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terça-feira, 6 de maio de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO


Lembra-se que Aníbal Cavaco Silva teve problemas com a Casa da Coelheira, a vivenda Mariani.

Lembra-se das acções do BPN vendidas, em devido tempo, a oportuno conselho de Oliveira e Silva, por Cavaco e a filha, antes do colapso do banco, desse projecto, ou que lhe quiserem chamar…sabe lá mais o quê…

Lembra-se das louvações a políticos dos seus governos, como Dias Loureiro, a viver no «exílio» em Cabo Verde, ou Duarte Lima, a braços e pés, com a acusação de ter assassinado, ou mandado assassinar, no Rio de Janeiro, uma sua cliente, para além de outras «habilidades».

Lembra-se, ainda, a escassos dias do descalabro do Banco Espírito Santo, de ter dito aos portugueses que podiam apostar no BES e os que, acreditaram, ainda hoje andam a tentar receber alguma compensaçãozita das tropelias de Ricardo Salgado & Cª.

Lembra-se que condecorou pides, deixando de lado o Capitão de Abril Salgueiro Maia.

Lembra-se, por fim, mas não no fim, que o impoluto Cavaco, que tão mal deixou o país, enquanto por São Bento, por Belém, se pavoneou… não sabe comer uma fatia de Bolo-Rei, e logo à noite, estará a cantar os parabéns no jantar aniversariante do PSD…

domingo, 2 de março de 2025

OLHARES


 «Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados Sociais, os Estados Corporativos e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem não quiser sair, fica aqui!».

Salgueiro Maia, palavras ditas aos militares, na noite de 24 de Abril de 1974, que, desde a parada da Escola Prática de Artilharia, iam, com destino a Lisboa, para derrubar a ditadura.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

UMA REVOLUÇÃO PARADA NO SINAL VERMELHO


 Era uma vez, no ano de 1974, a madrugada de vinte e cinco, de um Abril português.

 Às 22h 55, João Paulo Dinis, diz, aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa, que faltavam cinco minutos para as 23h00 e anunciando que Paulo de Carvalho vai cantar E Depois do Adeus.

 Às 00h29, no programa Limite da Rádio Renascença, começam a ouvir-se os passos cadenciados que, José Mário Branco inventara para Grândola Vila Morena do álbum Cantigas do Maio de José Afonso, e são declamadas as primeiras estrofes da canção:

 Grândola Vila morena, terra da Fraternidade, o Povo é quem mais ordena dentro de ti ó cidade.

 Começavam a nascer as cores vibrantes dos sonhos de uma geração, quase perdida, que vivia dentro do medo.

 Sabemos hoje, que a alegria desses sonhos, converteu-se, aos poucos, em algo de muito doloroso…

 Nem nos piores pesadelos, essa geração, pressentiu que chegaríamos ao ponto onde hoje nos colocaram, deixámos que nos colocassem.

 Relato de um capitão de Abril, Salgueiro Maia de seu nome:

 «Quando, pelas 3 horas da manhã de 25 de Abril, saímos da EPC, o carro da PIDE e o agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) que costumava estar junto ao mercado municipal tinham desaparecido. Soube depois que avisaram Lisboa, mas, por exemplo o comando da PSP não se preocupou, por considerar que devíamos estar a sair para exercícios.

 Também à entrada do Campo Grande, em Lisboa, ouvi, num dos meus rádios, um carro patrulha da PSP a informar o respectivo Comando da nossa passagem, bastante impressionado com o número de metralhadoras que via passar.

 Enquanto ouvia estas informações, o jipe trava de repente e dou comigo parado no sinal vermelho do cruzamento da cidade Universitária. Olho para o lado e vejo um autocarro da Carris também parado. Achei que era de mais parar a Revolução ao sinal vermelho, quando o que distinguia os carros do MFA era um triângulo vermelho no lado esquerdo das viaturas ou tapando a matrícula. Mando avançar tocando as sirenes das autometralhadoras EBR até chegar ao Terreiro do Paço.

 Pelas 7 horas, no Terreiro do paço, surgem dois repórteres. Perguntam se podem tirar fotografias e conversar com as pessoas. Respondo-lhes: “À vontade, é também para garantir isso que nós aqui estamos.” Olham-me com um certo ar de espanto e vão à vida.

 Um furriel vem trazer-me uma senhora funcionária da limpeza dos CTT do Terreiro do Paço; diz que quer à viva força ir para o trabalho, e como tal atravessar o largo. Quando chega junto de mim, com ar de desânimo diz-me: “Tenho de ir trabalhar e o senhor tem de me deixar passar!” Replico-lhe: “Não se preocupe, porque hoje, e daqui para o futuro, o 25 de Abril vai ser feriado nacional.” A mulher olha-me com ar de quem mada mais tem a fazer e volta para o lado da Estação Marítima do Sul e Sueste, dizendo talvez para ela que “aquele tipo é mesmo doido”.»

 O capitão parte do Terreiro do Paço, para subir até ao Largo do Carmo. E conta:

 «Quando regressei ao quartel, dirigi-me ao comandante e disse-lhe que, se ele não mandava, então eu queria falar com quem mandasse. Conduziram-me à presença de Marcello Caetano; mas para isso passei por uma antecâmara, onde encontravam Moreira Baptista e Rui Patrício, chorando este como uma criança, olhando o infinito o primeiro.»

