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sexta-feira, 5 de julho de 2019

OLHAR AS CAPAS


Jangada

Romeu Correia
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso nº 41
Portugália Editora, Lisboa s/d

CAROLINA (sombria): Que viver tão triste que tem sido o nosso! (Comovida) Quando penso na nossa existência entre estas quatro paredes… choro, choro, só me sinto bem a chorar!...
LUZIA (igualmente comovida): Se tivéssemos casado, nada disto teria acontecido. Mas este maldito cais onde o papá se meteu… Nós, umas raparigas, entaipadas entre o mar e o céu…
(Pausa)
CAROLINA: Há mulheres que nunca se conformariam entre estas quatro paredes!
LUZIA (reagindo): Mulheres sem princípios!
CAROLINA (digna): Mas a nós, graças a Deus, nunca eles nos faltaram!
(Pausa)
LUZIA: Os nossos pais prenderam-nos demasiado… - foi o que foi!
CAROLINA: Nisso de severidade, a mamã levava a palma ao papá.
LUZIA: Era ela que nos aturava de manhã à noite. Ao passo que o pobrezinho só nos via quando regressava do trabalho… Aquele homem viveu mais horas sob o telhado da fábrica que junto da esposa e dos filhos.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS



As Mulheres de Messina

Elio Vittorini
Tradução: Nunes Martinho
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 92
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1966

Eu sei como pode imaginar este nosso país quem nunca o percorreu e dele conheça somente a sua alongada figura numa página do atlas; um planalto de secas terras avermelhadas entre dois mares que estão a ocidente e a oriente, árido, sem uma árvore, queimado pelos ventos e pelo hálito do sol, pelo hálito do sal; e assim é verdadeiramente nas grandes extensões, quando se sobe acima dos trezentos metros em viagem, entre uma e outra das suas cidades com torres e cúpulas, árido por grandes extensões, nu por grandes extensões, alto com terras avermelhadas entre Emília e Toscana ou entre Siracusa e Roma, tal como o deserto é o deserto entre um e outro dos seus oásis.
Ao longo do deserto os homens são viajantes, e do mesmo modo no nosso planalto
as gentes são nómadas, andam por aqui e por ali, pelo sul em direcção ao norte ou do norte em direcção ao sul em compridos comboios, donde se observa, permanecendo de pé três ou quatro dias de seguida, cinco de seguida, o que esta terra é em qualquer parte e que no seu todo se chama Itália, com lugares tão diferentes um dos outros como bari e Bolonha, Catanzaro e Génova.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Hora Di Bai

Manuel Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso nº 52/53
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

Naquele tempo de fome a ilha de São Vicente era o porto de salvamento.
Empurrados do interior, os povos vieram arrastando-se para o litoral, até junto do mar, na esperança de uma mandioquinha, na ânsia de um caldinho de peixe – que luxo! – de uma cana para chupar, ou até de folhas verdes para mastigar. Qualquer coisa que lhes desse, ao menos, a ilusão de alimento. Mas nas povoações da beira-mar, mesmo nas terras maiores, os haveres tinham sido também arrastados nos ventos da miséria. Nem a sopa da assistência evitava que a carroça da Câmara, no alvor da madrugada, levasse os que haviam tombado, de noite, na rua, inteiriçados e frios. Nem a sopa da assistência o evitava, bem se pode dizer, pois as bocas famintas, senhor, eram às dezenas de milhar.
Um pesadelo perpassava pelas localidades e casalejos ribeirinhos, de ponta a ponta, e galgava pela amarelidão da terra nua e requeimada.
Dondê aquelas bananeiras verdinhas de cachos pendidos em arco ao rés-do-chão? Dondê aqueles pés de papaia carregadinhos, e aquelas batatas-doces, e aquela mandioca, aquele nhame, e aquelas laranjas, a água a crescer na boca!, e aquele milho cobrindo os sequeiros e os regadios, dando a fartura da gente e dos animais?! Nem ervas, nem uma raiz a despontar, nem um rebento a asseverar que a vida não era promessa vã, nessas ilhas desgarradas no meio do mar!
Dondê aquelas casas, o movimento da tardinha? Dondê aquele falatório dos homens, os chamos das mães pelos filhos que andavam correndo pelas ribeiras? Gente, donde?! Lá no interior, casas intactas, nem uma só! Fantasmas solitários na paisagem descarnada.
A maldição varrera a ilha. A maldição da estiagem. A maldição da fome.
Nada bulia a não ser os revérberos do Sol na distância.
Que silêncio!
Nem pio de ave. Nem grito de dor ou ciclo de tristeza feria tamanha solidão. Até a morna, drama feito canção, se diluíra no silêncio da dor. Os sobreviventes dessa fúria ciclónica – que eram? Destroços de angústia, restos de vida absurda e degradada, onde remotas esperanças, desencantadas dum estado de morbidez, se desprendiam teimosamente lá do fundo do inconsciente, na terrível ânsia de viver.
Fogo, tristeza, abandono de fim-de-mundo. Só, na terra nua e bem amada!

