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terça-feira, 2 de junho de 2026

A DOR DE UM GATO

Quando cegaste foi de vez. Sem aviso prévio e dos dois olhos em simultâneo.

Não foi de um dia para o outro, foi mais o que se chama de um momento para o outro.

De um momento para a noite, melhor dizendo.

Quando cegaste foi como se na casa uma espécie de morte tivesse dado sinal de vida, essa sua espécie de vida.

Pois quantas vezes é assim, absurda e traiçoeira, que ela vem. E se instala.

Tu, indeciso e desorientado, andavas sem rumo pela casa às topadas a móveis, sacos de plástico, pilhas de livros.

Não foi um espetáculo bonito de se ver, acompanhado com miador que eram verdadeiros gritos de dor, de aflição, ou de cólera.

Ou, mais provável, tudo isso junto.

Grande ironia do destino, pensei na altura, logo os teus olhos.

Que eram amplos, redondos, curiosos, sempre alerta e cheios de luz.

Uns olhos de fazer inveja a muita gente que eu cá sei.

E gritaste, durante uns bons minutos gritaste.

Um som não ouvido até então, um novo som arrancado à natureza, ou ao mais fundo da tua animal sinceridade.

Um som que percutia os tímpanos com a sua nota de urgência e pânico.

Sabia-se de onde ele vinha, o som, não para onde ia.

Sim, para onde, se é que ia para algum lado? A quem se dirigia, se é que era dirigido a alguma coisa ou alguém?

A mim não seria: sabias, com a tua antiga e animal sabedoria, que eu nada te podia valer.

A Deus também não seria: os gatos, é coisa bem conhecida, não vão em trapaças.

Resta o puro NADA como hipótese, resta a

GRANDE PUTA QUE A TODOS NOS PARIU!

Rui Caeiro

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

CONVERSANDO


Teve dezenas de gatos, um de cada vez, sabe o espaço que ocupam.

Cresceu rodeado por gatos, apanhava-os na rua e levava-os para casa, mas, hoje, questiona-se sobre ter gatos em casa: pela higiene, pelos cheiros, pelas alergias que provocam. A irmã tem três gatos, que se passeiam por cima das mesas, por cima das tartes de limão. Quando olhou a cena, as tartes de limão da irmã deixaram de o entusiasmar.

Uma querida amiga que vive no Porto, dorme com os gatos, passeia a sua solidão pelos corredores da casa. Quando lhe telefona, diz que os filhos continuam longe, os gatos não compensam essa falta, mas ajudam-na a calar a dor até não sentir nada.

Aprende-se com os gatos o sabor da solidão?

Não o saberá.

Lembra-se de um livro de Adrien Goetz:

«Ela apelava à atenção, ao silêncio, à minúcia, à preguiça, ao escrúpulo, devolvia-me a vontade de agradar, e de dar vida às coisas, só para mim, neste atelier que me servia de abrigo. Tratava-me por tu. Quando lhe dizia: "E, quando voltar para França, como conseguirei viver sem poder acariciar assim a tua nuca", ela respondia-me maliciosamente: "Podes comprar um gato".»


Legenda: fotografia de Luís Eme

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

POEMA DO GATO

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.


Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

 

António Gedeão de Novos Poemas Póstumos em Obra Completa

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO

 «Ritz» foi a marca dos últimos cigarros que o pai fumou. 

Já o disse: um dia apanhou um susto, colocou o maço de lado e nunca mais lhe tocou. Um gesto que lhe permitiu viver mais uns anos do que aqueles que não teria vivido, se não cortasse com os cigarros. Cigarros que, como ele dizia, lhe poderiam provocar a morte, mas também o ajudaram a viver. Lembra-se que fumava três maços de cigarros «Unic», tabaco negro, a bela conta de  três maços por dia

Quando deixou de fumar permitiu sempre que fumassem junto dele. 

Há dias na sua crónica do Público de 30 de Agosto, Ana Cristina Leonardo  conta esta história:

 «Dou por mim a recordar uma viagem a Madrid (tudo por conta do madrileno Javier Marías, mesmo se infeliz e prematuramente morto). Num restaurante, um amigo acende um cigarro após a refeição. Discretamente, assinalo-lhe um velho muito velho que almoça numa mesa perto de nós. Percebendo o meu gesto, logo o velhíssimo espanhol comenta: “No se preocupe! Fume usted lo que quiera. Yo ya no puedo fumar pero el humo me estimula...”. Era ainda o tempo do Madrid me mata. E o tempo continua a matar-me (nos), embora com muito menos graça (basta pensar em Pedro Sánchez).»

1.

