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sábado, 7 de dezembro de 2024

POSTAIS DE NATAL


Ainda os postais de Natal.

Repesco esta crónica que o escritor e editor  Manuel Alberto Valente publicava no Expresso.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Não saio de casa sem no bornal viajar um livro, um jornal, ou uma revista.

Pena minha parte, lamento que as 747 páginas de As 7 Vidas de José Saramago da autoria de Miguel Real não permitam andar por aí com o livro.

Fica apenas em amiúde consulta aqui pela casa.

Hoje, a paragem acontece na página 622, capítulo «Palestina/Israel».

Em 2002, em nome do Parlamento Internacional dos Escritores, José Saramago integra uma delegação que visita Israel e Palestina.

Em comentários junto da imprensa internacional, Saramago, indignado pela situação de miséria e repressão que testemunha, compara a condição do povo palestiniano à do povo israelita durante a Segunda Guerra Mundial, preso nos campos de extermínio hitlerianos, chegando mesmo a associar a essa comparação

O nome do campo de concentração de Auschwitz.

O Diário de Notícias de 26 de Março de 2002, noticia que, em Ramallah, capital administrativa da Palestina, «Saramago compara israelitas com nazis», e o jornal 24 Horas do dia seguinte cita uma declaração sua: «É pior que o apartheid.» De imediato, em reacção, os livros de Saramago são boicotados por editores e livreiros israelitas. Três dias depois, o jornal Público noticia que o Parlamento Internacional dos Escritores não apoia as declarações do escritor sobre a relação entre Israel e a Palestina e o campo de extermínio nazi de Auschwitz.

Segundo o argentino Clarin de 21 de Abril de 2002, os escritores israelitas Amos Oz e David Grossman sentiram-se «horrorizados» com tal comparação.

Em 2007, cinco anos depois daquela viagem, Saramago participará numa sessão em Lisboa, na Casa do Alentejo, a favor do reconhecimento do direito do povo palestiniano à libertação do Estado de Israel e, em entrevista ao Diário de Notícias, afirma que encontro em Ramallah o espírito de Auschwitz e que esta afirmação tinha sido censurada no jornal italiano La Repubblica.

Não parece existir qualquer dúvida qual seria a posição de Saramago – que tinha o vício de, em muitas situações, em muitos assuntos, ter razão antes do tempo - perante o genocídio que, há mais de um ano, Benjamin Netanyahu, impõe em território palestiniano.

Os múltiplos apoiantes de Israel são de opinião que devemos superar o ódio que é imputado aos israelitas, com palavras.

Mas que palavras?

Se querem palavras fiquem, por agora, com as do escritor e editor Manuel Alberto Valente no Público de 17 de Abril de 2002:

«Israel tem direito ao seu Estado e à sua segurança. Mas a única maneira de garantir essa segurança é conceder aos palestinianos o direito a terem um Estado seu. Parece simples, e é tão complicado. Mas quem, como eu, lutou pelo direito dos povos à sua liberdade, e por isso, condenou o nazismo e o Holocausto, não pode agora calar-se.»

Em tempo:

Dizer ainda que o estado português continua a não reconhecer o Estado da Palestina, ao contrário de outros países como, por exemplo a Espanha.

De que estarão à espera asa excelências?

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

CARTA DE NOVEMBRO A UMA CRIANÇA DE LISBOA


                                               à Alexandra


Dir-te-ão que era o ódio   sobre a paz  dir-te-ão

algumas palavras   sobre a pátria. Inventarão heróis

porque de heróis necessita quem teme o canto anónimo

de iguais. Exigirão que apagues os olhos da memória

o grito onde vivemos saudosos do futuro.

 

Tu saberás porém do coração maior que o sonho.

Dirás dos erros o seu nome de história

onde nada estava feito. Colherás com as mãos

que o sol tocou porque eram limpas e pequenas

essa flor desfolhada às portas de Dezembro.

 

Manuel Alberto Valente em Os Olhos de Passagem

sábado, 13 de julho de 2024

CONVERSANDO


Este é um recorte de uma das crónicas que Manuel Alberto Valente publicou no Expresso.

Há a oportunidade para lembrarmos o poeta, romancista e crítico Alexandre Pinheiro que praticamente caiu no esquecimento.

Uma excelente frase de Alexandre Pinheiro Torres citada no recorte:

«O privilégio da crítica é ser injusta.»

