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terça-feira, 12 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial.

Patti Smith em Pão de Anjos

terça-feira, 5 de maio de 2026

CONVERSANDO


Lembrar que, 3 vezes por semana, ás vezes mais porque eles comiam vorazmente, ia de casa até perto do Cine-Oriente buscar folhas de uma enorme amoreira que, por ali existia, para alimentar os meus bichos-da-seda.

Os miúdos, hoje em dia, de volta dos seus, ou alheios, telemóveis sabem lá o que são bichos-da-seda, tê-los em casa, assistir ao evoluir até aos casulos que metia numa caixa de sapatos que guardava na despensa.

Diz a Wikipésia que:

Os bichos-da-seda nascem geralmente no início da Primavera (por volta de Abril), coincidindo com o aparecimento das primeiras folhas da amoreira, que servem de alimento. Em regiões mais quentes, a eclosão pode estender-se até maio ou junho. 

Não que Patti Smith fale de bichos-da-seda no seu Pão de Anjos, mas pelas muitas memórias da infância que ela transporta para o livro: «Deus sussurra através de uma prega no papel de parede, uma gota de água a estalar como uma equação. A luz cai na floresta. Um ancião sentado num barril canta Encontrei uma moeda de ouro num campo, quem ma trocará» Uma criança responde-lhe. Talvez a minha boneca quando a encontrar. Ela tem uma mala cheia de moedas», lembrei-me dos meus bichos-da-seda.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Será tempo de dizer que gosto mais da escrita de Patti Smith do que das suas músicas, canções.

Suponho que isto deverá incomodar algumas gentes mas é o que me ocorre e cada vez, à medida que a velhice avança, estou mais surdo, mais dado a disparatar.

Mas é a própria Patti Smith que, numa entrevista disse: «reafirmei para mim mesma o desejo de escrever — mais do que cantar, gravar, fazer shows. Ser uma escritora é a coisa mais importante para mim. É o que me dá mais prazer e, também, me exige mais esforço.»

O último livro de Patti Smith é, como os anteriores, uma viagem pelas memórias de toda uma vida. 

 «Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial».

Uma outra citação:

«Com a minha mãe e o meu pai a trabalhar e os meus irmãos longe, ficava deitada sozinha com os meus livros, bem aconchegada, a telefonia sintonizada na estação de música clássica que o meu pai preferia. Por vezes, ouvia alguma coisa que me enchia de uma emoção sem nome. Certa manhã, ouvi uma voz tão bela que me senti transportada para outro reino. Anotei o nome da canção, uma ária da Madame Butterfly, e escutava atentamente a telefonia, na esperança de tornar a ouvi-la.»

O livro, citado na badana, tem um feitiço poderoso, escreveu um crítico no The Guardian e eu apresso-me a concordar.

domingo, 17 de março de 2024

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Patti Smith volta a Portugal: estará a partir de 23 de Março no CCB em Lisboa  e dia 24 em Braga. No Ipsilon, de sexta-feira, uma interessante entrevista de Gonçalo Frota:

“Sou feliz a escrever na minha sala porque reflecte a minha vida”, conta. “Estou rodeada dos meus livros preferidos, dos talismãs de que gosto mais e de algumas fotografias maravilhosas. Mas escrevo sobretudo em cafés. Gosto de sair do meu espaço doméstico e de ir escrever para um café, desde que esteja razoavelmente silencioso. Costumo chegar pelas 8h, antes de toda a gente – e quando as pessoas começam a vir, por volta das 10h, vou embora e termino o trabalho em casa.”

1.

Regressamos ao depoimento de Pedro Tadeu no Diário de Notícias:

«No Distrito de Santarém, moro numa pequena aldeia onde há pessoas que vivem do Rendimento Social de Inserção, um subsídio que o Chega já disse várias vezes querer diminuir drasticamente e, talvez mesmo, acabar com ele. Pois há pessoas nessas condições que declararam ir votar no Chega, num aparente suicídio financeiro através da urna eleitoral.»

2.

