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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

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Embarque em Brindisi

Agustina Bessa-Luís

Capa: Luís Filipe Cunha

Parque Expo 98, Lisboa Abril de 1998

Foi em Brindisi. Não sei me expliquei bem, as letras não servem às vezes ao coração da realidade. Mas penso que um rosto humano é feito de momentos assim, de continuidade, de paixão que não erve aos homens senão para que resistam ao seu grande espanto de viver. Assim é. Vejo Brindisi ao cair da tarde, cidade portuária e desenganada, com grandes bonecas encaixadas às portas, vestidas de azul e rosa. Como meretrizes honestas e sem alma. E os inglesinhos de compridos cabelos, de queixos agudos, feios. A excentricidade deles, os moços de bordo em mangas de camisa, a fuligem nos bancos do convés, a partida de Brindisi à noite e o rulho do mar à noite. E aquele imóvel rosto, aquela recusa fria, o sádico encanto do amor que resistia a participar e a ser. E a beleza, prodígio para sempre pobre e desamparado, não embarcara em Brindisi. Não embarcava em parte alguma, eu tinha a certeza disso. 

quarta-feira, 26 de julho de 2023

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O Livro de Agustina

Agustina Bessa-Luís

Capa: Ilídio J.B. Vasco

Guerra e Paz Editores, Lisboa, Setembro de 2007

Esta é a minha história que a memória abreviou, quando não é que a modéstia e repreende. Somos sempre muito faladores com o insignificante e muito calados com o que nos assusta. Assusta-nos o íntimo das nossas vidas, por passarmos todas as portas sem pensar que elas se fecham sempre atrás de nós. Não podemos voltar para compor o inacabado ou as palavras soltas ou a que faltou a experiência. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

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As Estações da Vida

Agustina Bessa-Luís
Prefácio: António Barreto
Capa: Carlos César Vasconcelos sobre fragmento de Le Train dans la neige
           De Claude Monet
Relógio d’Água, Lisboa, Outubro de 2018

A viagem de comboio tinha um cunho espirituoso. Sempre se encontravam pessoas raras, porque a província preservava o indivíduo e conservava o seu dialecto e os seus costumes. Eram recoveiras, caixeiros-viajantes, gente do negócio e do contrabando, estudantes em férias ou que as tinham terminado, padres e professores; e um sem-número de passageiros precavidos com um farnel de pombos estufados em vinho do Porto e cavacas de Resende. Comida de gente regalada e antiga como havia na província profunda.

domingo, 16 de dezembro de 2018

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A Mãe de um Rio

Agustina Bessa-Luís
Babel, Lisboa, Outubro de 2014

Antigamente, sim, antigamente, a terra tinha a forma quadrada e um rio de fogo corria na superfície. Não havia aves nem plantas, as águas estavam nos ares como nevoeiros cor de ferro e os ventos não as tinham distribuído ainda pelos quatro cantos agudos da Terra. Onde estava o peixe minúsculo de ventre negro, ou as bonitas serpentes de escamas verdes? Não existia o trigo nem a mão humana, nem mesmo o sono ou a dificuldade, que foi o segundo grito da criação. Passamos hoje por um caminho que tem nele marcado outras pegadas, e ocorrem-nos as histórias doutras idades. Por deserto que esteja o campo e frio o sol, o tempo está presente e nos penetra de sabedoria e fortaleza. A única solidão é aquela que não tem passado.
Se hoje percorrermos um velho lugar inóspito, como a serra da Nave, mil lembranças nos acodem, e cada pedra desconhecida, cada ramo de acónito e de malvaísco nos apresenta uma parada de vidas, de funções, de razões e de espiritualidade. Temos que morrer um dia, mas que deixemos no solo húmido a sombra da nossa obediência mortal.
Mas comecemos a história da mãe de um rio.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

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A Sibila

Agustina Bessa-Luís
Guimarães Editores, Lisboa 1998


É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos , sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas , os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol , para viver um dia mais, equivalem-se , não como valores de aptidões ou de razão , não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase sem esperança sem nome.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

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Aquário e Sagitário

Agustina Bessa-Luís
Capa: Francisco Previdência
Colecção Brevíssima nº 2
Contexto Editora, Lisboa s/d

