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domingo, 7 de junho de 2026

terça-feira, 4 de março de 2025

CONVERSANDO

Cada dia que passa andamos mais para dentro de nós mesmos.

Elio Vittorini tem um muito bonito livro: «Consideram-se Mortos e Morrem».

André Malraux diz que o elefante é o mais sábio de todos os animais porque é o único que se lembra das suas vidas anteriores, e por isso se deixa ficar tanto tempo quieto, a meditar nelas e em coisas delas.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

LIÇÕES DE MORTE


Há um belíssimo livro de Elio Vittorini com o título: Consideram-se Mortos e Morrem.

Numa entrevista ao Expresso, Maria João Seixas que tinha substituído João Bénard da Costa na direcção da Cinemateca Nacional, disse algo que me fez lembrar o livro de Vittorini.

O jornalista pergunta:

- Ainda sobre África, um dia referiu que o animal que mais a impressionou foi o elefante. Pela sua maneira de viver em grupo, de se sociabilizar…

Maria João responde:

E também porque nos dá uma grande lição de morte. A dignidade da morte é uma coisa que nos escapa. Os elefantes quando sentem que vão morrer escolhem um parceiro e afastam-se do grupo com ele. Podem andar os dois vários quilómetros em silêncio. A um dado momento o elefante que sabe que vai morrer encontra o seu cemitério, um círculo imaginário na terra queimada na savana, e estaca no perímetro. Trombeteia para o outro que lhe responde e vai-se embora. O elefante doente senta-se espera a morte. Sozinho. É muito bonito. Impressionante.

O livro do Vittorini termina assim:

O avô volta-se então, do limiar que alcançou entre as árvores. À sua direita, acende-se no céu já claro o olho vermelho do semáforo. Ele ergue a sua bengala e, agitando-a, diz-nos adeus; e a luz vermelha do semáforo apaga-se, volta a acender-se.
-Nós também somos elefantes – diz-nos a minha mãe.
E, dizendo isto, impede-nos de correr atrás do avô a fim de trazê-lo para casa. Volta a entrar na cozinha, nós entramos com ela, e, à luz eléctrica que empalidece com a claridade do dia, o seu rosto mostra-se sorridente.
- Não percebeis patavina – diz-nos – Não é o princípio da noite. É o fim.
Aponta-nos a hora do velho relógio de parede.
-São seis e meia, vedes? Já os operários atravessam o parque, dirigindo-se para o trabalho. Hão-de encontrá-lo e trazer-no-lo. Mas se lhe dá na telha, entretanto!...

Legenda: pormenor da capa, da autoria de Luís Jardim de Considerem-se Mortos e Morrem.

domingo, 11 de junho de 2017

DA IMPORTÂNCIA DE VIVER


George Steiner disse recentemente que vivemos demasiado.

Numa velha entrevista ao Expresso, Maria João Seixas, quando viveu em África, referiu que o animal que mais a impressionou foi o elefante. Pela sua maneira de viver em grupo, de se sociabilizar…

«Também porque nos dá uma grande lição de morte. A dignidade da morte é uma coisa que nos escapa. Os elefantes quando sentem que vão morrer escolhem um parceiro e afastam-se do grupo com ele. Podem andar os dois vários quilómetros em silêncio. A um dado momento o elefante que sabe que vai morrer encontra o seu cemitério, um círculo imaginário na terra queimada na savana, e estaca no perímetro. Trombeteia para o outro que lhe responde e vai-se embora. O elefante doente senta-se espera a morte. Sozinho».

Elio Vittorini publicou, em 1947, Consideram-se Mortos e Morrem.

Da nota final que Vittorini escreveu:

«Discurso sobre a morte, poderia eu ter chamado ao livrinho. Ou pelo contrário: Da importância de viver. Porque não?
Eu não pensava, ao escrever, terminar onde terminei. Tinha na ideia uma segunda parte em que procuraríamos, pelos bosques em torno da cidade, o velho que se foi. Mas não digo que não retome em mãos a coisa, dentro de algum tempo. É um motivo que me é muito caro. Portanto, pode acontecer que nos voltemos a ver por aí, com o «meu avô», pouco importa se não for propriamente no livro imediatamente a seguir a este».

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


No homem existe um velho esquálido que dorme nele há séculos. Nós é que não nos lembramos; é o nosso pai que construiu a arca, o nosso pai operário; trabalhou, embriagou-se, e agora dorme com um sorriso, nu, através dos séculos.

Elio Vittorini em Os Homens e os Outros

Legenda: Elio Vittorini

domingo, 11 de abril de 2010

DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO


Cresci rodeado de livros.

