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sábado, 13 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


Apontou para o embrulho envolvido em papel celofane que tinha depositado na noite anterior em cima da mesa da casa de jantar. Hesitei um instante. O meu pai assentiu. Peguei no embrulho e sopesei-o. Estendi-o ao meu pai sem abrir.
- O melhor é que o devolvas. Não mereço nenhum presente.
- Os presentes dão-se por prazer de quem oferece, não por mérito de quem recebe - disse o meu pai.

Carlos Ruiz Zafón em A Sombra do Vento

Legenda: ilustração de Banksy

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

UMA ÚNICA PARTICULARIDADE


 Foi então que algo o fez voltar e olhar de novo o mostrador enegrecido do relógio da estação. Examinou-o com cuidado e percebeu que havia qualquer coisa que não estava bem. Lembrava-se muito bem que ao chegar à estação o relógio indicava meia hora depois do meio-dia. Agora, os ponteiros marcavam meio-dia menos dez.
- Max! - soou a voz do pai, chamando-o da furgoneta. . Vamos embora!
- Já vou – murmurou Max para si mesmo, sem deixar de olhar para o mostrador.
O relógio não estava estragado, funcionava bem, com uma única particularidade: andava ao contrário.

Carlos Ruiz Zafón em O Príncipe da Neblina, Planeta Manuscrito, Lisboa Setembro 2011

Legenda: relógio que se encontra no British-Bar, também anda ao contrário e aparece no filme de Alain Tanner,  A Cidade Branca, 1983.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O VENTO IMPREGNADO DE CHEIRO A SALITRE


Max lera uma vez num dos livros do pai que certas imagens da infância ficam gravadas no álbum da mente como fotografias, como cenários aos quais, passe o tempo que passar, voltamos sempre e recordamos. Compreendeu o sentido daquelas palavras a primeira vez que viu o mar. Seguiam há mais de cinco horas no comboio quando, de repente, ao emergir de um escuro túnel, uma infinita lâmina de luz e claridade espectral se estendeu diante dos seus olhos. O azul-eléctrico do mar resplandecente sob o sol do meio-dia gravou-se na sua retina como uma aparição sobrenatural. Enquanto o comboio seguia o seu caminho a poucos metros do mar, Max pôs a cabeça fora da janela e sentiu pela primeira vez na pele o vento impregnado de cheiro a salitre. Voltou-se para olhar o pai, que o observava do extremo da carruagem co comboio com um sorriso misterioso, aquiescendo a uma pergunta que Max não chegara a formular. Soube então que não importava qual fosse o destino daquela viagem nem em que estação pararia o comboio; a partir daquele dia, nunca viveria num lugar de onde não pudesse ver todas as manhãs ao acordar aquela luz azul e deslumbrante que subia até ao céu como um vapor mágico e transparente. Era uma promessa que fizera a si mesmo.

Carlos Ruiz Zafón em O Príncipe da Neblina Planeta. Lisboa 2010

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

domingo, 14 de julho de 2013

OLHAR AS CAPAS


A Sombra do Vento

Carlos Ruiz Zafón
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Publicações Dom Quixote, Lisboa Setembro de 2004

Cada livro, cada volume que vês, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. Há já muitos anos, quando o meu pai me trouxe pela primeira vez aqui, este lugar já era velho. Talvez tão velho como a própria cidade. Ninguém sabe de ciência certa desde quando existe, ou quem o criou. Dir-te-ei o que o meu pai me disse a mim. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

OLHAR AS CAPAS



O Príncipe da Neblina

Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Maria do Carmo Abreu
Capa: Lígia Pinto
Planeta Manuscrito, Lisboa Setembro 2011

Este Outono farei setenta e dois anos e, embora me reste o consolo de que não os aparento, cada um deles pesa-me como uma pedra às costas. A idade faz-nos ver certas coisas. Por exemplo, agora sei que a vida de um homem se divide em três períodos. No primeiro, nem sequer pensamos que envelheceremos, nem que o tempo passas, nem que, desde o primeiro dia, quando nascemos avançamos para um único fim. Passada a primeira juventude, começa o segundo período, onde nos apercebemos da fragilidade da própria vida e o que no princípio é uma simples inquietação vai crescendo no nosso íntimo como um mar de dúvidas e incertezas que nos acompanham durante o resto dos nossos dias. Por último, no fim da vida, abre-se o terceiro período, o da aceitação da realidade e, por consequência, da resignação e da espera. Ao longo da minha existência conheci muitas pessoas que ficaram ancoradas em qualquer desses períodos e nunca os conseguiram superar. É uma coisa terrível.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

