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sábado, 13 de abril de 2024

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

O Luís Miguel Mira já nos prometeu que irá voltar às crónicas de viagens mas, por agora, anda entretido a divulgar grandes filmes, todas as quartas-feiras, pelas 15,30 horas na:

Nova Atena
Universidade Senior
Rua Almeida Garrett, 20
Linda-a-Velha

Na próxima quarta-feira, dia 17 de Abril, é a vez de O Fantasma Apaixonado de Joseph L. Mankiewicks, rigorosamente a não perder.

                                      O FANTASMA APAIXONADO (1947)

                                              (The Ghost and Mrs. Muir))

 

Realização:      Joseph L. Mankiewicz

Argumento:     Philip Dunne, com base num romance de R. A. Dick 

Montagem:     Dorothy Spencer 

Fotografia:       Charles Lang  

Música:             Bernard Herrmann             

Direção Artística:  Richard Day e George W. Davis

Interpretação:    Gene Tierney (Lucy Muir), Rex Harrison (o fantasma do Capitão Gregg), George Sanders (Miles Fairley), Edna Best (Martha), Vanessa Brown (Anna Muir adulta), Natalie Wood (Ana Muir criança), Isobel Elson (Angelica, a sogra), Victoria Horne (Eva, a cunhada), Robert Coote (Coombe), etc       

Produção:       Fred Kohlmar, para a 20th Century Fox    

Duração:     104 mn

 

Aqueles de melhor memória lembrar-se-ão, certamente, que ainda há muito pouco tempo vos falei aqui de Joseph Mankiewicz, a propósito de “Os Três Camaradas”. Era ele o produtor com quem Francis Scott Fitzgerald se zangou, acusando-o de ter destruído o argumento que ele escrevera para esse mesmo filme.

Mas antes de ser produtor para a Metro Goldwin Meyer, entre 1935 e 1942, já Mankiewicz fora argumentista, primeiro na Paramount, na qual entrou em 1929 pela mão do seu irmão mais velho Herman, igualmente argumentista de muito sucesso àquela época (quem tiver visto na Netflix o filme “Mank”, de David Fincher, lembrar-se-á dele…), e depois já na própria MGM entre 1933 e 1935, antes de ter ascendido a produtor.

Como realizador, Mankiewicz teve uma brilhante estreia em 1946 com “O Castelo de Dragonwyck, e viria a realizar um total de vinte filmes entre essa data e 1972.

Talvez alguns de vós se lembrem de “A Condessa Descalça”, de 1954, mas seguramente que todos se recordarão de “Cleópatra”, realizado em 1963 e interpretado pelo casal/vedeta daqueles tempos, Elizabeth Taylor e Richard Burton.

Quando morreu, em 1993, tinha Mankiewicz quatro Óscares na sua estante, que lhe vieram aos pares em dois anos consecutivos: em 1950 pela melhor Realização e pelo melhor Argumento de “Carta a Três Mulheres”, e no ano seguinte idênticos prémios por “Eva”.     

E passemos, então, a “O Fantasma Apaixonado”.

Ao ver de novo este velho filme, que já não revia há alguns anos, dei comigo a pensar nesta estranha coincidência…

Programei, muito próximos um do outro, dois filmes de “fantasmas apaixonados” que acabam ambos quase de forma idêntica, com os fantasmas a virarem-nos as costas e a partirem através do nevoeiro não se sabe bem para onde, mas seguramente que para lá onde o seu amor surreal continuará a ser possível, contra tudo e contra todos.

Feliz coincidência.

Ou talvez não…

Talvez que eu goste muito dessa ideia de fantasmas apaixonados.

Mas adiante…   

O filme inicia-se em Londres nos primeiros anos do Séc. XX e conta-nos a história de Lucy Muir, uma jovem e bonita viúva que, cansada da vida citadina e - percebemo-lo rapidamente … - farta de aturar a sogra e a cunhada com quem vivia, decide mudar-se para Whitecliff-By-The-Sea, um lugar à beira-mar no Atlântico, levando consigo Anna, a sua filha de tenra idade, bem como Martha, a sua fiel empregada doméstica. 

Com grande relutância do Sr. Coombe, promotor imobiliário local, Lucy insiste em alugar “Gull Cottage”, uma casa antiga situada mesmo por cima da praia, onde antes vivera (e, alegadamente, se suicidara) o Capitão Daniel Gregg, seu antigo proprietário, mesmo depois do Sr. Coombe ter procurado insistentemente dissuadi-la, garantindo-lhe que coisas muito estranhas haviam ocorrido nessa mesma casa a quem antes a tinha tentado alugar.

De facto, logo numa das primeiras noites, Lucy recebeu a visita do fantasma do Capitão, que lhe contou a sua história e, comovido pela forma como Lucy se prendera de amores pela casa, apesar de todos os conselhos em contrário, aceita mantê-la durante um período experimental, embora desde logo a avise que o seu verdadeiro desejo é o de transformar a casa em lugar de asilo para velhos marinheiros aposentados. 

Essas visitas passam a repetir-se frequentemente ao ponto de uma certa cumplicidade amorosa se ter vindo instalar entre eles.

Pouco tempo depois de se ter mudado Lucy recebe a visita da sogra e da cunhada que, com indisfarçável satisfação, lhe transmitem a notícia de que ela se encontra arruinada, uma vez que a mina de ouro que herdara de seu marido e de cuja atividade provinham os seus rendimentos, se esgotara e fora definitivamente encerrada.

O risco de ser posta na rua por falta de pagamento das suas rendas era grande, mas Lucy, nada interessada em corresponder aos ostensivos cortejos que o Sr. Coombe lhe fazia, acaba por, com a cumplicidade do fantasma, encontrar uma solução que lhe permitirá não só pagar as suas rendas em atraso, como, também, comprar a própria casa. Com a ajuda do Capitão Gregg, escreve as memórias deste e o livro é aceite por um editor londrino, que logo antevê nele um grande sucesso literário.

Na mesma editora, Lucy encontra um elegante e galanteador escritor de livros para crianças conhecido por Uncle Neddy, mas que na verdade se chama Miles Fairley. Lucy não resiste à sedução e aos avanços de Fairley e aceita a sua proposta de casamento, o que faz com que o fantasma do Capitão dela se venha nessa mesma noite despedir, com a promessa de não mais a incomodar.

Mas as coisas não correm de feição para Lucy que, ao pretender visitar Fairley de surpresa na sua residência londrina, vem a descobrir que não só ele já era casado, como também pai de duas crianças, dando-lhe a mulher a entender que comportamentos sedutores dessa natureza também já ele os tinha tido com muitas outras mulheres, antes dela.

Perante tamanha desilusão, nada mais resta a Lucy senão regressar a Gull Cottage e deixar o tempo passar.    

Bela e triste história, esta de Mrs. Muir…

Pelo sonho é que vamos, dizia Sebastião da Gama, e foi pelo sonho que Mrs Muir foi…


Desde muito nova confundiu o sonho com a realidade. Tinha lido num livro que dois apaixonados se beijaram num jardim e viveram felizes para sempre, e assim, quando aos 17 anos se viu ela própria beijada no pomar de sua casa, Mrs. Muir embarcou no sonho pela primeira vez…

Não saberemos porquê, mas enviuvou muito cedo e o tempo de casada não lhe deve ter deixado doces memórias.