Uma sorte, um privilégio, diga-se. Foi assim que tudo começou.

Há os que não têm nem essa sorte, nem esse privilégio. 

Os que têm de procurar são as pessoas que me merecem admiração, as pessoas de quem gosto, enquanto que os que têm livros à disposição, entendem que ler é uma grande maçada, ignoro-os, esqueço-me que existem, se bem que os oiça bolsar que os livros estão empoeirados, as canecas de cerveja ensinam melhor, a cerveja dá prazer, os livros apenas aborrecimento.

Havia o hábito de, nas prateleiras mais altas, colocar os livros que se convencionava não serem lidos em determinadas idades.

Lá em casa não havia essa regra. Os livros, todos, eram para serem lidos.

Juntamente com os Salgari, os Walter Scots, os Júlio Verne, ter lido o Eça de Queiroz aos 13/14 anos foi uma aventura inesquecível. Naturalmente que, mais tarde, ao Eça tive que voltar, e não é por já tanto o ter lido e relido, que alguma vez deixarei de lhe bater à porta.

Um livro de capa preta tinha o título de Dez Dias Que Abalaram o Mundo.

Tratava-se da edição basileira do livro de John Reed., um edição popular, publicada em 1945 pela Editorial Calvino Lda do Rio de Janeiro
.
O Mundo, alguma vez mudara? E em dez dias? Como teria sido?

Nada como ir ler para contar como foi.

No prefácio desta edição a que Egon Erwin Kish dá o nome “John Reed, o jornalistas das barricadas”, pode ler-se logo nas primeiras linhas:

“Combateu nas barricadas. Sua arma era o lápis, como a arma do ferreiro, lutando a seu lado, talvez fosse o martelo.
Mesmo examinada do ponto de vista jornalístico, a actividade de John Reed foi admirável. Os acontecimentos de uma semana, que seus colegas consideraram simples lutas episódicas entre os partidos russos ou incidentes pouco importantes da guerra, para John Reed foram dias que abalaram o mundo”.


Na abertura do prefácio, datado de Nova Iorque 1 de Janeiro de 1919, John Reed escreve:

“Este livro é um naco de história intensiva – tal como eu a vi. Nada mais pretende ser do que uma narrativa pormenorizada da revolução de Novembro, quando os bolcheviques, à frente dos operários e soldados, se apoderaram do poder governativo da Rússia e o colocaram nas mãos dos sovietes.”

E a fechar:

“Na luta, as minhas simpatias não ficaram neutrais. Mas, ao narrar a história daqueles dias grandiosos, tentei ver os acontecimentos com os olhos de um repórter consciencioso, interessado em registar a verdade”. (1)

Quando aos 17 anos, mais coisa menos coisa, em plena ditadura de Salazar, se pega num livro como “Dez Dias Que Abalaram o Mundo” só duas coisas poderiam suceder: colocar de imediato o livro de lado, lê-lo com o encantamento de uma aventura.

Sim, o livro é uma apaixonante reportagem, um livro honesto porque o autor declara de que lado está.

Penso que a vontade, a vontade e as ideias, têm um importante papel nos tempos da adolescência.

Caminhos que nos levam a tomar partido, não ficar naquela margem de não ser coisa nenhuma, nem direita, nem esquerda. Ficar no meio, com uma ténue ideia, a possibilidade de ver os dois lados.

Há uns anos, numa entrevista, António Mega Ferreira que, necessariamente, terá lido John Reed, dizia que o centro é uma cobardia, é uma falta de coragem, é para onde convergem, direita ou esquerda, quando não têm coragem.

Graham Greene, em “O Americano Traquilo” vai mais longe.: 

“ Mais tarde ou mais cedo temos de pomar partido, de forma a parecermos humanos”.

É comum ouvir dizer que se chegou a determinado olhar sem ter passado por manifestos, pelos mais variados ismos.

Porque também se pode chegar a esse olhar, lendo, Albert Camus, Elio Vittorini, Roger Vailland, Jorge Amado Roger Martin du Gard, Hemingway, Soeiro Pereira Gomes, uma lista de nomes de todo interminável.

Em 1981 Warren Beaty realizou Reds um filme que retrata a vida do jornalista John Reed, protagonizado, entre outros, pelo próprio Warren Beaty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Gene Hacmann.



(1) – A tradução de “Dez Dias Que Abalaram o Mundo”, aqui citada, é a de A. Dias Gomes para “Publicações Europa-América”, Maio de 1976.