Depois o confirmarmos que as gentes das letras, volta e meia, se tratavam com termos tirados da última gaveta.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

ORAÇÃO DA MANHÃ

não poder de mão segura separar

a mais límpida essência destas ruas

do sangue velho que lhes mancha as pedras

onde tu    vil tristeza    continuas

 

não poder    não poder de mão segura

matar de vez o medo e a amargura

Manuel Alberto Valente em Viola Interdita

quinta-feira, 4 de maio de 2023

A POESIA É PARA COMER


Final de uma das crónicas de Manuel Alberto Valente no Expresso:

«A poesia é para comer, gritava a grande Natália, agora centenária. Ajudem pois a alimentar-se aqueles que, como ela, vivem da paixão e do sonho.»

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

CONVERSANDO

Manuel Alberto Valente, na crónica que publica no Expresso, dedicou uma das últimas (27 de Janeiro) a recordar autores esquecidos.

A crónica começa assim: «O tempo, esse grande escultor, como lhe chamou Yourcenar, é muitas vezes ingrato com certos autores: depois de um período de fama e reconhecimento, aira-os para o caixote do lixo da História.»

E passa a citar Altino do Tojal com os seus «Putos», Américo Guerreiro de Sousa, ManuelFerreira.

Lembra também alguns autores esquecidos que estão a ser republicados como Maria Ondina Braga (Imprensa Nacional), Maria Judite de Carvalho (Minotauro) e lembra ainda A Cidade das Flores de Augusto Abelaira, que há muito se encontrava esgotado.

Mas o interessante da crónica é que Manuel Alberto Valente lembra que o fenómeno do esquecimento de escritores não é apenas português, mania muito nossa, e conta:

«Há alguns anos, conversando na Feira de Frankfurt com uma jovem editora francesa, contei-lhe quão importante havia sido para a minha geração um autor como Roger Vailland. Olhou-me espantada, e confessou que não só não havia lido, como nem sequer conhecia o nome. E era editora… O tempo pode ser um grande escultor, mas também muitas vezes, o barro com que esculpe desfaz-se e é arrastado pelo vento.»

Por Roger Vailland sei bem do que fala o Manuel Alberto Valente.

Reconto a história já aqui deixada em Junho de 2013:

 «Por um antigo Verão, quando ainda havia Verão, em Almoçageme, quando Almoçageme ainda era uma pacata aldeia, numa festa de bombeiros, quando ainda havia festas de bombeiros, o Miguel apareceu com uma rapaziada francesa, altos, médios quadros de uma importante empresa.

 Sandes de isca para um lado, bifanas para outro, caldo verde, pelo meio jarros de vinho tinto.

 Eis senão quando, num assomo de infantilidade a roçar a mais parva das idiotices, lembrei-me de questionar os franceses sobre se conheciam Roger Vailland, Camus, Roger Martin du Gard, Georges Brassens, Jean Ferrat, enfim, uma cachoeira de escritores e cantores franceses, a que os rapazes, rigorosamente, disseram nada.

 Boca-comentário mandada para o lado: ainda dizem que os portugueses é que são ignorantes!...

 Corria o ano de 2007, Baptista-Bastos numa entrevista ao Público, dizia:

 Há tempos estive em França e perguntei: “Como é que vamos de Roger Vailland. E ninguém sabia quem era. Vai fazer agora 100 anos!”».

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Viola Interdita

Manuel Alberto Valente

Capa: Armando Alves

2 desenhos de José Rodrigues

Colecção de Poesia nº 1

Edição de Autor, Porto, 1970

 

Conversa Com Fernando Pessoa no Martinho

 

A casa continua como quando aqui paravas.

Talvez sejam os mesmos que agora a povoam

destas conversas sonolentas e cruzadas.

Ali ao longe o rio persiste em navegar

e só as águas envelheceram. O resto é

a cidade   quer dizer   o nevoeiro

que quando desembarcaste. Fala-se na esperança

e acredita-se no medo. O resto é a cidade

que cantaste e te desconheceu

e ainda desconhece os que procuram

o violino de palavras que criaste.

quinta-feira, 4 de março de 2021

O IMPORTANTE É A OBRA


O poeta e editor Manuel Alberto Valente, conta em crónica no Expresso, que estando em Coimbra, nos anos 60, a estudar Direito Administrativo, sem grandes resultados, ainda a colaborar na revista Vértice, resolveu transferir-se para Lisboa, dando conhecimento da decisão ao director da revista, o poeta Joaquim Namorado.

