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domingo, 1 de outubro de 2017

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A publicação da capa de O Falcão de Malta, serve para reproduzir uma ida ao piolho já aqui publicada:

Não vi Relíquia Macabra no piolho.

Penso que a primeira vez que o vi, das muitas que já levo, terá sido num dos muitos cinemas de “reprisse” lá do bairro, não lembro qual.

O filme, realizado por John Huston em 1941, encontra-se catalogado nos chamados “film noir”.

A expressão “fim noir” é usada para descrever os filmes americanos da década de 40 e começo da de 50, produzidos em Hollywood, nos quais era retratado o sub mundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os maus, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e a borrifarem-se para o futuro. Passam-se quase sempre de noite e são filmados a preto e branco. Também há “films noir” a cores mas isso é uma outra história.

Esta designação de “film noir” apanhei-a já em tempos recentes, porque nos meus tempos do “Cine-Oriente”, para a malta da rua os filmes eram policiais ou de gangsters, de índios e cowboys, e tudo o resto, musicais incluídos, eram filmes de manteiga que víamos sem qualquer brilhozinho nos olhos.

Claro que o cinema não seria aquilo que hoje é, se não houvesse “film noir”. 
Grande parte dos filmes do meu panteão encontram-se aqui. 

Uma das características destes filmes são os seus personagens. Gente que entra, gente que sai, uns regressam outros não. Perco-me sistematicamente nos enredos e isso é um enorme gozo. Mesmo já tendo visto o filme, e avisado que estou, perco-me, e de caminho descubro, um prazer dentro de outros prazeres, coisas que me tinham escapado.

O Falcão de Malta é uma estatueta negra, perseguida por um bando de malfeitores, de “valor incalculável”, na expressão de Mr. Gutman.


Um tesouro pelo qual vale a pena matar. Sam Spade, um detective privado já curtido pelo tempo, com o seu solitário código de ética. Um bizarro ladrão chamado Joel Cairo, um homem gordo que dá pelo nome de Gutman e Brigid O'Shaughnessy, uma bela e traiçoeira mulher cuja lealdade muda com um tilintar de moedas.


O filme é a adaptação de um livro de Dashiel Hammett, O Falcão de Malta,cuja tradução portuguesa, de Baptista de Carvalho, é o número 34 da Colecção Vampiro. Por aqui existe também uma edição de “A Regra do Jogo”, traduzida por Helena Domingos, número 2  da Série Negra.

O livro começa assim:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verdes claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado caprichosamente invertido. O cabelo castanho claro tinha como fronteira uma testa alta a despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava assim, no centro, um “bico de viúva”. À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine.

- Que se passa, meu amor?

The Times Lierary Suplement considerou que O Falcão de Malta não é apenas a melhor história de detectives que alguma vez lemos; é um romance extraordinariamente bem escrito, enquanto que o The Boston Globe considerava que Dashiel Hammett é um mestre das histórias de detectives, sim, mas também um escritor dos diabo  e o The New York Times que a prosa de Hammett é limpa e totalmente excepcional. As suas personagens são as mais perspicazes e concisamente definidas da ficção americana.


No filme de Huston, são soberbas as interpretações de Humphrey Bogart e Mary Astor,  mas é justo salientar o desempenho de Peter Lorre na pele de um amaricado Joel Cairo.

O filme tem excelentes diálogos, Na lista do American Film Institute para as cem melhores linhas de diálogo da história do cinema, há uma citação para Relíquia Macabra, quando no final o idiota inspector de polícia, depois de prender Brigid, pega na estatueta negra, vira-se para Sam e pergunta:

“É pesada. O que é?”
Sam Spade responde-lhe:
- É aquilo de que são feitos os sonhos.
Fiquemos com dois deliciosos diálogos do filme. O primeiro entre Sam Spade e Mr. Gutman, o outro entre o mesmo Sam e Brigid, quando ele lhe diz que sabe que ela matou o seu sócio e a vai denunciar à polícia:

Gutman – É um homem reservado?
Sam – Não, gosto de falar.
Gutman – Desconfio dos homens reservados. Normalmente escolhem mal a altura para falarem e dizem disparates. Falar é uma coisa que não se faz judiciosamente a não ser que se pratique muito. Se quiser podemos falar. Digo-lhe desde já que sou um homem que gosta de falar com um homem que gosta de falar.
Sam – Óptimo. Vamos falar do pássaro negro?
Gutman – É o homem certo para mim. Nada de rodeios: direito ao assunto. Falemos do pássaro negro. Pois, como sabe, no auge da acção os homens tendem a esquecer o que é melhor para eles e deixam-se levar pelas emoções.”

 “Sam – Se tiveres sorte, daqui a vinte anos sais da prisão, e nessa altura volta para mim. Espero que não te enforquem por esse pescoço lindo.
Brigid – Não vais
Sam – Vou pois, meu anjo. Deves apanhar prisão perpétua e se portares bem, sais daqui a vinte anos. Estarei à tua espera. Se te enforcarem, hei-de sempre lembrar-me de ti.
Brigid – Sam, não digas isso nem a brincar. Por um momento assustei-me. Pensei que ias mesmo… Fazes coisas tão estranhas e imprevisíveis!
Sam – Não sejas tola. Vais mesmo dentro. Mataste o MIles e vais pagar por isso.
Brigid – Como podes fazer-me isso. De certeza que o Archer não significava tanto para ti como…

Sam – Ouve, não vale a pena. Nunca vais compreender-me, mas vou tentar uma vez. Quando o colega de alguém é morto, esse alguém tem de fazer alguma coisa. Não interessa o que se pensava dele. Era colega, e há que fazer qualquer coisa e acontece que estamos na actividade de detectives. Quando alguém da organização é morto é mau deixar-se o criminoso fugir. É mau para toda agente. É mau para todos os detectives. Se tudo isto não significa nada para ti, então esquece tudo e ficamos assim; não faço o que queres, porque eu o quero também apesar das consequências, e porque estás a contar que eu o faça, tal como contaste com os outros também.

Brigid – Terias feito isso se o falcão fosse verdadeiro e tivesses recebido o dinheiro que esperavas?

Sam – Não penses que sou tão malandro como se pensa. Esse tipo de fama talvez fosse bom negócio, chamando trabalhos que pagassem bem e tornando mais fácil lidar com o inimigo mas muito dinheiro teria sido mais peso do teu lado da balança.
Brigid – Não esperas que o que estás a dizer seja razão suficiente para me mandares prender.

Sam – Deixa-me acabar, depois falas. Não tenho razão nenhuma para acreditar em ti e se eu te deixasse escapar terias sempre algo de que me  acusar sempre que quisesses como tenho agora contra ti, não sei se um dia não me darias um tiro. Tudo isso pesa de um lado. Nem todos estes factores são importantes. Não discuto isso. Mas vê quantos são. E do outro lado, o que é que temos? Que tu talvez gostes de mim e que eu talvez goste de ti.

Brigid – Sabes se gostas de mim ou não?

Sam – Talvez. Vou ter noites horríveis depois de te mandar prender mas isso passa.

Brigid – Se gostasses de mim, não precisavas de mais pesos desse lado”.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


Só os vaidosos procuram mulheres de estilo, os outros contentam-se com o que lhes aparece.

Dashiell Hammett

Legenda: Fotografia de Robert Doisneau.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não vi Relíquia Macabra no piolho. 

Penso que a primeira vez que o vi, das muitas que já levo, terá sido num dos muitos cinemas de “reprisse” lá do bairro, não lembro qual.

O filme, realizado por John Huston em 1941, encontra-se catalogado nos chamados “film noir”.

A expressão “fim noir” é usada para descrever os filmes americanos da década de 40 e começo da de 50, produzidos em Hollywood, nos quais era retratado o sub mundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os maus, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e a borrifarem-se para o futuro. Passam-se quase sempre de noite e são filmados a preto e branco. Também há “films noir” a cores mas isso é uma outra história.

Esta designação de “film noir” apanhei-a já em tempos recentes, porque nos meus tempos do “Cine-Oriente”, para a malta da rua os filmes eram policiais ou de gangsters, de índios e cowboys, e tudo o resto, musicais incluídos, eram filmes de manteiga que víamos sem qualquer brilhozinho nos olhos.

Claro que o cinema não seria aquilo que hoje é, se não houvesse “film noir”.

Grande parte dos filmes do meu panteão encontram-se aqui.

Uma das características destes filmes são os seus personagens. Gente que entra, gente que sai, uns regressam outros não. Perco-me sistematicamente nos enredos e isso é um enorme gozo. Mesmo já tendo visto o filme, e avisado que estou, perco-me, e de caminho descubro, um prazer dentro de outros prazeres, coisas que me tinham escapado.

O Falcão de Malta é uma estatueta negra, perseguida por um bando de malfeitores, de “valor incalculável”, na expressão de Mr. Gutman.

