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terça-feira, 21 de janeiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Sátiras

Nicolau Tolentino

Selecção, Prefácio e Notas de Rodrigues Lapa

Colecção Textos Literários

Seara Nova Editora, Lisboa, 1960

 

Nesta cansada, triste, poesia

vedes, Senhor, um povo pertendente,

que aborrece o que estima toda a gente:

que é ter no mundo cargos e valia.

 

Sobre alto trono há anos que regia

de dócil povo turba obediente;

mas quer antes sentar-se humildemente

num banco da Real Secretaria.

 

Qual modesto capucho reverendo,

que, em fim de guardiania trienal,

passa a porteiro, as chaves recebendo,

 

Em mim conheço vocação igual:

e co’a mesma humildade hoje pertendo

passar de mestre a ser oficial.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

OLHAR AS CAPAS

Poesias

Sá de Miranda

Selecção, prefácio e notas: Rodrigues Lapa

Colecção Textos Literários

Seara Nova editora, Lisboa 1962

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si,
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m’espanto às vezes, outras m’avergonho;

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m’era mister tant’outr’ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS

Sermão de Santo António aos Peixes

Padre António Vieira

Prefácio e Notas de Rodrigues Lapa

Colecção Textos Literários

Editora Seara Nova, Lisboa 1940

Vós, diz Cristo, sois o sal da terra; e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra não se deixa salgar, e os ouvintes, senso verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber.

terça-feira, 21 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS


Quadros da História Trágico-Marítima

Selecção, Prefácio e Notas: Rodrigues Lapa

Colecção Textos Literários

Editora Seara Nova, Lisboa, 1956

A nau «S. Tomé» partiu de Cochim para Portugal em Janeiro de 1959. Era capitão Estêvão da Veiga, e trazia para o reino pessoas de categoria: D. Paulo de Lima Pereira, que se cobrira de glória no Oriente, sua mulher, Bernardim de Carvalho, Gregório Botelho, que acompanhava sua filha D. Mariana, casada com Guterre de Monroy, que se achava em Portugal, e outros mais. A nau vinha mal calafetada, pelo que teve duas avarias. Não longe da costa do Natal, batida por tempestades, começou a deitar muita água. De nada valeu terem alijado a carga preciosa; considerado o navio irremediavelmente perdido, começaram a tratar da salvação.

domingo, 22 de abril de 2018

ENCONTREI GENTE QUE SÓ CONHECIA DOS ROMANCES DE GORKI


Na Faculdade, pois, a política ilegal e meio-legal: eleições para delegados ao Senado Universi­tário (pela última vez), assembleias para a criação de uma Associação de Estudantes, que não havia e continuou a não haver, protestos contra a expulsão do Prof. Rodrigues Lapa. Ali conheci, enfim, aque­la que seria a minha companheira para sempre, nos bons e nos maus momentos. E nos péssimos também. Como o da grave doença revelada dezoito dias depois do nosso casamento (sangue no chão de tanta felicidade) e que durou três longuíssimos anos. Ela mantinha a casa, ela me inventava a es­perança. Misteriosamente. Alegremente, se assim se pode dizer. Coração mais cabeça e muita dedica­ção, eis de onde vêm os milagres.
 Mas voltando ainda à Faculdade. Não sabia on­de começava e onde acabava o amor, a luta pela li­berdade e pela transformação do mundo, a criação poética. Engolia o Altolaguirre, o Emilio Prados, o Lorca muito menos (nunca soube explicar isto, te­nha embora um poema que parece inspiradíssimo num dele mas não é: desconhecia ainda o belíssimo «eran las cinco en punto de la tarde»), o Rafael Alberti, mais que todos talvez. Sonhava declamar, como ele, um grande poema na frente de combate. A minha convicção era que versos de tal modo declamados (mas tinham de ser bons, era o que já pensava) fariam recuar os tanques do inimigo, quebrar grades de cadeias, erguer bandeiras com multidões de esfarrapados atrás delas. Armazenar os explosivos. Pegar fogo ao rastilho. Vieram-me dizer: «Foste falado nos interrogatórios desta noite. Põe-te a andar».
 Desapareci de Lisboa até serem libertados os in­terrogados dessa noite, meti-me no Alentejo, en­contrei gente que só conhecia dos romances de Gorki. Tratavam-me como um irmão, davam-me a chave da própria casa, «para se precisares, de noite». E não eram operários nem rurais. Um tra­balhava numa farmácia, outro nos Caminhos de Ferro, outro num escritório. Chamava-se este Mar­quês. Por meu intermédio entrou na actividade clandestina e, quem o suporia então?, seria morto anos mais tarde nas torturas da PIDE.
 Quantas horas tinha cada dia? Quantos éramos ao todo? Impossível sabê-lo. Sabíamos, sim, que a situação portuguesa não se podia suportar (e trinta e muitos anos mais a suportámos), que ela se in­tegrava, numa situação internacional a nossos olhos de leitura fácil, que obrigava a tomar e a fa­zer tomar partido. E que a única esperança brilha­va, muito longe, nesta frase do autor de Tomás Gordeiev. «Nasce um novo sol no coração do Ho­mem». Frase que forçosamente se confundia, para muitos de nós, com um país imenso, onde houvera a maior Revolução do nosso tempo, raivosamente defendido de múltiplas e simultâneas tentativas de invasão, heroicamente resistindo à fome, à neve, à falta de quadros superiores: «Proletários de todos os países, uni-vos!» País sobre o qual muito líamos e falávamos, sobre o qual afinal pouco sabíamos e era, seria o centro de tudo durante muitos anos.
 Ou se mudava o Homem, ou não se mudava nada. Era o que pensava então, é o que penso ho­je. Os versos do meu livro Poemas (36 a 38) disto falavam, os de Terceira Idade (82), também. E o mais que escrevi. Escrever é outra coisa («uma coi­sa é ver, outra pintar», Picasso), mas relaciona-se com tudo.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Máximo Gorki