- Vais para Lisboa, porquê?

A resposta saiu-lhe típica do fim da adolescência:

- Lisboa é uma cidade grande. E, além disso, lá podem conhecer-se os escritores.

O poeta deu-lhe um valente calduço:

«- Os escritores são para se ler, e não para se conhecer!

Esta frase tem-me acompanhado toda a vida. E se é verdade que a minha atividade editorial desmentiu as mais das vezes, também é verdade que algumas vezes a confirmou.

O importante é a obra. Por trás dela, esconde-se muitas vezes um ser humano que é preferível não conhecer.

Mas nessa época eu ainda não o sabia.»

Acabada a leitura da crónica, lembrando escritores escritores que, para além da obra, é preferível não conhecer, lembrei-me de António Lobo Antunes.


Legenda: capa da revista Vértice nº 248/249, Maio/Junho de 1964, com um desenho de Malangatana

sexta-feira, 12 de junho de 2020

MEMÓRIA DE LUANDA


Já não posso partir sem me partir
e assim partido aqui permanecer
metade do meu rosto voltada rumo ao norte
voltada para o mar a minha antiga voz.

Já não posso partir e no entanto parto
o copo de cristal onde bebi esta certeza
de me partir partindo acesa
embora a outra margem do exílio.

E se me exilo desta margem desta
aragem desta ternura bebida em tons
de negro em sons de povo e noite

é porque sei que um dia voltarei
cantar na liberdade do meu corpo
o corpo livre da noite e deste povo.

Manuel Alberto Valente em Os Olhos de Passagem

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Em conversa com um livreiro, fiquei a saber que a colecção Resumo: a poesia em…, edição conjunta da FNAC e Assírio e Alvim, acabou em 2014 com a antologia de poemas referente ao ano de 2013.

Acabou quando a Assírio & Alvim foi comprada pela Porto Editora.

No 1º volume referente ao ano de 2009, e publicado em 2010, podia ler-se, numa breve nota, assinada pelos antologiadores: José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós, Manuel de Freitas:

«O presente volume, a que desejavelmente se dará seguimento nos próximos anos, pretende ser uma antologia dos melhores poemas publicados em Portugal ao longo de 2009.»

Publicaram-se 5 volumes.

Alguém na Porto Editora acabou por concluir que iniciativas destas não dão para fazer tilintar as caixas registadoras, que também já foram extintas, são aqui mencionadas para que perceba a ideia.

O mais estranho é que um dos responsáveis editoriais da Porto Editora é Manuel Alberto Valente que nos anos 70, juntamente com Egito Gonçalves, organizou e publicou Poesia70 que só conheceu dois volumes, referentes aos anos de 1970 e 1971.

No que à FNAC diz respeito, nem sei bem como alinhou nesta iniciativa, está mais interessada em outras áreas de negócio do que de livros.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



21 Ensaios Sobre Eugénio de Andrade
Seguidos de Antologia

Vários autores (Alexandre Pinheiro Torres, António Ramos Rosa, Eduardo Lourenço, Gastão Cruz, Jorge de Sena, José Fernandes Fafe, José Pacheco Pereira, Mário Sacramento, Óscar Lopes, Vergílio Ferreira, entre outros.
Prefácio: Manuel Alberto Valente
Capa: Armando Alves
Colecção Civilização Portuguesa nº 10
Editorial Inova, Porto s/d

Contra el silencio y el bulício invento
La Palabra, libertad que se inventa y me inventa cada dia.
Octavio Paz

Apetecia-me escrever que, após Fernando Pessoa, era Eugénio de Andrade o maior poeta português do século presente. Apetecia-me escrever, mas não escrevo. E no entanto, passado o magnífico rebanho do portentoso guardador, a poesia nacional – alicerçada, sem dúvida, num índice de qualidade bastante saliente – poucos nomes teve e tem que brilhem tanto com o dele. Poucos? Três ou quatro apenas! Os suficientes, justo é confessá-lo, para que a mão me trema e o coração se sobressalte no momento de arriscar a parada suprema…

(Do prefácio de Manuel Alberto Valente)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O OUTRO LADO DAS CAPAS


O  Caso daQuinta Avenida é o nº 13 da nova série da clássica Colecção Vampiro, de novo publicada por Livros do Brasil, mas agora englobada no grupo editorial da Porto Editora.