Um tesouro pelo qual vale a pena matar. Sam Spade, um detective privado já curtido pelo tempo, com o seu solitário código de ética. Um bizarro ladrão chamado Joel Cairo, um homem gordo que dá pelo nome de Gutman e Brigid O'Shaughnessy, uma bela e traiçoeira mulher cuja lealdade muda com um tilintar de moedas.


O filme é a adaptação de um livro de Dashiel Hammett, O Falcão de Malta, cuja tradução portuguesa, de Baptista de Carvalho, é o número 34 da Colecção Vampiro. Por aqui existe também uma edição de “A Regra do Jogo”, traduzida por Helena Domingos, número 2  da Série Negra.


O livro começa assim:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verdes claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado caprichosamente invertido. O cabelo castanho claro tinha como fronteira uma testa alta a despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava assim, no centro, um “bico de viúva”. À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine_
- Que se passa, meu amor?

O The Times Lierary Suplement considerou que O Falcão de Malta não é apenas a melhor história de detectives que alguma vez lemos; é um romance extraordinariamente bem escrito, enquanto que o The Boston Globe considerava que Dashiel Hammett é um mestre das histórias de detectives, sim, mas também um escritor dos diabo  e o The New York Times que a prosa de Hammett é limpa e totalmente excepcional. As suas personagens são as mais perspicazes e concisamente definidas da ficção americana.


No filme de Huston, são soberbas as interpretações de Humphrey Bogart e Mary Astor,  mas é justo salientar o desempenho de Peter Lorre na pele de um amaricado Joel Cairo.

O filme tem excelentes diálogos, Na lista do American Film Institute para as cem melhores linhas de diálogo da história do cinema, há uma citação para Relíquia Macabra, quando no final o idiota inspector de polícia, depois de prender Brigid, pega na estatueta negra, vira-se para Sam e pergunta:


“É pesada. O que é?”

Sam Spade responde-lhe:

- É aquilo de que são feitos os sonhos.

Fiquemos com dois deliciosos diálogos do filme. O primeiro entre Sam Spade e Mr. Gutman, o outro entre o mesmo Sam e Brigid, quando ele lhe diz que sabe que ela matou o seu sócio e a vai denunciar à polícia:

Gutman – É um homem reservado?

Sam – Não, gosto de falar.

Gutman – Desconfio dos homens reservados. Normalmente escolhem mal a altura para falarem e dizem disparates. Falar é uma coisa que não se faz judiciosamente a não ser que se pratique muito. Se quiser podemos falar. Digo-lhe desde já que sou um homem que gosta de falar com um homem que gosta de falar.

Sam – Óptimo. Vamos falar do pássaro negro?

Gutman – É o homem certo para mim. Nada de rodeios: direito ao assunto. Falemos do pássaro negro. Pois, como sabe, no auge da acção os homens tendem a esquecer o que é melhor para eles e deixam-se levar pelas emoções.”

 “Sam – Se tiveres sorte, daqui a vinte anos sais da prisão, e nessa altura volta para mim. Espero que não te enforquem por esse pescoço lindo.

Brigid – Não vais

Sam – Vou pois, meu anjo. Deves apanhar prisão perpétua e se portares bem, sais daqui a vinte anos. Estarei à tua espera. Se te enforcarem, hei-de sempre lembrar-me de ti.

Brigid – Sam, não digas isso nem a brincar. Por um momento assustei-me. Pensei que ias mesmo… Fazes coisas tão estranhas e imprevisíveis!

Sam – Não sejas tola. Vais mesmo dentro. Mataste o MIles e vais pagar por isso.

Brigid – Como podes fazer-me isso. De certeza que o Archer não significava tanto para ti como…
Sam – Ouve, não vale a pena. Nunca vais compreender-me, mas vou tentar uma vez. Quando o colega de alguém é morto, esse alguém tem de fazer alguma coisa. Não interessa o que se pensava dele. Era colega, e há que fazer qualquer coisa e acontece que estamos na actividade de detectives. Quando alguém da organização é morto é mau deixar-se o criminoso fugir. É mau para toda agente. É mau para todos os detectives. Se tudo isto não significa nada para ti, então esquece tudo e ficamos assim; não faço o que queres, porque eu o quero também apesar das consequências, e porque estás a contar que eu o faça, tal como contaste com os outros também.

Brigid – Terias feito isso se o falcão fosse verdadeiro e tivesses recebido o dinheiro que esperavas?
Sam – Não penses que sou tão malandro como se pensa. Esse tipo de fama talvez fosse bom negócio, chamando trabalhos que pagassem bem e tornando mais fácil lidar com o inimigo mas muito dinheiro teria sido mais peso do teu lado da balança.