 Dessa reles cobardia, de quem se considerava resguardado no medo que infligia a todo um povo, o Diário de Lisboa, colocará em caixa:

 «Massacravam-nos os ouvidos com afirmações de coragem.

 Diziam que se, se alguma vez o chamado estado Novo corresse perigo, iriam dar tiros para a rua.

 Afirmavam-se prontos a morrer.

 Juravam, rejuravam e trejuravam que o Povo só chegaria ao poder passando por cima dos seus cadáveres.

 Gritavam aos quatro ventos que iriam vender cara a vida.

 Consideravam-se soldados de uma guerra gloriosa.

 Não perdiam uma ocasião de proclamar o desejo que tinham de provar a sua fidelidade vertendo, para tal, o seu próprio sangue.

 Arrotavam postas de valentia.

 As suas permanentes gabarolices, infantis e monocórdicas, tinha-nos levado a crer que, no dia da mudança, iriam dizer qualquer coisa.

 Dar um grito, por exemplo, um grito, um suspiro, um soluço…

 Mas nem isso.

 No dia vinte e cinco de Abril os heróis do palavreado não cumpriram uma única das promessas que tinham feito.

 Perderam o pio.»

 Regressamos ao relato do Capitão:

 «Marcello estava pálido, barba por fazer, gravata desapertada, mas digno.

Fiz-lhe a continência da praxe e disse-lhe que queria a rendição formal e imediata. Declarou-me já se ter rendido ao Sr. General Spínola, pelo telefone, e só aguardava a chegada deste para lhe transferir o Poder, para que o mesmo não caísse na rua!

Estive para lhe dizer que estava lá fora o Poder no povo e que este estava na rua.»

 Provavelmente, inspirado por estas palavras do Capitão, José Carlos Ary dos Santos,  há-de escrever:

 Foi então que Abril abriu

as portas da claridade

e a nossa gente invadiu

a sua própria cidade.

 

Legenda: fotografia de Alfredo Cunha.

domingo, 24 de abril de 2022

POSTAIS SEM SELO


 «Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados Sociais, os Estados Corporativos e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem não quiser sair, fica aqui!».

 Salgueiro Maia, palavras ditas aos militares, na noite de 24 de Abril de 1974, que, desde a parada da Escola Prática de Artilharia, iam, com destino a Lisboa, para derrubar a ditadura.

domingo, 3 de abril de 2022

POSTAIS SEM SELO

Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez.

Jean Cocteau

Legenda: gravura do Capitão Salgueiro Maia tirada do Catálogo 25 de Abril, Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Abril de 1984. 

PAPÉIS DATADOS


Na sua edição de 5 de Junho de 2009, o Expresso lembrava que Cavaco Silva, enquanto primeiro-ministro concedera uma pensão por serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país, a dois inspectores da PIDE/DGS.

Anos antes, recusara dar a Salgueiro Maia essa mesma pensão:

Nas comemorações do 10 de Junho de 2009, a realizarem-se em Santarém, Cavaco Silva, como Presidente da República, iria colocar um ramo de flores junto à estátua de Salgueiro Maia.

José Pedro Castanheira vincava que Cavaco tentava corrigir um erro com 20 anos.

Não foi um erro: foi uma enorme pulhice.

A eleição de Aníbal Cavaco Silva, quer como primeiro-ministro, quer como presidente da república, duas-vezes-duas, foi uma das piores desgraças que se abateram sobre os portugueses.

Por aí se arrasta, trôpego, numa apagada e vil tristeza, embrulhado na negociata que amigos seus, cometeram no BPN, negociata que ele nunca conseguiu explicar.

No final do seu livro Capitão de Abril (1), Salgueiro Maia escrevia:

Passados dez anos, será interessante analisar a evolução do comportamento de muitos dos intervenientes, em especial os políticos e os militares que conseguiram passar de um regime a outro, sempre na crista da onda, e que, com lutas pelo Poder, ajudaram a dificultar e evolução desejada. Por outro lado não acreditando em democracias musculadas nem no sebastianismo, resta-nos, na orgulhosa situação de implicados do dia 25 de Abril de 1974, criticar os muitos que pagam o idealismo e a generosidade com o mesmo comportamento que caracterizou o regime nascido a 28 de Maio:

- a corrupção

- a incompetência

- o compadrio

- o circo do Poder.

 

Até quando?

 

Sim até quando?


(Para uma leitura mais fácil, clicar sobre a imagem)

 

(1)   Salgueiro Maia Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Notícias Editorial, Lisboa Novembro 1997

OLHAR AS CAPAS


Salgueiro Maia – Um Homem da Liberdade

António de Sousa Duarte

Prefácio. Mário Soares

Capa: A. Rochinha Diogo

Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1995

A vida nunca lhe foi fácil. A doença caiu sobre ele quando estava em plena maturidade e ainda tanto havia a esperar do seu talento.

