às pessoas. Se tentarmos dizer às pessoas aquilo que elas devem pensar, vamos terminar a vida como um fascistazinho a pregar na Madison Avenue. Ei, senhor estrela do rock desapareça da minha cabeça e faça o favor de andar nos meus sapatos e de entrar no meu coração. É assim que se faz o nosso trabalho. É assim que nos apresentamos.

Bruce Springsteen em Born to Run.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

POSTAIS SEM SELO


O que possuiremos nós realmente nesta vida? Porque será que nos desassossegamos tanto por causa daquilo que, quando muito, nos é meramente emprestado por algum tempo; e qual a razão de tanta conversa sobre graus de posse, quando o carácter ilusório da palavra "possuir" significa meramente abraçar o nada?

Erich Maria Remarque em Uma Noite em Lisboa

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

EU VI


Eu vi
Vi os comboios silenciosos os comboios negros que
vinham do Extremo-Oriente e que passavam como
fantasmas
E o meu olhar, como a lanterna da retaguarda, corre
ainda atrás desses comboios
Em Talga 100 000 feridos agonizavam por falta
de cuidados
Visitei os hospitais de Krasnõiarsk
E em Khi!ok cruzámos com um longo comboio de
soldados loucos
Vi nos lazaretos chagas abertas feridas que
sangravam a jorros.

E os membros amputados dançavam em volta
ou levantavam voo no ar roufenho
O incêndio estava em todos os rostos em todos
os corações
Dedos idiotas tamborilavam em todos os vidros
E sob a pressão do medo os olhares rebentavam
como abcessos
Em todas as estações deitavam fogo aos vagões

E vi
Vi comboios de 60 locomotivas que se escapavam
a todo o vapor perseguidas pelos horizontes
com cio e bandos de corvos que voavam
desesperadamente atrás,
Desaparecer
Na direcção de Porto-Artur.

Em Tchita tivemos alguns dias de descanso
Paragem de cinco dias devido a obstáculos da linha
Passámo-los em casa do Senhor lankéléwitch, que
queria dar-me em casamento a sua filha única.
Depois o comboio tornou a partir.
Agora era eu que me sentara ao piano e tinha dores
de dentes
Revejo quando quero esse interior calmo a loja do pai
e os olhos da filha que vinha à noite para a minha cama
Moussorgsky

E os lieder de Hugo Wolf
E as areias do Gobi
E em Khaïlar uma caravana de camelos brancos
Creio bem que estive bêbedo durante mais de
500 quilómetros
Mas eu estava ao piano e foi tudo quanto vi
Quando se viaja deviam-se fechar os olhos
Dormir
Gostaria tanto de dormir
Reconheço todos os países de olhos fechados pelo
seu odor
E reconheço todos os comboios pelo barulho que
fazem
Os comboios da Europa são a quatro tempos enquanto
os da Ásia são a cinco ou a sete
Outros seguem em surdina são canções de embalar
E há os que no ruído monótono das rodas me lembram
a prosa pesada de Maeterlinck
Decifrei todos os textos confusos das rodas e reuni
os elementos dispersos duma violenta beleza
Que eu possuo
E me força.

Tsitsika e Kharbine
Não vou mais longe
É a última estação
Desembarquei em Kharbine quando acabavam
de deitar fogo às instalações da Cruz Vermelha.

Ó Paris
Grande lareira ardente com os tições entrecruzados
das tuas ruas e velhas casas que se debruçam
por cima e se aquecem
Como os avós
E eis os anúncios, vermelho, verde, multicolores como
o meu passado em resumo amarelo
Amarela a cor altiva dos romances da França
no estrangeiro.
Nas grandes cidades gosto de me meter nos
autocarros em andamento
Os da linha Saint-Germain-Montmartre levam-me
ao assalto da Butte
Os motores mugem como touros de ouro
As vacas do crepúsculo pastam o Sacré-Coeur
Ó Paris
Estação central cais das vontades cruzamento das
inquietações
Só os droguistas têm ainda um pouco de luz por cima
das portas
A Companhia Internacional das Carruagem-Camas
e dos Grandes Expressos Europeus enviou-me
um prospecto
É a mais bela igreja do mundo
Tenho amigos que me rodeiam como barreiras
Têm medo quando eu parto que nunca mais volte
Todas as mulheres que conheci erguem-se
nos horizontes
Com gestos lastimosos e olhares tristes de semáforos
à chuva
Bela, Inês, Catarina e a mãe ‘do meu filho na Itália
E ainda a mãe do meu amor na América
Há gritos de sirene que me rasgam a alma
Na Manchúria um ventre estremece ainda como num
parto
Gostaria
Gostaria de nunca ter feito as minhas viagens
Esta noite um grande amor atormenta-me
E contra a minha vontade penso na jovem Joana
de França.
Foi numa noite de tristeza que escrevi este poema
em sua honra
Joana
A jovem prostituta
Estou triste estou triste
Irei ao Lapin Agile recordar-me da minha juventude
perdida
E beber copinhos
Depois voltarei sozinho para casa


(Poema copiado de  novaziodaonda)

CUSTA A ACREDITAR...


