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domingo, 13 de julho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Essa História

António Salvado

Capa: Henrique Cayatte sobre versão de João da Câmara Leme

Colecção Poetas de Hoje

Portugália Editora Junho de 2008

 

É Então

 

A vinda do crepúsculo

nunca sabe que a sombra

surgirá como seu véu

tecido pelos astros

a encurtarem    dóceis

a entre nós distância

e o ignoto infinito.

É Então que se vê

o que as estrelas dizem:

que o infinito tem

a extensão do amor.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Ilha do Desterro

Alexandre Pinheiro Torres

Capa: João da Câmara Leme

Colecção Poetas de Hoje nº 29

Portugália Editora. Lisboa, Outubro de 1968


Fala com o Mar pelo nascer do dia


Venho olhar a tua quinta-feira

que é esta longa seara

de pedra. E vejo ainda

desarmada a mão avara

 

que vai disparar a bala

rente ao úvido da Manhã.

A luz da aurora é a fala

duma língua temporã

 

que primeiro nada lavra

e é uma charrua de tábua,

mas quando se faz palavra

é um pomar a tua água.

 

Chego-me para olhar a quinta

como se olhá-la adubasse

essa terra tão faminta

da clareza da sintaxe.

 

Vê agora a tua mesa

se é que a luz ainda por vir

te deixa ver a portuguesa

maneira de a servir.

 

O que nela se nos dá

sobre a ausência da toalha

é a pedra que aqui há

como única vitualha.

 

E a mão deflagra o gatilho

secreto do amanhecer.

As palavras são o rastilho

do lume que vai nascer

 

troando ao ouvido que ensurdece

o urgentíssimo arcabuz

que da noite lenta tece

uma bengala de luz.

 

Alexandre Pinheiro Torres em Ilha do Desterro

quarta-feira, 13 de março de 2024

OLHAR AS CAPAS


O Senhor Sete

Trindade Coelho

Recolha, apresentação e notas: Augusto da Costa Dias

Capa: João da Câmara Leme

Portugália Editora, Lisboa, Agosto de 1961

Começo a dar hoje nestas doces páginas da Tradição tudo quanto a minha paciência para coisas do povo tem coligido – aqui, além, acolá -, em que entre o algarismo 7, que é, como se sabe, muito do agrado popular. Começarei pelas quadras que estão nesse caso, incluindo, está bem de ver, as que se referem ao Setestrelo; passarei depois aos ditados, rifões, parlendas e frases feitas, em que esse algarismo figure também; aos responsos, esconjuros, orações e adivinhas, em que o mesmo sede; e, por último (e quem sabe lá se o mundo se não acabará primeiro!) ao que também respiguei de setes na literatura popular já coligida: xácaras, romances, solaus, contos, etc., etc,

Valos lá, pois, com Deus, que temos muito que andar, e o que vale é que não pode o caminho ser mais bonito! 

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Contos Para Crianças

Jaime Cortesão

Capa: desenho de António Carneiro

Ilustrações: João da Câmara Leme

Colecção Obras Completas de Jaime Cortesão: nº 4

Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1995

E quando voltavam ao castelo, já tarde e em noites de luar, viam às vezes cruzar no céu os bandos de aves migradouras que partiam para os países distantes. E, mais que todos, os maravilhava o voo dos patos bravos, negros e formados em V, desenhado a nanquim sobre a neve da lua.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Um Sonho Americano

Norman Mailer

Tradução: H. Silva Letra

Capa: João da Câmara Leme

Colecção Contemporânea nº 107

Portugália Editora, Lisboa Setembro de 1968

Passara o último ano separando-me da minha mulher. Fôramos casados mioto ìntimamente, e com frequência muito infelizmente, durante oito anos, e nos últimos cinco procurei evacuar o meu exército expedicionário, aquela força de esperanças, necessidade total, simples desejo viril e dedicação que havia empregado nela. Era uma guerra perdida, e eu queria retirar-me, contar os mortos e buscar o amor noutra terra. Contudo, Deborah era uma grande fêmea, uma leoa de espécie. O rendimento incondicional era o seu único alimento.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

