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domingo, 11 de abril de 2021

OLHAR AS CAPAS


Experiência do Drama

Roger Vailland

Tradução: Zita Mendonça

Capa: Alves Martins

Colecção Divulgação e Ensaio nº 3

Editorial Presença, Lisboa s/d

Nunca me aborreço completamente no teatro, mesmo quando a peça é má e os actores medíocres. Por que motivo, pois, esperei tanto tempo para frequentar os teatros?

quinta-feira, 14 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


A Truta

Roger Vaillland
Tradução: Gina de Freitas
Capa: Infante do Carmo
Colecção Dois Mundos nº 95

Pagámos e saímos. Durante o trajecto do Café de Paris à moradia, não falámos. Perguntei a mim próprio do que falaria ele com Frédérique. Do que é que se pode falar com Frédérique? O que é que Frédérique lê? A Frédérique talvez não leia. Não sei nada a respeito dos gostos de Frédérique. Conhece bem as trutas, mas que género de sentimentos nutre ela pelas trutas? Reparei que pensava em Frédérique em termos de animal. Ela é um bicho de respiração lenta e sangue quente. Coberta de lã? De seda? Um puma? Antes um animal de um ramo divergente da evolução, um tarseiro da Malásia, um lamuriano de Madagáscar. Não me aborrecia mesmo nada ser obrigado a pensar em Frédérique em termos de animal. A psicologia, falsa ciência, má literatura. Saberei tudo de de Frédérique quando for capaz de indicar o seu animal, a sua planta, o seu mineral. Voltei-me para Rambert e disse-lhe:
- Não imaginas o prazer que tenho em saber que a Frèdérique te faz andar à nora.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


A Visirova

Roger Vailland
Prefácio: René Ballet
Tradução: Maria Gabriela de Bragança
Capa: Vítor Costa
Biblioteca de Bolso Dom Quixote nº 12
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 1987

A Visirova e eu estamos de novo sentados lado a lado no bar de Eden Roc, no Cabo de Antibes. O Mediterrâneo resplandece amenamente ao sol de 1933. As flores aliam o seu perfume ao do tomilho da terra seca da Provença.
As americanas, alemãs, checoslovacas e escandinavas saltam sucessivamente da água, e vêm tomar um porto depois do banho matinal. Têm toda a beleza do luxo e da despreocupação.
Jovens bronzeados dão estrepidosas palmadas nas costas uns dos outros.
Tânia terminou a narrativa da sua prodigiosa aventura. Quem imaginaria aqui que a jovem mulher que acompanho, tão comedida nos gestos, um pouco afectada no seu tailleur, inquietava, ainda há dois anos, um ditador e um rei de dois grandes países europeus, e quase levou à guerra ferozes tribos montanhesas, que viviam como há trinta séculos, para lá dos desfiladeiros que poucos europeus transpõem?
Agora a jovem fala-me do seu pai que, lá longe, na Rússia, deixou a bela doutora, e escreveu a dizer que desejava vir ter com a mulher e a filha, Mme Visirova perdoou-lhe, e faz agora s necessárias diligências para que ele possa vir para França.
E então? O ex-procurador virá ter com a esposa e viverão tranquilamente no cabo de Antibes na companhia da sua filha? E Tânia, seca e angulosa, dirá daqui a vinte anos: «Lembras-te, mãe, de quando estávamos na Trasúbia?» Será possível?
Avançamos novamente a pequena vivenda pelos caminhos estreitos do cabo, e a Visirova vai puxando os ramos perfumados para lhes aspirar o cheiro.
- Tânia…
- Sim?
- Ainda pensa muito nisso?
-Sim, muito.
- Espera lá voltar?
- Não. Mesmo que ele me pedisse, eu recusaria.
Aproximamo-nos do pesado portão onde se pode ler numa tabuleta: «Cuidado com o cão». Mesmo em França, o que Mme Visirova maisreceou foram os inimigos trasúbios da sua filha.
- Tânia – digo novamente.
- O que é?
- Você é feliz?
- Não, não sou. Compreende? Não espero mais nada, e contudo ainda espero alguma coisa.
«É um pouco como no dia em que vi aparecer a costa trasúbia da popa do pequeno vapor italiano. Sentia-me cheia de esperança, e no entanto não sabia o que esperava.
Tânia Visisrova tem vinte e cinco anos. É ainda tão bela como na época em que Paris inteira a aplaudia nas Folies-Bergère. E além disso, é evidente que tem um destino: não é dado a toda a gente ter um destino.
Enquanto não desperta o novo rosto da sua vida, ela vai passando, na tranquila vivenda Alba-Tânia, calmos serões a ler, como fazia o seu real amante, as Memórias de Napoleão.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Um Homem Só

Roger Vailland
Tradução: José Vaz Pereira
Capa: Manuel Dias
Colecção Minerva nº 12
Editorial Minerva, Lisboa, Novembro de 1972

- Agradeço-lhe os esclarecimentos – disse o inspector-chefe, e tomou várias notas.
- Efectivamente, lembro-me que me informaram, há perto de seis meses, de que o senhor Favart teve uma discussão com o velho Madru – recomeçou o inspector da Polícia local.
- A que propósito?
- Não me lembro muito bem, Mas é fácil de averiguar. O caso passou-se numa taberna cujo dono é nosso amigo. Nosso amigo é uma maneira de falar: o taberneiro vende absinto, nós fechamos os olhos e, em contrapartida, ele informa-nos de todas as conversas. Utilizamo-lo sobretudo para os relatórios que apresentamos às Informações Gerais sobre as reacções operárias aos acontecimentos do dia. A taberna está bem situada, mesmo à saída da estação.
- Vamos até lá – decidiu Marchand – Acompanhe-me, inspector. Até à vista, comissário.

sábado, 1 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



O Rival

Roger Vailland
Tradução: António Neves-Pedro
Capa: Aramando Alves
Colecção Metamorfoses nº 13
Editorial Inova, Porto, Janeiro de 1975

- Tem entrevista marcada?
- Não.
- Então faça o favor de preencher uma ficha.
Mignot escreveu:
NOME: Fréderic Mignot
FINALIDADE DA VISITA: da parte de secção de Clusot do Partido Comunista Francês.
- Faça a fineza de esperar um momento, - disse o contínuo, que depois se dirigiu, coxeando, para escada.
Mignot teve a impressão que o velho lhe lançara um olhar espantado. Na realidade, há muito que o velho era demasiado míope para ser capaz de ler, mesmo quando punha os óculos: e era apenas isso que lhe dava aquele ar assombrado.
- Mande entrar esse senhor imediatamente. – disse Letourneau, que ficou à espera, com o coração a bater com força.
«Aí está a iniciativa misteriosamente anunciada ontem pela pequena Amable», pensou ele. «Cumpriu a sua promessa». Estava disposto a fazer algo de muito importante «introduzindo o inimigo na fortaleza». «Aqui está finalmente o meu primeiro acto de coragem», disse para si mesmo.
Mignot preparara cuidadosamente toda uma série de argumentos para persuadir Letourneau a petição para a libertação de… Mas Philippe dispôs-se a assinar mesmo antes de ouvir uma única palavra.
«Então é apenas isto!» pensava ele. Chegara a temer que Pierrette exigisse dele uma profissão de fé pública, como, por exemplo, ir ao domingo de manhã, à saída da missa, vender, berrando o L’Humanité. Tivera receio de ser ridículo. Não que ele ligasse grande importância à opinião que dele fariam os burgueses, e sabia até, pelo contrário, que os seus amigos de Lyon ou de Paris teriam achado extremamente divertido que ele andasse a gritar L’Humanité pelas ruas de uma sede de concelho provincial. Mas temia parecer ridículo aos olhos dos operários: «Não me saberia comportar como eles, ficaria deslocado.»

domingo, 22 de julho de 2018

OLHAR AS CAPAS



Fim de Semana

Roger Vailland
Tradução: Gina de Freitas
Capa: Infante do Carmo
Colecção Dois Mundos nº 68
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- E o teu romance?
- O meu romance – diz Duc – gostaria que as minhas personagens, algumas das minhas, enfim, pelo menos duas personagens do meu romance, mantivessem uma em face da outra relações de Estado soberano para Estado soberano.
- Léone e tu, são soberanos? Pergunta Lucie.
- As mulheres – diz Jean-Marc – levam sempre tudo para a anedota.
- Creio – responde Duc a Lucie – creio que somos soberanos, não desde há muito tempo, é fruto de uma longa série de guerras, para cada um de nós, que decláramos a toda a terra, e cada um a si próprio, de ano para no, durante vários anos.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Escritos Íntimos
2º Volume

Roger Vailland
Tradução: Ana Rabaça
Colecção Estudos e Documentos nº  209
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

5 de Junho de 1956 :

Regresso de Moscovo.

À minha chegada, quinze dias antes, a estátua em pé de Estaline estava ainda no hall do aeroporto. No dia da minha partida, continuava lá, mas coberta com um resguardo branco. Em breve a vão retirar. Os homens da construção civil fixá-la-ão com nós corredios e puxarão a talha.
Cheguei a amar os tiques da sua linguagem. Colocava as primeiras pedras de um raciocínio, depois dizia «prossigamos»; adorei isso. Mas ao regressar a casa, foi bem preciso retirar o seu retrato da parede, por cima da minha secretária; deixá-lo, seria ter tomado partido contra aqueles que, lá, prosseguem a construção do mundo que ele começou a edificar, e a favor daqueles que, aqui ou algures, aspiram à tirania.
Nunca mais colocarei o retrato de um homem nas paredes da minha casa.
No canto da biblioteca reservado aos historiadores da Revolução Francesa tirei também as duas grandes gravuras da época, intituladas Jornada de 21 de Janeiro de 1793, Jornada do 16 de Outubro de 1793; vê-se aí o carrasco mostrar à multidão a cabeça de Capet, um outro carrasco erguer o cutelo da guilhotina, enquanto os auxiliares mandam subir para o cadafalso Maria Antonieta. A multidão aplaude. Convencional, teria votado pela morte de Luis XVI e pela de Maria Antonieta; quero com isto dizer que hoje ainda, em circunstâncias análogas, votaria a morte. Mas Meyerhold que amo, que amava, foi fuzilado, em execução de um julgamento injusto, ditado por Estaline, que eu amava. Nunca mais poderei alegrar-me por o sangue ser vertido, mesmo o dos meus inimigos, excepto se for por mim mesmo, em combate leal.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Escritos Íntimos
1º Volume

Roger Vailland
Tradução: Ana Rabaça
Colecção Estudos e Documentos nº  208
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

27 de Fevereiro de 1936

Estou a meter-me num grande empreendimento romanesco; no centro um revolucionário profissional, o que não consegui com Pierrette Amable, a solidão do comunista quando está verdadeiramente na vanguarda, a vanguarda é por definição só. Em relação à forma, orientação Flaubert-Hemingway, a prosa-objecto, objecto como um poema, mas à sua maneira de prosa, na sua assimetria, na montanha de Beau Masque, a corrida dos 325 000 francos. Ainda não me arrisquei totalmente. É um grande trecho. Mas não posso iludir eternamente o verdadeiro grande tema. E também por isso que as exigências da tua carta me tocaram.
Quanto ao livro de Hervé *, acho-o indefensável, em particular porque é o produto das doenças infantis que ele pretende combater. Um certo número de «permanentes» da sua geração têm um complexo de Édipo em relação ao Partido., batem com o pé e partem um vaso. A minha mãe dizia que enquanto não se tem idade da razão, não nos devemos meter nas conversas das pessoas crescidas.