Quanto ao nascimento da filha, não foi mérito seu, mas, segundo confessa, algo que lhe aconteceu…

Da companhia da sogra e da cunhada, então nem se fala…

Do mar - conta-nos ela mais tarde - nada sabia a não ser que era romântico, e assim, no meio sufocante onde vivia, não é de estranhar que Mrs. Muir tenha desenvolvido um tão grande desejo nostálgico pela costa, lá onde as ondas rebentam na praia e as gaivotas esvoaçam pelos ares.

E com uma tão grande apetência pelo sonho, também não será de admirar que Mrs Muir se tenha sentido, de imediato, atraída pela casa, pela sua decoração e pela ideia de vir a ter um fantasma por companhia.

Depois, tal como Alice, passou para o outro lado do espelho e por lá navegou, noites sem fim.

Pensou Mrs. Muir que esse sonho de uma paixão empolgante e duradoura se poderia materializar na realidade e foi profunda a sua desilusão… 

Mrs. Muir sonhou uma vez muito jovem, e voltou a sonhar de novo mais crescida, ao ser beijada pela segunda vez no pomar…   

Mas quando a realidade se mostra tão distante dos sonhos que sonhámos, muita vez se opta por não dar ao sonho uma nova oportunidade.

Deixa-se, então, de sonhar, mas a memória do sonho, essa ninguém nos tira…

Vagueia-se sozinha pela praia…

Ouve-se o barulho do mar e os gritos das gaivotas, lá ao longe…

Vai-se á noitinha para a varanda sentir a maresia e olhar o mar, mesmo nas noites de maior nevoeiro. Sobretudo, nas noites de maior nevoeiro…

E, sem se saber muito bem como nem porquê, deixa-se o tempo passar…  

E foi tudo isto que aconteceu a Mrs. Muir.

Alma insatisfeita e sonhadora, mais do que se apaixonar por um morto, Mrs. Muir criou para si própria todo um mundo paralelo, compensando, dessa forma, as deceções e as desilusões de toda uma existência carregada de frustração (“Nunca tive uma via própria. Sinto-me inútil. Aqui estou, quase na metade da vida, e o que fiz? Cozinhei carne para alimentar um hipopótamo e conservei o nome Huguins bem limpo…”, desabafa ela com a sogra e a cunhada).  

Mais tarde, quando tenta explicar à sua empregada a atração que sente por Miles Fairley, diz-lhe : “Ele é real!. Acreditei que era insensível às emoções, numa vida respeitável com uma filha pequena. Mas não sou e preciso de todas as coisas que uma mulher precisa. Preciso de companhia e de risadas. Acho que preciso de amor…”

Depois, quando tudo se desmorona, ficam as memórias (“as memórias, eu tenho-as, mesmo que tudo não tenha passado de um sonho”, confessa ela à empregada. E à filha já crescida, que lhe vem anunciar o seu noivado e o desejo de a levar a viver com ela para fugir à reclusão e à solidão em que se encontra, Mrs. Muir dá-lhe a entender que a sua solidão é acompanhada (“Pode estar-se muito mais só ao lado de outras pessoas do que consigo própria, e mesmo ao lado de pessoas que se ama. Amo esta casa e viverei aqui até morrer”) 

Neste filme, que o crítico e historiador francês Jacques Lourcelles considerou “um dos mais belos produzidos em Hollywood” (1), tudo parece estar na mais absoluta das perfeições: a fotografia, a música, os diálogos, os atores, …

Em relação á fotografia de Charles Lang, dezoito vezes nomeado para o Óscar da Melhor Fotografia em toda a sua carreira (uma delas pelo filme de hoje), mas uma só vez vencedor (em 1933, com “O Adeus às Armas”, de Frank Borzage), para além de realçar a fluidez e a beleza de uma camara versátil que sobe e desce escadas e desliza pelas paredes, chamo apenas a vossa atenção para o sublime jogo de luz e sombras na cena da segunda aparição do fantasma, nessa noite de tempestade em que  velas, luzes e lumes sucessivamente se acendem e se apagam, até que reduzidíssimos focos de luminosidade incidam sobre o rosto da protagonista, acentuando o mistério de toda a cena.

No que respeita à música de Bernard Herrmann, um dos mais célebres Diretores Musicais da História do Cinema Americano (era o favorito de Alfred Hitchcock…), apenas também um só exemplo, para não vos maçar muito mais: na cena em casa de Miles Fairley, quando a mulher deste confessa a Mrs. Muir os antecedentes mulherengos do marido, quando a música subitamente irrompe não foi apenas ela quem recebeu uma punhalada no coração naquele momento, mas também nós, espectadores…

A Mankiewicz chamaram “cineasta da palavra”, tal a importância que os diálogos assumem na construção dramática dos seus filmes. Em muitos deles foi ele próprio o responsável pelo argumento, mas mesmo quando tal não sucedeu ele nunca deixou de “meter a sua colherada”. É o caso do filme de hoje, em que consta que uma boa parte do diálogo da cena de despedida do fantasma (que João Bénard da Costa considerou ser “a mais bela sequência de sempre da história de Hollywood” (2)  (“Você tem sonhado, sonhado com um capitão do mar que assombrava esta casa, das conversas que teve com ele. Mas foi um sonho, Lucia. Amanhã e nos dias seguintes recordará isto como um sonho, e ele morrerá, tal como todos os sonhos morrem ao acordarmos…”)), bem como quase todos os diálogos em que intervém George Sanders, terão sido de sua exclusiva responsabilidade, e não de Philip Dunne, que é o argumentista creditado no genérico. 

Finalmente, os atores: Gene Tierney, uma das mais belas e enigmáticas atrizes do Cinema Americano, aqui no auge da sua carreira; o inglês Rex Harrison, excelente no papel do fantasma truculento e irrascível, apenas no segundo dos filmes que fez na América; a muito jovem Nathalie Wood, que alguns de vós se lembrarão de ter visto numa destas sessões em “O Esplendor da Relva”, aqui com apenas 7 anos, mas já no seu terceiro filme; o magnífico George Sanders, deliciosamente cínico e manipulador como só ele soube ser; e ainda uma panóplia de excelentes secundários, dos quais apenas destoa, em minha opinião, Vanessa Brown, que desempenha o papel de Anna adulta.   


Há tantas, tantas imagens deste filme que ficam dentro de nós para sempre: Mrs. vestida de luto, com o chapeuzinho na cabeça;  as janelas que se abrem e se fecham; a praia, o mar e as gaivotas a esvoaçar; as portentosas cenas do mar a bater nas rochas  (de novo a força da música de Bernard Herrmann…), com o “leitmotiv” da estaca de madeira para acentuar a passagem do tempo, enquanto Mrs. Muir vagueia pela praia como se saída de uma tela de Noronha da Costa. E, é claro, a inesquecível cena final 

Aqui chegados, tenho de vos confessar que este é um daqueles filmes em relação aos quais quanto mais falamos mais sentimos que o essencial ficou por dizer, como se toda a sua beleza, perfeição e a emoção que nos suscita  fossem do domínio do indizível…

E se me faltam as palavras, então nada melhor que concluir dando a palavra a quem destas coisas do Cinema sabe e sente bem mais do que eu:

“Não há filme mais triste. Não há filme mais bonito. Deixem-me ficar ao pé da mulher que nasceu tarde demais para atravessar os sete mares e para ver o sol da meia-noite. Deixem-me ficar ao pé do capitão que morreu cedo demais para a poder beijar ou para poder deitar-se com ela. Ou deixem-me acreditar que não há cedo nem tarde e que o único amor que existe - porque é o único em que acreditamos que existe – é o “amor surreal”, esse que Rex Harrison e Gene Tierney encontram no final, quando desaparecem na névoa, atravessada a última porta”. (2)

PS:

Já não tive espaço para vos falar da importância do retrato em muitos filmes americanos  dos anos 40/50, enquanto detonador do sonho e do desejo, como é o caso evidente do filme de hoje. Talvez que na apresentação em sala haja oportunidade de falarmos nisso.  