13-XI-64

O ambiente e pessoas mto distorcidas pelo s/ individualismo (todos querem ser líderes, ninguém militante…) Custa a acreditar que sejam presos políticos.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

TRUMPALHADAS


Nos últimos dias avolumaram-se os escândalos, as fifias em redor do presidente dos Estados Unidos.
Cada cavadela, cada minhoca.
Tudo junto leva a concluir que Donald Trump não cumprirá os quatro anos na Casa Branca.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

TODOS TOCAMOS MÚSICA FOLK


Se precisasse de acordar realmente depressa, punha a «Swing Low Sweet Cadillac» ou a «Umbrella Man» de Dizzy Gillespie. Hot House do Charlie Parker era outro dos discos muito bons para acordar. Havia muito poucas almas por aí que tivessem visto e ouvido Parker a tocar, e parecia que ele lhes tinha transmitido uma essência secreta da vida. «Ruby My Dear» de Monk era outro. Monk tocava no Blue Note na 3rd Street com John Ore no baixo e Frankie Dunlop na bateria.
Às vezes ele ficava por lá a tocar sozinho ao piano umas coisas que se pareciam com as do Ivory Joe Hunter – uma grande sandes meia comida deixada em cima do piano. Passei por lá à tarde uma vez só para ouvir – disse-lhe que tocava música folk umas ruas acima. «Todos tocamos música folk», disse-me. Mesmo quando andava na vadiagem Monk estava no seu próprio mundo dinâmico. Até nessas alturas inflamava a essência das coisas com nuvens mágicas.
Gostava muito do jazz moderno, de o ouvir nos clubes… mas não segui nem fui apanhado por ele. Não se alimentava de palavras banais com significados especiais. Eu precisava de ouvir coisas claras e simples em bom inglês e as músicas folk eram o que mais directamente me falava. Tony Bennett cantava em bom inglês e eu gostava de um dos seus discos – aquele chamado Hit Songs of Tony Bennett, que tinha «In the Middle of an Island», «Rags to Ritchies» e a canção do Hank Williams «Cold, Cold Heart».

Bob Dylan em Crónicas

OLHAR AS CAPAS


O Caso Benson

S. S. Van Dine
Tradução: Pepita de Leão
Capa: Cândido da Costa Pinto
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Faça-me o favor de pedir à senhora Platz que me empreste uma fita métrica e um novelo de fio; o Procurador Geral precisa disso – acrescentou, fazendo uma reverência para o lado de Markam.
- Não creio que pretenda enforcar-se, retorquiu este.
Vance olhou-o repreensivo e depois disse suavemente:
- Permita-me que lhe recomende o Othello:
Quão miseráveis são os que não têm paciência!
Que ferida jamais sarou, senão aos poucos?
Ou – descendo de um poeta para um espírito vulgar – deixe-me apresentar à sua consideração um pensamento de Longfellow: «Todas as coisas vêm às mãos daquele que sabe esperar». Falso, sem dúvida, mas consolador. Melhor o disse Milton no seu: «Também servem…» Mas Cervantes o exprimiu ainda melhor: «Paciência e baralha as cartas». Conselho sadio, Markham, e expresso livremente, como deve ser um bom conselho. Acredite, a paciência é uma espécie de último recurso – uma prática a adoptar quando já nada há a fazer. Ainda assim, como virtude, ela às vezes recompensa o que a pratica; posto que, por via de regra – outra vez como virtude – é inútil. Quer dizer, é a sua própria recompensa. Entretanto, tem sido enfarpelada em vários trajos verbais: «escrava da tristeza» e «soberano sobre os meus regenerados»; «paixão dos grandes corações». Rousseau escreveu: A paciência é amarga, mas o seu fruto é doce. Mas talvez o seu espírito jurídico se incline mais para o latim: Superanda omnis fortuna erendo est, segundo Virgílio. Horácio também falou no tema: Durum! disse ele, sed levius fit patientia.

terça-feira, 16 de maio de 2017

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Instituto Nacional de Estatística revelou que, no ano 2016, 25,1% portugueses estavam em risco de pobreza ou exclusão social. São, ao todo, mais de 2,5 milhões de pessoas, menos 1,5 pontos percentuais que no ano anterior.

Grande parte dos portugueses que se encontra nesta situação é menor de 18 anos (18,8%, ou seja, 487 mil). Quase outros tantos são idosos (18%).

Casas com falta de divisões habitáveis, sem casas de banho, apertadas e escuras são os problemas nas condições de vida que mais afectam famílias com crianças que se contam entre os que estão em risco de pobreza.


De 2015 para 2016, o rendimento médio disponível por família aumentou 79 euros, para 1.497 euros por mês, ou seja, 17.967 euros anuais. O valor de 2015 esteve ao nível de 2008.

Legenda: fotografia de Vivian Maier

QUE POSSO EU FAZER?


Final de carta de Eugénio de Andrade, datada de 30 de Abril de 1969, para Jorge de Sena:

E, caríssimo, fico-me por aqui. Eu continuo a arruinar-me com os discos. Tenho agora todas as óperas gravadas de Mozart. E gasto o meu tempo a ouvi-las. Que outra coisa posso eu fazer nesta cidade, neste país?