OLHAR AS CAPAS


O Visconde Cortado ao Meio

Italo Calvino

Tradução: José Manuel Calafate

Capa: João da Câmara Leme

Colecção O Livro de Bolso nº 17

Portugália Editora, Lisboa s/d

Chegara à adolescência e escondia-me ainda entre a raízes descobertas das grandes árvores do bosque, contando histórias a mim mesmo. Uma agulha de pinheiro podia para mim representar um cavaleiro, ou uma dama, ou até um bobo da corte; eu imaginava-os movendo-se diante dos meus olhos e perdia-me em histórias intermináveis e fantásticas. Mas, depois, subitamente, sentia vergonha destas divagações e fugia, pelos bosques, sei lá de quê ou de quem.

Por fim, chegou também o dia em que até o próprio doutor Trelawney me abandonou. Certa manhã, entrou no golfo da nossa região uma esquadra de navios ostentando o pavilhão inglês. Toda Terralba desceu à praia, para observar, excepto eu, que não sabia. Nos parapeitos das amuradas e pela mastreação, multidões de marinheiros exibiam ananases e tartarugas e desenrolavam cartazes em que havia máximas e inglesas pintadas. Na ponte, no meio dos oficiais de tricórnio e cabeleira, o capitão Cook olhava pelo óculo a praia, e mal descobriu o doutor Trelawney, deu ordens para que, com bandeirinhas, lhe transmitissem a seguinte mensagem:

«Venha já para bordo, doutor. Temos de continuar aquela partida de sete-e-meio.»

O doutor despediu-se de todos os habitantes de Terralba e abandonou-nos. Os marinheiros entoaram o hino: «Oh! Austrália!» e o doutor foi içado para bordo a cavalo num barril de vinho carrascão. Depois levantaram ferro e partira.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Jangada

Romeu Correia
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso nº 41
Portugália Editora, Lisboa s/d

CAROLINA (sombria): Que viver tão triste que tem sido o nosso! (Comovida) Quando penso na nossa existência entre estas quatro paredes… choro, choro, só me sinto bem a chorar!...
LUZIA (igualmente comovida): Se tivéssemos casado, nada disto teria acontecido. Mas este maldito cais onde o papá se meteu… Nós, umas raparigas, entaipadas entre o mar e o céu…
(Pausa)
CAROLINA: Há mulheres que nunca se conformariam entre estas quatro paredes!
LUZIA (reagindo): Mulheres sem princípios!
CAROLINA (digna): Mas a nós, graças a Deus, nunca eles nos faltaram!
(Pausa)
LUZIA: Os nossos pais prenderam-nos demasiado… - foi o que foi!
CAROLINA: Nisso de severidade, a mamã levava a palma ao papá.
LUZIA: Era ela que nos aturava de manhã à noite. Ao passo que o pobrezinho só nos via quando regressava do trabalho… Aquele homem viveu mais horas sob o telhado da fábrica que junto da esposa e dos filhos.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



As Mulheres de Messina

Elio Vittorini
Tradução: Nunes Martinho
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 92
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1966

Eu sei como pode imaginar este nosso país quem nunca o percorreu e dele conheça somente a sua alongada figura numa página do atlas; um planalto de secas terras avermelhadas entre dois mares que estão a ocidente e a oriente, árido, sem uma árvore, queimado pelos ventos e pelo hálito do sol, pelo hálito do sal; e assim é verdadeiramente nas grandes extensões, quando se sobe acima dos trezentos metros em viagem, entre uma e outra das suas cidades com torres e cúpulas, árido por grandes extensões, nu por grandes extensões, alto com terras avermelhadas entre Emília e Toscana ou entre Siracusa e Roma, tal como o deserto é o deserto entre um e outro dos seus oásis.
Ao longo do deserto os homens são viajantes, e do mesmo modo no nosso planalto
as gentes são nómadas, andam por aqui e por ali, pelo sul em direcção ao norte ou do norte em direcção ao sul em compridos comboios, donde se observa, permanecendo de pé três ou quatro dias de seguida, cinco de seguida, o que esta terra é em qualquer parte e que no seu todo se chama Itália, com lugares tão diferentes um dos outros como bari e Bolonha, Catanzaro e Génova.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Hora Di Bai

Manuel Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso nº 52/53
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