  1. LOURCELLES, Jacques, “Dictionnaire du Cunema – Les Films”, Edição Robert Laffont, 1992, pág. 101
  2. DA COSTA, João Bénard, “Escritos Sobre Cinema – Tomo 1, 4º Volume”, Edições Cinemateca Portuguesa, 2021, pág. 365. A afirmação vale o que vale, porque sabemos que Bénard da Costa disse, com igual convicção, exatamente a mesma coisa de muitas outras cenas de muitos outros filmes…
  3. Idem, pág. 366   

 LUÍS MIGUEL MIRA

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

PANDORA, A MULHER QUE POR AMOR SE DEIXOU MORRER


            “The measure of love is what one is willing to give up for it”

                             (Do filme  “Pandora and the Flying Dutchman”


Numa praia algures no Sul de Espanha, pescadores retiram as suas redes do mar e alguém repara que, juntamente com a faina diária, foram retirados das águas dois corpos entrelaçados de um homem e de uma mulher.

Alertadas pelo estranho acontecimento, que faz tocar os sinos da igreja, as gentes do povoado ocorrem à praia, entre elas um velho arqueólogo que irá assumir o papel de narrador. É então que a história nos começa a ser contada, em “flashback”, e a primeira coisa que o narrador nos diz é o que escolhi para epígrafe, ou seja, que a medida do amor é tudo quanto estejamos dispostos a perder por ele. E desde logo ficamos a suspeitar que, na história que nos vai ser contada, alguém, por Amor, esteve disposto a perder muita coisa…

A história será a de Pandora Reynolds, uma cantora americana que percebemos ter pisado os palcos de Londres e de Nova Iorque, mas que não fazemos a mínima ideia (nem jamais ficaremos a fazer…) do que faz perdida naquele porto piscatório de Esperanza, no Sul de Espanha. Nem ela nem a estranha “entourage” de amigos que a acompanham e que mais parecem exemplares de uma geração perdida saída de um romance de Scott Fitzgerald.

Na primeira vez que a vemos, Pandora está sentada ao piano com um fabuloso vestido prateado a tocar e a cantar o “How Am I to Know”, de Jack King e Dorothy Parker:

“But oh,

How am I to know

Can it be that love

Has come to stay here?”


Se está ansiosamente à espera de um amor, não é, certamente, o de um amigo poeta que a acompanha e que a pede em casamento (percebemos que pela enésima vez…) o que ela, uma vez mais, recusa, levando-o, pouco depois, a suicidar-se com veneno misturado num copo de vinho.

Pandora não demonstra qualquer arrependimento pelo sucedido, e esta é a primeira de muitas desgraças que acontecerão à sua volta.

O poeta suicida-se, um corredor de automóveis que durante dois anos preparara uma viatura para tentar bater um recorde de velocidade atira viatura do alto de uma falésia, apenas porque ela assim o pedira como prova do seu amor, um toureiro morre em plena praça, …

À primeira vista Pandora parece-nos ser uma mulher má, muito má…  Embora suspeitemos de que é alguém que nunca foi muito feliz nos amores, não conseguimos entender o que lhe vai na Alma. Mas a verdade é que também logo no início do filme o narrador já nos avisara que “to understand one human’s soul is like trying to empty the sea with a cup”.

Não vos irei maçar contando-vos todas as peripécias do filme, mas dir-vos-ei, apenas, que ele entrelaça o mito grego de Pandora com a lenda do “Holandês Voador”, que terá nascido há séculos atrás e que foi celebrada pela Cultura europeia em muitas obras, a principal das quais talvez tenha sido a ópera de Wagner “O Navio Fantasma”.

Na mitologia grega Pandora foi a primeira mulher, aquela que tinha em seu poder a boceta que, uma vez aberta, deu origem a todas as desgraças que vieram a ocorrer no Mundo. Mas Pandora ainda foi a tempo de fechar a caixa, de forma a que, dentro dela, permanecesse a Esperança.

O “Holandês Voador” matou a sua mulher no Séc XVII, acusando-a, injustamente, de infidelidade. Por isto, e por ter blasfemado contra Deus, foi condenado à maldição da vida eterna, vagueando sozinho no seu veleiro durante séculos como um fantasma, e sendo-lhe apenas permitido vir a este Mundo de sete em sete anos, por períodos de muito curta duração. Se nalgum desses momentos na companhia dos vivos uma mulher, por amor, aceitasse morrer por ele, a sua maldição terminaria.


Já se percebeu quem será a Pandora da história e o Holandês Voador chegará pouco tempo depois, fundeando o seu magnífico veleiro ao largo de Esperanza.

E se atrás referi que a Esperança foi a única coisa que ficou dentro da boceta de Pandora, é por ser a Esperança o fio condutor que parece atravessar todo o filme. Esperança do Holandês em encontrar a mulher que o liberte da sua maldição; Esperança de Pandora em encontrar o tal Amor Verdadeiro que parece evocar na sua canção, logo no início do filme. E também não será por mero acaso que tudo se passa num lugar imaginário chamado Esperanza…

É claro que a Esperança se concretiza e que Pandora e o Holandês se irão apaixonar perdidamente um pelo outro e é também claro que ela, entretanto conhecedora de toda a sua história, irá aceitar conceder a sua vida para o libertar da maldição que há séculos o atormenta. E é abraçados que os iremos encontrar, já no final do filme, quando ela lhe pergunta quanto tempo ainda lhes resta. Um ano? Um mês? Uma semana? Um dia…? Seria tão bom se ainda houvesse algum tempo mais…! O Holandês não lhe responde, mas olha para o lado e vê que o último grão de areia na ampulheta que simbolizava a sua vida se esfumou. E, nesse preciso momento, uma enorme tempestade se levanta e o mar acabará por engolir o veleiro nas suas águas.

Já perceberam, agora, que são deles os corpos entrelaçados que os pescadores retiraram do mar no início do filme.

A quem me vier dizer que não é possível dois amantes morrerem abraçados, andarem a vaguear pelas águas e virem dar à costa assim abraçados, eu direi que é, sim senhor … É essa a metáfora do Amor real, infinito e fora do tempo a que Pandora alude nas suas últimas palavras …. Como se o Verdadeiro e Único Amor só pudesse ser aquele que termina na morte dos amantes.


É por isso que Ado Kyrou, célebre teórico do surrealismo no cinema, afirma que “Pandora est la seule femme farouchement surréaliste de tout le cinema”. E acrescenta que “jamais Ava Gardner ne fut plus belle, jamais je n’ai senti aussi intensement la disponibilité de la femme pour l’amour fou”*.   

Pandora – acabámos de o perceber -  é Ava Gardner, o Holandês é James Mason (ah, a voz de James Mason neste filme…!)  e os restantes são, maioritariamente, atores ingleses hoje pouco conhecidos, já que o filme foi uma produção inglesa. O realizador foi Albert Lewin, que não deixou uma filmografia muito extensa (apenas seis filmes), mas que era conhecido por ser um dos realizadores americanos mais cultos e eruditos.

O filme é um objeto estranho, por vezes até bizarro, banhado por um clima onírico, fantástico e surreal e impregnado de uma poética de “amor louco” tão cara ao seu autor, que era amigo íntimo dos principais Surrealistas franceses da sua época.