Sei que morreu amargurado, considerando-se injustiçado, apesar da devoção extraordinária da sua Mulher e Filhos. A coragem e a dignidade que revelou face a uma doença impiedosa, devastadora e terrível deu bem a medida da sua excepcional coragem e física.

Esta biografia representa uma homenagem à sua memória e um acto de justiça. Mas dar a conhecer a pessoa e a vida de Salgueiro Maia é também um valiosos acto de pedagogia e solidariedade, sem discriminações nem injustiças, que ele sonhou para todos os portugueses.

Porque, como disse Sophia de Mello Breyner, no belo poema que lhe dedicou, ele foi

«Aquele que na hora da vitória

Respeitou o vencido


Aquele que deu tudo e não pediu a paga

 

Aquele que na hora da ganância

Perdeu o apetite

 

Aquele que amou os outros e por isso

Não colaborou com a sua ignorância ou vício

 

Aquele que foi “fiel à palavra dada à ideia tida”

Como antes dele mas também por ele

Pessoa disse»

 

(Do Prefácio)

segunda-feira, 17 de maio de 2021

PAPÉIS DATADOS


Durante seis meses privou com ele no Regimento de Infantaria 5 nas Caldas da Rainha. Dois temas os levaram a conversas várias: o Benfica e a guerra colonial. Terá sido ele o primeiro que, quase por sinais de fumo, lhe disse que o regime só cairia por intervenção dos militares. Como sempre desprezou fardas, lembra-se de lhe dizer: “bem poderei esperar sentado, meu tenente.”
Mais ou menos seis anos depois destas conversas, acontecia aquela madrugada “onde emergimos da noite e do silêncio”.
Uma pequeníssima notícia de jornal diz-lhe que, com 67 anos, morreu ontem João Manuel Bicho Beatriz, um dos co-organizadores da primeira reunião do movimento dos “Capitães de Abril.”
Sentia que tinha uma tarefa a cumprir e não descansou enquanto não a pôs em marcha e, tal como lhe dissera, uma grande convicção de que seriam os militares a resolver o problema da Guerra Colonial. Juntamente com muitos outros restituíram a este país a dignidade, das poucas vezes que a palavra Portugal foi soletrada com respeito. “Foi bonita a festa, pá”!
Cumprida a tarefa não andou para aí em bicos de pés a contar feitos e proezas, a mostrar os galões, foi mais um dos poucos salgueiros maias que fugiram à luz dos holofotes.
Após aquelas conversas, nas Caldas da Rainha, só o voltou a encontrar uma vez, já capitão ou major, não lembra bem, porque para ele foi sempre o tenente BichoBeatriz. Eram umas eleições para a presidência do Benfica, ali na secretaria do clube na Rua Jardim do Regedor. Já, então, Abril há muito se desfazia em oportunismos e traições vários. Falou-lhe das muitas esperanças frustradas, das desilusões, os esforços que só em parte resultaram, mas nada disso o levara à condição de um derrotado. Por temperamento optimista, esmagou logo ali o desencanto e propôs um almoço, num qualquer dia, para uma converseta e um tinto escolhido por colheita. Nunca houve esse almoço, aquelas coisas que vão ficando para amanhã e acabam em nunca mais. Se isso tivesse acontecido decerto que lhe levaria para ler, aquele fragmento de poema de Sophia Mello Breyner Andresen:

«Os ricos nunca perdem a jogada
nunca fazem um erro.
E esperam os erros dos outros,
São hábeis e sábios
têm uma larga experiência do poder
e quando não podem usar a própria força
usam a fraqueza dos outros
E ganham.»

Pois foi, limitámo-nos a administrar as nossas divisões, as nossas fraquezas. Crê que foi aqui que chegámos. Um país onde grassa o clientelismo, a corrupção e onde a lei é a do salve-se quem puder, exige que voltemos às nossas velhas conversas e, se possível, restituir os sonhos de uma vida. Que os sonhos existem e porque tem mesmo que haver um futuro.
Até já, tenente Bicho Beatriz!


30 de Outubro de 2008

Legenda: encontro de militares de Abril para lembrar em 2004, em Évora, uma das reuniões preparatórias do Movimento. Bicho Beatriz é o segundo à esquerda. Dinis de Almeida é o segundo à direita

Fotografia de Manuel Moura/Lusa tirada de Abril

domingo, 25 de abril de 2021

O DIA INICIAL INTEIRO E LIMPO


 José Cardoso Pires, no seu Alexandra Alpha, deixou as contas feitas:

Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias.

1.


A Assembleia Nacional ainda abriu para mais uma sessão que acabou por não se realizar por falta de quorom, o que levou o presidente Engº Amaral Neto, a marcar sessão para o dia seguinte, à hora regimental.

Durante anos e anos massacraram-nos com afirmações de alto patriotismo, que se alguém atentasse algo contra o regime, dariam o peito às balas, mostravam-se prontos a morrer, venderiam cara a vida. Alguém poderá ter acreditado, mas quando a hora chegou, não cumpriram uma palavra das promessas que nos atiraram à cara, o palavreado foi-se pela pia abaixo, uns fecharam-se em casa, outros fugiram do país.

2.