«O Chega não se combate com medidas administrativas, mas com a capacidade de identificar o que ele significa social e politicamente. Contudo, ser capaz de ir à raiz dos fenómenos de que o Chega é um grave sintoma (como a febre o pode ser de uma pneumonia), implicaria uma postura que não abunda nos principais atores políticos nacionais: olhar-se bem ao espelho, e não fechar os olhos perante o que se vê, colocaria em causa as premissas em que a governação em Portugal tem assentado desde há décadas.»

Viriato Soromenho-Marques

3.

Há um naipe de autores que li ao longo da vida e que abandonei por repetição, por qualquer  outra coisa que agora não lembro.

Miguel Esteve Cardoso foi um desses autores. Livros não mais mas as crónicas ainda as leio no Público, assim a modos de António Lobo Antunes. Também livros não mais, lia com gosto as suas crónicas nos jornais mas ele desistiu de as publicar, também deixou um série delas por publicar em livro. Lamento muito.

A seguir às eleições numa crónica  Miguel Esteves Cardoso, disse:

«Todos os votos do Chega são votos contra os outros partidos….Os partidos do contra só sabem ser do contra. Não servem para mais nada”».

4.

Num ano em que o cenário macroeconómico continuou a fazer-se de incertezas e desafios, os seis maiores bancos a operar em Portugal conseguiram manter-se resilientes e alcançar resultados históricos. Impulsionados pelas altas taxas de juro, o BPI, Caixa Geral de Depósitos (CGD), Millennium BCP, Montepio, Novo Banco e Santander reportaram, em conjunto, lucros de 4,33 mil milhões de euros em 2023, o que representa uma melhoria de quase 69%(1,76 mil milhões) face aos 2,57 mil milhões de euros registados no ano anterior. Contas feitas, foram 11,88 milhões de euros por dia.

5.

Helder Macedo há muito, por vontade própria, a viver em Londres.

 «Ainda não aconteceu o 25 de Abril que nós desejamos
Facto histórico: houve a revolução. Maravilha. Criámos estruturas democráticas, com óptimos resultados, em termos de educação, condições de vida, etc.. Mas não fizemos o suficiente. Não podemos tornar o 25 de Abril uma coisa imutável. Para merecer que o celebremos, tem de ter continuidade, que tem tido nalguns aspectos, mas não noutros. Nós continuamos a ser dependentes de economias estrangeiras. Não criámos riqueza dentro do país. Alargámos a educação e a formação universitária, mas com o resultado de que os emigrantes são agora médicos e outros profissionais, e não camponeses. Há problemas estruturais que têm de ser resolvidos no contexto da democracia. Não podemos cair numa espécie de neo-saudosismo – ai que bom, ai que bom, os cravos – e ficar sentadinhos. Não. Os cravos estiolam. E não tornemos a celebração, legítima e necessária, do 25 de Abril num “Já fizemos tudo!” Não. É trabalho por fazer. Ainda não aconteceu o 25 de Abril que nós desejamos. Isso exige muito trabalho. O perigo das celebrações e de nostalgias é transformar a data em cemitérios dourados
. Eu não quero que matem o 25 de Abril e, portanto, é uma obra ainda por fazer.»

 

sábado, 6 de maio de 2023

A NOÇÃO INTUITIVA DOS DEUSES

«O artista procura o contacto com a sua noção intuitiva dos deuses, mas, para criar a sua obra, ele não pode ficar nesse domínio sedutor e incorpóreo. Tem de regressar ao mundo material para efectuar a sua obra. É responsabilidade do artista equilibrar a comunicação mística e o labor da criação.»


Patti Smith em  Apenas Miúdos

sexta-feira, 21 de abril de 2023

PATTI SMITH EXPLICA O CÂNTICO DOS CÂNTICOS


Deitamo-nos juntos na noite ilegal
trespassados por faíscas de prata

Talvez fôssemos sem saber nessa hora
a senha aguardada por mundos futuros
Talvez desvendássemos um centro para as rosas
e agora é de lá que partem os comboios
a decidir o curso dos impérios

Pouco importa que tenha chegado a aurora
aos bares que cumprem o horário nocturno
e o cheiro dos desinfectantes mostre
como se apagam
os vestígios do amor

José Tolentino Mendonça em Resumo: a poesia em 2012

terça-feira, 17 de agosto de 2021

AS COISAS QUE PERDEMOS FALAM POR NÓS


Patti Smith também andou às voltas por um casaco. Recordamos o texto em que o invoca e que aqui foi publicado quando andámos a ler o M Train:

«As coisas que perdemos choram por nós? As ovelhas elétricas sonham com Roy Batty? Será que o meu casaco cheio de buracos se vai lembrar dos momentos maravilhosos que passámos juntos? Dormir em autocarros de Viena a Praga, noites na ópera, passeios junto ao mar, o túmulo de Swinburne na Ilha de Wight, as arcadas de Paris, as cavernas de Luray, os cafés de Buenos Aires. Uma experiência humana entrelaçada nos seus fios. Quantos poemas sangram das suas mangas esfarrapadas? Distraí-me dele por um momento, atraída por outro casaco mais quente e mais macio, mas de que eu não gostava muito. Porque perdemos as coisas que amamos e coisas que nos são indiferentes se agarram a nós, podendo tornar-se, depois de morrermos, símbolos de valor que tivemos?

E então ocorreu-me uma coisa. Talvez eu tenha absorvido o meu casaco. Acho que devia estar-lhe grata, tendo em conta o seu poder, por o meu casaco não me ter absorvido a mim. Se assim tivesse sido, eu não teria senão mais uma coisa desaparecida, atirada para uma cadeira, balançando cheia de buracos.

As nossas coisas perdidas de regresso aos sítios de onde vieram, às suas origens absolutas: um crucifixo de volta à árvore de onde saiu ou os rubis de volta à sua casa no oceano Índico. A génese do meu casaco, feito de lã delicada, a girara ao contrário nos teares, de volta ao corpo de um carneiro, um carneiro preto um pouco afastado do rebanho, a pastar na encosta de uma colina. Um carneiro a abrir os olhos para as nuvens que, por momento, se assemelham às costas cheias de lã de outros iguais a si.»

Patti Smith em M Train

quinta-feira, 25 de março de 2021

PORQUE ESCREVEMOS?


Porque escrevemos?, pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve.

Porque não nos podemos limitar a viver.

Porque choras? – pergunta uma voz.

- Não sei – respondo. – Certamente é porque me sinto feliz.

No comboio, continuo a escrever febrilmente, como se tivesse ressuscitado de um mar de recordações. O Alain desvia os olhos do livro e olha pela janela. O tempo contrai-se. Quase sem nos darmos conta, estamos a chegar a Paris. O Aurélien dorme.

Ocorre-me a ideia de que os jovens parecem belos quando estão a dormir, ao passo que os velhos, como eu, parecem já mortos.

Patti Smith em Devoção

terça-feira, 16 de março de 2021

UM CAMINHAR DE AVANÇOS E RECUOS


Por que razão nos sentimos impelidos a escrever? Para procurarmos o isolamento no interior de um casulo nosso, absorvidos numa solidão que é alheia às necessidades dos outros. Virginia Wolf trabalhava num quarto só seu. Proust, por trás de janelas sempre cerradas. Marguerite Duras, numa casa habitada pelo silêncio. Dylan Thomas, na sua cabana modesta. Todos em busca de um vazio para preencher com palavras. Palavras que irão penetrar território virgem, inventar combinações entre si jamais imaginadas, estender as suas possibilidades infinitas. Palavras que criaram Lolita, O Amante, Nossa Senhora das Flores.

Há um grande número de cadernos em que os escritores falhados, de euforias ocas, de um caminhar feito incessantemente de avanços e recuos. É imperioso escrever, mas é também impossível não ficar envolto numa infinidade de batalhas, como se estivéssemos a domar um potro teimoso. É imperioso escrever, mas não sem um esforço persistente e um certo sacrifício: para abrir direcções no futuro, para revisitar a infância e para equilibrar os terríveis e tortuosos meandros da imaginação numa linguagem que desperte a inteligência dos melhores leitores.

Patti Smith em Devoção

sexta-feira, 12 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


… o problema dos sonhos é que nós acabamos sempre por acordar. 

Patti Smith em OAno do Macaco

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

ESCOLHA


Se tivesse de escolher entre música e literatura, escolhia a literatura. Acho que a música é muito importante, mas não é a minha primeira opção.

Patti Smith

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


1.

Patti Smith no seu livro O Ano do Macaco, colocou uma epígrafe de Antonin Artaud:

«Abate-se sobre o mundo uma loucura fatal.»

2.

 O país ultrapassou os 13 mil mortos devido à Covid-19, regista uma queda histórica do PIB, no turismo perdeu 17 milhões de euros, não há uma livraria aberta para comprar um qualquer livro, os cinemas, no ano passado, tiveram uma quebra em audiência e receitas na ordem dos 75%, nos teatros deixaram de se representar peças, os concertos de música estão cancelados, milhares de profissionais da cultura, aos poucos, vão ficando sem qualquer tipo de rendimento.

Um silêncio esmagador ou a loucura fatal de que falava Artaud.

3.

De uma das páginas negras de Manuel S. Fonseca:

«Truman Capote afiava cerca de 500 lápis antes de começar o primeiro esboço de nova obra. Noel Coward abria, diariamente, o obituário do Times e só passava a escrever, depois de se certificar que o seu nome não constava e, por isso, ainda esta vivo.»

4.

A China foi a única potência mundial a crescer em 2020.

5.

Numa das duas crónicas, na revista do Expresso, José Tolentino Mendonça lembrava o monge trapista Thomas Merton: «o crente que não experimentou jamais a dúvida não se pode dizer crente. Porque a fé não é propriamente a remoção da dúvida… A dúvida só se vence atravessando-a.»

6.

Onde as lágrimas e os suspiros de tristeza?

7.

Lá fora na noite, não se ouve qualquer canto das estrelas, e só nos resta ficar com o adagio do Concerto para piano nr. 21 de Wolfgang Amadeus Mozart:

sábado, 24 de outubro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.


RELACIONADOS

 

Ao longe, a morte acena a Sam Shepard e ele fica com o entendimento que os seus leitores, ele próprio, merecem um último olhar sobre tabernas de cidades de fronteira ou perdidas no meio do deserto, terras de apaches e saguaros, sonhos e desventuras, olhar o céu, senti-lo perto de si, adormecer e acordar ao som do cântico dos tordos, uma espécie de melancolia, deitado à espera que alguém o encontre, algo de muito seu que lhe faça companhia na última viagem.

«Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.»

 Quem é que Sam espia?

 Quem é que espia Sam?

 Nem ele se lembra, ou sabe.

 «Visto à distância. Isto é, a ver do outro lado da estrada, é difícil dizer qual a idade dele por causa do alpendre fechado com rede a toda a volta. Por causa dos óculos escuros a toda à volta. Roxos. O Mascarilha. Bandido mascarado. Não sei o que está a proteger. Está efectivamente dentro de um alpendre fechado, com insectos que zumbem, aves que chilreiam, todo o tipo de coisas estivais que vão ocorrendo, no exterior – borboletas, vespas, etc. -, mas é muito difícil dizer com exactidão a esta distância e a idade que tem. O boné de beisebol, as jeans encardidas, o colete velho.»

Sam Shepard começou a pensar no livro no ano de 2016.

Escreveu-o depois em rascunhos manuscritos já que a esclerose lateral amiotrófica que o atacou, impedia-o de dactilografar. Quando já não conseguia escrever à mão, passou a gravar os textos e os filhos faziam a transcrição para papel.

Patti Smith, amiga e antiga companheira, apoiou-o na edição do manuscrito, quem mais o poderia fazer, ela que é uma eterna frequentadora de sombras, fragilidades várias, visões de cemitérios perdidos pelos mundos?

 Sam fez a revisão do livro e ditou a versão final alguns dias antes de morrer, a 27 de Julho de 2017. Tinha 73 anos.