domingo, 20 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Terna é a Noite

F. Scott Fitzgerald
Tradução: Cabral do Nascimento
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 31
Portugália Editora, Lisboa, Março de 1962

Na costa aprazível da Riviera francesa, a cerca de meio caminho entre Marselha e a fronteira italiana, fica um vasto hotel imponente, pintado de cor-de-rosa. Várias palmeiras lhe refrescam a frontaria pesada, e diante dele estende-se uma praiazinha deliciosa. Ainda há dez anos era pouco frequentado, depois da debandada da clientela inglesa, mas há pouco tempo tornou-se ponto de reunião de banhistas ilustres e elegantes, e já o rodeiam inúmeros bangalós. Quando, porém, se inicia esta história há apenas uma dúzia de vivendas antigas, e os seus telhados jazem como nenúfares apodrecidos no meio do pinhal denso que vai do Hotel Gausse ou dos Estrangeiros até Cannes, a cinco milhas de distância.

domingo, 27 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Morreram pela Pátria

Mikail Cholokov
Versão: Jaime Brasil
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 49
Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1963

- Não vás supor, Nicolau, que foi sempre assim desde o nosso casamento. Não há mais de dois aos que minha mulher ficou desarranjada por causa da literatura.
«Vivemos oito anos como outro casal qualquer. Anastácia e eu fazíamos equipa numa ceifadora, sem nunca ela ter desmaios nem fazer fitas. Depois quando lhe deu para a literatura, foi o começo do fim. Tornou-se tão sábia que não pode falar como toda a gente: precisa de maiúsculas para tudo. Passa s noites a ler e de dia parece uma ovelha com ronha: suspira e tudo lhe cai das mãos. Uma vez, imagina, aparece-me a suspirar, mas então a ponto de cortara o coração, e explica-me com ares amaneirados: «Meu pobre Ivan, pensa que nunca me fizeste uma declaração de amor! Nunca ouvi da tua boca palavras ternas como as que escrevem na literatura!». Eu começava a ficar a estar danado. Ela leu e tresleu, pensava, e respondi-lhe: «Anastácia, não estarás um tanto chalada? Há dez anos que estamos juntos. Já nos nasceram três garotos. De que teria o ar, santo Deus, se me pusesse a recitar uma declaração de amor? Poderia dar as voltas que desse à língua; mas não sairia nada. Palavras ternas, até no tempo em que era jovem, nunca as disse; explicava-me por gestos; não seria nesta altura que ia começar. Não sou tão tapado como tu imaginas. Em lugar de leres todos esses calhamaços idiotas, farias melhor se te ocupasses dos pequenos.» Os garotos, devo dizê-lo, crescem ao deus-dará, e a casa transformou-se numa espécie de bazar.

quinta-feira, 1 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Poemas Escolhidos

João Cabral de Melo Neto
Selecção: Alexandre O’Neill
Prefácio: Alexandre Pinheiro Torres
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 9
Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1963

Graciliano Ramos

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:

de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:

que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se a fraude.

Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:

e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.

Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:

que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

sábado, 14 de outubro de 2017

QUASE TUDO ME NÃO MERECE


Carta de Jorge de Sena, datada de 2 de Abril de 1961, Domingo de Páscoa, para Sophia  onde lhe agradece as palavras que lhe dirigiu sobre a Poesia I e Novas Andanças do Demónio:

Eu não sei, Sophia, aí quase tudo me não merece. Mas o que lhe garanto é que, aqui, também não nos merecem. Temos por cá o mesmo carreirismo torpe, cuja virtude é ser representado em descarado makebelieve. E, quase definitivamente, ninguém culturalmente se interessa por nós. Respeitam-me, estimam-me ou admiram-me, pelo que publico e faço; mas ninguém busca ler ou conhecer o que publiquei ou fiz – e isto sucede com nós todos. Se eu ler poemas seus, como já li em público, as pessoas gostam e admiram. Mas não se dão ao trabalho, sequer, de pedir-me os seus livros para a lerem como nunca me pediram os meus. Eu sou o grande escritor, aquele sujeito formidável que fez e faz conferências esplêndidas, escreve belos artigos no estado de São Paulo, é astro de congressos… e aqui a coisa acaba. Nós não existimos para eles, de resto, culturalmente, poeticamente, nada existe: tudo é literatura Os estudos de literatura brasileira enchem tudo, envenenam tudo. Acha a Sophia que nós existiríamos culturalmente, se tivéssemos a vida desenterrando e admirando as belezas supremas dos poetas portgueses de 20ª categoria, por exemplo, os ultra.rmânticos do Trovoada, do Gonçalves Crespo, qualquer texto que se imprimiu na Bahia, em 1750? É o que, equivalentemente, aqui se faz. E a vibração poética, dramática, angustiosamente metafísica, que faça o melhor dos nossos versos, como ser apreciada bem, se acab equiparad a um soneto de Bilac? A grande vantagem, aqui, é haver condições de trabalho para fazermos a nossa obra, sem nos intrometermos se não abstractamente nesta pandilha literária que, assim nos não incomoda. Mas sabe V. que, há meses, quando fui elevado a secretário-Geral do Congresso da Crítica, houve tumultos ocultos, porque sou estrangeiro?! Pois houve.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Ilha do Desterro

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Poetas de Hoje nº 29
Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1968

Venho olhar a tua quinta
que é esta longa seara
de pedra. E vejo ainda
desarmada a mão avara

que vai disparar a bala
rente ao ouvido da Manhã.
A luz da aurora é a fala
duma língua temporã

que primeiro nada lavra
e é uma charrua de tábua,
mas quando se faz palavra
é um pomar a tua água.

Chego-me para olhar a quinta
como se olhá-la adubasse
essa terra tão faminta
da clareza da sintaxe.

Vê agora a tua mesa
se é que a luz ainda por vir
te deixa ver a portuguesa
maneira de a servir.

O que nela se nos dá
sobra a ausência da toalha
é a pedra que aqui há
como única virtualha.

E a mão deflagra o gatilho
secreto do amanhecer.
As palavras são o rastilho
do lume que vai nascer.

Toando ao ouvido que ensurdece
o urgentíssimo arcabuz
que da noite lenta tece
uma bengala de luz.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Antologia de Poesia Universitária

Organizada por Alfredo Barroso, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz,
 J. M. Vieira da Luz, Rui Namorado
Colaboração de Alfredo Vieira da Luz, Almeida Faria, António Augusto Menano,
António Manuel Lopes Dias, António Freire Torrado, Armando, Armando de Carvalho, Boaventura de Sousa, Eduardo Prado Coelho, Fernando Vaz Garcia, Ferreira Guedes, Fiama Hasse Pais Brandão, Francisco Delgado, Gastão Cruz, João Columba, João Medina, João Rui de Sousa, J.M. Vieira da Luz, José Carlos de Vasconcelos, Luís Serrano, Luísa Ducla Soares, Luíza Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuela Imar, Margarida Losa, Rui Namorado, Ruy Belo, Sérgio Cardoso
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Poetas
Portugália Editora, Lisboa, Fevereiro de 1964

Janeiro de Sessenta e Dois

este janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés.

mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés.

sacodem-no apressadas as varinas
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas.

seus dias vão depressa para os ardinas:
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos
metido com vamps americanas.

janeiro português por onde poisas
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto às coisas
e a tia chega ao fim da camisola...


