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segunda-feira, 23 de junho de 2025

DE BOLORENTOS LIVROS RODEADO

De bolorentos livros rodeado

moro, Senhor, nesta fatal cadeira

de quinze invernos a voraz carreira

me tem no mesmo posto sempre achado.

 

Longo tempo em pedir tenho gastado,

e gastarei talvez a vida inteira;

o ponto está em que quem pode queira,

que tudo o mais é trabalhar errado.

 

Príncipe augusto, seja vossa a glória:

fazei que este infeliz ache ventura;

ajuntai mais um facto à vossa história.

 

Mas, se inda aqui me segue a desventura,

cedo ao meu fado, e vou co’a palmatória

cavar num canto da aula a sepultura.

 

Nicolau Tolentino em Sátiras 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

PASSEI O RIO QUE TORNOU ATRÁS

Passei o rio que tornou atrás,

se acaso é certo o que Camões nos diz,

em cuja ponte um bando de aguazis

registam tudo quanto a gente traz.

 

Segue-se um largo. Em frente dele jaz

longa fileira de baiúcas vis.

Cigarro aceso, fumo no nariz,

é como a companhia ali se faz.

 

A cidade por dentro é fraca rês;

as moças põem mantilhas e andam sós,

têm boa cara, mas não têm bons pés.

 

Isto, coifas de prata e de retrós,

e a cada canto um sórdido marquês,

foi tudo quanto vi em Badajoz.

 

Nicolau Tolentino em Sátiras

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Sátiras

Nicolau Tolentino

Selecção, Prefácio e Notas de Rodrigues Lapa

Colecção Textos Literários

Seara Nova Editora, Lisboa, 1960

 

Nesta cansada, triste, poesia

vedes, Senhor, um povo pertendente,

que aborrece o que estima toda a gente:

que é ter no mundo cargos e valia.

 

Sobre alto trono há anos que regia

de dócil povo turba obediente;

mas quer antes sentar-se humildemente

num banco da Real Secretaria.

 

Qual modesto capucho reverendo,

que, em fim de guardiania trienal,

passa a porteiro, as chaves recebendo,

 

Em mim conheço vocação igual:

e co’a mesma humildade hoje pertendo

passar de mestre a ser oficial.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

SONETO


A carnal tentação desenfreada
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede
Subisse de uma puta a infame escada.

Ligeiras pulgas saltam de emboscada
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela pregada na parede,
Já de antigos morrões afogueada.

Saiu da alcova a desgrenhada fúria
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, sórdida penúria:

Muito pode a pobreza e a porquidade;
Abati as bandeiras à luxúria
Jurei no altar de Vénus castidade. 

Nicolau Tolentino em Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Edição de Fernando Ribeiro de Mello, Lisboa s/d

Legenda; ilustração de Cruzeiro Seixas.