terça-feira, 31 de maio de 2016

QUOTIDIANOS


Foi quando a namorada lhe disse:
- Ou eu, ou o Benfica!
Às vezes, sente falta dela…

UM CLUBE QUE É UMA RELIGIÃO

Já era noite em Berna, quando, em 31 de Maio de 1961, José Águas levantou a primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus ganha pelo Benfica, após derrotar o Barcelona por 3 bolas a duas.
Quando nasceu a sua primeira filha, Ricardo Araújo Pereira não sabia como pegar-lhe. Foi então que se lembrou de José Águas, em Berna, a erguer a Taça dos Campeões Europeus.

Nota do editor: o título resulta de uma frase do Artur Semedo: «O Benfica não é o meu clube, é a minha religião.»



OLHAR AS CAPAS


A Glória na Europa

João Vasco Almeida e Frederico Valarinho
Capa: Ilídio Vasco
Guerra e Paz Editores, Lisboa, Maio 2010

O Benfica foi, durante anos, visto como o clube do regime. As suas maiores glórias aparecem, de facto, no momento em que Salazar mais precisava, já lá vamos. Antes, refutemos a tese.
O Benfica tinha, para já uma proibição em cima. Não se podia escrever nos jornais que eram os «vermelhos». O clube tinha de ser identificado como os «encarnados». A opção foi imposta pela censura portuguesa, que desejava ver longe qualquer referência, ainda que distante, ao Partido Comunista Português.
Depois, as Assembleias Gerais do Benfica. Nesses anos 60, eram as mais concorridas de todos os clubes, onde toda a gente dizia o que lhe ia na alma para, depois, se decidir tudo por voto directo e universal. Este comportamento assustava o regime. Pior do que ter o PCP à perna era ter um grupo de pessoas em permanente educação para a democracia, num clube que era, além de gloriosos, sério e feito «pelo povo».
O antigo hino do Benfica também não caía no goto de Salazar. Começava com «Avante, Benfica» e estragava logo a pintura: «avante» era uma plavra proibida, nome do jornal que mais dores de cabeça dava à censura e à polícia política e, acima de tudo, um permanente ultraje.
Outro episódio curioso é que, na época 1954/55, o Benfica foi campeão nacional, mas o clube que representou Portugal foi o Sporting. A decisão não era livre, não se atinha apenas aos resultados desportivos. Era, outrossim, uma decisão política do Estado Novo.

OLHARES


segunda-feira, 30 de maio de 2016

A ENORME CAIXA-DE-MÚSICA


O estabelecimento, de abandonada montra de garrafas e porta e férrea de correr com gancho, acabrunha-se na esquina do cruzamento da Rua da Senhora da Glória com a Rua das Beatas. Dentro apresenta demasiados vidros e alumínios para tasca e demasiado vasilhame de pau encardido para leitaria. Progride de taberna (serradura no chão) para o modernaço (máquina de café), ou regride ao inverso. Carrega-se ali nos bagaços e nos copos de três, que podem ser animados pelo furor melódico da enorme caixa-de-música, que faz lembrar a do filme O Gigante, coberta de luminárias marcianas, a piscar coloridos. Uma moeda, dez tostões, os Beatles, Alfredo Marceneiro, Os Doors, Os Conchas (tchiribari-papa, tchiribari-papa…) ou o miúdo da Bica. Vale a pena escorropichar a moeda só para observar o sortilégio dos maquinismos. O disco a deslizar, a escorregar no prato, o braço do gira-discos a exibir-se ao alto, em sacudidelas medidas, antes de aplicar-se convictamente nas estrias para despiralar os ritmos. Tecnologia dos anos cinquenta que eu imaginei manejada com desembaraço, desencravada a poder de joelhómetro, pelos melómanos de esquina.

Mário de Carvalho em Apuros de Um Pessimista emFuga

domingo, 29 de maio de 2016

OLHARES


Vale Cavala.