(Poema de Armando Silva Carvalho)

domingo, 2 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS


Os Armários Vazios

Maria Judite de Carvalho
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 83
Portugália Editora, Lisboa, Abril de 1966

Foi um dia de primavera que começou e acabou como todos os outros, pelo menos aparentemente, diria ela, ou melhor, era natural que o pensasse; nunca foi pessoa de muitas falas. Dizia o necessário, mas reduzido ao mínimo indispensável, ou então um necessário que depressa se cansava, se detinha a meio caminho, como se ele se desse subitamente conta de que não valia a pena prosseguir, porque isso era um esforço inútil. Ficava então quieta, sem gestos, hesitante à beira das reticências como alguém à beira de água de inverno, e nesses momentos o seu olhar perdia todo o brilho, era como se um mata-borrão o houvesse absorvido, talvez ainda seja assim, não se, nunca mais a vi. Durante muito tempo não consegui compreender que esses desmaios, porque o eram, a conduziam invariavelmente ao mesmo lugar, ou melhor, à mesma pessoa, à mesma imagem danificada de pessoa, porque, como já disse, não era mulher que se confessasse. As palavras não lhe serviam para explicar o seu pensamento perfeiçoando-o ou disfarçando-o, como é mais ou menos hábito de toda a gente.

sábado, 27 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


 O Verão

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Gil
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso nº 77
Portugália Editora, Lisboa Abril de 1965

Naquele tempo tudo era festa. Bastava sair de casa e atravessar a estrada para ficarem como loucas; e era tudo tão belo, especialmente de noite quando, ao regressarem mortas de cansaço, esperavam ainda que qualquer coisa acontecesse, que um incêndio estalasse, uma criança nascesse em casa ou até que subitamente viesse a manhã e toda a gente saísse para a rua e pudessem continuar a caminhar, caminhar até aos prados e para lá das colinas.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Contos Exemplares

Sophia de Mello Breyner Andresen
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 85
Portugália Editora, Lisboa, Abril de 1966

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da “Liga Internacional das Mulheres Inúteis”, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem–se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, “qualquer distracção pode causar a morte do artista”. Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder.

sábado, 23 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS

A Paixão

Almeida Faria
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Romancistas nº 4
Portugália Editora, Lisboa, Lisboa, Dezembro de 1965

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os osso da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima – deve ser reumático – mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um certo cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface ou atão ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera, pôr arrelicas e se aparelhar do casaco comprido, cinzento e desbotado, meter a carteira na algibeira, descer de novo a escada em caracol para a cozinha, botar a água ao lume já pegado, pegar na alcofa dente cestos e cabanejos, bilhas, tarefas, potes grandes de azeite ou azeitona e alguidares com todos os tamanhos, vermelhos e vidrados, largos para a matança e para o sangue, tachos de cobre, fulvos, em pé contra a parede de fumo nunca escura, branca, branca, caiada e mais caiada, em seguida descer por vez segunda os degraus do quintal, abrir o pesado portão fechado à chave, soltar os cães esquentados da noite para a rua, ir pela rua velha e árida à derêtura caminho da praça do mercado, comprar o que de véspera a senhora, a cuja obediência ela está, na lista de papel pardo assentara, com uma letra grossa.

quarta-feira, 9 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS


Terras do Meu País

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Lopes Cipriano
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea
Portugália Editora, Lisboa, Março de 1969

- Sempre estás de acordo, Gisela? – murmurei.
- Mas tu, de um dia para o outro regressas a Turim. Não é esta a tua terra.
- Onde estiver uma rapariga bonita é sempre a minha terra. Podes estar descansada.
Noto que ficou satisfeita com a minha resposta.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Irreal Quotidiano

José Gomes Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Junho de 1971


Aqui há anos concebi um Tratado e Defensão da Verdadeira Arte de Falar Sòzinho onde tencionava apresentar vários truques e manhas para os faladores solitários se defenderem do ridículo e da vergonha da mofa pública quando sentissem a necessidade de tirar cá para fora, dos respectivos alçapões, os fantasmas das conversas.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

OLHAR AS CAPAS


Viver Com Os Outros

Isabel da Nóbrega
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 75
Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1965

– Pronto. A bandejinha. Afasta o candeeiro.
– Lá fora, apagaste a luz, amor?
– Apaguei.
– E fechaste o gás, meu amor?
– Sim, fechei.
- Mas há uma porta que range… Tinha de ser…
– Eu vou fechá-la, amor, eu vou já ver. – Era a porta da varanda. Abri-a de par em par. A fresca noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sozinhos. Oh, esta alegria de não estarmos sós.

terça-feira, 14 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Rumor Branco

