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quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

CHOVER NO MOLHADO

1 de Janeiro de 1992

O calendário bem o diz. Mas é chover no molhado. Há muito tempo já que os anos são sempre velhos em Portugal.

Miguel Torga em Diário Volume IX

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

MAS HÁ COISAS MAIS BONITAS...

24 de Março de 1948

Esta manhã, uma velha que de mando de um namorado levava um lindo molho de cravos a casa da namorada. Parou a perguntar-me se eu conhecia a menina e se lhe podia ensinar onde ela morava. Nas suas mãos encardidas e calosas o ramo parecia ter ainda as raízes no estrume.

- Bonitos! – exclamei eu, deslumbrado.

- São… - respondeu ela com cepticismo- - Mas há coisas mais bonitas…

- Por exemplo?

- Um bocado de broa e uma sardinha, quando a gente está cheia de fome.

Miguel Torga em Diário, Volume VI

sábado, 18 de dezembro de 2021

A FINGIR DE VIVO MAIS ALGUM TEMPO

Natal de 1948

Uma consoada triste, com minha mãe a apodrecer no cemitério. À chegada, já não estava ela à porta a esperar-nos, nem ao jantar as rabanadas tinham o mesmo gosto. O velho, coitado, foi até onde pôde  para se mostrar mais humanizado. Recebeu-nos ele, e fez as honras da casa. Como era impossível delegar na companheira perdida as delicadezas e os sorrisos, a sua timidez esforçou-se e apresentou-se gentil e afectuosa. É como se ele tivesse também morrido já, mas estivesse condenado a fingir de vivo mais algum tempo.

Miguel Torga em Diário, Volume IV

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

QUE ELE ASSUMA A RESPONSABILIDADE!

4 de Novembro de 1948

Faça um seguro…

- Deus me livre!

- Olhe que é útil! Morre-se, recebem os herdeiros; tem-se um desastre, pagam-nos o hospital; fica-se inválido, dão-nos uma pensão…

- Não teime. Eu gostava de me segurar mas para não morrer, para nunca ficar inválido, para não ser esmagado por nenhum automóvel…

Agora segurar-me para depois dessas desgraças, não me interessa. Se o destino me ganhar o jogo, quero que ele assuma a responsabilidade do que fez!

Miguel Torga em Diário, Volume IV

domingo, 5 de dezembro de 2021

SE O MAR NÃO PÁRA...

24 de Setembro de 1948

O novo livro vai caminhando. Escrevo como quem triaga, mas escrevo. Se o mar não pára, por que razão hei-de parar eu?

Miguel Torga em Diário, Volume IV

terça-feira, 30 de novembro de 2021

FICA AQUI A DECLARAÇÃO

5 de Abril de 1948

Creio que não é preciso. Em todo o caso, fica aqui a declaração.

O que eu fui sempre, o que eu sou, e o que serei, é um artista, um homem e um revolucionário. Na medida em que sou artista, quero um mundod onde a beleza seja o vértice da pirâmide. Na medida em que sou homem, quero que nesse mundo os indivíduos sejam livres e conscientes. E na medida em que sou revolucionário, quero que a revolução traga à tona as grandes massas, e que nunca acabe de percorrer o seu caminho perpétuo, sem estratificações e sem dogmas.

Miguel Torga em Diário, Volume IV

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

ZELOS POLICIAIS

14 de Fevereiro de 1948

Novamente me foi negado o passaporte para sair de Portugal. Prisioneiro! E vejam o absurdo dos zelos policiais! Eles a pensarem que me levavam sombrios propósitos de minar a ordem, e aqui como quem se confessa o que eu queria era ir ver os Velásquez do Prado, e os Memlings de Bruges.

Miguel Torga em Diário, Volume IV

sábado, 20 de novembro de 2021

ALICERCES

17 de Maio de 1946

O homem ou é um indivíduo ou não é nada. Tudo, menos perder a confiança que é precisos ter no semelhante, base de todo o convívio e de toda a colaboração. Embora mil vezes ludibriado, o idealista romântico pôde construir o seu liberalismo sobre um alicerce de esperança e de certeza no cidadão.

Não se pode salvar aquilo em que não se crê.

Miguel Torga em Diário, Volume IV

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

A MANUEL DE FALLA

15 de Novembro de 1946

A MANUEL DE FALLA, QUE ONTEM MORREU

A vida é breve, Falla.
Mas é breve
Para quem apodrece na mortalha.
Não a tua!
No Concerto de Cravo
Uma vida mais alta continua.

Não, não há génio breve,
Nem morre o homem que na vida o teve,
Como tu!
Dorme e descansa o corpo velho e gasto,
Porque o teu nome é um astro
No céu da Ibéria desolado e nu.

Miguel Torga em Diário, Volume IV

sábado, 6 de novembro de 2021

A PESSOA E O ARTISTA

7 de Janeiro de 1947

Onde começará a minha liberdade de pessoa e acabará o meu dever de artista?

Miguel Torga em Diário Volume IV

sábado, 30 de outubro de 2021

CHEGARÁ?

10 de Agosto de 1946

O mar, Breughel, Bach, amigos, e dez reis de saúde… Chegará?

Miguel Torga em Diário, Volume III

terça-feira, 12 de outubro de 2021

ORA ISTO É DE ANALFABETOS

5 de Maio de 1946

Escreve-me espontaneamente um sacerdote a dizer amabilidades sobre a minha arte, mas antepondo aos seus louvores, à guisa de esconjuro inicial, um «alma do diabo» prudente.