CONFISSÃO


Lembro-me de ter andado neste campo,
de ter sacudido o sol de dentro das espigas,
de ter ouvido ao longe alguém rir e depois o silêncio,
de sentir que nada se passava ao passar pelos muros,
de não ver ninguém e era a tarde a começar,
de fechar os olhos para me libertar do azul,
e de os abrir como se o céu tivesse outra cor,
de olhar para uma casa como se alguém a habitasse,
e de saber que as janelas se abrem para ninguém,
de perguntar de onde veio a flor que colheste,
sem me lembrar que é o tempo das flores,
de te perguntar quem és sem ouvir uma palavra,
e de ouvir tudo o que a tua respiração me diz,
de teres pousado a cabeça no chão
como se a terra te dissesse um segredo,
e de ter adivinhado o que a terra te disse
quando te olhei, e o teu rosto dizia tudo.

Nuno Júdice

Legenda: pintura de Michael Ancher

NOTÍCIAS DO CIRCO



Tive uma visão, vi que ia marcar o penálti da vitória e foi por isso que pedi a Zidane que me colocasse em quinto na lista.

sábado, 28 de maio de 2016

JANEIRO 74


toda a noite eu podia ouvir os comboios
e sabia que as grandes fomes estavam a chegar.

todas as palavras eram já estranhas
e era tempo de partir --

uma extrema solidão marcava a minha vida.

nunca fora tão insuportável a tua morte
nem tão longínquos os pequenos barcos do rio.

as minhas mãos cheiram fortemente a tabaco.
frenéticas e magras
dir-se-iam que esperam o teu regresso ou o sol
ou a tua cabeça serena.

nada poderá valer-nos.

tarda a Imensa Revolução
e os belos pensamentos ardem em nossas cabeças
afinal tão infantis.

em 1974 eu podia ouvir os comboios toda a noite.

da janela aberta de um 4.º andar suburbano
sob um céu pardo de inverno
eu avançava possuído de terror na minha insónia.

abandonara os poemas e as comovedoras histórias da Galileia.

por vezes bebia demasiado
dava longos passeios e gostava de futebol.

toda a noite eu ouvia os comboios seguirem para o norte e
para o sul
e sabia que as grandes fomes estavam a chegar.

José Agostinho Baptista em deste lado onde

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

NOTÍCIAS DO CIRCO


 José Mourinho é o novo treinador do Manchester United, em substituição de Van Gaal. Terá 260 milhões de euros para gastar em contratações, mais do que o orçamento para a Cultura em Portugal

Bem acima do que Portugal vai gastar com a Cultura em 2016, ainda longe do investimento na nova barragem de Foz Tua, o equivalente ao custo anual do Hospital de Santa Maria. Mais do que custaram as obras do CCB, da Casa da Música ou da Gare do Oriente, o mesmo que pagaram Benfica e Sporting, em conjunto, pelos seus novos estádios, uns bons milhões acrescidos ao orçamento da Câmara Municipal do Porto para este ano.

Servem estes exemplos para se ter uma ideia melhor do que valem 260 milhões de euros, a verba que, segundo a generalidade da imprensa inglesa, José Mourinho terá ao seu dispor para gastar em reforços no Manchester United.

Rui Antunes na Visão on-line

OLHARES


sexta-feira, 27 de maio de 2016

NOTÍCIAS DO CIRCO


Como não há os livros que gostaria de ler, escrevo-os eu.


José Rodrigues dos Santos.

GRUPOS LITERÁRIOS


A cada passo se formam por aí grupos literários. Há-os em todas as gerações. Os rapazes sentiram sempre necessidade de comunicar e juntam-se conforme o caso, as afinidades ou as aspirações.
É um momento delicioso que nos deixa para sempre um nada de poeira no fundo da alma – algum pó dourado que teima em reluzir até ao fim da vida. Já o passado fica muito longe, já as figuras de apagadas mal se distinguem e ainda a poeira de sonho teima lá no fundo… E que essas horas são como a primeira flor das árvores: não há nada que as pague. Por melhores e mais conscientes amizades que mais tarde se adquiram, nenhuma chega à dos vinte anos, quando o homem não tem interesses a defender e os sentimentos estão em pleno viço. Não há um de nós que saiba ainda o que vale a existência e todos de mãos dadas olhamos com sofreguidão e candura. É o começo delicioso duma aventura. Estamos juntos e unidos como irmãos e já sentimos o travor da separação: só mais um passo e cada um parte para o seu lado, sem às vezes se tornar a ver.
Valia a pena determo-nos a olhar a vida, tingida de névoa azul como certas paisagens que só são belas de longe – a vida como nunca mais nos será dado vê-la – mas quem é que nessa idade se detém?

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro na Rua João Pereira da Rosa, Bairro Alto.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

CENÁRIO DE HORROR



Donald Trump, quando ainda faltam, em próximas primárias, escolher 303 delegados já ultrapassou o número de delegados, garantindo assim a noemação republicana para as presidenciais de 8 de Novembro.

A presidente dos republicanos do Oklahoma confirmou a intenção de apoiara Trump:

Ele tocou uma parte do nosso eleitorado que não gosta do rumo que o nosso país tomou, explicou.

A mensagem antisistema e o estilo desbocado de Trump foi bem recebida pelas bases republicanas, cansadas dos políticos profissionais, concluem os comentadores.

A acreditar nas últimas sondagens, Trump está cada vez mais popular, tendo ultrapassado um atraso de dois dígitos em relação a Hillary Clinton, a provável nomeada democrata, nas presidenciais. Segundo a média dos estudos feita pelo site Real Clear Politics, o milionário e Hillary Clinton estão agora empatados nas intenções de votos, com 43% cada.

Há dias, escassos 30.000 votos permitiram que Alexander van der Bellen, candidato independente apoiado pelos Verdes, conseguisse a eleição para a presidência da Áustria em detrimento do candidato de extrema direita.

A extrema-direita, cada dia que passa, galopa mundo fora, com especial incidência em alguns países europeus.

Entretanto a Comissão Europeia preocupa-se com os dígitos dos orçamentos dos países periféricos, e não só!

Quando um dia acordarem será tarde demais.

Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.
Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde. (1)

(1)  Texto do pastor protestante Martin Niemoller, também atribuído a Bertolt Brecht.

Legenda: imagem Pinterest 

OLHAR AS CAPAS


João César Monteiro

Folhas da Cinemateca
Textos sobre os filmes de João César Monteiro da autoria de João Bénard da Costa, Luís Miguel Oliveira, Manuel Cintra Ferreira, Maria João Madeira
Organização e textos não assinados: Maria João Madeira
Capa: Beatriz Horta Correia
Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, Lisboa, Março de 2010

Mesmo quando parecia não o estar afazer, João César Monteiro falou e escreveu muito sobre o seu entendimento do cinema. Por altura de O Último Mergulho, numa entrevista a Rodrigues da Silva para o Jornal de Letras: “Eu acho que o cinema é a arte de maîtriser o tempo e isso é a coisa mais difícil que há no cinema. Eu sou absolutamente contra a chamada longueur, a coisa excessiva. Se a coisa não serve, se é morta, corta-se. Mas é preciso dar tempo às coisas, também por respeito pelo espectador. É preciso dar tempo para que o espectador possa ler o filme, possa ler o plano, possa saborear cada plano. Mas isso é extremamente difícil, extremamente ingrato. Porque o ideal é não ser nem a mais nem a menos, para que cada coisa tenha a justeza do tempo.” E noutro passo: “O cinema é um mundo que está desertificado e nós sonhámos ser habitantes desse mundo. É nesse sentido, também, que eu não me sinto um cineasta português. Considero-me um cineasta, ponto. Sou um homem do cinema. O cinema para mim não é nem português, nem chinês, nem americano. É o cinema, é o desejo de criar um mundo, é um desejo que nasce quando o Homem sai da caverna, sai verticalmente da caverna, com a lenta evolução da espécie e a conformidade da bacia à posição vertical, e vem cá para fora, olha o mundo, olha o que está à volta, olha a realidade circundante e se começa a fazer perguntas.”

OLHARES


Lisboa.
Estação do Rossio.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

UTILIDADES


Embalagem em cartão para transportar garrafas de vinho do «Continente» até casa.

PRESSÕES!...