 «A Lua está a ficar cada vez maior. A Lua dos Morangos (lua cheia do mês de Junho, Strawberry Moon, segundo nota do tradutor). Iluminando a nossa pequena trupe. A Lua Cheia. Dois filhos e o pai, com toda agente atrás. Seguindo pelo meio de East Water Street, e agora a noite está mesmo clara. A lua cheia. Conseguimos e coxeámos pelas escadas acima. Ou melhor, eu coxeei. Os meus filhos não coxearam, eu coxeei.»

 Nas suas breves noventa e sete páginas, um livro desesperado mas um belíssimo livro.

 Não sabemos o que pensar daquelas palavras dos seus últimos dias, não sabemos o que fazer quando fechamos o livro e o deixamos suspenso entre as mãos.

  «Aliás, já estou vazio. Do género de uma concha», escreveu Sam, no aproximar da página final quando sente que já não sabe como suportar a monotonia.


Texto publicado em 29 de Outubro de 2018.

sábado, 11 de maio de 2019

POSTAIS SEM SELO


Onde estão as borboletas? Costumava haver milhares de borboletas por todo o lado e agora somos capazes de ver uma ou duas.

Patti Smith

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Um solitário que não se revela um grande apreciador da solidão.

Patti Smith no prefácio a The One Inside, último livro de Sam Shepard, citado por João Gobern em Diário de Notícias, 19 de Setembro de 2017.

Legenda: capa de The One Inside de Sam Shepard editado por Alfred A. Knopf.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

SAM SHEPARD (1943-2017)


Morreu Sam Shepard.
Tinha 73 anos.
Conheceu Patti Smith no Chelsea Hotel:
 «Estávamos apenas a tentar falar de dois sonhadores que se encontraram mas que estavam destinados a ter um fim triste. Era a verdadeira história de Sam e eu. Sabíamos que não poderíamos ficar juntos. Ele iria voltar para a sua mulher e eu continuaria a minha vida»., contou Patti Smith.
Escreveu Sam Shepard em O Grande Sonho doParaíso:

«Não faço ideia de qual a cidade onde me encontro. Não importa. Não faço ideia de qual a cidade para onde vou. Não tenho planos.»

sexta-feira, 21 de abril de 2017

INFLUÊNCIA HUMANA


Conheci o William Burroughs quando tinha cerca de 22 anos, no Chelsea Hotel. Eu era bastante nova e o William costumava vir ao hotel com o seu sobretudo negro, as suas camisas e gravatas, e achei que era muito digno e tinha uma paixoneta colegial por ele… Costumava segui-lo por toda a parte e ele costumava dizer-me: «Bem, tu sabes que eu prefiro rapazes…», mas eu respondia-lhe «Tudo bem, eu vou ser a tua miúda de qualquer das maneiras…» Tornámo-nos grandes amigos e ele apoiou muito o meu trabalho. Costumava vir ao CBGB e sentar-se lá, nos primeiros tempos. Foi um grande amigo até morrer, visitei-o até ao fim da vida. Oliver e eu fomos ao seu funeral e está sempre na minha cabeça. Sempre adorei o seu trabalho, mas a maior influência que William Burroughs teve em mim foi uma influência humana. Ele tinha muita dignidade e sempre ensinou uma coisa: «Tem um bom nome, esforça-te por fazer bom trabalho», mas, em termos de sucesso… Para ele, sucesso era: se uma cidade que ele queria visitar o convidasse, mesmo que não tivessem dinheiro nenhum, mas a cidade o trouxesse e o tratasse bem, se lhe dessem algum café. Jantar, um pouco de vinho e amizade, ele actuava. Foi por isso que as coisas correram bem para mim. Vim a Lisboa, convidaram-me para o festival e foi um acto mútuo de fé. Não é um trabalho oficial, mas trouxeram-me cá e trataram-me muito bem, como uma amiga, e em troca eu faço o meu trabalho.

