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terça-feira, 13 de maio de 2025

PARÁBOLA DO REI

O grande rei, ao olhar em frente,

não viu o destino, mas apenas

a aurora que cintilava sobre

a ilha desconhecida: enquanto rei,

pensou de forma imperativa —

não mudemos de rumo,

avancemos sem parar

sobre o mar radioso. Afinal,

o que é o destino senão uma estratégia para ignorar

a História, com os seus dilemas

morais, uma forma de encarar

o presente, onde se tomam

decisões, como o elo

necessário entre o passado (imagens do rei

enquanto jovem príncipe) e o glorioso futuro (imagens

de jovens escravas). Fosse o que fosse

à sua espera mais à frente, porque havia de ser

tão ofuscante? Quem teria adivinhado

que não se tratava do Sol habitual

mas de chamas erguendo‑se sobre um mundo

prestes a extinguir‑se?

 

Louise Gluck

sexta-feira, 10 de maio de 2024

POSTAIS SEM SELO


A experiência fundamental do escritor é o desamparo.

Louise Gluck

Legenda: Louise Gluck

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

POSTAIS SEM SELO


É natural estar-se cansado da terra. Quando estivermos mortos, é provável que também nos cansemos do céu.

Louise Gluck

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...

 

Sempre foi um leitor atrasado, principalmente de jornais e revistas.

Coloca-os numa cesto de vindima que tem ali ao canto, e depois vai pegando neles.

Terá sido em Novembro, numa ida à Livraria Bertrand, que trouxe de lá a revista Somos Livros.

Só ontem lhe pegou.

A págs,. 54, a revista invoca Louise Gluck, dizem eles «a voz poética inconfundível de Louise Gluck» e publicam um poema seu, retirado da antologia Rosa do Mundo.

Acontece, porém que o poema que publicam, é da autoria de José Saramago do livro Provàvelmente Alegria.  

Todos nos enganamos, todos erramos, o Samuel Becket exige que se tente de novo, que se falhe de novo, que se falhe melhor.

Certamente a revista já não estará nos escaparates das livrarias Bertrand, gratuita a sua distribuição, muitos que a levaram terão aproveitado, lembrando João César Monteiro, para embrulhar peixe frito, ou, acrescento eu, para as necessidades caseiras de algum cão, algum gato, pelo que não vale a pena escrever para a redacção da revista a contar do erro.

Apenas aproveito a deixa para publicar a poesia de Louise Luck que vem na página 1806 da antologia Rosado Mundo e a poesia de José Saramago.

E ficamos bem, neste dia frio de não sei quantos graus, com avisos da Protecção Civil à população por causa da friagem.

O PODER DE CIRCE

Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.

Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.

Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,

sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.

Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi

que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,
 

previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas

que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém

vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter

podia ter-te aprisionado.

Louise Gluck, tradução de José Alberto Oliveira na antologia Rosa do Mundo


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
      manhãs e madrugadas em que não precisamos de
      morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
     em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
     palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
     mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno,

     a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz

      e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda
     do mundo infatigável, porque mordeu a alma
     até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem mila-

     gres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago em Provàvelmente Alegria

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

POSTAIS SEM SELO



É verdade que não há beleza suficiente no mundo. Também é verdade que eu não tenho competência para devolver-lha. Nem há sequer candor, mas nisso talvez eu possa ser útil. Eu estou de serviço, mesmo estando em silêncio.

Louise Gluck

LOUISE GLUCK, NOBEL DA LITERATURA 2021

Numa eventual tentativa de fazer voltar o Prémio Nobel da Literatura a um patamar de alguma dignidade, a Academia Sueca deu o galardão à nova-iorquina Louise Gluck, 77 anos, que se constitui como a 16.ª mulher a vencer o Nobel.

Na sua justificação a Academia refere a sua inconfundível voz poética que, com austera beleza, torna universal a existência individual.

Em 1999 Louise Glück foi eleita chanceler da Academia dos Poetas Americanos, em 2003 nomeada poeta da Biblioteca do Congresso como consultora de poesia, em 2015, Louise recebeu do presidente Barack Obama a Medalha Nacional de Artes e Humanidades pela sua obra.

Até ao momento, não se conhece qualquer reação do inculto e desprezível Donald Trump, ou da inculta corte que o cerca na Casa Branca.

Nenhum dos seus livros está publicado em Portugal.