POSTAIS SEM SELO


Naqueles anos, o Natal conservava ainda um certo ar de magia e de mistério. O pó dde luz do Inverno, o olhar e a esperança de pessoas que viviam rodeadas de sombras e de silêncios conferiam àquele panorama um leve perfume a verdade, no qual, pelo menos as crianças e aqueles que haviam aprendido a esquecer, ainda poderiam acreditar.

Carlos Ruiz Zafón em O Prisioneiro do Céu, Planeta Manuscrito Junho 2012
Legenda: pintura de Anton Pieck 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

OLHAR AS CAPAS


O Jogo do Anjo

Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Isabel Fraga
Capa: Henrique Cayate
Publicações Dom Quixote, Lisboa Outubro 2008

Diga-me, já leu a Bíblia?
Hesitei um instante. A cabina partiu para o vazio. Olhei para o chão-
- Fragmentos aqui e além, suponho, murmurei
- Supõe. Como quase toda a gente. Erro grave. Toda a gente devia ler a Bíblia. E relê-la. Crentes ou não, tanto faz. Eu releio-a pelo menos uma vez por ano. É o meu livro preferido.
- E considera-se crente ou céptico? – perguntei.
- Sou um profissional. E você também. Aquilo em que acreditamos ou não é irrelevante para a consecução do nosso trabalho. Crer ou descrer é um acto pusilânime. Sabe-se ou não, e pronto.
- Confesso então que não sei nada.
- Continue por essa via e encontrará os passos do grande filósofo. E de caminho lei a Bíblia de cabo a rabo. É uma das maiores histórias alguma vez contadas. Não cometa o erro de confundir a palavra de Deus com a indústria do missal que vive dela.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

RAY BRADBURY (1921-2012)


Na terça-feira, com 91 anos, morreu o escritor Ray Bradbury.

Aos 7 anos deixou-se encantar com os livros de Edgar Allan Poe, para aos 17 anos, numa revista de ficção científica.

Curiosamente foi François Truffaut que meu a conhecer Ray Bradbury.

Em 1966 adaptou ao cinema Fahrenheit 451, que é a temperatura a que um livro se inflama e consome.

Truffaut dizia que o argumento devia 60% ao romance de Bradbury e 40% a ele próprio.

Foi o seu amor pelos livros que o levou a fazer o filme.

Numa qualquer futuro, um regime totalitário decreta que os livros são perigosos e manda-os queimar.




Bem os livros foram banidos Não faz mal, vamos decorá-los.

 Carlos Ruiz Zafón em A Sombra do Vento:

Por que é que se queimam os livros? Por estupidez, por ignorância, por ódio… vá-se lá saber.

Final de Fahrenheit 451:

Montag sentia em si o lento remoinho das palavras, as suas lentas vibrações. E, quando a sua vez chegasse, que poderia dizer, que poderia oferecer, num dia como aquele, para aliviar a fadiga da viagem? Para tudo o que existe há uma época. Sim. Era isso. Um tempo para guardar silêncio e um tempo para elevar a voz. Sim, mas que mais, que mais? Alguma coisa, alguma coisa…
E nas duas margens do rio nascia uma árvore da vida, dando doze vezes frutos e um cada mês; e as folhas dessa árvore serviam para curar as nações.
“Sim, pensou Montag, eis o que vou reter para o meio-dia. Para o meio dia…
“Quando chegarmos à cidade.(1)
  
Em 1985 Bradbury publicou A Morte é Um Acto Solitário. (2)

Bradbury dedica-o  a três amigos e à memória de Raymond Chandler, Dashiell Hammmett, James M. Vain e Ross Macdonald.

Um curioso mosaico do policial negro que se lê com agrado, mesmo que não atinja os picos do género.




Em Veneza, Califórnia, ano de 1949 uma meia dúzia de personagens administram a sua solidão: – um escritor de novelas policiais, um inspector frustrado, uma melómana, obesa q.b. que se enrola em comida e áreas de ópera, uma beldade espampanante de nome Constance Rattigan, e A.L. Sharank.