Creio que tem havido sempre na nossa terra uma descabida preocupação canónica à ilharga de cada artista. Interessa mais ao zelo nacional averiguar se um poeta morreu sacramentado, do que ler os seus versos. Ninguém quer saber se o caminho de um criador o leva à morada das musas e da beleza; espreita-se da janela, mas é para ver se ele vai à missa. Ora isto é de analfabetos, de pessoas que verdadeiramente não sabem nem querem saber do valor de um poema, do mundo de liberdade e de independência que ele encerra. E uma gente assim não me convém, nem tão pouco o Deus intolerante que servem. Por isso me vou divertindo com as minhas divindades naturais, luciferinamente, certo de que o diabo é ainda uma grande companhia. Foi a ele que Jesus disse que o seu reino não era deste mundo. E o meu, precisamente, é.

Miguel Torga em Diário Volume III 

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

EM PORTUGAL...

3 de Abril de 1946

Dizia hoje alguém:

Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coacção, ou por devoção.

Miguel Torga em Diário, Volume III

terça-feira, 21 de setembro de 2021

O QUE É PRECISO SABER...

26 de Maio de 1943

A História que era preciso ensinar nas escolas não devia mostrar Carlos o Temerário a morrer diante de Nancy. Devia mostrar mas é esta junta de bois aqui à minha porta, atrelada a um carro, à espera que o dono acabe de beber um copo. Que importa lá a humanidade a basófia do senhor francês? Interessa-lhe mas é saber como foi possível domar um bicho de cornos e de patas, junji-lo, e pô-lo pronto para lhe arrestar a lenha e a pedra, e para lhe dar depois o corpo em bifes.

Miguel Torga em Diário, Volume III

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO...

19 de Maio de 1943

Tirei hoje da vida de Cristo esta novidade: uma lição de preguiça. Reparei que não se encontra naquele passeio divino por este mundo um passo em direcção ao esforço do animal a tirar água de uma nora.

- Olhai os lírios dos campos…

Estava-se mesmo a ver o que era isto: deixar correr, e não forçar a transitória natureza à degradação do jugo. Estava-se mesmo a ver, mas eu não vi. E trabalhei até agora como um jumento (E a miséria é que vou continuar.)

Miguel Torga em Diário, Volume III

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O CAMINHO DE CASA

21 de Abril de 1943

O mesmo cego de há cinco anos, que é aqui uma espécie de moralidade da fábula da vida.

- E se tu de repente visses?

- Olhe, não sabia o caminho de casa, e assim sei.

Miguel Torga em Diário, II Volume

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

SEM SABER EM VERDADE

13 de Abril de 1943

-Posso então sair amanhã?

- Pode. Um passeio pequeno, a experimentar.

- Não. Se puser os pés na rua, tenho de ir à Rainha Santa pagar a promessa que lhe fiz.

- Ah! fez-lhe uma promessa?

-Então a quem é que eu me havia de apegar, na aflição em que me vi?

- Evidentemente…

E desci as escadas atordoado, sem saber em verdade se tinha sido eu que curara aquela alma da labirintite, ou se teria sido de facto a mulher de D. Dinis.

Miguel Torga em Diário. Volume II

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Será O ÚLTIMO?

15 de Março de 1943

 Depois de escrever um poema, fico sempre aterrorizado com esta ideia: e se não escrevo mais nenhum?

 Miguel Torga, Diário Volume II

quinta-feira, 27 de maio de 2021

FAZE DE CONTA QUE ÉS FAROLEIRO NAS BERLENGAS

20 de Janeiro de 1943

É uma pessoa que não é de cá. Mas como sabe o que diz e conhece isto às mil maravilhas, hoje, depois de me ver a braços com mais uma encrenca de ditos e e de mal-entendidos, aconselhou-me esta solução, que é a síntese perfeita de toda a possível vida social aqui:

- Não te aflijas, que não vale a pena. Faze de conta que és faroleiro nas Berlengas.

Miguel Torga em Diário Volume II

terça-feira, 18 de maio de 2021

O CORPO FARTA-SE DE TUDO


18 de Novembro de 1942

Estou pior. Mas aquele meu antigo desespero activo de morrer – atenuou-se. Agora olho este apodrecimento com a calma de quem vê um belo e irremediável por-de-sol. A quem julgue (que ilusão, passar-me pela cabeça que alguém possa tomar calor por esta minha agonia!) que a explicação do facto pode muito bem estar na circunstância de o mundo atravessar neste  momento uma hora dramática da sua vida, e, por isso, o egoísmo de conservação do individual ceder perante a carnificina do colectivo, digo desde já que se angana. Quero que outros tenham tanto como eu a dor de asiáticos, africanos e europeus; mas não quero que haja quem sofrido mais. Contudo, com humildade e sinceridade o digo; a minha dor pessoal é minha. Não. Cheguei a isto, porque estou cansado. Desde que me conheço que vivo como se a curva do céu que me cobre fosse um arco, e eu a corda tensa entre os dois extremos. Ora, sabem que uma tensão contínua… Bom, eu não quero física a ninguém. O que é certo é que cá estou onde nunca pensei de chegar, pelo menos com trinta e cinco anos: às razões do meu pai. Quando um dia lhe lhe falava horrorizado da serenidade com que ele encarava a morte, respondeu-me na sua língua:

- O corpo farta-se de tudo, filho. Até de viver.

Miguel Torga em Diário Volume II