1 de Janeiro de 1992
O calendário bem o diz. Mas é chover no molhado. Há muito tempo já que os anos são sempre velhos em Portugal.
Miguel Torga em Diário Volume IX
1 de Janeiro de 1992
O calendário bem o diz. Mas é chover no molhado. Há muito tempo já que os anos são sempre velhos em Portugal.
Miguel Torga em Diário Volume IX
24 de Março de 1948
Esta
manhã, uma velha que de mando de um namorado levava um lindo molho de cravos a
casa da namorada. Parou a perguntar-me se eu conhecia a menina e se lhe podia
ensinar onde ela morava. Nas suas mãos encardidas e calosas o ramo parecia ter
ainda as raízes no estrume.
-
Bonitos! – exclamei eu, deslumbrado.
-
São… - respondeu ela com cepticismo- - Mas há coisas mais bonitas…
-
Por exemplo?
-
Um bocado de broa e uma sardinha, quando a gente está cheia de fome.
Miguel Torga em Diário, Volume VI
Natal de 1948
Uma
consoada triste, com minha mãe a apodrecer no cemitério. À chegada, já não
estava ela à porta a esperar-nos, nem ao jantar as rabanadas tinham o mesmo
gosto. O velho, coitado, foi até onde pôde para se mostrar mais humanizado. Recebeu-nos
ele, e fez as honras da casa. Como era impossível delegar na companheira
perdida as delicadezas e os sorrisos, a sua timidez esforçou-se e apresentou-se
gentil e afectuosa. É como se ele tivesse também morrido já, mas estivesse
condenado a fingir de vivo mais algum tempo.
Miguel Torga em Diário, Volume IV
4 de Novembro de 1948
Faça
um seguro…
-
Deus me livre!
-
Olhe que é útil! Morre-se, recebem os herdeiros; tem-se um desastre, pagam-nos
o hospital; fica-se inválido, dão-nos uma pensão…
-
Não teime. Eu gostava de me segurar mas para não morrer, para nunca ficar
inválido, para não ser esmagado por nenhum automóvel…
Agora
segurar-me para depois dessas desgraças, não me interessa. Se o destino me
ganhar o jogo, quero que ele assuma a responsabilidade do que fez!
Miguel Torga em Diário, Volume IV
24 de Setembro de 1948
O
novo livro vai caminhando. Escrevo como quem triaga, mas escrevo. Se o mar não
pára, por que razão hei-de parar eu?
Miguel Torga em Diário, Volume IV
5 de Abril de 1948
Creio
que não é preciso. Em todo o caso, fica aqui a declaração.
O
que eu fui sempre, o que eu sou, e o que serei, é um artista, um homem e um
revolucionário. Na medida em que sou artista, quero um mundod onde a beleza
seja o vértice da pirâmide. Na medida em que sou homem, quero que nesse mundo
os indivíduos sejam livres e conscientes. E na medida em que sou
revolucionário, quero que a revolução traga à tona as grandes massas, e que
nunca acabe de percorrer o seu caminho perpétuo, sem estratificações e sem
dogmas.
Miguel
Torga em Diário, Volume IV
14 de Fevereiro de 1948
Novamente
me foi negado o passaporte para sair de Portugal. Prisioneiro! E vejam o
absurdo dos zelos policiais! Eles a pensarem que me levavam sombrios propósitos
de minar a ordem, e aqui como quem se confessa o que eu queria era ir ver os
Velásquez do Prado, e os Memlings de Bruges.
Miguel Torga em Diário, Volume IV
17 de Maio de 1946
O
homem ou é um indivíduo ou não é nada. Tudo, menos perder a confiança que é
precisos ter no semelhante, base de todo o convívio e de toda a colaboração.
Embora mil vezes ludibriado, o idealista romântico pôde construir o seu
liberalismo sobre um alicerce de esperança e de certeza no cidadão.
Não se pode salvar aquilo em que não se crê.
Miguel
Torga em Diário, Volume IV
15
de Novembro de 1946
A
MANUEL DE FALLA, QUE ONTEM MORREU
A
vida é breve, Falla.
Mas é breve
Para quem apodrece na mortalha.
Não a tua!
No Concerto de Cravo
Uma vida mais alta continua.
Não,
não há génio breve,
Nem morre o homem que na vida o teve,
Como tu!
Dorme e descansa o corpo velho e gasto,
Porque o teu nome é um astro
No céu da Ibéria desolado e nu.
Miguel
Torga em Diário, Volume IV
7 de Janeiro de 1947
Onde
começará a minha liberdade de pessoa e acabará o meu dever de artista?
Miguel
Torga em Diário Volume IV
10 de Agosto de 1946
O
mar, Breughel, Bach, amigos, e dez reis de saúde… Chegará?
Miguel
Torga em Diário, Volume III
5 de
Maio de 1946
Escreve-me espontaneamente um sacerdote a dizer amabilidades
sobre a minha arte, mas antepondo aos seus louvores, à guisa de esconjuro
inicial, um «alma do diabo» prudente.