Num repente, ficaram sem tropas, sem carros de combate, sem barcos, sem aviões.

 Via rádio, mostraram a quem os ouviu, que não sabiam sequer dar um passo pequenino que fosse, altas-patentes-medalhadas, trocaram diálogos completamente patéticos:

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa aposição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!

3.

Marcelo Caetano, os ministros Moreira Baptista, Silva Cunha, outras ratazanas, refugiaram-se no Quartel da GNR no Carmo que, num ápice, ficou rodeado pelas tropas do Capitão Salgueiro Maia, de todo um povo exultante de alegria.

Tempo de Marcelo perguntar ao comandante do quartel como estava a evoluir a situação. O silêncio do oficial mostrou-lhe que a situação era gravíssima. Ainda perguntou pela marinha, pela força aérea mas não obteve qualquer resposta.

 Mandou telefonar ao General Spínola para negociações de modo a que o poder não caísse na rua.

Entretanto, sabia-se que o venerando chefe de estado estava refugiado na sua residência particular no Restelo. Falou ao telefone com Marcelo e estava disposto a resistir às tropas do MFA. Não se sabe domo, com que meios, com que tropas, prova provadíssima que o homem sempre fora um perfeito ignorante do que quer que fosse, excepto cortar fitas na inauguração de uma qualquer chafariz perdido em nenhures, um realíssimo cabeça-de-nabo, tal como o povo lhe chamava.

Marcelo ter-lhe-á dito que nada havia a fazer e que preparasse a mala para no dia seguinte voar para a Madeira.

Marcelo Caetano e os ministros, depois de abandonarem, numa «chaimite», o quartel do Carmo, pernoitaram no quartel do Regimento de Engenharia 1 da Pintinha.

No dia seguinte, às 07,40 horas, descolou da Portela um avião que levou toda aquela tropa fandanga para o Funchal.

Alexandra Alpha há um tempo largo que andava às voltas do Largo do Carmo e imediações, para encontrar o seu mini-austin que sabia, de certeza absoluta, que deixara por ali pois, queria mesmo o carro porque, de modo algum, podia perder a libertação dos presos políticos em Caxias.

«Afinal acabou por descobri-lo em cima do passeio e junto à mesma árvore onde o deixara há quase uma eternidade. Tinha uma multa por estacionamento proibido, afixada no para-brisas.»

4.

Miguel Torga escreverá no seu Diário:

«Coimbra, 25 de Abril de 1974 – Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada…»

Vergílio Ferreira escreverá no seu Conta-Corrente:

«Vitória. Embrulha­‑se­‑me o pensar. Não sei o que dizer. Uma emoção violentíssima. Como é possível? Quase cinquenta anos de fascismo, a vida inteira deformada pelo medo. A Polícia. A Censura. Vai acabar a guerra. Vai acabar a PIDE. Tudo isto é fantástico. Vou serenar para reflectir. Tudo isto é excessivo para a minha capacidade de pensar e sentir.»

terça-feira, 9 de março de 2021

NOTÍCIAS DO CIRCO

 

Cavaco Silva não quis ficar na reduzida fila de personalidades que aguardavam vez para cumprimentar Marcelo Rebelo de Sousa, após a tomada de posse. Tinha que ir para casa, Maria não tem habilidades para pôr uma roupinha em sabão.

Marcelo questionado pelo pormenor da fuga, respondeu que não tem tempo para se dedicar a coisas menores.

Aquando do funeral de José Saramago, Cavaco Silva estava nos Açores com os netinhos e entendeu que não os devia abandonar para viajar até Lisboa.

Nem ele sabe o que José Saramago agradeceu pela sua não presença.

Este homem que nos (des)governou durante décadas, é uma anedota.

Tarde, muito tarde mesmo, quem nele votou verificou o logro em que caíram.

Nunca se engana, raramente tem dúvidas, desconhecendo que errar e duvidar são outras maneiras de saber estar na vida, não na vidinha.

No sábado disse a um pasquim que a Democracia está amordaçada.

Sempre foi um homem insensível, condecorou pides esquecendo Salgueiro Maia, nunca teve estatura política e não fora a jornalada de direita, os cegos seguidores-capachos, os amigalhaços do BPN, não chegaria nunca onde chegou.

Desgraçadamente nem uma fatia de bolo-rei sabe comer.

Um triste demagogo, um tipo medíocre menos, um «génio de banalidades», como lhe chamou Saramago, que se transformou num objecto de desprezo, um espaço vazio, um nojo.

domingo, 19 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

E ENTÃO O QUE SE HÁ-DE FAZER?


A fotografia e o respectivo texto fazem parte da Auto-PhotoBiografia (não autorizada), escrita e montada pelo próprio Mário Viegas.

Seguimos a cronologia do Mário e terminamos hoje a evocação do 25 de Abril, nos dias de há 45 anos, para essa evocação utilizámos uma série de recortes de um dossier caseiro.

Mas não queremos findar a evocação sem ir buscar um texto, já aqui publicado, e que evoca um importante documento que regista as horas do começo da revolução, numa brilhante reportagem de Adelino Gomes.