Naquele tempo de fome a ilha de São Vicente era o porto de salvamento.
Empurrados do interior, os povos vieram arrastando-se para o litoral, até junto do mar, na esperança de uma mandioquinha, na ânsia de um caldinho de peixe – que luxo! – de uma cana para chupar, ou até de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrastados nos ventos da miséria. Nem a sopa da assistência evitava que a carroça da Câmara, no alvor da madrugada, levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados e frios. Nem a sopa da assistência o evitava, bem se pode dizer, pois as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar.
Um pesadelo perpassava pelas localidades e casalejos ribeirinhos, de ponta a ponta, e galgava pela amarelidão da terra nua e requeimada.
Dondê aquelas bananeiras verdinhas de cachos pendidos em arco ao rés-do-chão? Dondê aqueles pés de papaia carregadinhos, e aquelas batatas-doces, e aquela mandioca, aquele nhame, e aquelas laranjas, a água a crescer na boca!, e aquele milho cobrindo os sequeiros e os regadios, dando a fartura da gente e dos animais?! Nem ervas, nem uma raiz a despontar, nem um rebento a asseverar que a vida não era promessa vã, nessas ilhas desgarradas no meio do mar!
Dondê aquelas casas, o movimento da tardinha? Dondê aquele falatório dos homens, os chamos das mães pelos filhos que andavam correndo pelas ribeiras? Gente, donde?! Lá no interior, casas intactas, nem uma só! Fantasmas solitários na paisagem descarnada.
A maldição varrera a ilha. A maldição da estiagem. A maldição da fome.
Nada bulia a não ser os revérberos do Sol na distância.
Que silêncio!
Nem pio de ave. Nem grito de dor ou ciclo de tristeza feria tamanha solidão. Até a morna, drama feito canção, se diluíra no silêncio da dor. Os sobreviventes dessa fúria ciclónica – que eram? Destroços de angústia, restos de vida absurda e degradada, onde remotas esperanças, desencantadas dum estado de morbidez, se desprendiam teimosamente lá do fundo do inconsciente, na terrível ânsia de viver.
Fogo, tristeza, abandono de fim-de-mundo. Só, na terra nua e bem amada!

domingo, 20 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Terna é a Noite

F. Scott Fitzgerald
Tradução: Cabral do Nascimento
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 31
Portugália Editora, Lisboa, Março de 1962

Na costa aprazível da Riviera francesa, a cerca de meio caminho entre Marselha e a fronteira italiana, fica um vasto hotel imponente, pintado de cor-de-rosa. Várias palmeiras lhe refrescam a frontaria pesada, e diante dele estende-se uma praiazinha deliciosa. Ainda há dez anos era pouco frequentado, depois da debandada da clientela inglesa, mas há pouco tempo tornou-se ponto de reunião de banhistas ilustres e elegantes, e já o rodeiam inúmeros bangalós. Quando, porém, se inicia esta história há apenas uma dúzia de vivendas antigas, e os seus telhados jazem como nenúfares apodrecidos no meio do pinhal denso que vai do Hotel Gausse ou dos Estrangeiros até Cannes, a cinco milhas de distância.

domingo, 27 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Morreram pela Pátria

Mikail Cholokov
Versão: Jaime Brasil
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 49
Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1963

- Não vás supor, Nicolau, que foi sempre assim desde o nosso casamento. Não há mais de dois aos que minha mulher ficou desarranjada por causa da literatura.
«Vivemos oito anos como outro casal qualquer. Anastácia e eu fazíamos equipa numa ceifadora, sem nunca ela ter desmaios nem fazer fitas. Depois quando lhe deu para a literatura, foi o começo do fim. Tornou-se tão sábia que não pode falar como toda a gente: precisa de maiúsculas para tudo. Passa s noites a ler e de dia parece uma ovelha com ronha: suspira e tudo lhe cai das mãos. Uma vez, imagina, aparece-me a suspirar, mas então a ponto de cortara o coração, e explica-me com ares amaneirados: «Meu pobre Ivan, pensa que nunca me fizeste uma declaração de amor! Nunca ouvi da tua boca palavras ternas como as que escrevem na literatura!». Eu começava a ficar a estar danado. Ela leu e tresleu, pensava, e respondi-lhe: «Anastácia, não estarás um tanto chalada? Há dez anos que estamos juntos. Já nos nasceram três garotos. De que teria o ar, santo Deus, se me pusesse a recitar uma declaração de amor? Poderia dar as voltas que desse à língua; mas não sairia nada. Palavras ternas, até no tempo em que era jovem, nunca as disse; explicava-me por gestos; não seria nesta altura que ia começar. Não sou tão tapado como tu imaginas. Em lugar de leres todos esses calhamaços idiotas, farias melhor se te ocupasses dos pequenos.» Os garotos, devo dizê-lo, crescem ao deus-dará, e a casa transformou-se numa espécie de bazar.

