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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

OLHAR AS CAPAS


A Crítica das Armas

Régis Debray

Capa: Henrique Ruivo

Colecção  Temas Actuais nº4

Seara Nova, Lisboa, Abril de 1977

Desde a Revolução Cubana até hoje, o que se travou na América latina, com o nome de «guerra revolucionária», não foi uma «guerra do povo» mas, em quase toda a parte, uma guerra de vanguarda. E não é escondendo este facto que se ajudará a preencher o fosso que separa a primeira da segunda.

Não era esta, todavia a concepção de Fidel, nem a de Che, nada mais que a sua experiência histórica. Pelo contrário: «Aqueles que querem fazer uma guerrilha», escrevia o Che, na Guerra de Guerrilha, um Método, «esquecendo a luta de massas, como se se tratasse de duas lutas contrárias, devem ser criticados. Nós somos contra esta posição. A guerra de guerrilha é uma guerra do povo, isto é, uma luta de massas. Pretender fazer a guerra de guerrilha sem o apoio da população, é ir de encontro a um desastre inevitável. A guerrilha é a vanguarda combatente do povo… apoiada na luta de massas dos camponeses e dos operários da zona e de todo o território onde se encontra. Sem estas condições, não se pode admitir a guerra de guerrilha».

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Um Crime Monstruoso

Jean-Paul Sartre

Tradução: Carlo T. Simões

Edições Dorell, São Paulo, 1968

Afinal que crime monstruoso cometeu? De que pode acusá-lo o governo boliviano? Escreveu um livro sobre a revolução. É claro que este livro não nasceu sozinho: resume nele as experiências da sua longa viagem pela América Latina; afirma a sua solidariedade com a experiência cubana; mas, principalmente, infere o que chama de “as consequências da lição para o futuro”. Veremos que é exatamente por isto que está preso atualmente e talvez esteja sendo torturado.

domingo, 16 de maio de 2021

E NEM TEMOS UMA GRANDE HISTÓRIA PARA CONTAR AOS FILHOS


Há 20 anos éramos esquerdistas, maoístas, trotskistas, guevaristas, anarquistas; hoje somos todos neo-liberais e post-modernos (enfim, quase todos…)

(…)

Estes tempos são tempos de arrependidos de todos os géneros; Bob Dylan está cheio de dinheiro e usa lentes de contacto; Regis Debray estuda Milton Friedman às escondidas, Não transformámos o mundo nem mudámos a vida;  a vida é que nos mudou a todos (o «Che» morreu na Bolívia, baleado por um «ranger» anónimo; José Afonso morreu de doença; e o Artur Queirós ganhou o Prémio Ibéria de Jornalismo). Foi uma derrota sem glória pelo menos sem tanta glória como a derrota dos nossos pais nas trincheiras de Valência, nos campos de Almeria, ou passando o Ebro en un barquito de vela.

Os revolucionários, mesmo os de café, são os cornudos da História; nós nem por isso. Os cafés passaram a bancos e as namoradas com quem, de mãos dadas atravessámos os anos da brasa sobre as barricadas do Quartier Latin ou nos jardins da Cidade Universitária, são hoje professoras do liceu e assinantes do Círculo de Leitores.

Restam-nos alguns discos, alguns livros, algumas memórias. E nem temos uma história, uma grande história para contar aos filhos, porque os nossos filhos preferem as histórias dos campeões da Wall Street e emocionam-se mais com um «crash» da Bolsa do que com verduras românticas com «pavês», «slogans», ocupações selvagens. Elvis Presley, afinal, não era informador da CIA? João XXIII não tinha acções nas fábricas de material de guerra? Giap não tinha campos de concentração? Fidel não tinha Padilla a apodrecer numa cadeia?

05.03.1988

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura