Tudo em nosso redor são
destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta
minguante, a nossa pele primordial.
Patti Smith em Pão de Anjos
Tudo em nosso redor são
destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta
minguante, a nossa pele primordial.
Patti Smith em Pão de Anjos
Os miúdos, hoje em dia,
de volta dos seus, ou alheios, telemóveis sabem lá o que são bichos-da-seda,
tê-los em casa, assistir ao evoluir até aos casulos que metia numa caixa de
sapatos que guardava na despensa.
Diz a Wikipésia que:
Os bichos-da-seda nascem geralmente no início da Primavera (por volta de Abril), coincidindo com o aparecimento das primeiras folhas da amoreira, que servem de alimento. Em regiões mais quentes, a eclosão pode estender-se até maio ou junho.
Não que Patti Smith fale de bichos-da-seda no seu Pão de Anjos, mas pelas muitas memórias da infância que ela transporta para o livro: «Deus sussurra através de uma prega no papel de parede, uma gota de água a estalar como uma equação. A luz cai na floresta. Um ancião sentado num barril canta Encontrei uma moeda de ouro num campo, quem ma trocará» Uma criança responde-lhe. Talvez a minha boneca quando a encontrar. Ela tem uma mala cheia de moedas», lembrei-me dos meus bichos-da-seda.
Será
tempo de dizer que gosto mais da escrita de Patti Smith do que das suas
músicas, canções.
Suponho
que isto deverá incomodar algumas gentes mas é o que me ocorre e cada vez, à
medida que a velhice avança, estou mais surdo, mais dado a disparatar.
Mas é a própria Patti Smith que, numa entrevista disse: «reafirmei para mim mesma o desejo de escrever — mais do que cantar, gravar, fazer shows. Ser uma escritora é a coisa mais importante para mim. É o que me dá mais prazer e, também, me exige mais esforço.»
O último livro de Patti Smith é, como os anteriores, uma viagem pelas memórias de
toda uma vida.
«Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial».
Uma
outra citação:
«Com a minha mãe e o
meu pai a trabalhar e os meus irmãos longe, ficava deitada sozinha com os meus
livros, bem aconchegada, a telefonia sintonizada na estação de música clássica
que o meu pai preferia. Por vezes, ouvia alguma coisa que me enchia de uma
emoção sem nome. Certa manhã, ouvi uma voz tão bela que me senti transportada
para outro reino. Anotei o nome da canção, uma ária da Madame Butterfly, e
escutava atentamente a telefonia, na esperança de tornar a ouvi-la.»
O livro, citado na badana, tem um feitiço poderoso, escreveu um crítico no The Guardian e eu apresso-me a concordar.
“Sou feliz a escrever na minha sala porque reflecte a
minha vida”, conta. “Estou rodeada dos meus livros preferidos, dos talismãs de
que gosto mais e de algumas fotografias maravilhosas. Mas escrevo sobretudo em
cafés. Gosto de sair do meu espaço doméstico e de ir escrever para um café,
desde que esteja razoavelmente silencioso. Costumo chegar pelas 8h, antes de
toda a gente – e quando as pessoas começam a vir, por volta das 10h, vou embora
e termino o trabalho em casa.”
1.
Regressamos ao depoimento de Pedro Tadeu no Diário de Notícias:
«No Distrito de
Santarém, moro numa pequena aldeia onde há pessoas que vivem do Rendimento
Social de Inserção, um subsídio que o Chega já disse várias vezes querer diminuir
drasticamente e, talvez mesmo, acabar com ele. Pois há pessoas nessas condições
que declararam ir votar no Chega, num aparente suicídio financeiro através da
urna eleitoral.»
2.
«O Chega não se
combate com medidas administrativas, mas com a capacidade de identificar o que
ele significa social e politicamente. Contudo, ser capaz de ir à raiz dos
fenómenos de que o Chega é um grave sintoma (como a febre o pode ser de uma
pneumonia), implicaria uma postura que não abunda nos principais atores
políticos nacionais: olhar-se bem ao espelho, e não fechar os olhos perante o
que se vê, colocaria em causa as premissas em que a governação em Portugal tem
assentado desde há décadas.»
Viriato Soromenho-Marques
3.
Há um naipe de autores que li ao longo da vida e que abandonei por
repetição, por qualquer outra coisa que
agora não lembro.
Miguel Esteve Cardoso foi um desses autores. Livros não mais mas as
crónicas ainda as leio no Público, assim a modos de António Lobo
Antunes. Também livros não mais, lia com gosto as suas crónicas nos jornais mas
ele desistiu de as publicar, também deixou um série delas por publicar em
livro. Lamento muito.
A seguir às eleições numa crónica
Miguel Esteves Cardoso, disse:
«Todos os votos do Chega são votos contra os outros partidos….Os partidos do contra só sabem ser do contra. Não servem para mais nada”».
4.
Num ano em que o cenário macroeconómico continuou a fazer-se de
incertezas e desafios, os seis maiores bancos a operar em Portugal conseguiram
manter-se resilientes e alcançar resultados históricos. Impulsionados pelas
altas taxas de juro, o BPI, Caixa Geral de Depósitos (CGD), Millennium BCP,
Montepio, Novo Banco e Santander reportaram, em conjunto, lucros de 4,33 mil
milhões de euros em 2023, o que representa uma melhoria de quase 69%(1,76 mil
milhões) face aos 2,57 mil milhões de euros registados no ano anterior. Contas
feitas, foram 11,88 milhões de euros por dia.
5.
Helder Macedo há muito, por vontade própria, a viver em Londres.
«Ainda não aconteceu o 25 de Abril que nós
desejamos
Facto histórico: houve a revolução. Maravilha. Criámos estruturas democráticas,
com óptimos resultados, em termos de educação, condições de vida, etc.. Mas não
fizemos o suficiente. Não podemos tornar o 25 de Abril uma coisa imutável. Para
merecer que o celebremos, tem de ter continuidade, que tem tido nalguns
aspectos, mas não noutros. Nós continuamos a ser dependentes de economias
estrangeiras. Não criámos riqueza dentro do país. Alargámos a educação e a
formação universitária, mas com o resultado de que os emigrantes são agora
médicos e outros profissionais, e não camponeses. Há problemas estruturais que
têm de ser resolvidos no contexto da democracia. Não podemos cair numa espécie
de neo-saudosismo – ai que bom, ai que bom, os cravos – e ficar sentadinhos.
Não. Os cravos estiolam. E não tornemos a celebração, legítima e necessária, do
25 de Abril num “Já fizemos tudo!” Não. É trabalho por fazer. Ainda não
aconteceu o 25 de Abril que nós desejamos. Isso exige muito trabalho. O perigo
das celebrações e de nostalgias é transformar a data em cemitérios dourados. Eu não quero que matem o 25 de Abril e,
portanto, é uma obra ainda por fazer.»
«O artista procura o contacto com a sua noção intuitiva dos deuses, mas, para criar a sua obra, ele não pode ficar nesse domínio sedutor e incorpóreo. Tem de regressar ao mundo material para efectuar a sua obra. É responsabilidade do artista equilibrar a comunicação mística e o labor da criação.»
Patti Smith em Apenas Miúdos
Deitamo-nos juntos na noite ilegal
trespassados por faíscas de prata
Talvez fôssemos sem saber nessa hora
a senha aguardada por mundos futuros
Talvez desvendássemos um centro para as rosas
e agora é de lá que partem os comboios
a decidir o curso dos impérios
Pouco importa que tenha chegado a aurora
aos bares que cumprem o horário nocturno
e o cheiro dos desinfectantes mostre
como se apagam
os vestígios do amor
José Tolentino Mendonça em Resumo: a poesia em 2012
Patti Smith
também andou às voltas por um casaco. Recordamos o texto em que o invoca e que
aqui foi publicado quando andámos a ler o M Train:
«As coisas que perdemos choram por nós?
As ovelhas elétricas sonham com Roy Batty? Será que o meu casaco cheio de
buracos se vai lembrar dos momentos maravilhosos que passámos juntos? Dormir em
autocarros de Viena a Praga, noites na ópera, passeios junto ao mar, o túmulo
de Swinburne na Ilha de Wight, as arcadas de Paris, as cavernas de Luray, os
cafés de Buenos Aires. Uma experiência humana entrelaçada nos seus fios.
Quantos poemas sangram das suas mangas esfarrapadas? Distraí-me dele por um
momento, atraída por outro casaco mais quente e mais macio, mas de que eu não
gostava muito. Porque perdemos as coisas que amamos e coisas que nos são
indiferentes se agarram a nós, podendo tornar-se, depois de morrermos, símbolos
de valor que tivemos?
E então ocorreu-me uma coisa. Talvez eu
tenha absorvido o meu casaco. Acho que devia estar-lhe grata, tendo em conta o
seu poder, por o meu casaco não me ter absorvido a mim. Se assim tivesse sido,
eu não teria senão mais uma coisa desaparecida, atirada para uma cadeira, balançando
cheia de buracos.
As nossas coisas perdidas de regresso
aos sítios de onde vieram, às suas origens absolutas: um crucifixo de volta à
árvore de onde saiu ou os rubis de volta à sua casa no oceano Índico. A génese
do meu casaco, feito de lã delicada, a girara ao contrário nos teares, de volta
ao corpo de um carneiro, um carneiro preto um pouco afastado do rebanho, a
pastar na encosta de uma colina. Um carneiro a abrir os olhos para as nuvens
que, por momento, se assemelham às costas cheias de lã de outros iguais a si.»
Patti Smith em M Train
Porque escrevemos?,
pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve.
Porque não nos podemos limitar a viver.
Porque choras? –
pergunta uma voz.
- Não sei – respondo. – Certamente é porque me sinto feliz.
No comboio,
continuo a escrever febrilmente, como se tivesse ressuscitado de um mar de
recordações. O Alain desvia os olhos do livro e olha pela janela. O tempo
contrai-se. Quase sem nos darmos conta, estamos a chegar a Paris. O Aurélien
dorme.
Ocorre-me a ideia de que os jovens parecem belos quando estão a dormir, ao passo que os velhos, como eu, parecem já mortos.
Patti Smith em Devoção
Por que razão nos sentimos impelidos a escrever? Para procurarmos o
isolamento no interior de um casulo nosso, absorvidos numa solidão que é alheia
às necessidades dos outros. Virginia Wolf trabalhava num quarto só seu. Proust,
por trás de janelas sempre cerradas. Marguerite Duras, numa casa habitada pelo
silêncio. Dylan Thomas, na sua cabana modesta. Todos em busca de um vazio para
preencher com palavras. Palavras que irão penetrar território virgem, inventar
combinações entre si jamais imaginadas, estender as suas possibilidades
infinitas. Palavras que criaram Lolita, O Amante, Nossa Senhora das Flores.
Há um grande número de cadernos em que os escritores falhados, de euforias ocas, de um caminhar feito incessantemente de avanços e recuos. É imperioso escrever, mas é também impossível não ficar envolto numa infinidade de batalhas, como se estivéssemos a domar um potro teimoso. É imperioso escrever, mas não sem um esforço persistente e um certo sacrifício: para abrir direcções no futuro, para revisitar a infância e para equilibrar os terríveis e tortuosos meandros da imaginação numa linguagem que desperte a inteligência dos melhores leitores.
Patti Smith em Devoção
Se tivesse de escolher entre música e literatura, escolhia a literatura. Acho que a música é muito importante, mas não é a minha primeira opção.
Patti Smith
1.
Patti Smith no seu livro O Ano do Macaco, colocou uma epígrafe de Antonin Artaud:
«Abate-se sobre o mundo uma loucura fatal.»
2.
O país ultrapassou os 13 mil mortos devido à Covid-19, regista uma queda histórica do PIB, no turismo perdeu 17 milhões de euros, não há uma livraria aberta para comprar um qualquer livro, os cinemas, no ano passado, tiveram uma quebra em audiência e receitas na ordem dos 75%, nos teatros deixaram de se representar peças, os concertos de música estão cancelados, milhares de profissionais da cultura, aos poucos, vão ficando sem qualquer tipo de rendimento.
Um silêncio esmagador ou a loucura fatal de que falava Artaud.
3.
De uma das páginas negras de Manuel S. Fonseca:
«Truman Capote afiava cerca de 500 lápis antes de começar o primeiro esboço de nova obra. Noel Coward abria, diariamente, o obituário do Times e só passava a escrever, depois de se certificar que o seu nome não constava e, por isso, ainda esta vivo.»
4.
A China foi a única potência mundial a crescer em 2020.
5.
Numa das duas crónicas, na revista do Expresso, José Tolentino Mendonça lembrava o monge trapista Thomas Merton: «o crente que não experimentou jamais a dúvida não se pode dizer crente. Porque a fé não é propriamente a remoção da dúvida… A dúvida só se vence atravessando-a.»
6.
Onde as lágrimas e os suspiros de tristeza?
7.
Lá fora na noite, não se ouve qualquer canto das estrelas, e só nos resta ficar com o adagio do Concerto para piano nr. 21 de Wolfgang Amadeus Mozart:
Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
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Ao longe, a morte acena a Sam Shepard e ele fica com o entendimento que os seus leitores, ele próprio, merecem um último olhar sobre tabernas de cidades de fronteira ou perdidas no meio do deserto, terras de apaches e saguaros, sonhos e desventuras, olhar o céu, senti-lo perto de si, adormecer e acordar ao som do cântico dos tordos, uma espécie de melancolia, deitado à espera que alguém o encontre, algo de muito seu que lhe faça companhia na última viagem.
«Há alturas em que não posso deixar de pensar no
passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Sei que me foi recomendado
por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o
passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.»
Sam Shepard começou a pensar no livro no ano de 2016.
Escreveu-o depois em rascunhos manuscritos já que a esclerose lateral amiotrófica que o atacou, impedia-o de dactilografar. Quando já não conseguia escrever à mão, passou a gravar os textos e os filhos faziam a transcrição para papel.
Patti Smith, amiga e antiga companheira, apoiou-o na
edição do manuscrito, quem mais o poderia fazer, ela que é uma eterna
frequentadora de sombras, fragilidades várias, visões de cemitérios perdidos
pelos mundos?
Texto publicado em 29 de Outubro de 2018.