Na breve proximidade do 5 de Novembro, quando ficaremos a saber que presidente querem os americanos escolher, lembremos o que há alguns anos disse Woody Allen:

«Jamais imaginei que Donald Trump quisesse ser presidente dos Estados Unidos. Jamais imaginei que ele o conseguisse.»

Serão os americanos que têm, no boletim a depositar nas urnas, o desfecho do que irá acontecer.

Entretanto, pelo mundo fora, vamos sabendo  o que determinados líderes estrangeiros querem que aconteça: a eleição de Donald Trump:

Os que seguem, já sabemos o que querem, mas há mais:

Vladimir Putin, presidente da Rússia

Benjamin Netanyahu, chefe do governo de Israel

Viktor Orbán, primeiro ministro da Hungria

Javier Milei, presidente da Argentina

Kim Jong-Lin – líder da Coreia do Norte

No meio do carrossel pode ser que Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, se bem que não tenha direito a voto, afine a pontaria e deixe de estar na dúvida para onde vai a sua preferência.

2.

Por cada dois professores que se aposentam só se forma um.  Em cinco anos formaram-se 7755 professores, aposentaram-se 11 mil e saem mais quatro mil só em 2024

3.

Lisboa é a terceira cidade da Europa a abrir mais hotéis.

Até 2026 terá 36 novos hotéis, com 4.425 quartos.

4.

Uma reportagem publicada no Expresso de 23 de Agosto perguntava:

«Porque engorda o preço da bola de Berlim na praia?

Na generalidade a bola de Berlim é vendida a 2,00 euros

5.

 Quase 3 mil trabalhadores ficaram sem emprego nos primeiros meses do ano.

6.

Enfim, ter cães dentro de um apartamento dá uma trabalheira dos demónios. Mas ir passeá-los às sete da manhã e depois mais tarde, viver numa casa atulhada de pêlos de cão e ainda partilhar – quantas vezes – a cama com o cão, é hoje considerado um ideal perfeito de vida. Os cães e gatos silenciosos passaram a filhos de substituição e são tratados como tal. Acho que não sou só eu que acha isto uma loucura colectiva em que os valores estão todos trocados.»

Ana Sá Lopes no Público

 7.

No obituário da morte de Ana Faria , publicado no Público, podia ler-se:

«Numa entrevista ao Jornal de Notícias (JN) em 2004, disse: "Trauteava músicas eruditas com letras minhas em português e isso despertou a atenção dos meus filhos e dos seus amigos. Todos queriam ouvir-me cantar. Depois, dava-lhes a ouvir o original." E daí nasceu Brincando aos Clássicos (1982), um disco cheio de adaptações de temas de compositores clássicos como Beethoven, Mozart, Chopin ou Verdi, transformados em canções para um Luís que "nunca foi a Paris", uma Clara com medo das pombas, uma Catarina tão tagarela que até "dá dores de cabeça" ou um Miguel "de olhos de mel".​

João Carlos Calixto não tem dúvidas de que estes álbuns foram "importantíssimos para a educação do gosto de tantas e tantas crianças de então". Ana Faria democratizou estes compositores, combatendo o elitismo que caracterizara o acesso à educação e à fruição musical durante o Estado Novo.»

Também comprou para os filhos, para os amigos dos filhos, Brincando aso Clássicos e tem poucas dúvidas que isso não lhes tenha sido útil.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

OS GATOS DO MANUEL ANTÓNIO PINA


Nos terríveis dias de calor infernal deste Verão, Ana Cristina Leonardo chegou, numa crónica no Público, a desabafar: «Em suma, como dizia, e sem querer enganar ninguém, escrever está a ser muito difícil.»

Também senti as terríveis dificuldades e reparo, agora, que nem sequer referi  a homenagem que a Feira do Livro do Porto dedicou ao Manuel António Pina, uma homenagem justa e como por lá foi dito, a lembrança dos muitos Pinas que há em Pina.

Nos 10 anos após a sua morte Manuel António Pina juntou-se a um leque de autores já anteriormente homenageados como, entre outros, Ana Luísa Amaral, Vasco Graça Moura, Agustina Bessa-Luís, Mário Cláudio, Sophia de Mello Breyner Andresen,  José Mário Branco, com a atribuição de uma tília nos Jardins do Palácio de Cristal.

Manuel António Pina viveu sempre entre livros, papéis e gatos.

Leio agora que Ana Pina, uma das suas filhas vendeu o certificado do Prémio Camões conquistado pelo pai para ajudar a pagar as despesas dos gatos, empréstimos e a renda de casa.

A família de Manuel António Pina pretendia dar os gatos para adoção, mas Ana Pina, que é também escritora e activista dos direitos dos animais não aceitou esta decisão e já lançou um apelo e uma angariação de fundos.