Acabei de vos dizer que Pandora era Ava Gardner. Mas não… É muito mais do que isso…  É Ava Gardner pela primeira vez em “Technicolor”, numa beleza fulgurante como raras vezes a vimos depois, ao ponto de João Bénard da Costa ter escrito que “ninguém que não tenha visto Pandora pode alguma vez perceber quem foi Ava Gardner” **.

Chegados aqui, provavelmente já terão percebido que tenho uma “pancada” muito especial por este filme, eu que tanto aprecio melodramas e “filmes de amor”. É verdade que sim e que ele seria um dos que, sem pestanejar, levaria para a tal ilha deserta.

Mas, contada a história do filme, deixem-me também contar-vos agora a história desta minha relação muito especial com Pandora.


Um dia, já lá vão vinte e três anos, fui a Sitges, perto de Barcelona, participar num Congresso de Responsáveis de Recursos Humanos da minha Empresa, uma multinacional francesa. Fui acompanhado, nessa viagem, por um outro colega que, para além disso, era também meu amigo pessoal de longa data.

O Congresso teria lugar de quarta a sexta-feira de manhã, pelo que de imediato imaginámos a possibilidade de permanecer por aquelas bandas durante o fim de semana e usufruir das belas paisagens e da boa gastronomia da Catalunha.

Para não ficarmos sozinhos, desafiámos a juntarem-se a nós a minha Mulher e a namorada do meu amigo. E, como sempre gostávamos de juntar a um fim-de-semana gastronómico um alibi cultural, decidimos fazer o circuito do Salvador Dali na Costa Brava, começando pela sua casa de campo (o Castelo de Púbol), prosseguindo para o Museu Dali de Figueres e acabando na casa de praia de Port Lligat.

O fim-de-semana correu lindamente, e não foi só feito de petisqueira e de Dali. Lembro-me, por exemplo, de uma magnífica exposição de Raoul Dufy vista no Museu Picasso de Barcelona. Mas não é esse o principal tema desta história.

A meio da tarde de sexta-feira fomos buscar as nossas companheiras ao Aeroporto de Barcelona e seguimos viagem para Norte, pela costa, em direção a França.

Não tínhamos programado um poiso concreto para dormida e navegávamos ao sabor do vento. Mas, após algumas tentativas goradas, aportámos a um lugarejo de que nunca tínhamos ouvido falar chamado Tossa de Mar, uma estância balnear de pequena dimensão situada entre duas colinas que tinha, numas das suas extremidades, um pequeno hotel localizado mesmo em cima do areal que nos seduziu.

Com todas as voltas que demos já era tarde e tempo apenas para fazer o “check-in”, depositar as malas nos quartos e zarpar em busca de um restaurante para jantar. Relativamente perto encontrámos um que nos pareceu agradável, também junto à praia e com uma enorme janela voltada para o mar. O jantar foi prolongado porque a cataplana que pedimos levou o seu tempo a confecionar, a conversa fluía agradavelmente, bebemos bem  e não tínhamos qualquer pressa, uma vez que o problema do alojamento já estava resolvido.  A vantagem de se estar em Espanha é que o que para nós parece ser tarde, para eles é muito cedo. E ainda me lembro muito bem que, para escândalo dos meus companheiros de viagem, pedi para darem um calorzinho ao caldo que sobrou da cataplana e, para assentar, comi-o como se de uma sopinha se tratasse…

Quando saímos era já muito tarde e as senhoras não demonstraram grande empenho em dar um passeio pelo povoado, pelo que regressámos ao hotel. Aí chegados, o bar já se encontrava encerrado, o que não nos impediu de nos servirmos do que nos apetecesse, tal como na Receção nos tinham aconselhado. Se bem me lembro, enchi um copo generoso de uma Reserva Especial Carlos I que por lá havia, acendi um charuto e sentei-me na varanda do meu apartamento, com as pernas esticadas em cima de uma cadeira, enquanto a minha Mulher, já cansada da viagem, se foi deitar.


Por ali me deixei ficar durante muito tempo. A noite de finais de Junho estava aprazível, o vinho do jantar, o conhaque e o fumo do charuto a esvoaçar pelo ar começaram a produzir o seu efeito, fazendo com que de mim se apossasse uma agradável moleza e uma sensação de bem-estar, embalada pelo bater das águas do mar ali tão perto, que se deixavam ouvir até por um surdo como eu.

Ao fundo na paisagem via a outra ponta da praia, as luzes do povoado e, no alto de uma pequena colina sobre o mar, aquilo que me pareciam ser as ruínas de um velho castelo meio destruído pelo tempo, iluminadas de um amarelo quente que dava a todo aquele cenário um ar de conto medieval.

Nunca mais de esqueci dessa noite e ainda hoje, tendo voltado já tantas vezes a Tossa de Mar, ela não me sai da cabeça.

Uns tempos mais tarde, já em Lisboa, fui à Cinemateca rever “Pandora”, o filme de Albert Lewin que me recordava de já ter visto, alguns anos antes, na televisão. Mas ver esse filme na televisão e, ainda por cima, a preto e branco, como me lembrava, equivale a nunca o ter visto… De repente, dei um salto na cadeira…  Embora o povoado estivesse muito diferente daquele que tinha visitado, a praia me parecesse muito mais larga e o castelo mais bem conservado, parecia-me ser Tossa de Mar o lugar onde o filme se passava. Naquele tempo não havia Internet e uma dúvida que hoje se dissipa em poucos minutos na altura deu-me um trabalhão a esclarecer. Vasculhei tudo quanto tinha em casa e lá acabei por encontrar a confirmação de que aquele povoado que no filme se chamava Esperanza era, efetivamente, Tossa de Mar.


Se já estava apaixonado pela terriola antes de a associar ao filme, depois desse dia ainda mais apaixonado fiquei.

Depois disso, como vos disse, tenho voltado frequentemente a Tossa de Mar e fiquei a saber muito mais coisas acerca do filme e da sua rodagem. Umas com interesse, outras nem por isso.

Muito embora isso seja um “fait divers” que não tem qualquer relevância para o interesse do filme, também fiquei a saber, por exemplo, que não é possível falar dele sem evocar a história de Mário Cabré, o toureiro espanhol que também entra no filme (e o estraga nas partes em que entra…) e com o qual se conta que Ava Gardner terá andado enrolada durante as filmagens, ao ponto de obrigar Frank Sinatra, seu namorado na altura e futuro marido,  a vir de propósito dos Estados Unidos para pôr ordem na caserna. Deu brado, na época, nas revistas “côr-de-rosa”…

Nas suas “Memórias” Ava trata Cabré como um “espanhol insuportável”, mas sempre vai dizendo que “cometi um simples erro que se transformou numa asneira de grandes proporções. Depois de uma daquelas noites espanholas cheias de estrelas, de danças e de copos, acordei no dia seguinte ao lado de Mário Cabré. Foi a primeira e última vez…”. ***


Acontece a muito boa gente, direi eu… E só tenho pena de não me ter acontecido a mim…!

O filme, esse ficou como um dos meus filmes de cabeceira, como já vos disse.

