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quarta-feira, 15 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.

Gabriel Garcia Márquez 

domingo, 17 de novembro de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ


 Julho de 2018, um extraordinário concerto de Van Morrison em Cascais.

Ao ler Vemo-nos em Agosto de Gabriel García Márquez encontramos Van Morrison a entrar num convento.

A filha Micaela namorava com um músico de jazz. Ana veio a saber que os telefonemas internacionais não eram para o namorado-músico mas sim para uma catequista oficial das Carmelitas Descalças.

«O destino da filha resolveu-se com facilidade e sem pressa. Despediram-se dela com um serão íntimo, para o qual convidaram o músico de jazz com a sua nova namorada. Doménico e ele improvisaram uma revisão muito pessoal dos contrastes para piano e saxofone de Béla Bartók e todos se tornaram amigos à primeira vista.

Entregaram-na às Carmelitas descalças na missa ordinária do convento. Ana Magdalena vestiram-se como para um funeral, mas Micaela chegou com uma hora de atraso e sem ter dormido, com o hipil da mãe, os seus eternos sapatos de ténis, uma mala com os seus artigos de higiene pessoal e um álbum de Van Morrison que lhe tinham oferecido à última da hora.»

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

AH! A MEMÓRIA!...


 Bom dia, memória.

Primeiro vão-se as memórias, depois as ligações. Ou vice-versa. É assim que se morre.

A segunda frase neste texto não é minha.

Não sei quem a escreveu, onde a li.

Se pudéssemos arrumar as memórias numa caixa de cartão, onde guardamos tantas outras coisas…

A demência chegou a António Lobo Antunes.

Tem chegado a tantos e tantos outros.

Lembremos Gabriel García Márquez.

Na livraria estive a folhear o livro «Gabo e Mercedes» que um dos filhos de Garcia Márquez e a sua mulher Mercedes escreveram sobre Gabo.

Calhei na parte da história em que se escreve sobre o internamento hospitalar do escritor, na cidade do México, corria o ano de 2004, com um cancro em fase terminal, e o seu regresso a casa para morrer.

Tinha então 87 anos, em 2004 publicara o seu último romance «Memórias das Minhas Putas Tristes»

Levo o livro, não levo.

Tenho quase 80 anos.  

Apercebi-me ultimamente que me tornei sensível a certas coisas e, como tarefa diária, resolvi poupar-me.

Lentamente, fui pousando o livro no escaparate da livraria.

Tristemente, saí para a rua… E chovia…

domingo, 11 de agosto de 2024

PERDER A NOITE, PERDER UM ANO...


Estamos em Agosto, faz um calor de ananases, como diria o nosso Eça.

Li há uma semanas um bonito livro de Gabriel García Márquez, aqui já referido, um bonito título Vemo-nos em Agosto, não tem o acabamento final de Gabo, mas andam por lá os perfumes. Todos os anos a 16 de Agosto, Ana Magdalena Bach apanha o ferry que a leva até à ilha onde a mãe está enterrada.

«O denominador comum do livro é que tratará de histórias de amore de gente de idade», diz Cristóbal Perra, o editor do livro.

Durante a leitura ficaram alguns pedaços sublinhados. Este é um deles, situa-se na página 61:

«Quando recuperou o humor passava da meia-noite. Doía-lhe a cabeça, mas doía-lhe mais ter perdido a sua noite. Arranjou-se um pouco e desceu, disposta a recuperá-la. Tomou um gim com soda num tamborete do bar frente ao jardim abandonado pelos turistas madrugadores. Chegou um hermafrodita de músculos artificiais com correntes e pulseiras de ouro, cabelo dourado e a pele avermelhada com unguentes para o Sol. Tomou ao balcão uma bebida fosforescente. Ela perguntou a si mesma se seria capaz de se insinuar ao empregado do bar, que era jovem e bem proporcionado, e respondeu a si própria que não. Chegou a interrogar-se sobre se seria capaz de sair par a rua e mandar parar automóveis até encontrar alguém que lhe fizesse o favor de seu gosto, e a resposta foi a mesma: não. Perder a noite era perder um ano, mas eram três da madrugada e não havia remédio: perdera-o.» 

segunda-feira, 15 de julho de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Gosto tanto de Gabriel García Marquez!

Aquele começo de Cem Anos de Solidão!...

Gosto da capa deste livro de Gabriel García Marquez e eu que tanto gosto de capas, fico impossibilitado de saber o autor. Esse monstro chamado Leya onde as Publicações Dom Quixote e outras estimadas editoras, estão alojadas, entende que isso não é importante.

Importante é o dinheirinho!

Uma mulher, Ana Magdalena Bach, de seu nome, casada, filhos, por Agosto, solitariamente, aporta a uma ilha do Caribe em que está sepultada sua mãe. 

Visita a campa onde sempre deixa um ramo de gladíolos.

Nas noites quentes da ilha senta-se no bar do hotel onde se hospedou, até que um qualquer alguém aparece, convida-a para uma bebida, ela bebe sempre um gin, trava conversa, os variados enigmas da solidão no crepúsculo da vida, enquanto uma mulata canta a audácia serena de um bolero e Ana sente no peito o esvoaçar de borboletas.

Em cada regresso a casa acaba por desvendar o motivo de a mãe ter escolhido aquela ilha e ali ser enterrada.

 Gabo nunca completou a revisão final e nas margens dos rascunhos, deixou a nota: «Este livro não presta. É preciso destruí-lo».