Sobre as patentes militares e os muitos capachos que serviam a ditadura, os tenreiros, os cazais-ribeiro, existe este texto publicado, há 45 anos,  e de que desconheço o autor:

 «Massacravam-nos os ouvidos com afirmações de coragem.
Diziam que, se alguma vez o chamado estado Novo corresse perigo. Iriam dar tiros para a rua.
«Afirmavam-se prontos a morrer.
Juravam, rejuravam e trejuravam que o Povo só chegaria ao poder passando por cima dos seus cadáveres.
Gritavam aos quatro ventos que iriam vender cara a vida.
Consideravam-se soldados de uma guerra gloriosa.
Não perdiam uma ocasião de proclamar o desejo que tinham de provar a sua fidelidade vertendo, para tal o seu próprio sangue.
Arrotavam postas de valentia.
As suas permanentes gabarolices, infantis e monocórdicas, tinha-nos levado a crer que, no dia da mudança, iriam fazer qualquer coisa.
Dar um grito, por exemplo – um grito, um suspiro, um soluço.
Mas nem isso.
No dia vinte e cinco de Abril, os heróis do palavreado não cumpriram uma única das promessas que tinham feito.
Perderam o pio.»

Os militares, apoiantes do regime, mostraram a sua incompetência e desorientação.

No disco, existe um qualquer oficial a sugerir ao posto de comando a utilização de meios aéreos.


GUIDA DA MÚSICA DP 050/2
Edição conjunta Seara Nova e Sassetti
Reportagem: Adelino Gomes, Paulo Coelho, Pedro Laranjeira
Narração: João Paulo Guerra
Montagem: Pedro Laranjeira
Capa: Acácio Santos

Este disco é um documento histórico.

O pano de fundo, desde duplo álbum, é a reportagem que Adelino Gomes, Paulo Coelho e Pedro Laranjeira realizaram, no dia 25 de Abril de 1974, enquanto decorria o cerco, pelas tropas do capitão Salgueiro Maia, ao quartel do Carmo.

Um tempo em que não havia telemóveis nem directos televisivos.

Uma reportagem registada directamente para um gravador, ao sabor dos múltiplos e constantes acontecimentos, que marcaram aquele dia.

Adelino Gomes refere, várias vezes, a falta de informação com que se debate, mas regista tudo o que vê e ouve, e fá-lo com a emoção de ver arredados para o lado quarenta e oito anos de ditadura, se bem que no momento em que ele faz a reportagem nada fosse assim tão claro.

As pessoas vão entrando pelo Terreiro do Paço. Vê-se que as pessoas aderem a esta situação como uma festa, assim como uma pedra que sai de cima das pessoas, sentem-se aliviadas. Tudo isto é um pouco surrealista, à maneira portuguesa, as pessoas participam, assim como assistissem a uma peça de teatro, ou a um filme.

Ouve-se um popular dizer: isto é só o início. Um outro: porreiro, pá!, algo que muitos anos depois, um tal de José Sócrates, por ocasião da assinatura do Tratado de Lisboa, dirá a Durão Barroso.

Diariamente enchiam-nos os ouvidos com palavreado e grandes frases.

Diziam que, se alguma vez, o regime corresse perigo, iriam para a rua dar tiros, prontificavam-se a morrer, se necessário.

Soube-se, então, que não era a ditadura que era forte, a oposição é que era fraca.

Naquele dia 25 de Abril, não apareceram.

Fugiram para onde lhes foi possível.

Perderam a gabarolice, cagaram-se todos.

E os que apareceram estavam completamente desorientados.

É isso que ressalta das comunicações entre o Quartel-General e as poucas tropas, afectas à ditadura, que estavam nas ruas.

O repórter aborda dois soldados, fiéis ao regime.

Um diz: praticamente não sei o que estou aqui a fazer, praticamente não sei de nada.

O alarme tinha soado às 04,30 horas.

As ordens eram para disparar sobre qualquer acção inimiga que nos apareça.

Ninguém deu essas ordens, tão pouco sabiam quem  era o inimigo.

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa  posição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!


Completamente perdidos.

A revolução avançava. Em pleno clímax, Adelino Gomes pergunta a um tenente-coronel: não houve rendição por parte das forças que estão sitiadas. O oficial rápido: “Porra! Vocês são uns chatos, não deixam de fazer perguntas. Uma senhora está a dar à luz e vão perguntar à senhora se ela está com dores?

Assim mesmo, um repórter no meio de uma revolução a fazer o seu trabalho.

A reportagem regista ainda as palavras de Francisco Sousa Tavares, empoleirado numa árvore, no Largo do Carmo, megafone na mão:

Começamos hoje uma vida nova, uma vida de liberdade.

Seria o primeiro comício dos novos  tempos que despontavam.

Texto publicado no dia 2 de Maio de 2019

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

CHÁ NUM ABRIL CHUVOSO


Assinado por Paulo Lourenço, o Jornal de Notícias publicou um trabalho sobre o fechar de portas da histórica Casa Pereira no Chiado, intitulado. «O adeus à casa de onde saiu o chá que acalmou Marcelo Caetano».