Lembro-me muito bem que uma vez, num jantar de amigos em minha casa, resolvi passá-lo enquanto ainda estávamos todos à mesa, embora já no final da refeição. Eram os tempos da Bica, a noite estava quente e as janelas escancaradas sobre o rio, de onde subia, de tempos a tempos, uma aragem reconfortante. Conforme o filme ia avançando eu parava a imagem durante muito tempo, mantendo-a como imagem de fundo. Pandora ao piano com aquele fabuloso vestido prateado; Pandora a nado a caminho do navio do Holandês Voador; Pandora já no barco enrolada no pano de uma vela e, depois, no roupão amartelo; Pandora, já no fim do filme, com aquele “inadjectivável” (obrigado João Bénard…!) vestido preto em forma de pontas de lança... Naquele  tempo as senhoras ainda não tinham inventado a peregrina ideia de que o fumo do charuto era uma coisa horrorosa que se entranhava em tudo, até nos cortinados e no seus próprios “soutiens”, pelo que o fumo esvoaçava livremente pela sala enquanto se enchiam e se despachavam  as “flutes” de espumante e se poisava o olhar em Pandora.

Noite memorável, também essa…

Sempre que passo por Tossa de Mar vou ver a estátua de Ava Gardner, no interior do castelo de que vos falei, e prestar-lhe a minha singela homenagem. Nem sempre calha dar-lhe um abraço, mas às vezes acontece…

É que poderá o Holandês Voador ter sido libertado da sua maldição de viver eternamente, mas eu ficarei até ao final dos meus dias assombrado pela visão de Pandora e de Ava Gardner e pela memória daquela noite.

 

*Texto constante de “Albert Lewin”, de Patrock Brion, Éditions Durante (2002), pág. 175

**  ”Escritos Sobre Cinema”, Tomo I, 4º Volume, Edições da Cinemateca (2021), pág. 127

***  ”Ava – A Minha História”, Publicações Europa-América (1990), pág. 133


Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

sábado, 5 de setembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

RECUPERADOS

Encontrei  a tradução (?) de «The Ghost and Mrs. Muir», da escritora irlandesa R. A. Dick, num desses vãos de escada que vendem de tudo: livros, revistas, discos, postais, plantas, o mais que imaginar se possa.
Entro sempre nessas lojecas, nem que seja para olhar mas também porque há a ténue possibilidade de encontrar uma qualquer pechincha.
Não tem indicação do autor da  tradução e pelo que li, cheguei à conclusão que não deve passar de uma versão de um qualquer alguém com o fito de ganhar uns tostões, poucos que fossem.
Saltam á vista as gralhas, as discrepâncias de tradução, os nenhuns cuidados postos no produto final.
Enfim…
Mas não resisti a trazer o livro.
Uns meros 50 cêntimos que me possibilitaram ir à estante e fazer descer o DVD para mais um visionamento. Já lhes perdi o conto.
Também pretexto para repetir aqui uns textos publicados em Fevereiro de 2012.
João Bénard da Costa morreu a 21 de Maio de 2009. Tinha 74 anos.

Reproduzo os textos que por esse tempo aqui foram publicados.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há essa batida vulgaridade do filme a levar para a tal ilha deserta, há a vontade de, por uma vez, dizer que, se Joseph L. Mankiewicz não tivesse realizado outros grandes filmes, The Ghost and Mrs. Muir era suficiente para o lugar de honra que ocupa na História do Cinema.

Trivialidades parvas mas é o que sinto em relação a este espantoso filme, realizado em 1947, tinha eu 2 anos, que já vi um milhão de vezes – e  continuo a pensar que não são suficientes.

A primeira vez que vi o filme, e não lembro com que idade isso aconteceu, mas já tinha passado o tempo dos primeiros amores, fiquei marcado aos primeiros minutos do correr da fita, assim um tanto ou quanto para não saber o que dizer, ainda  hoje não sei, nem nunca saberei.

Cada vez que dele vejo uma referência, cada vez que o revejo, há sempre uma imensa nostalgia a mexer nos coios da melancolia, assomos da mais bela e esplêndida mentira,  quando Lucy Muir, esplendorosa Gene Tierney, nos diz:

Pode parecer estranho, mas por vezes há um maior sentimento de solidão na companhia de outras pessoas, mesmo se as amarmos, do que se vivermos sós.



Numa crítica ao filme, agora não encontro o recorte mas penso ser de Rui Luís Pina, a abrir, pode ler-se:

Será possível amar-se alguém que não existe?

Quando um dia li o que João Bénard da Costa escrevera sobre o filme, dei comigo a descobrir coisas em que não tinha reparado e que redundaram, para os meus sentidos, em pérolas apaixonantes, e tenho como certo que, a cada novo visionamento, a aventura se repetirá.

O texto foi inicialmente publicado no semanário O Independente, as crónicas do João Bénard da Costa eram motivo único para comprar o pasquim, e mais tarde foi incluído no 2º volume de Os Filmes da Minha Vida, cuja transcrição ocorre no post seguinte.

Nas Obras Completas de João Bénard da Costa, em publicação pela Assírio &Alvim, no 2º volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, o texto do filme é repetido,
mas é precedido de uma deliciosa nota do autor .

Em 1979 João Bénard da Costa organizou para a Fundação Calouste Gulbenkian um Ciclo sobre cinema americano dos anos 40, e pediu a Mary Meerson, uma mulher de mil cinematecas, Bénard diz que a ela deve o seu nome como programado, que o ajudasse a arranjar filmes e uns cartazes para que pudesse organizar uma exposição paralela.

Assim diz João Bénard:

«Ela enviou-me os originais de The Grapes of Wrath, de John Ford, e de The Gost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz. São cartazes enormes e vinham montados em diversos rolos, para depois se colarem e se pendurarem nas fachadas do cinema, como nos anos 40 se usava. Mandei-os para o serviço de exposições da Gulbenkian, que pouco habituado àquele género de materiais, os montou, sim, mas os colou em enormes e pesadíssimos contraplacados de madeira. Quando assim os vi, caiu-me a alma aos pés. Como é que eu ia devolver aqueles “monstros”? Descolar os cartazes nem pensar, que ficavam em fanicos. Reenviá-los para Paris só em camião especial e por uma fortuna. Telefonei-lhe a contar o sucedido e ela respondeu-me, com a maior naturalidade do mundo: “Guarde-os. Pode ser que lhe sejam úteis."»

Enquanto permaneceu na Gulbenkian, de 1979 a 1981, os cartazes estiveram no seu gabinete, e bem à sua frente colocou o cartaz de The Ghost and Mrs Muir da Gulbenkian.

Regresso à narrativa de João Bénard:

«Em 91, trouxe os cartazes para a Cinemateca. Hoje o das Vinhas da Ira anda por lá. No meu gabinete, em frente à minha mesa só o do Fantasma. Vinte e seis anos (1979-2005) a viver com ele e com Mrs. Muir. Muir dele é muito tempo. Mais do que umas bodas de prata. Mas a profecia de Mary Meerson cumpriu-se. Também foi para isso que ela mos mandou.»

Correndo o risco de dizerem que os nossos posts são enormes, não há pachorra para os ler, publica-se mais à frente o texto sobre o filme.

É também a homenagem a um homem, felizmente controverso, e a quem os cinéfilos portugueses, por mim falo, muito devem.

Mas, por favor, na terça-feira, não percam o filme, porque é na sala escura de um cinema, que os filmes atingem toda a grandiosidade.

Não esqueçam nunca, que a cultura é sempre um prazer.