Recorte da secção «Factos e Documentos» da Seara Nova, Dezembro de 1963.

OLHARES


Belém em tarde de sol com os Jerónimos ao fundo.

terça-feira, 24 de maio de 2016

QUOTIDIANOS


Escrevo e digo coisas, tantas, que não são minhas, são de outras gentes, coisas que li em livros, vi em filmes, ouvi em canções e, em grande parte, já não sei onde as li, onde as vi, onde as ouvi…
No fundo, dos fundos, falo de descarados gamanços.

- Another gin? 

Legenda: pintura de Marcel Duchamp

NUNCA CAMINHARÃO SOZINHOS


AindaYou'll Never Walk Alone.

Os Pink Floyd, no final da faixa Feraless do  álbum Meddle, puseram o coro da bancada de Anfield  Road a entoar You'll Never Walk Alone.

NUNCA CAMINHARÃO SOZINHOS


 Foram os ingleses que inventaram o futebol e têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful game.»

Vivem o jogo como ninguém.

Deslocam-se, enchem os estádios.

Avós, pais, filhos, netos, bisnetos: a família.

A festa.

Nem em tempo de Natal o dispensam.

Bem pelo contrário: exigem que haja jogos nesses dias.

Nos dias de transmissão do futebol inglês, quando as câmaras focam as bancadas, vêem-se espectadores das mais variadas idades. Por vezes, parece que toda uma família, do mais novo ao mais velho, foi ao futebol.

Uma das claques mais conhecidas, no Reino Unido, é a do Liverpool.

Tomaram como hino You’ll Necer Walk Alone, uma canção composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945 e que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King.

Mas seria com a versão de Gerry & The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, que a canção se tornaria o hino do clube.

Hoje, outros clubes, em outros países, o adoptaram como hino, mas nada como em Anfield Road.

Simplesmente  arrepiante.

Uma visita ao You Tube permite ficarmos a saber dos grandes nomes da música norte-americana, bem como outros, que gravaram You'll Never Walk Alone.

Shirley Jones gravou-a para a banda sonora de Carousel, mas há versões de Ella Fitzgerald, Ray Charles, Aretha Franklin, Mahalia Jackson, Nina Simone, Louis Armstrong, Elvis Presley, Barbra Streisand, Andy Williams, Judy Garland, Frank Sinatra, Johnny Cash, Roy Orbinson, The Rigteous Brothers, Tom Jones.

Também é possível encontrar uma versão dos Beatles.

Estas são as minhas escolhas.

A versão da Nina Simone é tocada ao piano.

Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz e o José Duarte respondeu:

Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, o obrigaram a pagar excesso de bagagem.

                                         

                                          

                                          


                                          

                                          

segunda-feira, 23 de maio de 2016

FEIRA DO LIVRO 2016


A Festa começa no dia 26 e prolonga-se até 13 de Junho, dia de Santo António.

Fica aqui um velho texto.

Guardei-o mas, por lapso, não tem indicação do autor nem a sua origem.

Talvez Fernando Assis Pacheco, mas não  é mais do que um palpite.

Feira do Livro.
Pratique então você, sozinho e em segredo, a sua subversão. Faça uso do seu tempo, respire fundo, atenda aos seus sentidos, deixe-se apaixonar, ao toque, ao cheiro, por algum livro antigo, manchado por bolores de anónimos invernos. Oculto, disfarçado como um tesouro celta, enigmático e no entanto familiar, está aquele livro que você sempre quis ler ou perdeu em criança e vai encontrar por escolha sua.
Vá-o abrindo devagar, desfrute-o como um ser único que lentamente se desvenda e oferece sucessivas camadas de beleza. Confunda-se com ele, risque, comente, assinale-lhe no corpo o seu percurso. Use-o, gaste-o, comece-o outra vez. Será este um prazer de nossos avoengos a quem a vista de um tornozelo de mulher proporcionava excitações inconcebíveis e a posse de um livro, só por si, legitimava orgulhos genealógicos.
Boa Feira e bons encontros.

35


Rumo ao 36.

AVISO À NAVEGAÇÃO


Há uma semana, um curto-circuito danificou a geringonça com que, diariamente, fazemos este CAIS DO OLHAR.