·          *  Roger Vailland faz alusão ao livro que Pierre Hervé, ainda membro do Partido Comunista, acabava de publicar sob o título La Revolution et les fétiches. (Nota da Tradutora).

sábado, 21 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


A Roda da Fortuna

Roger Vailland
Tradução: Augusto Abelaira
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Sucessos Literários nº 23
Editora Ulisseia, Lisboa, 1961

- Viva! – Exclama Milan ao passar.
- Entre e beba um copo da rija – propõe Augusto.
- Não tenho tempo – diz Milan
Mas fez um desvio para ir apertar a mão de Augusto.
- Não tenho tempo – repete -, vou encontrar-me com Roberta.
- A senhora Milan é uma mulher às direitas – diz Augusto.- Uma mulher que vale um homem.
- Com efeito – responde Milan.
- Eu – continua Augusto – sou sozinho. Não é agradável estar sempre sozinho em casa.
- Nem sempre é agradável estarem dois…
- Não é agradável dormir sozinho – insiste Augusto.
- Terrível Augusto – diz Milan.
- Não tenho jeito para conquistas – diz Augusto. – Tenho as mãos muito pesadas.

sábado, 8 de outubro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Um Homem do Povo na Revolução

Roger Vailland
Raymond Manévy
Tradução: Serafim Ferreira
Colecção «Revolução», nº 5
Editorial Fronteira, Amadora, Fevereiro de 1976

Morreu porque os seus dias acabaram. Mas há milhares de outros homens, milhões de outros homens, jovens e ainda cheios de vida. Calam-se por agora, como Drouet se calava há dez anos. Contam-se. Reúnem-se em silêncio. Pensam na lição dos grandes homens de 1793. Quando se erguerem, serão capazes de vos varrer a todos, prefeito, presidente da Câmara, gendarmes, rei, nobres, arrivistas! Talvez sejam vencidos, mas outros hão-de segui-los. Nenhum de nós será capaz de ver com certeza o fim da batalha. Mas virá o tempo em que, como Drouet, o quis, cada um poderá viver livremente, como um homem autêntico que seja realmente digno da sua condição de ser homem. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

OLHAR AS CAPAS


 Borobudur
Viagem a Bali, Java e Outras Ilhas

Roger Vailland
Tradução: Maria Teresa Camilo
Capa: António Domingues
Prelo Editora, Lisboa, Março de 1961

Em Java faz-se um grande comércio de orquídeas, que são expedidas de avião para todas as capitais do mundo.
O preço caro de uma orquídea não deriva só da sua raridade, que provém da dificuldade de reproduzir em estufa as condições especialíssimas do desenvolvimento de uma planta que muitas vezes se encontra simultaneamente como parasita e parasitária; é preciso portanto reconstituir à volta dela todo o seu universo. Mas nunca qualquer florista pensou em introduzir no mercado a soldanela das neves, que no entanto, seria uma estranha e milagrosa extravagância, pois que ela nasce na Primavera sobre as neves no começo do degelo, só vive um dia, e é tão frágil que murcha, que se desvanece na palma da mão, como o floco de que ela imita a forma cristalóide.
O amador de orquídeas não é exclusivamente seduzido pela riqueza das cores. As numerosas variedades de túlipas oferecem-lhe uma gama mais rica de tons, dos mais puros aos mais sombrios, dos mais discretos aos mais faustosos. O encanto tão especial da flor da orquídea reside em grande parte na complexidade da sua estrutura, da sua protecção, da sua reserva.

domingo, 17 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


Esboço Para Um Retrato do Verdadeiro Libertino

Roger Vailland

Tradução de Vitor Silva Tavares
Capa de José Cândido
&etc – Lisboa, Maio de 1976

Os nossos três libertinos tiram as conclusões dos seus relatos. Não foi por acaso que se encontraram no estabelecimento de Madame Maravilha. Esta é a mediadora indispensável aos seus prazeres. É que toda a maturação do ser de prazer conduz a uma possibilidade infinita de variações sobre um tema cada vez mais estritamente definido. É o conflito entre a infinidade das variações possíveis e a estreiteza formal do tema que faz a grandeza trágica do erotismo. Este resolve-se teatralmente sobre um palco onde a matrona é o demiurgo.
O encontro termina com o elogio de Madame Maravilha, que possui todas as qualidades necessárias para o exercício da mais difícil e mais preciosa das artes.