 O QU'É QUE VAI NO PIOLHO II


Lembro-me que gostei. Lembro-me que gostei muito. Mas nunca imaginei que ia gostar tanto e que tanto, toda a vida, me ia lembrar desta história de amor e de morte. Aos 12-13 anos, os grandes amores são solitários e são coisa de nós com nós, sem mais corpo do que o próprio. Por esse lado, podia, obscuramente, como através de um espelho, desvendar parte importante do criptograma do filme. Mas ainda era muito cedo (e agora talvez seja muito tarde) para desvendar a parte que com essa parte se soma. Aos doze anos, a morte é uma palavra vaga e os fantasmas brincadeiras para sustos a pregar uns aos outros. Precisei de mais trinta anos (trinta e dois, se contar pelos dedos) para saber que o Capitão Daniel Gregg (Rex Harrison) não era fantasma nenhum ou era o fantasma todo. Nesse dia, preguei o imenso poster do filme (o original) na parede que fica na frente da minha secretária na Gulbenkian. Eu já lá não estou, o poster ainda lá está (1)  Gene Tierney (Lucy Muir) em primeiro plano, imensa e vogante, «with that taunt in her smile». Rex Harrison, na sombra, atrás dela, «with that haunt in his kiss». E, no canto direito, em baixo, muito mais pequenino, George Sanders «without a ghost of a chance». «The Flesh ... So Wéak.» «The Spirit ... So Wiliing.» Podia ser ao contrário, mas assim sossega mais. E também por lá se diz, na capa de um livro fechado, que «the film becames the delight of your life.» Não sei se "delight" é a palavra mais própria, mas muita coisa em a minha vida "becamou".


 Mrs. Muir - já o disse - é Gene Tierney, nos anos de "Laura", de "Leave Her to Heaven", de "Dragonwyck", nos anos em que mais Gene Tierney foi, mulher patchuli, mulher asfódela. Mr. Muir - quem quer que tenha sido - nunca o conhecemos. Morreu antes do filme co­meçar, de um flato ou de coisa parecida, deixando-lhe a cara e o corpo magníficos envoltos em crepes, como em crepes se envolviam as viúvas inglesas do princípio do século, tempo e país do início da acção. A adivinhar pela família com quem a deixou a viver (sogra e cunhadas), nem ela nem nós perdemos grande coisa. Mas deixou-lhe uma filha de sete anos, papel confiado à criança que então era Natalie Wood.

Para fugir dessa casa londrina, casa de um morto, casa de mortos, decide Mrs. Muir, com enorme escândalo da família, mudar de ares e mudar de mares, levando-se a ela, à filha e à criada (Edna Best) para uma praia sobre o Atlântico, onde, de noite, o vento assobiava nas frinchas de madeiras velhas e onde brenhas de ondas se batiam contra os penhascos. Das muitas casas que lhe mostraram, nenhuma a con­vence. E só quis a casa que não lhe queriam mostrar, porque - dizia­ -se - estava assombrada pela alma penada do Capitão Gregg, que nela se suicidara. O fantasma não assusta Lucy Muir. Um fantasma é o medo que a gente tem dele. E o medo do desejo não é medo de Gene Tierney. Por isso, na casa, ama tudo o que nela ficou do capitão: o óculo na varanda do quarto dele, o bezerro dourado que trouxe de uma das suas muitas viagens, o retrato dele toscamente pintado, fardado de lobo de mar, com um sorriso entre o sarcástico e o diabólico.

Uma mulher em sombra (o luto, os véus) troca um morto por um fantasma. E se o morto a quisera enterrar viva (em Londres) o fantasma vai e vem do mar, atravessa-lhe as janelas e propõe-lhe a mágica dissolução, tão mágica como esse plano, entre todos mágico, em que, na primeira noite passada na velha casa, Lucy acorda e vê o mar através da janela, essa janela que fechara antes e que durante o sono se abriu. E, quando já tem a certeza que ele está ali, Mrs. Muir desencadeia a apa­rição. Levanta-se, vai à cozinha e risca um fósforo para acender o lume. As luzes todas apagam-se, a trovoada e os relâmpagos começam. E é nesse momento que ela diz: «/ know you are there» E Rex Harrison surge diante dela, malcriadissimo como só Rex Harrison soube ser, para uma discussão nada metafísica sobre o direito de qualquer deles à posse exclusiva da casa. Fantasma de desejo, Harrison é também fan­ tasma da violação (de desejo da violação), donde a agressividade irónica das relações entre eles.


O livro faz Mrs. Muir voltar a Londres. O livro publica-se, não fantomaticamente. E Londres e o livro vão trazer ao filme o terceiro «morto»: o escritorzeco Miles Fairley (George Sanders). Há sempre um momento em que, no reino dos mortos, alguém se volta para trás, à busca de uma imagem mais "real". Gene Tierney inicia o seu terceiro Iove affair, com a fraca réplica do capitão, que é a presença sedutora de George Sanders. O fantasma começa por tentar expulsá-lo. Depois, rende-se à vida, no seu segundo "suicídio". E é enquanto ela dorme («Ah! Comme Gene Tierney est belle quand elle dort!») que Rex Harrison se vem despedir dela, na mais bela sequência de sempre da história de Hollywood. «Oh, Lucia» (a voz de Harrison, a música de Herrmann) «you are so little and so lovely» Depois, recita-lhe Keats (Ode to a Nightingale) e fala-lhe de como teria gostado de a levar a ver o sol da meia-noite, os fiordes da Noruega. «What you have missed, Lucia, by being born too late to traveI the Seven Seas with me! And what I've missed too» Depois, ele que, antes, num momento em que ela demasiado se aproximou dele, lhe dissera rudemente: «Keep your dis­tances, madam», inclina-se para ela num quase beijo que, de novo, interrompe. E afasta-se para a janela e para o óculo, que nunca mais vai poder ver o invisível. No sol da manhã seguinte, o capitão desapareceu da vida e da casa de Lucy Muir, que só o capitão tratava por Lucia, como se ela viesse de Lammermoor.

Mas com ele - pouco depois dele - desaparece também George Sanders. Quando Gene Tierney o vem buscar a terra firme (a casa dele) descobre que esse outro "sonho" ocultava a dura realidade de uma banal mentira e de uma banal mediocridade (Sanders era casado e a sua história uma história contada a muitas e passada com muitas). Daí para diante não há mais homens - vivos ou mortos - na vida de Mrs. Muir.



E o tempo começa a passar muito depressa. Depressa envelhece Mrs. Muir. Depressa a filha cresce e a filha casa, para só então contar à mãe que ela também, em criança, vira o fantasma. E depressa chega uma tarde (um fim de tarde) em que Mrs. Muir, de cabelos brancos, se sente muito cansada e pede à criada um copo de leite. Não chega a bebê-lo. O copo escorrega-lhe das mãos e Mrs. Muir morre, agasalhada, na cadeira em frente ao mar em que sempre se sentou. A imagem des­dobra-se. E os dois fantasmas - o dele e o dela, como foram quando eram - ficam a olhar para a velha morta. Depois, descem as escadas de mãos dadas e depois abrem a porta e desaparecem, entre a música, no meio da névoa.

«I have been half in love with easeful Death ... / Was it a vision or a waking dream?» (Keats).

De todas as artes, o cinema é a mais onírica. E essa dimensão nunca existiu tanto como nos filmes "germanizados" ou "germanizantes" feitos em Hollywood nos forties. Joseph L. Mankiewicz (1909-1993), o realizador de “The Ghost and Mrs. Muir” e que só agora nomeio, não era alemão, mas descendia de alemães e na Alemanha se formou. Toda a sua vida procurou o cinema total. Apesar de muitas outras obras­ -primas, nunca esteve tão perto como neste filme de que disse recordar sobretudo «o vento, o mar e a procura de qualquer coisa de diferente». «E as decepções que se tem»

Não há filme mais triste. Não há filme mais bonito. Deixem-me ficar ao pé da mulher que nasceu tarde demais para atravessar os sete mares e para ver o sol da meia-noite. Deixem-me ficar ao pé do capitão que morreu cedo demais para a poder beijar ou para poder deitar-se com ela. Ou deixem-me acreditar que não há cedo nem tarde e que o único amor que existe - porque é o único em que acreditamos que existe­ é o amor surreal, esse que Rex Harrison e Gene Tierney encontram no final, quando desaparecem na névoa, atravessada a última porta.