Já é possível recomeçar, mas não na sua plenitude.

Apresentamos as nossas desculpas.

Legenda: imagem do Power House Museum.

domingo, 15 de maio de 2016

OLHAR AS CAPAS


Hamlet

William Shakespeare
Tradução: D. Luís de Bragança
Círculo de Leitores, Lisboa, Janeiro de 1983

Ainda aqui estás, Laertes? para bordo, para bordo, Não te envergonhas? Teu navio só te espera para velejar. Recebe a minha bênção, e grava na tua memória os seguintes preceitos: Guarda par ti o pensamento, e não dês execução apressadamente aos teus projectos; medita-os maduramente. Sê llano sem te esqueceres de quem és. Quando tomares um amigo cuja afeição tenhas experimentado, liga-o a ti por vínculos de aço; mas não dês confiança irreflectidamente. Faz por evitar questões; mas se o não puderes conseguir, conduz-te de maneira que fiques sempre superior ao teu adversário. Ouve a todos, mas sê avaro de palavras; escuta o conselho que te derem, forma depois o teu juízo. No teu trajar sê tão sumptuosos, quanto to permitam os teus meios, mas nunca afectado; rico, mas não ofuscante; o porte dá a conhecer o homem, e nesse ponto, as pessoas de qualidade em França revelam um gosto primoroso, e o mais fino tacto. Não emprestes, nem peças emprestado; quem empresta perde o dinheiro e o amigo, e o pedir emprestado é o primeiro passo para a ruína. Mas sobretudo sê verdadeiro para a tua consciência, e assim como a noite se segue ao dia, seguir-se-á também, que o teu coração jamais abrigará falsidade. Adeus, que a minha bênção sele em teu coração os meus conselhos.

CHAMADA GERAL



 avisam-se todas as polícias
fugiu um homem

tem
olhos muito abertos
duas mãos dois pés
caminha persistentemente

atenção
supõe-se que é perigoso

sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços

atenção
GOSTA DE TREMOÇOS

repete-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem à solta
à solta

atenção
tem-se como certo
que é
realmente perigoso

os aeroportos
já estão sob vigilância permanente
tudo está a postos
não poderá passar
por nenhuma fronteira
que seja conhecida

insiste-se
avisam-se todas as polícias
anda um homem em liberdade

atenção
em liberdade


delações muito recentes
permitem afirmar
que fala com frequência

todo o cuidado é pouco

consta também
embora sem referências concretas
que está sempre presente
nos locais os mais suspeitos
apela-se com insistência
para o civismo de todos os cidadãos
para a denúncia rápida e eficaz
há recompensa

atenção
anda pelo país um homem
livre

não se sabe o que fará

exige-se
a quem o vir
que atire imediatamente
é urgente

atenção
atenção
chamam-se todas as polícias
uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência

repete-se o apelo

ATIREM PARA MATAR
NADA DE PERGUNTAS

Mário-Henrique Leiria

sábado, 14 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Não sou religioso. Em Espanha, todos os 22 jogadores fazem o sinal da cruz antes de entrarem em campo. Se funcionasse, daria sempre empate.

PALAVRAS CERTEIRAS


QUANDO ERA CRIANÇA


   quando era criança ouvi contar que deus se escondia por todo o lado; nas águas turvas de sabão, nos poços, na folhagem espessa do loureiro ao fundo do jardim, no florir das acácias ou na corola violácea de uma rosa. no entanto, parecia-me que o lugar mais provável era o cimo das árvores -- não sei porquê -- talvez por achar que deus tem de manter uma certa distância da terra, do estrume. Nunca consegui uma explicação para a escolha que fizera: deus escondia-se no cimo das árvores, porque achava um pouco exagerado que ele se encontrasse em tudo e por todo o lado, não era possível. se assim fosse, onde poderíamos nós esconder-nos dele?
   subia às árvores e ficava horas a fio acocorado na folhagem, em silêncio esperava que deus se me revelasse.
Um dia surpreendi um melro no ninho e, repentinamente, veio-me à ideia que deus se escondia dentro de um ovo. o melro, coitado, ao ver-me voara assustado. agarrei no ovo e trouxe-o para casa.
   conservei-o guardado muito tempo depois de ser criança, dentro duma caixinha com algodão. Ás vezes vigiava-o durante a noite, até que o esqueci, deixou mesmo de me aparecer em sonhos; o ovo que, julgava eu, continha deus.
   anos mais tarde, numa mudança de casa, reencontro a caixa no fundo duma gaveta. O ovo estava aparentemente intacto, mas mal lhe toquei desfez-se, cheirava mal. Deus, com o tempo, também tinha apodrecido no meu coração.