terça-feira, 18 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS



A Lei

Roger Vailland
Tradução: Amarina Alberty
Publicações Europa-América, Lisboa Janeiro de 1975

Entre 1904 e 1914, entre os vinte e os trinta anos, tinha viajado por toda a Europa, durante as férias universitárias, para completar a sua educação, segundo o desejo do seu pai. Um Verão, quando voltava de Londres, ao ir embarcar em Valência para Nápoles, tinha passado por Portugal. Tinha posto a si mesmo mil perguntas sobre o declínio dessa nação cujo império se tinha estendido à volta do Globo. Tinha conhecido escritores que não escreviam para ninguém; homens políticos que governavam para os Ingleses; homens de negócios que liquidavam os seus estabelecimentos do Brasil e viviam de pequenas rendas, em cidades de província, sem finalidade. Ele tinha pensado que era a pior das infelicidades nascer Português. Em Lisboa, pela primeira vez na vida, tinha-se encontrado com um povo que se tinha desinteressado.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Cabra Cega

Roger Vailland
Tradução: Helder Macedo
Prefácio sobre o autor: José Cardoso Pires
Capa: Rocha de Sousa
Editora Ulisseia, Lisboa Abril 1965

- É o meu drama pessoal – explica Marat. – Você adivinhou alguma coisa há ppouco quando falava da minha maneira de entrar na casa das pessoas, do meu sorriso… Ser comunista é também, para além da doutrina e do combate, todo um comportamento, uma maneira de ser e de sentir, uma configuração íntima. Bato-me ao lado dos comunistas, adiro sem reservas à sua doutrina, faço tudo o que posso pelo Partido, talvez mais do que muitos militantes… mas não tenho o “estilo” comunista… Sou filho de burgueses. Luto contra a minha classe com todas as forças, mas herdei alguns dos seus vícios, amo o seu luxo, os seus prazeres. Muitas coisas de que um militante nem sequer suspeita têm um lugar importante na minha vida… É muito provável que um dia destes adira oficialmente ao Partido. Serei um bom militante porque terei decidido sê-lo. Mas, ombro a ombro com os meus camaradas, receio continuar a ser só. Há homens que nascem em má altura, cedo demais ou demasiado tarde… Você já esteve no campo em férias; os camponeses trabalham na agricultura, os pastores guardam os rebanhos, as mulheres preparam a sopa. Pergunta-se de súbito: “Porque estou eu aqui?” Nada há que fazer. Está-se em férias desocupado. Uma personagem facultativa que o pintor acrescentou gratuitamente ao quadro, um passeante, nada mais que um passeante. Hei-de passear no Partido como passeei no mundo burguês, amando a paisagem em vez de a odiar, no entanto passeante, o passeante solitário…


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora. 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

OLHAR AS CAPAS


325.000 Francos

Roger Vailland
Tradução: Modesto Iglésias
Capa: Octávio Clérigo
Colecção Contemporânea nº 12
Portugália Editora, Lisboa s/d

Busard também sabe que os 325.000 francos lhe vão sair caros. Mas quere-os. O seu estado de espírito é o do corredor que sprinta por um prémio de passagem; quere-o;; esbanja as reservas de energia; tanto pior para o esgotamento que necessariamente virá a seguir. Ou como o do velho que, por uma mulher, vende a sua renda vitalícia para dar um presente que traga ainda um sorriso, um instante de felicidade, o último. Todas as paixões provocam a mesma loucura, a mesma corrida desvairada num beco sem saída, quando atingem o ponto em que quem as experimenta, como dizem os jogadores, dá tudo por tudo.