Patti Smith em Outubro de 2007.

sábado, 1 de abril de 2017

ADEUS POR UM CASACO


Um casaco também pode vir à tona de água depois da tempestade.
Do seu velho casaco, fala Patti Smith no último dos textos de M Train que tenho vindo a reproduzir desde 16 de Junho do ano passado, data do Olhar as Capas.
Despedimo-nos de Patti Smith, voltaremos com outro livro, outro autor.
Será Sebastião da Gama e páginas do seu Diário.
Mas o texto de Patti Smith fez-me voltar à despedida do meu casaco de lá, texto aqui publicado em 21 de Junho de 2015, quando ainda não tinha lido M Train.

«É tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.
Pela Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.
Comprei-o na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.
Quando senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um outro semelhante, mas nunca consegui.
Olhava-os mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.
Nos últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.
A minha neta Maria, já no passado ano, dissera que o avô anda tão mal vestido.
Tentei explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela mandou-me um tá bem abelha!
O próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.
Não sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.
Também a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.
Pelo andar da carruagem, débil esperança…
Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»

AS COISAS QUE PERDEMOS CHORAM POR NÓS?


As coisas que perdemos choram por nós? As ovelhas elétricas sonham com Roy Batty? Será que o meu casaco cheio de buracos se vai lembrar dos momentos maravilhosos que passámos juntos? Dormir em autocarros de Viena a Praga, noites na ópera, passeios junto ao mar, o túmulo de Swinburne na Ilha de Wight, as arcadas de Paris, as cavernas de Luray, os cafés de Buenos Aires. Uma experiência humana entrelaçada nos seus fios. Quantos poemas sangram das suas mangas esfarrapadas? Distraí-me dele por um momento, atraída por outro casaco mais quente e mais macio, mas de que eu não gostava muito. Porque perdemos as coisas que amamos e coisas que nos são indiferentes se agarram a nós, podendo tornar-se, depois de morrermos, símbolos de valor que tivemos?
E então ocorreu-me uma coisa. Talvez eu tenha absorvido o meu casaco. Acho que devia estar-lhe grata, tendo em conta o seu poder, por o meu casaco não me ter absorvido a mim. Se assim tivesse sido, eu não teria senão mais uma coisa desaparecida, atirada para uma cadeira, balançando cheia de buracos.
As nossas coisas perdidas de regresso aos sítios de onde vieram, às suas origens absolutas: um crucifixo de volta à árvore de onde saiu ou os rubis de volta à sua casa no oceano Índico. A génese do meu casaco, feito de lã delicada, a girara ao contrário nos teares, de volta ao corpo de um carneiro, um carneiro preto um pouco afastado do rebanho, a pastar na encosta de uma colina. Um carneiro a abrir os olhos para as nuvens que, por momento, se assemelham às costas cheias de lã de outros iguais a si.

Patti Smith em M Train

sexta-feira, 24 de março de 2017

O MUNDO DESPROVIDO DE ENCANTO


Quando o Fred morreu, celebrou-se missa em sua honra na Mariner’s Church, em Detroit, a mesma igreja onde nos tínhamos casado.
Na noite da missa, o meu irmão Todd veio ter comigo a minha casa mas eu ainda estava deitada.
- Não condigo – disse-lhe
- Tens de ir – disse ele com firmeza, e abanou-me até eu sair daquele torpor, ajudou-me a vestir e levou-me à igreja. Pensava no que havia de dizer quando se começou a ouvir no rádio a canção «What a Wonderful World». Sempre que a ouvia o Fred dizia: Trisha, é a tua canção. Porque é que tem de ser a minha canção?, dizia eu a protestar. Nem sequer gosto do Louis Armstrong. Mas ele insistia que aquela era mesmo a minha canção. Parecia ser um sinal do Fred, por isso decidi cantar «What a Wonderful World» a capella na missa. À medida que cantava ia sentindo a beleza simples da canção, mas continuava sem perceber a razão por que ele a ligava a mim, uma pergunta que demorei tempo de mais a fazer-lhe. Agora a canção é tua, disse eu, dirigindo-me ao lento infinito da morte. Parecia que o mundo tinha ficado desprovido de encanto. Não consegui escrever poemas de emoção. Não vi o espírito do Fred perante mim nem senti a trajetória rodopiante da sua viagem.

Patti Smith em  M Train

Legenda: Fred no Dia do pai, Lake Ann, Michigan