Ainda hoje pasmo e digo: “Para o que me deu!”
Mas, escrever uma novela policial nos anos 50 pareceu-me, penso eu, uma forma de homenagem aos autores que me consolaram duma vida de mulherzinha, agradável sim, mas sem os recursos da invenção que resulta do mundo exterior, o perigo, a aventura da jungle humana ou, simplesmente, o cinema de bairro.
Santa Teresa teria escrito livros de cavalaria, se fosse homem. Eu, quando li Lovcraft, reconciliei-me com a vocação precoce dos mistérios terribilíssimos em que mergulhava, antes de saber que era escritora também.
Perdi-me de admiração por Edgar Poe e de amor incompreendido por Sherlock Holmes, uma e mesma pessoa.
Neste livro, com o seu aquário gigante e um cinismo lírico, passa a sombra de Orson Welles. Também ele amou os mistérios, as situações bizarras, o mundo dos ricos e as suas ideias sérias sobre tudo o que os conserve faraonicamente nas suas criptas.
Este pequeno volume, prenúncio duma neurastenia de escritor entre o desespero e o pressentimento do sucesso, é como uma dentada no mundo das letras. Tem um sabor profético doutro sal e doutros sabores. O que viria a seguir.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

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Agustina por Agustina

Entrevista conduzida por Artur Portela Filho
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Figuras nº 2
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 1986

Evidentemente que Portugal é Europa. Mas uma Europa de refugiados, um lugar mantido em independência para servir de exílio a vencidos e enganados. Uma Suiça doutro padrão, onde nada se agita e tudo se murmura. Portugal foi mundo de mercadores, pátria para imigrados, delícia dos tímidos e calamidade para santos e perversos. Para o meio termo é boa casa, e não digo em tom pejorativo, muito pelo contrário. E Alijó, no tempo das cerejas, tem a medida de Wall Street.

domingo, 2 de outubro de 2016

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Crónica da Manhã

Agustina Bessa-Luís
Organização e fixação do texto: Alberto Luís e Lourença Baldaque
Babel Editora, Outubro de 2015

Quem não tem uma boa nostalgia provinciana feita de ensinamentos ambíguos e pequenas histórias pícaras, não tem país, nem estrela que o informe.
Quando eu era criança passe muito tempo na aldeia, por temporadas que às vezes me pareciam uma vida. Aprendi que não há nada que seja hostil, entre o que í importante. Há umas coisas mais inseguras do que outras e o encontro pode ser mortal algumas vezes; mas a hostilidade não existe fora da estratégia e da burocracia da convivência.Quando alguém era lúcido chamava-se fino; e quando era inapto dizia-se que não compreendia. Ora, havia maneira de ligar essas duas situações mentais. Se alguém se podia qualificar como um homem fino mas que não compreende, tínhamos que inferir o seguinte: que era hábil para o comum, mas impróprio para coisas que exigem imaginação.

sábado, 13 de setembro de 2014

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Caderno de Significados

Agustina Bessa-Luís
Selecção, organização e fixação de texto: Alberto Luís e Lourença Baldaque
Edição Babel, Lisboa, Outubro de 2013

Tempos áureos em que ler um livro era uma descoberta ao mesmo tempo simples e maravilhosa. Creio que James Joyce fala da deliciosa emoção de temas como A Filha do Capitão, de Pouchkine. A banalidade era de uma indescritível sedução, com tantos bandidos, mulheres indefesas, duma juventude eterna e cabelos que não embranqueciam. Agora, esse prazer acabou; não leio mais com nervosismo as peripécias dos grandes folhetinistas, nem os piratas de Mindanau me fazem impressão. Salgari, os contistas russos, a melancolia da história sem objectivo, tudo isso não tem mais lugar na minha vida. Agora inclino-me para livros sábios e astuciosos; mas não gosto deles. O prazer tem que nos intimidar, para ser sincero. Os livros já não me intimidam; quer dizer que não me alegram nem fazem chorar. São panfletos ou são tratados, mas já não são aquele livro que se lia depressa, comendo maçãs, e deixando ao acaso a alma em que o segredo suspira

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

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O Mistério da Légua da Póvoa

Agustina Bessa-Luís
Capa: Vasco Rosa
O Independente, Lisboa Novembro de 2004

Eu aprendi a ler nos folhetins. Antes de dar entrada na paróquia do ensino primário, já eu conhecia os segredos do Vaticano e os seus tumultos chefiados por César Bórgia. Sem Falar da corte da rainha Margot e as desventuras do Máscara de Ferro. O folhetim foi o meu mundo pós-familiar em que todos os conflitos da personalidade são postos à prova. Conhecemos a inveja, a cobardia e o amor como se fossem azares e não razões. Eu creio que a presença do espírito perante a vida vem desse encontro com as peripécias que não nos atingem, só nos alimentam a imaginação. Aprendemos a não desiludir porque não aspiramos ser protagonistas de nada deste mundo. Bastamo-nos com ser parceiros na história que, por ser fingida, nos dá a garantia de ser inofensiva. Passa-se com os outros, e portanto temos a liberdade melhor de todas que é a de acreditar que estamos a salvo de tudo o que sucedeu e sucederá.