Respiga-se este pormenor:

«Sorridente, Lemos pai - natural da zona de Vila Real, apesar de desde muito novo radicado em Lisboa - recorda as vivências ao balcão. Questionado sobre se assistiu ao cerco de Salgueiro Maia ao Quartel do Carmo (que fica a uns escassos 300 metros), no 25 de Abril de 1974, acena negativamente com a cabeça, mas revela um pormenor inédito acerca desse dia: "Fechei a casa e fui-me embora. Mas antes ainda atendi um militar da GNR que veio cá buscar um chá para o presidente do Conselho, Marcello Caetano se acalmar".»

terça-feira, 26 de abril de 2016

E ENTÃO O QUE SE HÁ-DE FAZER?



A ditadura vivia as suas últimas horas de estertor.

Marcelo Caetano, mais alguns ministros, no Quartel do Carmo, que se encontrava cercado de povo e pelas tropas de Salgueiro Maia, se não choravam, estavam no limiar de lágrimas derramadas.

Que se há-de fazer?, perguntava um qualquer general para um outro qualquer general, ambos na cidade cercada, sem perceberem muito bem o que lhes estava a acontecer.

O extraordinário disco, protagonizado por Adelino Gomes – magnífico Adelino Gomes! -  que relata o que ia acontecendo, guarda o desespero desses tais generais:

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa aposição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!

Vale a pena voltar a ouvir:

…não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável.

Era este tipo de gente que, durante quase meio século, cerceou as nossas vidas e as nossas liberdades

Até que chegou o Dia das Surpresas.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez.


Legenda: gravura do Capitão Salgueiro Maia tirada do Catálogo 25 de Abril, Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Abril de 1984.

sábado, 14 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


14 de Março de 1975

NESTE DIA, há 40 anos, o País surpreendia-se com a notícia de que o Conselho Superior da Revolução, como sua primeira grande decisão, nacionalizava todas as instituições de crédito bancário, com sede em Portugal e Ilhas Adjacentes, com pequenas excepções, atendendo à existência de filiais e bancos estrangeiros e caixas económicas e de crédito agrícola mútuo, que aguardarão lei especial.

General Vasco Gonçalves:

Penso que hoje é um dia histórico para o nosso povo. O 14 de Março fica gravado na história do nosso povo, como uma data que corresponde a um passo muito importante dado na sua libertação, na via do progresso, na via do País dominar os seus próprios recursos. Portanto julgo que hoje é um dia de alegria para todos, menos para aqueles que beneficiavam largamente com o sistema anterior vigente.

 O PPD, sublinha que substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa.

Mário Soares chama-lhe um dia histórico em que se pode assinalar que o capitalismo se afundou.

O economista Eugénio Rosa lembra:

É suficiente dizer, e só a título de exemplo, o que aconteceu até há pouco tempo com um banco. O grupo económico a que ele pertencia criou 15 empresas no mesmo edifício, com um capital social de 3.500 contos, a quem emprestou mais de 3 milhões de contos para que aquelas pudessem jogar em acções especulativas, sem qualquer interesse para satisfação das necessidades populares.

Jornalista Miguel Serras Pereira:

Aquilo que se fará com a estatização da banca é, sem dúvida, bem mais importante do que essa estatização em si mesma.

Economista Maia Cadete:

Era absolutamente necessário extirpar o mal pela raíz. E a raiz estava efectivamente podre. Como é sabido a banca constituía um «reino» reacionário com autonomia dentro de um Portugal já democrático.



Neste mesmo dia, a profª Isabel de Magalhães Colaço, Diogo Freitas do Amaral, Henrique de Barros, Rui Luís Gomes, Teixeira Ribeiro e Azeredo,  civis do estado apresentam a sua renúncia.

Também se fica a conhecer os militares que compõem o Conselho da Revolução:

Pinheiro de Azevedo, Rosa Coutinho, Carlos Fabião, Mendes Dias, Lopes Pires, Pinho Freire, Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Otelo saraiva de Carvalho.

Membros da Comissão Coordenadora:

Franco Charais, Canto e Castro, Pereira Pinto, Almada Contreiras, Miguel Judas, Vasco Lourenço, Pinto Soares, Ferreira de Sousa, Sousa e Castro, Pezarat Correia, Marques Júnior, Martins Guerreiro, Ramiro Correia, Costa Neves, Graça Cunha.

Os Bancos reabram amanhã.

QUEBRANDO um silêncio voluntariamente mantido nos últimos meses, o Capitão Salgueiro Maia dá uma entrevista ao jornalista Dinis de Abreu, publicada no Diário Popular.


Salgueiro Maia conta que ao principio da tarde do dia 11, deslocou-se a Tancos para dizer a Spínola que tudo aquilo era irracional e que o momento político não se compadecia com aventureirismos como aqueles que estavam a ser desencadeados.

Quando o viu, Spínola disse-lhe:

- Mas, então, você não está em Lisboa?

- Mas nós somos tudo menos malucos, e não compreendo como é que o meu general se mete numa alhada destas…

Salgueiro Maia fica com a ideia que o general está extraordinariamente mal informado, porque garantia que toda a situação era dele, todas as forças lhe obedeciam e que tinha sido levado àquilo por uma comunicação recebida nessa noite, através de uma lista de elementos a abater por determinada organização política; à cabeça da qual se encontrava com 500 militares e cerca de mil civis, numa operação designada por «Matança da Páscoa».