«Já tive de vender a minha casa e o meu carro e o próprio certificado do prémio do meu pai para garantir o bem-estar dos animais», afirma Ana Pina, acrescentando que sabe que tomou a decisão certa, uma vez que o pai também era um amante de gatos.

Uma história triste a que me faltam outros pormenores, principalmente da restante família de António Manuel Pina, e nestes tempos conturbados de «fakes news», todos os cuidados são necessários.

Mas não resisto em copiar a crónica «Onde se Fala de Gatos e de Homens», publicada no Jornal de Notícias de 9 de Novembro de 2005, que reproduzo da página 253 de Crónica Saudade da Literatura:

«Os meus gatos dormem durante a maior parte do dia (e, obviamente, durante a noite toda). Suspeito que os gatos têm um segredo, que conhecem uma porta para um mundo coincidente e feliz, por onde só se passa sonhando. Um mundo criado como Deus terá criado o nosso humano mundo, à sua desmesurada imagem. Porque os que sonham são deuses criadores. Os gatos sonham dormindo, os homens sonham fazendo perguntas e procurando respostas.

Mas os meus gatos dormem e sonham porque não têm fome. Teriam, se precisassem de procurar comida, tempo para sonhar? Acontece talvez assim com os homens. Como se o espírito criador fosse, afinal, prisioneiro do estômago. Talvez, então, a mesquinhez de propósitos da nossa vida colectiva radique, como nos querem fazer crer, no défice, e talvez o cumprimento das normas do pacto de estabilidade seja o único sonho que nos é hoje permitido.

E, contudo, dir-se-ia (e isto é algo que escapa aos economistas) que é o sonho, mais do que a balança de pagamentos, que alimenta a vida, e que os povos, como os homens, precisam de mais do que de números. Os próprios números têm (os economistas não o sabem porque a sua ciência dos números é uma ciência de escravos) o poder desrazoável de, não apenas repetir, mas sonhar o mundo.

Há anos que somos governados por economistas e o resultado está à vista. Talvez seja chegada a altura de ser a política (e o sonho) a dirigir a economia e não a economia a dirigir a política. Jesus Cristo «não sabia nada de finanças, / nem consta que tivesse biblioteca», e o seu sonho, no entanto, continua a mover o mundo.»

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

OLHAR AS CAPAS


O Fruto da Gramática

Nuno Júdice

Capa: Maria Manuel Lacerda

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 2014


Os gatos que gostam de poesia metem-se

nos cantos da casa, escondem-se debaixo das mesas,

aninham-se no travesseiro daquele quarto,

ao fundo, onde há muito ninguém dorme. Vejo-os,

no verão, no parapeito da janela que dá para

a rua, ao sol, e os olhos quase não se abrem

com a luz que os fere. Esses gatos são gordos

como as grandes estrofes dos poemas clássicos,

e os seus bigodes, finos como um verso de sonora

aliteração, têm um brilho dourado quando

a sua língua os lambe e os deixa húmidos

de encontro ao vidro. Quando os chamo, não

vêm ter comigo; e se passo a mão pelo seu

dorso assanham-se com a sensação

de que o tempo lhes pertence. Assim, quando leio

os poemas em que se passa de um verso a outro

com a mesma delicadeza com que eles se movem,

sem ruído nem sombra, compreendo o seu

gosto pela poesia, e deixo-os dormir, ao sol,

com os olhos abertos para o sonho, para

os cantos da casa, e para as marcas de outrora

no travesseiro que agora lhes pertence.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

AS FOTOGRAFIAS DO VIAJANTE


Para onde olhará o gato pintalgado de amarelo, sentado num muro branco de quintal, em  Cabanas de Tavira?

No calor da tarde, surpreendeu-o, o canto das cigarras?

Como nos devemos dirigir a um gato?, perguntou um dia T.S. Eliot. 

sexta-feira, 5 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


Mulheres e gatos fazem o que querem. Homens e cães têm de aprender a viver com isso.

Alan Holbrook

Legenda: Audrey Hepburn

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O GATO


Na minha casa desejo ter
Uma mulher que imponha a sua razão
Um gato passeando por entre os livros
E porque sem eles não posso viver
Amigos seja qual for a estação

Guillaume Appolinaire em Assinar a Pele

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O GATO E A LUA


O gato passeava aqui, ali
E a lua girava como um pião,
E, parente próximo da lua,
O furtivo gato, contemplava o céu.