Creio que tem havido sempre na nossa terra uma
descabida preocupação canónica à ilharga de cada artista. Interessa mais ao
zelo nacional averiguar se um poeta morreu sacramentado, do que ler os seus
versos. Ninguém quer saber se o caminho de um criador o leva à morada das musas
e da beleza; espreita-se da janela, mas é para ver se ele vai à missa. Ora isto
é de analfabetos, de pessoas que verdadeiramente não sabem nem querem saber do
valor de um poema, do mundo de liberdade e de independência que ele encerra. E
uma gente assim não me convém, nem tão pouco o Deus intolerante que servem. Por
isso me vou divertindo com as minhas divindades naturais, luciferinamente,
certo de que o diabo é ainda uma grande companhia. Foi a ele que Jesus disse
que o seu reino não era deste mundo. E o meu, precisamente, é.
Miguel Torga em Diário Volume III
3 de Abril de 1946
Dizia
hoje alguém:
Em
Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coacção, ou por
devoção.
Miguel
Torga em Diário, Volume III
26 de Maio de 1943
A
História que era preciso ensinar nas escolas não devia mostrar Carlos o
Temerário a morrer diante de Nancy. Devia mostrar mas é esta junta de bois aqui
à minha porta, atrelada a um carro, à espera que o dono acabe de beber um copo.
Que importa lá a humanidade a basófia do senhor francês? Interessa-lhe mas é
saber como foi possível domar um bicho de cornos e de patas, junji-lo, e pô-lo
pronto para lhe arrestar a lenha e a pedra, e para lhe dar depois o corpo em
bifes.
Miguel
Torga em Diário, Volume III
19 de Maio de 1943
Tirei
hoje da vida de Cristo esta novidade: uma lição de preguiça. Reparei que não se
encontra naquele passeio divino por este mundo um passo em direcção ao esforço
do animal a tirar água de uma nora.
-
Olhai os lírios dos campos…
Estava-se
mesmo a ver o que era isto: deixar correr, e não forçar a transitória natureza
à degradação do jugo. Estava-se mesmo a ver, mas eu não vi. E trabalhei até
agora como um jumento (E a miséria é que vou continuar.)
Miguel
Torga em Diário, Volume III
21 de Abril de 1943
O mesmo cego de há cinco anos, que é
aqui uma espécie de moralidade da fábula da vida.
- E se tu de repente visses?
- Olhe, não sabia o caminho de casa, e
assim sei.
Miguel Torga em Diário, II
Volume
13 de Abril de 1943
-Posso então sair amanhã?
- Pode. Um passeio pequeno, a experimentar.
- Não. Se puser os pés na rua, tenho de
ir à Rainha Santa pagar a promessa que lhe fiz.
- Ah! fez-lhe uma promessa?
-Então a quem é que eu me havia de
apegar, na aflição em que me vi?
- Evidentemente…
E desci as escadas atordoado, sem saber
em verdade se tinha sido eu que curara aquela alma da labirintite, ou se teria
sido de facto a mulher de D. Dinis.
Miguel Torga em
Diário. Volume II
15 de Março de 1943
20 de Janeiro de 1943
É uma pessoa que não é de cá. Mas como
sabe o que diz e conhece isto às mil maravilhas, hoje, depois de me ver a
braços com mais uma encrenca de ditos e e de mal-entendidos, aconselhou-me esta
solução, que é a síntese perfeita de toda a possível vida social aqui:
- Não te aflijas, que não vale a pena. Faze de conta que és faroleiro nas Berlengas.
Miguel Torga em Diário Volume II
18 de Novembro de 1942
Estou pior. Mas aquele meu antigo
desespero activo de morrer – atenuou-se. Agora olho este apodrecimento com a
calma de quem vê um belo e irremediável por-de-sol. A quem julgue (que ilusão,
passar-me pela cabeça que alguém possa tomar calor por esta minha agonia!) que
a explicação do facto pode muito bem estar na circunstância de o mundo
atravessar neste momento uma hora
dramática da sua vida, e, por isso, o egoísmo de conservação do individual
ceder perante a carnificina do colectivo, digo desde já que se angana. Quero
que outros tenham tanto como eu a dor de asiáticos, africanos e europeus; mas
não quero que haja quem sofrido mais. Contudo, com humildade e sinceridade o
digo; a minha dor pessoal é minha. Não. Cheguei a isto, porque estou cansado.
Desde que me conheço que vivo como se a curva do céu que me cobre fosse um
arco, e eu a corda tensa entre os dois extremos. Ora, sabem que uma tensão
contínua… Bom, eu não quero física a ninguém. O que é certo é que cá estou onde
nunca pensei de chegar, pelo menos com trinta e cinco anos: às razões do meu
pai. Quando um dia lhe lhe falava horrorizado da serenidade com que ele
encarava a morte, respondeu-me na sua língua:
- O corpo farta-se de tudo, filho. Até de viver.
Miguel Torga em Diário
Volume II