Brigid – Não esperas que o que estás a dizer seja razão suficiente para me mandares prender.
Sam – Deixa-me acabar, depois falas. Não tenho razão nenhuma para acreditar em ti e se eu te deixasse escapar terias sempre algo de que me  acusar sempre que quisesses como tenho agora contra ti, não sei se um dia não me darias um tiro. Tudo isso pesa de um lado. Nem todos estes factores são importantes. Não discuto isso. Mas vê quantos são. E do outro lado, o que é que temos? Que tu talvez gostes de mim e que eu talvez goste de ti.

Brigid – Sabes se gostas de mim ou não?

Sam – Talvez. Vou ter noites horríveis depois de te mandar prender mas isso passa.

Brigid – Se gostasses de mim, não precisavas de mais pesos desse lado”.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

TARDE DE CHUVA

iLuís Sepúlveda, o autor de O Velho Que Lia Romances de Amor, dizia que nada melhor no Inverno que a acompanhia de um bom conhaque e das Obras Completas de Georges Simenon.

Não estamos no Inverno, mas chove na tarde de Lisboa e, talvez por isso, os romances policiais vieram-me à lembrança.


Os dias do meu pai em Almoçageme eram passados a ler romances policiais. A esmagadora maioria dos volumes da Colecção Vampiro que por aqui estão, foi ele que os comprou. No intervalo das leituras subia ao Café Adraga, pedia ao João uma sandes mista em pão saloio – não te esqueças que é aparada! – e fazia descer, bem fresca, meia garrafinha de branco Beira-Mar.

Tenho um recorte de jornal que fala da Colecção Vampiro. 


Lamentavelmente não tem indicação, nem do autor, nem do jornal mas acho-o uma maravilha. Reza assim:

António Gedeão, poeta, escreveu: “A terra do meu pai era pequena e os transportes difíceis. Não havia automóveis, nem aviões, nem mísseis.” Mas havia com certeza, livros da Vampiro. A Vampiro não é uma colecção. É uma instituição. Uma perseguição. Nasci e minha mãe, combalida, lia entre duas mudas de fraldas, “A Morte de Lord Edgware”, de Agatha Christie. Mais tarde, o pai do meu amor embalou-a, numa tarde de domingo, com a mão esquerda apenas, pois a direita segurava o “O Caso da Loura Provocante”, de Stanley Gardner. Em 1969, o Homem pisava pela primeira vez a Lua e a minha irmã lia o “O Ouro da Evasão”, de Frank Gruber. Cinco anos depois, o 25 de Abril interrompeu-me a leitura de “Seis Segundos Para Matar”, de Brett Halliday, e, aqui há tempos, levei para a maternidade, enquanto esperava que a minha filha nascesse, “O Mistério da Estrela da Manhã”, outra vez de Agatha Christie.

Ainda por romances policiais.


Em tempos, o JL pediu, a alguns escritores e cineastas portugueses, que escolhessem os melhores livros da Colecção Vampiro.

Esta foi a escolha de Dinis Machado:

O Imenso Adeus – Raymond Chandler
Perdeu-se Uma MulherRaymond Chandler
O Erro de Maigret Georges Sinenon
O Assassinato de Roger Ackroyd Agatha Christie
Os Crimes do BispoS.S. Van Dine
A Chave de Vidro Dashiell Hammett
O Caso sos Bombons EnvenenadosErle Stanley Gardner
O Homem do Fato Castanho Agatha Christie
A Aldeia de VidroEllery Queen
O Sinal do Morto John Dickson Carr
Um Homem de TalentoPatrícia Highsmith.

Para mim, O Imenso Adeus de Raymond Chandler, na brilhantíssima tradução de Mário-Henrique Leiria, é mesmo o melhor livro da colecção. 


A ele tenha voltado vezes que já não consigo contar:



Gosto dos bares à tardinha, logo que abrem. Quando ainda há ar fresco e limpo e tudo está luzidio e o tipo do bar dá a última olhadela aoa espelho para verificar se a gravata está direita e o cabelo bem liso. Gosto das garrafas arrumadas nas prateleiras do fundo e dos copos bem brilhantes e da sensação de antecipação que se tem. Gosto de ver o homem misturar a primeira bebida da tarde e pô-la no bar com o pequeno guardanapo bem dobrado ao lado. Gosto de a saborear sem pressa. A primeira bebida sossegada num bar sossegado – é estupendo!
Eu concordei.
- O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é intenso e o terceiro é rotina. Depois só resta despir a rapariga.
- E isso é mau? – perguntei-lhe.