Salgueiro Maia desabafa a Dinis de Abreu:

Spínola está absolutamente irrecuperável. Na presente situação política, ele era para os seus adeptos um D. Sebastião. Agora, já não há D. Sebastião. É bom não esquecer  que ele foi um dos melhores generais e um dos piores como político.

Editorial de Augusto Abelaira na Vida Mundial:


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
Discursos – Vasco Gonçalves, Edição do Autor, Lisboa, 1976

Legenda:
- pormenor da 1ª página do Diário de Lisboa de 14 de Março de 1975;
- páginas centrais do Diário Popular de 14 de Março de 1975.

terça-feira, 17 de junho de 2014

POSTAIS SEM SELO


A vida tem que retomar os seus direitos. A mãe tinha um espírito jovem e sabia que as primaveras, depois dela e de nós, também têm o direito de ser primaveras. É nossa missão construir, ajudar a construir a primavera dos outros.

Sidónio Muralha em A Caminhada

Legenda: Salgueiro Maia, fotografia de Alfredo Cunha.

terça-feira, 5 de junho de 2012

CAVACO NÃO É DO 25 DE ABRIL


Na sua edição de 5 de Junho de 2009, o Expresso lembrava que Cavaco Silva, enquanto primeiro-ministro concedera uma pensão por serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país, a dois inspectores da PIDE/DGS.

Anos antes, recusara dar a Salgueiro Maia essa mesma pensão:

Nas comemorações do 10 de Junho de 2009, a realizarem-se em Santarém, Cavaco Silva, como Presidente da República, iria colocar um ramo de flores junto à estátua de SalgueiroMaia.

José Pedro Castanheira vincava que Cavaco tentava corrigir um erro com 20 anos.

Não foi um erro: foi uma enorme pulhice.

A eleição de Aníbal Cavaco Silva, quer como primeiro-ministro, quer como presidente da república, duas-vezes-duas, foi uma das piores desgraças que se abateram sobre os portugueses.

Por aí se arrasta, trôpego, numa apagada e vil tristeza, embrulhado na negociata que amigos seus, cometeram no BPN, negociata que ele nunca conseguiu explicar.

No final do seu livro Capitão de Abril (1), Salgueiro Maia escrevia:

Passados dez anos, será interessante analisar a evolução do comportamento de muitos dos intervenientes, em especial os políticos e os militares que conseguiram passar de um regime a outro, sempre na crista da onda, e que, com lutas pelo Poder, ajudaram a dificultar e evolução desejada. Por outro lado não acreditando em democracias musculadas nem no sebastianismo, resta-nos, na orgulhosa situação de implicados do dia 25 de Abril de 1974, criticar os muitos que pagam o idealismo e a generosidade com o mesmo comportamento que caracterizou o regime nascido a 28 de Maio:


- a corrupção
- a incompetência
- o compadrio
- o circo do Poder.

Até quando?

Sim até quando?

(Para uma leitura mais fácil, clicar sobre a imagem)


(1)   Salgueiro Maia Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Notícias Editorial, Lisboa Novembro 1997

quarta-feira, 25 de abril de 2012

UMA REVOLUÇÃO PARADA NO SINAL VERMELHO



Era uma vez, no ano de 1974, a madrugada de vinte e cinco, de um Abril português.

Às 22h 55, João Paulo Dinis, diz, aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa, que faltavam cinco minutos para as 23h00 e anunciando que Paulo de Carvalho vai cantar E Depois do Adeus.

ÀS 00h29, no programa Limite da Rádio Renascença, começam a ouvir-se os passos cadenciados que, José Mário Branco inventara para Grândola Vila Morena do álbum Cantigas do Maio de José Afonso, e são declamadas as primeiras estrofes da canção:

Grândola Vila morena, terra da Fraternidade, o Povo é quem mais ordena dentro de ti ó cidade.

Começavam a nascer as cores vibrantes dos sonhos de uma geração, quase perdida, que vivia dentro do medo.

Sabemos hoje, que a alegria desses sonhos, converteu-se, aos poucos, em algo de muito doloroso…

Nem nos piores pesadelos, essa geração, pressentiu que chegaríamos ao ponto onde hoje nos colocara, deixámos que nos colocassem.

Relato de um capitão de Abril, Salgueiro Maia de seu nome:

Quando, pelas 3 horas da manhã de 25 de Abril, saímos da EPC, o carro da PIDE e o agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) que costumava estar junto ao mercado municipal tinham desaparecido. Soube depois que avisaram Lisboa, mas, por exemplo o comando da PSP não se preocupou, por considerar que devíamos estar a sair para exercícios.

Também à entrada do Campo Grande, em Lisboa, ouvi, num dos meus rádios, um carro patrulha da PSP a informar o respectivo Comando da nossa passagem, bastante impressionado com o número de metralhadoras que via passar.

