José Régio
Ilustrações de
Stuart Carvalhais
Capa: João da
Câmara Leme
Portugália
Editora, Lisboa, Janeiro de 1969
Fado
Alentejano
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Pátria que à força escolhi!
Quando cheguei quis-te mal,
Alentejo –ai- solidão...
Julguei eu que te quis mal,
Chegava do vendaval,
Tão cego que nem te vi!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Adro de melancolia!
Tua tristeza me pesa,
Alentejo –ai- solidão...
Quanto às vezes me não pesa,
Mas fora dessa tristeza,
Pesa-me toda a alegria!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Meu Norte-Sul- Este Oeste!
Voltei ferido da guerra,
Alentejo –ai- solidão...
Faminto voltei da guerra,
Mendiguei de terra em terra,
Esmola só tu ma deste!
Alentejo, ai solidão,
Solidão, ai Alentejo,
Oceano de ondas de oiro!
Tinhas um tesouro perdido,
Alentejo –ai- solidão...
Que eu já dera por perdido,
Nos teus ermos escondidos,
Vim achar o meu tesoiro!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Convento de céu aberto!
Nos teus claustros me fiz monge,
Alentejo –ai- solidão...
Em ti por ti me fiz monge,
Perdeu-se a terra ao longe,
Chegou-se –me o céu mais perto!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Padre nosso dos infelizes!
Vim coberto de cadeias,
Alentejo –ai- solidão...
Coberto de vis cadeias,
Mas com estas com que me enleias,
Deram-me asas e raízes!

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