quinta-feira, 1 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Poemas Escolhidos

João Cabral de Melo Neto
Selecção: Alexandre O’Neill
Prefácio: Alexandre Pinheiro Torres
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 9
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

Graciliano Ramos

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.

Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.

Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

sábado, 14 de outubro de 2017

QUASE TUDO ME NÃO MERECE


Carta de Jorge de Sena, datada de 2 de Abril de 1961, Domingo de Páscoa, para Sophia  onde lhe agradece as palavras que lhe dirigiu sobre a Poesia I e Novas Andanças do Demónio:

Eu não sei, Sophia, aí quase tudo me não merece. Mas o que lhe garanto é que, aqui, também não nos merecem. Temos por cá o mesmo carreirismo torpe, cuja virtude é ser representado em descarado makebelieve. E, quase definitivamente, ninguém culturalmente se interessa por nós. Respeitam-me, estimam-me ou admiram-me, pelo que publico e faço; mas ninguém busca ler ou conhecer o que publiquei ou fiz – e isto sucede com nós todos. Se eu ler poemas seus, como já li em público, as pessoas gostam e admiram. Mas não se dão ao trabalho, sequer, de pedir-me os seus livros para a lerem como nunca me pediram os meus. Eu sou o grande escritor, aquele sujeito formidável que fez e faz conferências esplêndidas, escreve belos artigos no estado de São Paulo, é astro de congressos… e aqui a coisa acaba. Nós não existimos para eles, de resto, culturalmente, poeticamente, nada existe: tudo é literatura Os estudos de literatura brasileira enchem tudo, envenenam tudo. Acha a Sophia que nós existiríamos culturalmente, se tivéssemos a vida desenterrando e admirando as belezas supremas dos poetas portgueses de 20ª categoria, por exemplo, os ultra.rmânticos do Trovoada, do Gonçalves Crespo, qualquer texto que se imprimiu na Bahia, em 1750? É o que, equivalentemente, aqui se faz. E a vibração poética, dramática, angustiosamente metafísica, que faça o melhor dos nossos versos, como ser apreciada bem, se acab equiparad a um soneto de Bilac? A grande vantagem, aqui, é haver condições de trabalho para fazermos a nossa obra, sem nos intrometermos se não abstractamente nesta pandilha literária que, assim nos não incomoda. Mas sabe V. que, há meses, quando fui elevado a secretário-Geral do Congresso da Crítica, houve tumultos ocultos, porque sou estrangeiro?! Pois houve.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Antologia de Poesia Universitária

Organizada por Alfredo Barroso, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz,
 J. M. Vieira da Luz, Rui Namorado
Colaboração de Alfredo Vieira da Luz, Almeida Faria, António Augusto Menano,
António Manuel Lopes Dias, António Freire Torrado, Armando, Armando de Carvalho, Boaventura de Sousa, Eduardo Prado Coelho, Fernando Vaz Garcia, Ferreira Guedes, Fiama Hasse Pais Brandão, Francisco Delgado, Gastão Cruz, João Columba, João Medina, João Rui de Sousa, J.M. Vieira da Luz, José Carlos de Vasconcelos, Luís Serrano, Luísa Ducla Soares, Luíza Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuela Imar, Margarida Losa, Rui Namorado, Ruy Belo, Sérgio Cardoso
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Poetas
Portugália Editora, Lisboa, Fevereiro de 1964

Janeiro de Sessenta e Dois

este janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés.

mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés.

sacodem-no apressadas as varinas
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas.

seus dias vão depressa para os ardinas:
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos
metido com vamps americanas.

janeiro português por onde poisas
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto às coisas
e a tia chega ao fim da camisola...