O negro Minnaloushe admirava fixamente a lua,
Pois, embora miasse, vagueando,
A pura e fria luz no céu
Conturbava o seu sangue animal.
Minnaloushe corre pela erva
Erguendo as delicadas patas.
Danças, Minnaloushe, danças?
Quando dois parentes se encontram
Haverá coisa melhor do que dançar?
Talvez a lua possa aprender,
Cansada dessa moda cortesã,
Um novo passo de dança.
Minnaloushe desliza pela erva
De um lugar enluarado a outro,
E a sagrada lua nas alturas
Entrou agora numa nova fase.
Saberá Minnaloushe que as suas pupilas
Passarão de mudança em mudança,
E que da lua cheia à minguante,
Da minguante à cheia elas irão mudar?
Minnaloushe desliza pela erva
Sozinho, importante e sábio,
E ergue até a lua em transição
Os olhos em mudança.

W. B. Yeats, tradução de Ana Luísa Amaral em Assinar a Pele

Legenda: imagem Pinterest

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

NOTÍCIAS DO CIRCO


Esperei por Setembro.
Mas não para enfrentar temperaturas de 27º.
Tenho dificuldades várias face a estas temperaturas.
Dizem que vão aumentar mais.
Vou aproveitando proveitei para colocar alguma ordem nas papeladas.
Encontrei o recorte que encima o texto.
Pertence ao Público de 23 de Agosto.
O calor não me facilita qualquer comentário.
Seria necessário?

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

ACERCA DE GATOS


Contigo chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.

Eugénio de Andrade em Assinar a Pele

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O GATO


Um gato, em casa sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel
parece um objecto.

Fica assim para que o 
invejem - indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.

Nuno Júdice em Assinar a Pele

Legenda: pintura de Charles Van den Eycken

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


Assinar a Pele
Antologia de Poesia Contemporânea Sobre Gatos

Organização João Luís Barreto Guimarães
Assírio &Alvim, Lisboa, Novembro de 2001

Zoologia: O Gato

Um gato, em casa sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem — indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

QUEM HÁ-DE ABRIR A PORTA AO GATO?



CristinaCarvalho diz que seu pai, António Gedeão, em idade adulta, não teve gatos.
Menciona que, enquanto viveu na casa na Calçada do Monte, os gatos apareciam pelos jardins das traseiras.
Gato apenas no papel tal como consta dos Novos Poemas Póstumos, por sinal, um lindíssimo poema ou, como escreve Cristina Carvalho, e no chão, ao lado esquerdo da secretária e em cima do tapete, o grande gato de porcelana branca que eu um dia lhe ofereci.

POEMA DO GATO

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

Legenda: foto grafia de Édoaurd Boubat

sexta-feira, 24 de maio de 2013

QUOTIDIANOS

Entristeço-me muito quando deparo com apelos, como este, colocados nas paredes das ruas, nas montras das lojas do bairro.
Só quem algum dia teve gatos sabe bem da tristeza com que ficamos quando os perdermos.
Uma gata é a grande companhia da minha mãe, que já conta com 90 primaveras.
Pula para o parapeito da janela, passeia-se pelo quintal, afia as unhas nos sofás e acontece entre as duas uma enorme cumplicidade.
Diz a minha mãe que só lhe falta falar.
Antevejo a tristeza desta criança que perdeu a sua gatinha.
Tenho escassas palavras para dizer o que sinto.
Terá voltado a casa?

sábado, 23 de fevereiro de 2013

GATO NUM APARTAMENTO VAZIO


Morrer não é coisa que se faça a um gato.
Que há-de um gato fazer
num apartamento vazio?
Subir às paredes?
Roçar-se nos móveis?
Aparentemente não mudou nada
e no entanto está tudo mudado.
Continua tudo no seu lugar
e no entanto está tudo fora do sítio.
E à noite a lâmpada já não está acesa.

Ouvem-se passos nas escadas,
mas não são os mesmos.
A mão que põe o peixe no prato
também já não é a que o punha.

Há aqui qualquer coisa que já não começa
à hora do costume,
qualquer coisa que não se passa
como deveria passar-se.
Havia aqui alguém que há muito estava e estava
e que de repente desapareceu
e agora insistentemente não está.

Procurou-se em todos os armários,
revistaram-se as estantes,
espreitou-se para debaixo do tapete.
Violou-se até a proibição
de desarrumar os papéis.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.

Quando regressar, ele vai ver,
ele vai ver quando chegar.
Vai ficar a saber
que isto não é coisa que se faça a um gato.
Caminhar-se-á em direcção a ele
como que contrariado,
devagarinho,
com patas amuadas.
E nada de saltos ou mios. Pelo menos ao princípio.

Poema traduzido por Manuel António Pina, publicado no Público de 11 de Fevereiro de 2012, que mostra a morte de um amigo vista pelo seu gato.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio publicado no Público de 26 de Junho de 1982