Al  Berto em O Medo

Legenda: pintura de Dima Dmitriev

sexta-feira, 13 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Ninguém nasce ou morre à hora da sesta.
só  a memória vigia os trilhos por onde um dia a morte
virá como um vagabundo sequiosos,
enquanto puxamos o balde cabisbaixos e a corda nos
sulca as mãos envelhecidas.

Jorge Fallorca em Longe do Mundo

Legenda: fotografia de Antanas Sutkus

UM CORAÇÃO BEM DILATADO


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...

E AGORA, BRASIL?


Dilma Rousseff, a presidente do Brasil com mandato suspenso depois de ter sido afastada temporariamente do cargo pelo Senado, disse aos brasileiros:

Não cometi crime de responsabilidade, não há razão para um processo de impeachment, não tenho contas no exterior, nunca recebi propinas, jamais compactuei com a corrupção. Este processo é frágil, juridicamente inconsistente, um processo injusto, desencadeado contra uma pessoa honesta e inocente.
Posso ter cometido erros, mas não cometi crimes. Estou a ser julgada injustamente por ter feito tudo o que a lei me autorizava a fazer. Foram actos legais, correctos, necessários, de governo, actos idênticos foram executados pelos presidentes que me antecederam. Não era crime na época deles e também não é agora.
O risco, o maior para o país neste momento, é ser dirigido por um governo que não teve votos, que não foi eleito pelo voto directo, que não terá a legitimidade para propor e implementar soluções para os desafios do Brasil.

Michel Temer é agora Presidente interino do Brasil por um prazo máximo de 180 dias.

Durante este período, o Senado irá julgar Dilma Rousseff num processo presidido por um juiz do Supremo Tribunal de Justiça.


Dilma só será afastada definitivamente se for condenada por uma maioria de dois terços dos eleitos naquele órgão.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Atenção aos estúpidos! Fazem pouco e têm sucesso…

Francesco Alberoni, citado por Manuel Hermínio Monteiro em Urzes

Legenda: Donald Trump

OLHARES

Lisboa.
Pilar do Elevador de Santa Justa.

NOTÍCIAS DO CIRCO



Legenda: imagem do Jornal de Notícias

DITOS & REDITOS


Galinha que se quer séria, enquanto põe ovos não cacareja.

Não há coisa que não viva com o seu contrário.

Como quem se entende no silêncio.

A dificuldade para compreender uma evidência está nela própria.

O mundo gosta de ser aldrabado.

Ler é uma casa aonde se volta.

Achado não é roubado.

Quem não tem fome de sopa não tem fome de doces.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


De risos e lágrimas é feito um país que se conheça bem.

Claude Roy em Diário de Viagens


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHARES


Contador de Bilhar.