Tem tradução de Fernando Pessoa, completada por Catarina Rocha Lima. 

A páginas 134 desta edição pode ler-se:

«Aqui termina a parte traduzida por Fernando Pessoa, mas os seus critérios e opções, tanto quanto possível, continuarão a ser respeitados até ao fim do romance, embora não seja pretensão da tradutora imitar o grande escritor. Assim, notará o leitor, por certo, mudança de estilo que, a partir deste ponto, será, não o de Fernando Pessoa, mas tão-só, o próprio da tradutora que recebeu o pesado encargo de completar a obra por ele iniciada.»

Segundo informação prestada pelo editor, no final desta desta edição, a tradução de Fernando Pessoa apareceu, sob a forma de folhetim, no jornal diário O Sol, cujo director era Celestino Soares, tendo sido publicados apenas trinta e três números, entre 30 de Outubro de 1926 e 1 de Dezembro do mesmo ano. O curto período de vida de O Sol apenas permitiu a publicação de cerca de um terço do livro e o fim do jornal levou, por sua vez, ao fim da tarefa de tradução de Fernando Pessoa.

Na primeira série da colecção O Caso da Quinta Avenida tinha o nº 562.

A nova série da Colecção Vampiro começou com Os Crimes do Bispo de S.S. Van Dine, cuja primeira publicação já aqui foi apresentada com capa de Cândido Costa Pinto.


A velha Colecção Vampiro, que começou em 1947, abre com Agatha Christie e o seu Poirot Desvenda o Passado, teve o seu epílogo em 2007 com o número de colecção 703 que corresponde a Do Álbum de Um Detective da autoria de Headon Hill.

Apetece dizer que, casa que se preze, guarda no seu interior um qualquer livro da Colecção Vampiro.

São fantásticas as capas de Cândido da Costa Pinto, algumas verdadeiras obras de arte, interessantes também as de Lima de Freitas mas, verdadeiramente, a cereja no topo do bolo são as capas de Cândido Costa Pinto que as desenha até ao número 104 da colecção, enquanto que as de Lima de Freitas vão do número 105 até ao número 325.

A partir daqui as capas perdem qualidade, alguns volumes mencionam que as capas são de autoria de A. Pedro e grande parte são de um péssimo gosto, muitas a resvalar para a pornografia pura e dura, com o mero propósito de chamar a atenção com vista à fácil compra. 

Diga-se também que as traduções não primavam pela qualidade. A maior parte seguia a edição brasileira, revistas, em cima do joelho, para português.

A Vampiro seguia o lema que tudo o que viesse à rede era peixe e daí encontramos, na colecção, autores da segunda, terceira e quarta divisão do Romance Policial.

Mas, no fundo dos fundos, o balanço final é positivo.

Manuel Alberto Valente, responsável editorial da nova série da Vampiro, revelou  ao Diário de Notícias que «as capas tendem a assumir o estilo retro e vintage da coleção inicial mesmo que executadas por um designer actual».

Quanto às traduções, a maioria das novas edições irão recuperar as antigas versões, mas alerta para alterações muito significativas: «Serão fortemente revistas e o texto será integral, situação que nem sempre se verificava pois eram feitos cortes em certas partes para caber na paginação. Desta vez, serão publicados os textos originais.»

Legenda: contracapa de O Caso da Quinta Avenida

sábado, 30 de setembro de 2017

RELACIONADOS


Em tempo de ditadura, apesar de tudo, faziam-se coisas muito interessantes.

Estes dois volumes, Poesia 70 e Poesia 71, reflectem esse interesse.

Iniciativa do poeta e editor Egito Gonçalves que, para o primeiro volume teve a colaboração de Manuel Alberto Valente, e para o segundo a colaboração de Fiama Hasse Pais Brandão.

No primeiro volume publica-se uma espécie de prefácio a que os autores chamaram «Alguma palavras para dar uma ideia…» e em que dizem ao que vêm e falam  sobretudo de uma «amostragem» da poesia publicada em língua portuguesa, na Metrópole, no ano a que se refere.