Um poeta escreveu na parede do quarto do filho:

A solidão é boa para não se estar sozinho.

O livro tem um começo espantoso que, só por si, obriga à sua leitura:

Veneza, na Califórnia, tinha, nos velhos tempos, muito que a pudesse recomendasse a quem gostasse de estar triste. Era o nevoeiro quase todas as noites, e era, ao longo da costa, o gemer das máquinas nos poços de petróleo, e o bater da água suja nos canais, e o zumbir da areia a roçar as vidraças, quando o vento assobiava à volta das praças e ao longo das ruas desertas.
Era no tempo em que o pontão de Veneza, a cair aos bocados, morria no mar. E podia ver-se então gigantesca ossada de dinossauro, a montanha-russa, a coberto ou a descoberto, com o vaivém das marés.
No fim de um longo canal, viam-se as caravanas de um circo, decrépitas, para lá atiradas e abandonadas. E quem olhasse para as jaulas, à meia-noite, veria que lá dentro havia vida – peixes e camarões de ´+agua doce, que andavam ao sabor da maré. E tudo isto, afinal, era o circo do tempo, feito ruína, desfazendo-se em ferrugem.

Ray Bradbury, que agora nos deixou, recusou-se sempre a publicar os seus livros em formato electrónico, dizendo que as pessoas tinham gadgets a mais e, um dia confessou:

A coisa mais divertida da minha vida é levantar-me cada manhã e correr para a máquina de escrever porque tenho uma ideia nova.

(1)   Fahrenheit 451, Livros do Brasil, Lisboa Outubro 1999.

(2)   A Morte É Um Acto Solitário, Publicações Dom Quixote. Lisboa Janeiro de 1987.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

VIRA-CASAQUISMO



Como foi possível encontrar tantos e tantos democratas no dia 25 de Abril?
Onde estavam quando eram tão poucos os que davam a cara contra a ditadura?
Chamava-se Fumero, Javier Fumero. Disseram-nos que este individuo, e não era o único, começara como pistoleiro a soldo da FAI e tinha namoriscado com anarquistas, comunistas e fascistas, enganando-os a todos, vendendo os seus serviços ao melhor licitador e que, após, a queda de Barcelona, se passara para a facção vencedora e entrara na corporação da polícia. Hoje é um inspector famoso e condecorado.
Carlos Ruiz Zafón em   A Sombra do Vento

CARREIRISMO

Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.
Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tonic, Editorial Estampa, Lisboa Março 1973

Legenda: cartoon de João Abel Manta publicado no Sempre Fixe em 4 de Maio de 1974.
Deu-lhe o título Sem Mãos a Medir e colocou o alfaiate a dizer ao democrata: Não me chateie! Já disse que só lhe posso virar a casaca lá para Setembro.

sábado, 30 de julho de 2011

POSTAIS SEM SELO


Cada livro que vês, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. Há já muitos anos, quando o meu pai me trouxe pela primeira vez aqui, este lugar já era velho. Talvez tão velho como a própria cidade. Ninguém sabe de ciência certa desde quando existe, ou quem o criou. Dir-te-ei o que o meu pai me disse a mim. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém.

 Carlos Ruiz Zafón em A Sombra do Vento

Legenda: Ilustração de Alex Dukal

sexta-feira, 15 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


O meu pai e eu vivíamos num pequeno andar da Rua Santa Ana, junto da praça da igreja. O andar ficava situado mesmo por cima da livraria especializada em edições de coleccionador e livros usados herdada do meu avô, um bazar encantado que o meu pai contava que um dia passasse para as minhas mãos. Criei-me entre livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó e cujo cheiro conservo ainda nas mãos.

Carlos Ruiz Zafón em A Sombra do Vento

Legenda: Fotografia de Chillingworth

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

POSTAIS SEM SELO


No dia em que você compreender que o negócio dos livros é uma miséria pegada e decidir aprender a roubar um banco, ou a criar um, que vem a dar no mesmo, venha ter comigo e eu explico-lhe umas  coisas sobre fechaduras.
Carlos Ruiz Zafón em A Sombra do Vento