UMA LUZINHA AO FUNDO DO TÚNEL


Um dos argumentos dos defensores do Acordo é que se trata apenas de mudar a ortografia e isso não muda a língua. Foi o argumento com que se me respondeu quando falei do abastardamento do português que, no meu ponto de vista e no de muitos outros, resulta da aplicação das novas regras ortográficas. Considero o argumento absurdo, como se na língua que falamos e lemos – insisto, falamos e lemos – a imagem física das palavras não contasse, e fosse o mesmo escrever aspeto e aspecto. As palavras transportam uma dimensão cultural e na sua escrita não são mera ortografia, como melhor do que ninguém João Guimarães Rosa compreendeu, tratando a língua portuguesa como sentido, som, e imagem.
O Acordo Ortográfico não é ciência, nem lei, é política. Como política, é prejudicial à nossa cultura a nível nacional e como elemento de política externa é um acto político clamorosamente falhado e cujas consequências do seu falhanço caem essencialmente sobre Portugal. O Presidente teve a coragem de levantar o assunto, convinha agora dar ao seu acto a força da opinião pública. Há muitas maneiras de o fazer, e os juristas e constitucionalistas certamente que encontrarão forma de dar expressão legal a esta “reversão”. Pode considerar-se a sua caducidade visto que não está a ser aplicado pelos outros signatários, “reverter” a sua imposição administrativa, ou, levar os portugueses a pronunciarem-se em referendo, mesmo que de forma não vinculativa, sobre o Acordo. Não são os opositores do Acordo quem tem medo do referendo, bem pelo contrário. Mas o tempo urge, visto que os defensores do Acordo pouco mais têm a seu favor do que a inércia.


José Pacheco Pereira no Público

OLHAR AS CAPAS


Diário de Viagens

Claude Roy
Tradução: Rui de Moura
Capa: António Domingues
Colecção O Homem no Mundo nº 3
Prelo Editora, Lisboa, Outubro de 1962

Poderia ter citado à pequena Wu-Shue o diálogo entre Delécluze e Stendhal. Delécluze, por espírito, perguntava, ao ver a cúpula de Saint-Pierre: «Para que serve isto?» Beyle respondeu-lhe: «Para fazer bater o coração quando se observa de longe.» Podia também ter-lhe contado a história desse pintor chinês dos tempos antigos, que salteadores amarraram e deixaram abandonado num templo deserto. Com a ponta do pé começou a desenhar ratinhos no solo, tão bem desenhados, tão autênticos, que se puseram a roer-lhe os laços, libertando-o. As velhas histórias da arte chinesa estão cheias de borboletas que esvoaçam mal são pintadas na seda, dragões que tomam vida mal o pintor larga os pincéis, pintores que desenham numa parede um cavalo e uma paisagem, montam no cavalo e desaparecem por detrás da colina que pintaram. Mas uma das que mais gosto é a dos ratos desenhados na terra que libertaram o seu criador (não só o seu criador, com certeza.) Há várias maneiras, em arte, de «servir o povo», de o desenvencilhar dos seus laços. Mas simplifiquei as coisas e respondi à pequena Wu-Shue: «Sim, a pintura do teu irmão serve o povo.» Creio que tinha razão.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Eu tenho um remédio para não me desiludir que é não me iludir…

José-Augusto França em Um Céu e Dois Caminhos

Legenda: imagem de John M. Grohol

OLHARES


Lisboa.
Roupa estendida na Rua do Embaixador. 

SARAMAGUEANDO


A págs. 268 das Memórias para o Ano 2000, José-Augusto França dá conta  dos encontros realizados no Grémio Literário, e lembra que por lá passaram Sophia Mello Breyner Andresen. Lídia Jorge. José Blanc de Portugal, José Cardoso Pires, o David Morão Ferreira, que ia morrem em breve – e o Saramago, antes do Nobel que tanto gosto deu a ambos. Como e porquê ele sabe.
Sublinhei o como e porquê ele sabe.

Nas Memórias para Após 2000, página 67, fiquei a saber do tal como e do tal porquê.

 Augusto França escreve:

… ou, por interesse próprio, no livro de José Prudêncio sobre Um Céu Dois Caminhos, que é o meu e o do meu coevo amigo José Saramago, com carta astrológica quase comum, a meia hora de intervalo.

Li  Memórias para Após 2000 em Outubro de 2014 e por esse tempo apontei num papel a compra futura do livro Um Céu e Dois Caminhos, que saíra em Maio de 2009.

O papel ficou algures perdido, e como a memória, tida como de elefante, foi chão que já deu uvas, nunca mais me lembrei do livro.


Há dias, por outras procuras, peguei em Memórias para Após 2000 e salta-me de lá o tal papelucho para a compra de Um Céu e Dois Caminhos.

Foi apenas tempo de o encomendar na Pó dos Livros.