Não foi planeada exclusivamente como uma antologia de poemas, mas sim como uma panorâmica.

Os poemas foram procurados em livros que se publicaram durante esses anos, em suplementos literários e juvenis de jornais que se publicavam nas cidades e na província.

Um trabalho interessante mas repleto de dificuldades, problemas diversos e algumas rasteiras, próprias deste país de poetas, ou como diziam algumas más-línguas, de escrevinhadores de versos.

Não tenho conhecimento que tivessem sido editados volumes referentes a anos seguintes.

Alguns antologiados, de que foram retirados poemas aparecidos em suplementos juvenis, alinham ao lado de nomes consagrados e alguns desses novos autores vieram a realizar outros voos no panorama da poesia, e não só, portuguesa.

Anos mais tarde, a editora Assírio &Alvim, editou alguns volumes, a que chamou Resumo, também amostragens, do que se publicou durante os anos de 2009 a 2013.

Desconheço se esses volumes tiveram posterior continuação.

Os poemas foram escolhidos por José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queiroz, Manuel de Freitas (anos 2009, 2010 e 2013) e Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós, Manuel de Freitas (anos 2011 e 2012.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Poesia 70

Selecção de Egito Gonçalves e Manuel Alberto Valente
Capa: Armando Alves
Editorial Inova, Porto, Junho de 1971

Devolvem-me os canais em que circulo
os cartazes do pranto as unhas tensas
cruzando sobre a fronte o desengano
uma chuva de fogo para a noite

Dizendo noite a própria noite vela
para imitar o dia destruí-lo
uma lata vazia um grito gasto
onde a sopa arrefece

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra

Dizendo dia crio a melhor forma
de revender a noite insinuá-la
fio de raiz roendo-me os tecidos
uma estátua crescendo

Nada mais tenho Escrevo na palavra
outra palavra.

Vasco da Costa Marques do livro Um Beco no Espaço

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Os Olhos de Passagem

Manuel Alberto Valente
Colecção Horizonte de Poesia nº 4
Livros Horizonte, Lisboa, Dezembro de 1976

Carta de Novembro a Uma Criança de Lisboa

                                                                  À Alexandra

Dir-te-ão que era o ódio    sobre a paz dir-te-ão
algumas  palavras    sobre a pátria. Inventarão heróis
porque de heróis necessita quem teme o canto anónimo
de iguais.  Exigirão  que  apaguesaos olhos da memória
o grito onde vivemos saudosos do futuro.

Tu saberás porém do coração maior que o sonho.
Dirás dos erros o seu nome de história
onde nada estava feito. Colherás com as mãos
que o sol tocou porque eram l9impas e pequenas

essa flor desfolhada às portas de Dezembro.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

SARAMAGUEANDO


Quando os herdeiros de José Saramago entenderam cessar o seu trabalho de edição com a Leya aceitei de bom grado a decisão. A Caminho, juntamente com outras editoras, foi engolida por esse saco de gatos que é a Leya, cujos proprietários estão mais interessados em ouvir – se ainda as houvesse -, as caixas registadoras a tilintar, do que ter o gosto e amor pelos livros e os seus autores.

A Caminho sempre foi a editora de José Saramago, se perdeu a sua identidade, não havia justificação para continuar a ligação.

A passagem da edição dos livros de Saramago para a Porto Editora, se bem que seja, também um grupo em que existem contornos semelhantes aos da Leya, possui a vantagem de, à frente da parte editorial, ter um homem que gosta de livros e respeita os autores – o poeta Manuel Alberto Valente.

Agora soube-se que os herdeiros de José Saramago, prescindiram dos serviços da Agência Literária Merlin que, durante 28 anos, foi representante dos direitos internacionais da obra de José Saramago, e entregaram a representação a uma outra agência. 

Nicole Witt, em comunicado enviado à Lusa diz que muito antes da sua consagração com o prémio Nobel da Literatura, em 1998, já a agência tinha conseguido uma lista significativa de traduções da obra de Saramago, primeiro, sob a direcção de Ray-Güde Mertin, que durante muitos anos também foi a tradutora para alemão da obra do autor.