(1)   Agora, já não está. Mas, embora empalidecido pelo sol (quem é que se lembra de pôr fantasmas ao sol?) continua no meu gabinete. Na Cinemateca.

João Bénard da Costa em  Os Filmes da Minha Vida.

domingo, 3 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Pode parecer estranho, mas por vezes há um maior sentimento de solidão na companhia de outras pessoas, mesmo se as amarmos, do que se vivermos sós.

Gene Tierney, no papel de Lucy no filme O Fantasma Apaixonado de Joseph L. Mankiewicz

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Encontrei  a tradução (?) de «The Ghost and Mrs. Muir», da escritora irlandesa R. A. Dick, num desses vãos de escada que vendem de tudo: livros, revistas, discos, postais, plantas, o mais que imaginar se possa.
Entro sempre nessas lojecas, nem que seja para olhar mas também porque há a ténue possibilidade de encontrar uma qualquer pechincha.
Não tem indicação do autor da  tradução e pelo que li, cheguei à conclusão que não deve passar de uma versão de um qualquer alguém com o fito de ganhar uns tostões, poucos que fossem.
Saltam á vista as gralhas, as discrepâncias de tradução, os nenhuns cuidados postos no produto final.
Enfim…
Mas não resisti a trazer o livro.
Uns meros 50 cêntimos que me possibilitaram ir à estante e fazer descer  a cassette VHS para mais um visionamento. Já lhes perdi o conto.
Também pretexto para repetir aqui uns textos publicados em Fevereiro de 2012.
João Bénard da Costa morreu a 21 de Maio de 2009. Tinha 74 anos.

Reproduzo os textos que por esse tempo aqui foram publicados.




Lembro-me que gostei. Lembro-me que gostei muito. Mas nunca imaginei que ia gostar tanto e que tanto, toda a vida, me ia lembrar desta história de amor e de morte. Aos 12-13 anos, os grandes amores são solitários e são coisa de nós com nós, sem mais corpo do que o próprio. Por esse lado, podia, obscuramente, como através de um espelho, desvendar parte importante do criptograma do filme. Mas ainda era muito cedo (e agora talvez seja muito tarde) para desvendar a parte que com essa parte se soma. Aos doze anos, a morte é uma palavra vaga e os fantasmas brincadeiras para sustos a pregar uns aos outros. Precisei de mais trinta anos (trinta e dois, se contar pelos dedos) para saber que o Capitão Daniel Gregg (Rex Harrison) não era fantasma nenhum ou era o fantasma todo. Nesse dia, preguei o imenso poster do filme (o original) na parede que fica na frente da minha secretária na Gulbenkian. Eu já lá não estou, o poster ainda lá está (1)  Gene Tierney (Lucy Muir) em primeiro plano, imensa e vogante, «with that taunt in her smile». Rex Harrison, na sombra, atrás dela, «with that haunt in his kiss». E, no canto direito, em baixo, muito mais pequenino, George Sanders «without a ghost of a chance». «The Flesh ... So Wéak.» «The Spirit ... So Wiliing.» Podia ser ao contrário, mas assim sossega mais. E também por lá se diz, na capa de um livro fechado, que «the film becames the delight of your life.» Não sei se "delight" é a palavra mais própria, mas muita coisa em a minha vida "becamou".



Mrs. Muir - já o disse - é Gene Tierney, nos anos de "Laura", de "Leave Her to Heaven", de "Dragonwyck", nos anos em que mais Gene Tierney foi, mulher patchuli, mulher asfódela. Mr. Muir - quem quer que tenha sido - nunca o conhecemos. Morreu antes do filme co­meçar, de um flato ou de coisa parecida, deixando-lhe a cara e o corpo magníficos envoltos em crepes, como em crepes se envolviam as viúvas inglesas do princípio do século, tempo e país do início da acção. A adivinhar pela família com quem a deixou a viver (sogra e cunhadas), nem ela nem nós perdemos grande coisa. Mas deixou-lhe uma filha de sete anos, papel confiado à criança que então era Natalie Wood.

Para fugir dessa casa londrina, casa de um morto, casa de mortos, decide Mrs. Muir, com enorme escândalo da família, mudar de ares e mudar de mares, levando-se a ela, à filha e à criada (Edna Best) para uma praia sobre o Atlântico, onde, de noite, o vento assobiava nas frinchas de madeiras velhas e onde brenhas de ondas se batiam contra os penhascos. Das muitas casas que lhe mostraram, nenhuma a con­vence. E só quis a casa que não lhe queriam mostrar, porque - dizia­ -se - estava assombrada pela alma penada do Capitão Gregg, que nela se suicidara. O fantasma não assusta Lucy Muir. Um fantasma é o medo que a gente tem dele. E o medo do desejo não é medo de Gene Tierney. Por isso, na casa, ama tudo o que nela ficou do capitão: o óculo na varanda do quarto dele, o bezerro dourado que trouxe de uma das suas muitas viagens, o retrato dele toscamente pintado, fardado de lobo de mar, com um sorriso entre o sarcástico e o diabólico.

Uma mulher em sombra (o luto, os véus) troca um morto por um fantasma. E se o morto a quisera enterrar viva (em Londres) o fantasma vai e vem do mar, atravessa-lhe as janelas e propõe-lhe a mágica dissolução, tão mágica como esse plano, entre todos mágico, em que, na primeira noite passada na velha casa, Lucy acorda e vê o mar através da janela, essa janela que fechara antes e que durante o sono se abriu. E, quando já tem a certeza que ele está ali, Mrs. Muir desencadeia a apa­rição. Levanta-se, vai à cozinha e risca um fósforo para acender o lume. As luzes todas apagam-se, a trovoada e os relâmpagos começam. E é nesse momento que ela diz: «/ know you are there» E Rex Harrison surge diante dela, malcriadissimo como só Rex Harrison soube ser, para uma discussão nada metafísica sobre o direito de qualquer deles à posse exclusiva da casa. Fantasma de desejo, Harrison é também fan­ tasma da violação (de desejo da violação), donde a agressividade irónica das relações entre eles.


O livro faz Mrs. Muir voltar a Londres. O livro publica-se, não fantomaticamente. E Londres e o livro vão trazer ao filme o terceiro «morto»: o escritorzeco Miles Fairley (George Sanders). Há sempre um momento em que, no reino dos mortos, alguém se volta para trás, à busca de uma imagem mais "real". Gene Tierney inicia o seu terceiro Iove affair, com a fraca réplica do capitão, que é a presença sedutora de George Sanders. O fantasma começa por tentar expulsá-lo. Depois, rende-se à vida, no seu segundo "suicídio". E é enquanto ela dorme («Ah! Comme Gene Tierney est belle quand elle dort!») que Rex Harrison se vem despedir dela, na mais bela sequência de sempre da história de Hollywood. «Oh, Lucia» (a voz de Harrison, a música de Herrmann) «you are so little and so lovely» Depois, recita-lhe Keats (Ode to a Nightingale) e fala-lhe de como teria gostado de a levar a ver o sol da meia-noite, os fiordes da Noruega. «What you have missed, Lucia, by being born too late to traveI the Seven Seas with me! And what I've missed too» Depois, ele que, antes, num momento em que ela demasiado se aproximou dele, lhe dissera rudemente: «Keep your dis­tances, madam», inclina-se para ela num quase beijo que, de novo, interrompe. E afasta-se para a janela e para o óculo, que nunca mais vai poder ver o invisível. No sol da manhã seguinte, o capitão desapareceu da vida e da casa de Lucy Muir, que só o capitão tratava por Lucia, como se ela viesse de Lammermoor.