O livro nasceu porque José Prudêncio leu, numa entrevista de José-Augusto França na revista Visão, em que este referia o seu nascimento quase em simultâneo com o de José Saramago e a partir deste instigante pormenor, entendeu que seria um bom tema o aprofundar dos muitos caminhos, alguns diversos, mas muitos coincidentes, destas figuras gradas da cultura portuguesa.

 Se assim pensou, melhor o fez.


De Um Céu e Dois Caminhos, disse José Saramago:

Numa dessas súbitas iluminações a que os escritores são atreitos e a que alguns preferem chamar inspiração, ocorreu-me a peregrina ideia de que o último refúgio do romantismo é a astrologia. O problema deste tipo de frases, vindas não se sabe donde e muito menos para quê, é que depois será necessário encontrar-lhes uma explicação tanto quanto possível racional para que o achado não fique limitado a um fulgurante fogo de palha que em três minutos não será mais que um punhado de cinzas negras. Uma razão, ainda que menos convincente do que eu desejaria, é que, tal como está organizado o pátio da modernidade, não sabemos onde meter o romantismo, e portanto a astrologia, tão misteriosa, tão sibilina, tão arcânica, seria um bom lugar onde diluir, no geometrismo implacável de um mapa astral, a violência às vezes extrema dos sentimentos românticos. O tocaio meu que me está fazendo o favor de ler estas mal alinhavadas regras, o quase irmão e quase gémeo José-Augusto França, autor do notável livro que é Le romantisme au Portugal, poderá, querendo, graças ao seu minucioso conhecimento das matérias, confirmar ou infirmar o que aqui se sugere. Embora a astrologia se ocupe mais de planetas do que estrelas, não há nenhuma dúvida sobre o seu campo de trabalho: o espaço celeste, tão responsável por inúmeros suspiros soltados do peito dos jovens e menos jovens tocados pelo anhelo, pela melancolia, pelo mal de vivre que, em última análise, caracteriza o romantismo. Que temos o nosso destino escrito no céu, dizem-nos. Talvez seja verdade, mas é na terra que pagamos as favas.


José-Augusto França entendeu responder:

Caro Zé Saramago, desolados por sua ausência e certos que a nova crise será em breve vencida para que, dentro de um ano, tenhamos ganho 150% da esperança de vida havida ao nascermos nacionalmente, nos idos de 1922.
A sua ideia do romantismo (que coisa ele será? pergunta-se o doutorado nele na Sorbonne) pode ser… Passagem da tragédia dos deuses e dos seus destinos, ao drama dos homens e dos seus caminhos (condicionados socialmente tanto quanto individualmente responsabilizados) a quem vão restando “montes e maravilhas” de poesia que os astros – quê? simbolizam analogicamente. Que, para o Fernando Pessoa (que aqui vejo obscenamente sentado de bronze no terraço da Brasileira donde escrevo), tudo é necessariamente símbolo e analogia. E fica V. sabendo, com este abraço, que estou histórica e minuciosamente trabalhando sobre 1936 – o seu Ano da Morte de Ricardo Reis e dos Sinais de Fogo de Jorge de Sena. Ou seja, do “Ano X” da revolução que o Salazar confiscou – raios nos partiram a todos, tínhamos nós 14 anos…

José Prudêncio, nas primeiras páginas do livro, esclarece:

Quando se fala de astrologia ocorre de imediato, para a maioria das pessoas, os Signos do Zodíaco e as respectivas previsões dos jornais e das revistas, escreve José Prudência nas primeiras páginas do livro.

Encontro-me neste número, mas saí da leitura do livro com uma ideia diferente da que tinha sobre tal matéria.

O assunto é bem mais sério do que imaginara,

Certo que o livro apresenta muitos mapas das vidas de Saramago e Augusto França, bem como das respectivas famílias (elementos, signos, áreas, planetas, algo mais) a necessitarem leitura especializada, mas o resto é deveras interessante, muito por via da transcrição das conversas que o autor manteve com ambos e que oferecem o desnovelar do mistério de duas vidas quase pararelas.

Ou como escreveu Luís Resina na contracapa:

Um livro apaixonante.