Com a equipa da agência, descreveu Nicole Witt, sempre nos entregámos com dedicação, atenção pessoal, convicção, profissionalismo, ética e integridade moral à nossa tarefa de divulgação da obra de José Saramago pelo mundo fora. Não tenho dúvidas de que esta postura foi especialmente apreciada pelo autor. Quando me despedi de José Saramago, em Junho de 2010, em Lanzarote, pouco antes do seu falecimento, senti que ele confiava no nosso trabalho e que estava satisfeito com os resultados obtidos: uma divulgação da sua obra em mais de 60 países, em editoras excelentes, fazendo parte da melhor literatura mundial.

Nicole Witt não entende a decisão dos herdeiros de José Saramago.

Se alguma razão existe, não a conheço.

José Saramago, que pautou os seus dias pela lealdade nas relações comerciais, - e não só! – provavelmente, não apoiaria.

Tendo por estes dias, a remexer em papéis e livros do Luiz Pacheco, encontrei este pedaço de uma entrevista dada, em Julho de 1996, a Paula Moura Pinheiro:

Eu nunca aguentaria uma situação idêntica à do Saramago, por exemplo. A Pilar controla tudo, de manhã à noite. O homem não pode ter aventuras nem com homens nem com mulheres. Nada. Está ali com o mirone sempre a pau. O que é que há-de fazer? Faz boletins do gabinete do senhor escritor José Saramago. Tanto dá que tenha sido escrito por ele, pela mulher-a-dias, pela Pilar, pela Desidéria. Ele no fim assina e pronto. Vai aqui, vai ali, recebe prémio, não recebe prémio. Ele é um computador. Mesmo que tivesse vivido ao longo destes anos uma aventura qualquer não pode escrevê-la Está impedido.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

UM LENÇO PARA CATARINA


Chamavas-te Catarina? Ou foi a sina
De nomear o mito e dar um rosto à História
Que fez nascer em nós teu nome de menina
Como barco sulcando as águas da memória?

E será que morreste? Ou por termos medo
Da nossa própria morte mais à frente certa
Criámos em surdina as balas do segredo
Que foi bordado a fogo na tua saia aberta?

Mas o nome qu’importa? A hora? O mês?
Em cada morte nossa morres outra vez
E colam outro nome à pedra em que te fito.

E mesmo a morte passa. A nossa e a tua.
Quando chegam as aves apenas flutua
Um lenço onde se acende o teu perfil de grito.

Manuel Alberto Valente em 10 Poemas para Catarina, O Oiro do Dia, Porto, Maio de 1981.

Legenda: número do Avante de Abril-Maio de 1954 referindo a morte, pela GNR, de Catarina Eufémia no dia 19 de Maio de 1954.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

CONCENTRAÇÃO EDITORIAL


Em artigo de opinião, publicado na Notícias Magazine de 25 de Maio 2008, Manuel Alberto Valente mostrava o seu  entendimento sobre o fenómeno da concentração editorial..

SARAMAGUEANDO


Ontem ficou a saber-se que será a Porto Editora irá editar a obra de José Saramago, e que o romance inédito de José Saramago Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas será já editado pela Porto Editora.

A Porto Editora, a exemplo da Leya, é um dos grupos que, nos últimos anos, t~em vindo a adquirir outras editoras.

Existe, porém, uma grande diferença.

A Porto Editora que, entre editoras,engloba a Assírio &Alvim tem à frente da parte editorial o escritor Manuel Alberto Valente que há muitos anos manuseia livros, que lhes conhece as cores, os cheiros, o miolo, e que aos livros dedica aquilo que mais os torna importantes e diferentes: o amor.

Manuel Alberto Valente, ver post seguinte, reconhece, nos dias de hoje, a inevitabilidade da concentração editorial, mas avisa que à frente desses novos pequenos impérios, deve esta gente que não seja alheia ao mundo do livro.

Manuel Alberto Valente está nesse número. Para além de não ter, por hobby, carros de corrida, sabe da importância dos livros.

Um pão vale mais que um livro?

Aí está uma interminável discussão.

Outra editora que concorria para a publicação das obras de José Saramago era a Relógio d’Água do escritor de Fernando Vale, que se tivesse sido esta a escolha de quem teve de decidir, se saberia que os livros de José Saramago estariam, também, em muito boas

Tanto Manuel AlbertoValente como Fernando Vale de modo algum desdenham aquele bonito sentir de Manuel Hermínio Monteiro:

Gosto de pensar que edito livros como quem trata de uma vinha.

Legenda: fotografai da Cornerstone Books Shop