Enquanto ouvia estas informações, o jipe trava de repente e dou comigo parado no sinal vermelho do cruzamento da cidade Universitária. Olho para o lado e vejo um autocarro da Carris também parado. Achei que era de mais parar a Revolução ao sinal vermelho, quando o que distinguia os carros do MFA era um triângulo vermelho no lado esquerdo das viaturas ou tapando a matrícula. Mando avançar tocando as sirenes das autometralhadoras EBR até chegar ao Terreiro do Paço.(…)

Pelas 7 horas, no Terreiro do paço, surgem dois repórteres. Perguntam se podem tirar fotografias e conversar com as pessoas. Respondo-lhes: “À vontade, é também para garantir isso que nós aqui estamos.” Olham-me com um certo ar de espanto e vão à vida.

Um furriel vem trazer-me uma senhora funcionária da limpeza dos CTT do Terreiro do Paço; diz que quer á viva força ir para o trabalho, e como tal atravessar o largo. Quando chega junto de mim, com ar de desânimo diz-me: “Tenho de ir trabalhar e o senhor tem de me deixar passar!” Replico-lhe: “Não se preocupe, porque hoje, e daqui para o futuro, o 25 de Abril vais ser feriado nacional.” A mulher olha-me com ar de quem mada mais tem a fazer e volta para o lado da Estação Marítima do Sul e Sueste, dizendo talvez para ela que “aquele tipo é mesmo doido.

O capitão parte do Terreiro do Paço, para subir até ao Largo do Carmo. E conta:

Quando regressei ao quartel, dirigi-me ao comandante e disse-lhe que, se ele não mandava, então eu queria falar com quem mandasse. Conduziram-me à presença de Marcello Caetano; mas para isso passei por uma antecâmara, onde encontravam Moreira Baptista e Rui Patrício, chorando este como uma criança, olhando o infinito o primeiro.

Dessa reles cobardia, de quem se considerava resguardado no medo que infligia a todo um povo, o Diário de Lisboa, colocará em caixa:

Massacravam-nos os ouvidos com afirmações de coragem.

Diziam que se, se alguma vez o chamado estado Novo corresse perigo, iriam dar tiros para a rua.

Afirmavam-se prontos a morrer.

Juravam, rejuravam e trejuravam que o Povo só chegaria ao poder passando por cima dos seus cadáveres.

Gritavam aos quatro ventos que iriam vender cara a vida.

Consideravam-se soldados de uma guerra gloriosa.

Não perdiam uma ocasião de proclamar o desejo que tinham de provar a sua fidelidade vertendo, para tal, o seu próprio sangue.

Arrotavam postas de valentia.

As suas permanentes gabarolices, infantis e monocórdicas, tinha-nos levado a crer que, no dia da mudança, iriam dizer qualquer coisa.

Dar um grito, por exemplo, um grito, um suspiro, um soluço…

Mas nem isso.

No dia vinte e cinco de Abril os heróis do palavreado não cumpriram uma única das promessas que tinham feito.

Perderam o pio.

Regressamos ao relato do Capitão:

Marcello estava pálido, barba por fazer, gravata desapertada, mas digno.
Fiz-lhe a continência da praxe e disse-lhe que queria a rendição formal e imediata. Declarou-me já se ter rendido ao Sr. General Spínola, pelo telefone, e só aguardava a chegada deste para lhe transferir o Poder, para que o mesmo não caísse na rua!
Estive para lhe dizer que estava lá fora o Poder no povo e que este estava na rua.

Provavelmente, inspirado por estas palavras do Capitão, José Carlos Ary dos Santos,  há-de escrever:

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Fontes: Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril de
             Salgueiro Maia, Editorial Notícias, Lisboa Novembro de 1997.
             As Portas Que Abril Abriu, Editorial Comunicação, Lisboa Novembro de 1975.

Legenda: fotografia de Alfredo Cunha.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

AS GUERRAS DE CHARLIE OITO



Há 20 anos morria Salgueiro Maia, um homem do 25 de Abril, o Capitão do Olhar Triste, como lhe chamou António Melo, numa evocação publicada no Público  em 3 de Abril de 1997.

As Guerras de Charlie Oito é o título da entrevista que Fernando Assis Pacheco fez a Salgueiro Maia e publicada no semanário O Jornal de 29 de Abril de 1998 (1):

Tinha sido estudante da Academia Militar mas por acaso a zona do Carmo era chinês para ele. Foi ali que ele veio ter, diante do quartel da GNR onde Marcelo Caetano se refugiara com dois ministros histéricos, para passar da situação de facto à situação de jure dando o último safanão a 48 anos de Estado Novo arrogante. Fernando salgueiro maia – indicativo Charlie Oito naquela data histórica – tem muito que contar sobre o 25 de Abril e seus antecedentes, mas retratamo-lo aqui também como ele é hoje, licenciado em Ciências Sociais e Políticas, sempre avesso ao fulanismo e todavia senhor de uma voz clara e um discurso moral que corta a direito.

Um dia, muito claramente, disse:

Recuso ser olhado como alguém que fez qualquer coisa extraordinária.

(1)   Retratos Falados, Fernando Assis Pacheco, Edições ASA, Porto Maio 2001.

Legenda: fotografia de Alfredo Cunha

sábado, 12 de março de 2011