(Poema de Armando Silva Carvalho)

domingo, 2 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS


Os Armários Vazios

Maria Judite de Carvalho
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 83
Portugália Editora, Lisboa, Abril de 1966

Foi um dia de primavera que começou e acabou como todos os outros, pelo menos aparentemente, diria ela, ou melhor, era natural que o pensasse; nunca foi pessoa de muitas falas. Dizia o necessário, mas reduzido ao mínimo indispensável, ou então um necessário que depressa se cansava, se detinha a meio caminho, como se ele se desse subitamente conta de que não valia a pena prosseguir, porque isso era um esforço inútil. Ficava então quieta, sem gestos, hesitante à beira das reticências como alguém à beira de água de inverno, e nesses momentos o seu olhar perdia todo o brilho, era como se um mata-borrão o houvesse absorvido, talvez ainda seja assim, não se, nunca mais a vi. Durante muito tempo não consegui compreender que esses desmaios, porque o eram, a conduziam invariavelmente ao mesmo lugar, ou melhor, à mesma pessoa, à mesma imagem danificada de pessoa, porque, como já disse, não era mulher que se confessasse. As palavras não lhe serviam para explicar o seu pensamento perfeiçoando-o ou disfarçando-o, como é mais ou menos hábito de toda a gente.

sábado, 27 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


 O Verão

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Gil
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso nº 77
Portugália Editora, Lisboa Abril de 1965

Naquele tempo tudo era festa. Bastava sair de casa e atravessar a estrada para ficarem como loucas; e era tudo tão belo, especialmente de noite quando, ao regressarem mortas de cansaço, esperavam ainda que qualquer coisa acontecesse, que um incêndio estalasse, uma criança nascesse em casa ou até que subitamente viesse a manhã e toda a gente saísse para a rua e pudessem continuar a caminhar, caminhar até aos prados e para lá das colinas.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Contos Exemplares

Sophia de Mello Breyner Andresen
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 85
Portugália Editora, Lisboa, Abril de 1966

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da “Liga Internacional das Mulheres Inúteis”, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem–se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, “qualquer distracção pode causar a morte do artista”. Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder.

sábado, 23 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS

A Paixão

Almeida Faria
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Romancistas nº 4
Portugália Editora, Lisboa, Lisboa, Dezembro de 1965

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os osso da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima – deve ser reumático – mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um certo cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface ou atão ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera, pôr arrelicas e se aparelhar do casaco comprido, cinzento e desbotado, meter a carteira na algibeira, descer de novo a escada em caracol para a cozinha, botar a água ao lume já pegado, pegar na alcofa dente cestos e cabanejos, bilhas, tarefas, potes grandes de azeite ou azeitona e alguidares com todos os tamanhos, vermelhos e vidrados, largos para a matança e para o sangue, tachos de cobre, fulvos, em pé contra a parede de fumo nunca escura, branca, branca, caiada e mais caiada, em seguida descer por vez segunda os degraus do quintal, abrir o pesado portão fechado à chave, soltar os cães esquentados da noite para a rua, ir pela rua velha e árida à derêtura caminho da praça do mercado, comprar o que de véspera a senhora, a cuja obediência ela está, na lista de papel pardo assentara, com uma letra grossa.

quarta-feira, 9 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS


Terras do Meu País

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Lopes Cipriano
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea
Portugália Editora, Lisboa, Março de 1969

- Sempre estás de acordo, Gisela? – murmurei.
- Mas tu, de um dia para o outro regressas a Turim. Não é esta a tua terra.
- Onde estiver uma rapariga bonita é sempre a minha terra. Podes estar descansada.
Noto que ficou satisfeita com a minha resposta.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Irreal Quotidiano

José Gomes Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Junho de 1971


Aqui há anos concebi um Tratado e Defensão da Verdadeira Arte de Falar Sòzinho onde tencionava apresentar vários truques e manhas para os faladores solitários se defenderem do ridículo e da vergonha da mofa pública quando sentissem a necessidade de tirar cá para fora, dos respectivos alçapões, os fantasmas das conversas.