Almeida Faria
Prefácio: Vergílio Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1962

e o mundo nada pode  contra nós assim o meu último dia será de glória porque o sol brilha sempre antes de desaparecer tudo ficou com a presença indelével de ti só no ar uma estranha saudade revelada sem mais forças para escrever certo de que vou morrer aqui deixo feito sem qualquer esmero o poema do meu desespero coitado daquele rapaz que hoje morreu a meu lado lutando viera para a guerra com os sonhos todos que os homens cruéis ainda lhe permitiam deixou lá longe a jovem que o amava tanto e no ventre tinha um filho dele deixou quiçá a mãe e o pai chorando na sua dor anónima e profunda e trazia no bolso da camisa grossa um livro com versos que a mim só leria envergonhado quase nas longas noites inquietantes cortaram-lhe a vida que despontava verde contudo enorme e bela visto como era vida e deixaram-no frio sozinho hirto com moscas já sobre os espantados olhos e o retrato da moça cheio de sangue ficara como se ela também acaso fosso morta e a saudade dos pais reprodutora diluiu-se no ar cheirando a pólvora ardida e os poemas foram queimados na fogueira para dos inimigos a angústia esquecendo aquecer e a vida prosseguiu inconsciente e indiferente e errada e certa entre os homens e as damas duma elegante sala passei eu sujo e esfarrapado e cheio duma plenitude que em mim desconhecia e disse-lhes tudo o que sentia tudo o que sabia tudo o que queria dizer e o que não queria mas sim sem querer eles claro maleducado me chamaram ou insociável, ou pateta ou poeta

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


O Diabo Sobre as Colinas

Cesare Pavese
Tradução: Fernando Gil
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Livro de Bolso nº 23
Portugália Editora, Lisboa s/d

- É inacreditável – disse - , mas a alma mais antiga que temos dentro de nós é a de crianças. Parece-me que continuo a ser uma criança. É o mais velho hábito que possuímos…

terça-feira, 22 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS


Seara de Vento

Manuel da Fonseca
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 39
Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1962

- O pai não devia ter ido com o Galrito.
- É o que eu penso. Mas nem cheguei a dizer nada. Ninguém me dá ouvidos nesta casa…
- Deixem-se disso! – interpõe com aspereza Armanda carrusca. – Eu acho que ele fez muitíssimo bem. Pois! A gente não pode é continuar assim.
- Não podemos, não. Mas o pai faz mal. Houvesse o que houvesse, ele nunca se devia ter metido com esses tipos. Demais, eu já lhe tinha dito que os homens andam a combinar uma ida à vila para pedirem trabalho.
- Lá vens tu com as tais ideias!...
Bonito! Isso de irem todos à vila, como um bando de mendigos, há-de dar um grande resultado… Que cada um tarte de si, e já lhe chega!
- A gente tem visto, avó – Mariana tira os pés das proximidades das brasas e endireita o tronco, muito séria. – Temos visto o que eles conseguem, o pai e os outros, cada um para seu lado. Convença-se de uma vez para sempre que só todos juntos hão-de alcançar alguma coisa. Um homem sozinho não vale nada.
- Não digas mais! Eu já sei o resto de cor e salteado!... Loas, rapariga, tudo isso são loas! Não há que ver, deram-te volta aos miolos. Que perderá o teu pai em ir ganhar uns escudos para que haja comida nesta casa
- Perde. E muito, fique sabendo. Até hoje, ainda há quem acredite que foi sempre honesto e que nunca roubou nada a ninguém. Mas, amanhã, quando se vier a saber onde vai arranjar dinheiro, quem é que acreditará nele?

sábado, 8 de fevereiro de 2014

OLHAR AS CAPAS


 Poesia IV

José Gomes Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1970

                                                     (Meditação debaixo da tília do Jardim.)

Recordar torna o mundo mais exacto
com réguas de fumo,
ângulos perfeitos de olhos nos astros
- e a inoncência daquele céu pardo
das manhãs inconcretas
que todos se lembram de ser azul
e não verde para lhe chamarmos oceano
ou folha de árvore.

A realidade é mais confusão
máquina-doida-de-repetir sombras inconcluídas,
bocas dependuradas nos ramos e nas corolas,
destinos de morder o vento,
narinas nas flores,
conluio de pássaros com o sol,
as plantas enganaram-se e deram incêndios em vez de rosas,
construção da Cidade da Morte com pele e cal,
ervas pisadas por espectros
- e este cheiro tão bom a sonho
que torna o mundo mais efémero e real.

As aves nos fios telefónicos alimentam-se de palavras.