Mas com ele - pouco depois dele - desaparece também George Sanders. Quando Gene Tierney o vem buscar a terra firme (a casa dele) descobre que esse outro "sonho" ocultava a dura realidade de uma banal mentira e de uma banal mediocridade (Sanders era casado e a sua história uma história contada a muitas e passada com muitas). Daí para diante não há mais homens - vivos ou mortos - na vida de Mrs. Muir.


E o tempo começa a passar muito depressa. Depressa envelhece Mrs. Muir. Depressa a filha cresce e a filha casa, para só então contar à mãe que ela também, em criança, vira o fantasma. E depressa chega uma tarde (um fim de tarde) em que Mrs. Muir, de cabelos brancos, se sente muito cansada e pede à criada um copo de leite. Não chega a bebê-lo. O copo escorrega-lhe das mãos e Mrs. Muir morre, agasalhada, na cadeira em frente ao mar em que sempre se sentou. A imagem des­dobra-se. E os dois fantasmas - o dele e o dela, como foram quando eram - ficam a olhar para a velha morta. Depois, descem as escadas de mãos dadas e depois abrem a porta e desaparecem, entre a música, no meio da névoa.

«I have been half in love with easeful Death ... / Was it a vision or a waking dream?» (Keats).

De todas as artes, o cinema é a mais onírica. E essa dimensão nunca existiu tanto como nos filmes "germanizados" ou "germanizantes" feitos em Hollywood nos forties. Joseph L. Mankiewicz (1909-1993), o realizador de “The Ghost and Mrs. Muir” e que só agora nomeio, não era alemão, mas descendia de alemães e na Alemanha se formou. Toda a sua vida procurou o cinema total. Apesar de muitas outras obras­ -primas, nunca esteve tão perto como neste filme de que disse recordar sobretudo «o vento, o mar e a procura de qualquer coisa de diferente». «E as decepções que se tem»

Não há filme mais triste. Não há filme mais bonito. Deixem-me ficar ao pé da mulher que nasceu tarde demais para atravessar os sete mares e para ver o sol da meia-noite. Deixem-me ficar ao pé do capitão que morreu cedo demais para a poder beijar ou para poder deitar-se com ela. Ou deixem-me acreditar que não há cedo nem tarde e que o único amor que existe - porque é o único em que acreditamos que existe­ é o amor surreal, esse que Rex Harrison e Gene Tierney encontram no final, quando desaparecem na névoa, atravessada a última porta.

(1)   Agora, já não está. Mas, embora empalidecido pelo sol (quem é que se lembra de pôr fantasmas ao sol?) continua no meu gabinete. Na Cinemateca.

João Bénard da Costa em  Os Filmes da Minha Vida.



Há essa batida vulgaridade do filme a levar para a tal ilha deserta, há a vontade de, por uma vez, dizer que, se Joseph L. Mankiewicz não tivesse realizado outros grandes filmes, The Ghost and Mrs. Muir era suficiente para o lugar de honra que ocupa na História do Cinema.

Trivialidades parvas mas é o que sinto em relação a este espantoso filme, realizado em 1947, tinha eu 2 anos, que já vi um milhão de vezes – e  continuo a pensar que não são suficientes.

A primeira vez que vi o filme, e não lembro com que idade isso aconteceu, mas já tinha passado o tempo dos primeiros amores, fiquei marcado aos primeiros minutos do correr da fita, assim um tanto ou quanto para não saber o que dizer, ainda  hoje não sei, nem nunca saberei.

Cada vez que dele vejo uma referência, cada vez que o revejo, há sempre uma imensa nostalgia a mexer nos coios da melancolia, assomos da mais bela e esplêndida mentira,  quando Lucy Muir, esplendorosa Gene Tierney, nos diz:

Pode parecer estranho, mas por vezes há um maior sentimento de solidão na companhia de outras pessoas, mesmo se as amarmos, do que se vivermos sós.


Numa crítica ao filme, agora não encontro o recorte mas penso ser de Rui Luís Pina, a abrir, pode ler-se:

Será possível amar-se alguém que não existe?

Quando um dia li o que João Bénard da Costa escrevera sobre o filme, dei comigo a descobrir coisas em que não tinha reparado e que redundaram, para os meus sentidos, em pérolas apaixonantes, e tenho como certo que, a cada novo visionamento, a aventura se repetirá.

O texto foi inicialmente publicado no semanário O Independente, as crónicas do João Bénard da Costa eram motivo único para comprar o pasquim, e mais tarde foi incluído no 2º volume de Os Filmes da Minha Vida, cuja transcrição ocorre no post seguinte.

Nas Obras Completas de João Bénard da Costa, em publicação pela Assírio &Alvim, no 2º volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, o texto do filme é repetido,
mas é precedido de uma deliciosa nota do autor .


Em 1979 João Bénard da Costa organizou para a Fundação Calouste Gulbenkian um Ciclo sobre cinema americano dos anos 40, e pediu a Mary Meerson, uma mulher de mil cinematecas, Bénard diz que a ela deve o seu nome como programado, que o ajudasse a arranjar filmes e uns cartazes para que pudesse organizar uma exposição paralela.

Assim diz João Bénard:

«Ela enviou-me os originais de The Grapes of Wrath, de John Ford, e de The Gost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz. São cartazes enormes e vinham montados em diversos rolos, para depois se colarem e se pendurarem nas fachadas do cinema, como nos anos 40 se usava. Mandei-os para o serviço de exposições da Gulbenkian, que pouco habituado àquele género de materiais, os montou, sim, mas os colou em enormes e pesadíssimos contraplacados de madeira. Quando assim os vi, caiu-me a alma aos pés. Como é que eu ia devolver aqueles “monstros”? Descolar os cartazes nem pensar, que ficavam em fanicos. Reenviá-los para Paris só em camião especial e por uma fortuna. Telefonei-lhe a contar o sucedido e ela respondeu-me, com a maior naturalidade do mundo: “Guarde-os. Pode ser que lhe sejam úteis."»

Enquanto permaneceu na Gulbenkian, de 1979 a 1981, os cartazes estiveram no seu gabinete, e bem à sua frente colocou o cartaz de The Ghost and Mrs Muir da Gulbenkian.

Regresso à narrativa de João Bénard:

«Em 91, trouxe os cartazes para a Cinemateca. Hoje o das Vinhas da Ira anda por lá. No meu gabinete, em frente à minha mesa só o do Fantasma. Vinte e seis anos (1979-2005) a viver com ele e com Mrs. Muir. Muir dele é muito tempo. Mais do que umas bodas de prata. Mas a profecia de Mary Meerson cumpriu-se. Também foi para isso que ela mos mandou.»

Correndo o risco de dizerem que os nossos posts são enormes, não há pachorra para os ler, publica-se mais à frente o texto sobre o filme.

É também a homenagem a um homem, felizmente controverso, e a quem os cinéfilos portugueses, por mim falo, muito devem.

Mas, por favor, na terça-feira, não percam o filme, porque é na sala escura de um cinema, que os filmes atingem toda a grandiosidade.

Não esqueçam nunca, que a cultura é sempre um prazer.