 Os filhos não o destruíram e acabaram por publicá-lo.

 A leitura das 88 páginas da novela permite-nos encontrar o estilo de Gabo mas falta-lhe aquele perfume que foi deixando nas suas obras.

Saramago nunca completou «Alabardas», provavelmente não deixou nenhuma nota sobre a publicação das páginas já escritas. Pilar del Rio entendeu que, apesar de tudo, deveriam ser publicadas.

Há quem defenda que originais não concluídos e devidamente afinados pelos seus autores, não deveriam ser publicados.

Não estou muito de acordo e acrescento que, no tocante a alguns autores, como por exemplo, Gabriel García Márquez e José Saramago, não serão prosas em estado puro mas saberemos que, muito dificilmente, encontraremos fruta tocada por falta de jardineiro.

domingo, 22 de outubro de 2023

POSTAIS SEM SELO

O segredo de uma boa velhice não é mais do que um pacto honrado com a solidão.

Gabriel García Márquez  

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Já deixei por aí escrito que um dos livros que mais encantaram os meus dias de leitor, foi  Cem Anos de Solidão. De Gabriel Garcia Marquez. Da primeira à última palavra e tem um começo extraordinário:

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.»

 

No segundo volume de O Caderno, José Saramago fala desse livro, ao texto chamou simplesmente «Gabo»:

 

«Os escritores dividem-se (imaginando que aceitem ser assim divididos…) em dois grupos: o mais reduzido, daqueles que foram capazes de rasgar à literatura novos caminhos, o mais numeroso, o dos que vão atrás e se servem desses caminhos para a sua própria viagem. É assim desde o princípio do planeta e a (legítima?) vaidade dos autores nada pode contra as claridades da evidência. Gabriel García Márquez usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado “realismo mágico” por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem Anos de Solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de cinquenta páginas. Necesitava pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de orientar-me nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu. Se a palavra traumatismo pudesse ter um significado positivo, de bom grado a aplicaria ao caso. Mas, já que foi escrita, aí a deixo ficar. Espero que se entenda.»

domingo, 3 de outubro de 2021

VELHAS CANÇÕES


Há empresas que só fazem marcações através da aplicação da empresa.

E se eu não tiver telemóvel?

Se eu não souber o que é uma aplicação?

Se eu não quiser que as empresas tenham o meu número de telefone, ou telemóvel ou os meus dados pessoais?

A automação de serviços elementares, a robotização de atendimento tomou conta do nosso quotidiano.

Por outro lado qualquer mensagem, seja do que for, avia-se rapidamente através de um e-mail de  um SNS, ou uma qualquer laracha deixada no facebook, no raio que os parta a todos, porque tudo agora se despacha com um toma lá e não chateeis mais, coisas que deixam um sabor frio e triste.

Já ninguém escreve a ninguém.

O Coronel de um romance do Gabriel Garcia Marquez esperava ansiosamente o dia em que a data da reforma chegasse por carta, enquanto a mulher, aparvalhadamente, o enchia de minudências:

- Gostaria de plantar rosas, disse.

- Se quer plantar rosas, porque não planta?, perguntou o Coronel.

- Os porcos comem-nas todos, disse a mulher.

- Óptimo, porco engordado com rosas deve ser muito bom, disse o Coronel.

As mulheres são mesmo o diabo.

O António Alçada Baptista contava que, sempre que a mulher se punha com arrumações, lhe aparecia com listas telefónicas na mão que faço a isto, Alçada  interrompia a leitura e murmurava: Olhe: dê aos pobres!

Já ninguém escreve a ninguém.

Há uma velha canção dos Box Tops: The Letter.

Cansado dos dias solitários tenho que regressar depressa a casa e nem posso ir de comboio rápido, terei que apanhar um avião, não sei o que isso me vai custar, mas tenho de regressar a casa porque a minha miúda, numa carta, diz que não pode viver sem mim.

Já agora, a propósito, ou a despropósito, fiquem-se com uma história, lida já não sabe onde, ou contada já não sabe por quem:

Durante as actividades num campo de férias, o monitor perguntou à rapaziada, como preferiam receber, de um amigo distante, o convite para um encontro.

Dividiram-se as opiniões, uns disseram logo que seria por e-mail, outros por SMS, mas uma moça disse:

- Preferia receber por carta.

Sentiu os olhares de espanto – por carta? - e em voz lenta, mas clara, explicou:

Porque uma carta dá mais trabalho a escrever e ainda é preciso comprar um selo, metê-la no correio. E depois, se for verdadeiramente meu amigo, ainda me vai mandar qualquer coisa a acompanhar: uma pétala de flor, uma qualquer ilustração...


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

ENGOLIDO POR UMA BALEIA

O escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, autor de dois romances que ficarão para sempre na História da Literatura – Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos de Cólera -, explicou, um dia, a origem da ficção: «A ficção foi inventada no dia em que Jonas regressou a casa e contou à mulher que chegou com três dias de atraso por ter sido engolido por uma baleia.»

João Tordo em Manual de Sobrevivência de Um Escritor.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

CONVERSANDO


Naquele Verão de 1975, Gabriel Garcia Marquez passou duas semanas em Lisboa. 
Quando, sobre essa estadia, escreveu a um amigo, disse-lhe: «Lisboa é a maior aldeia do mundo.»

Legenda: desenho de Carlos Botelho

segunda-feira, 18 de março de 2019

POSTAIS SEM SELO


Vivo numa casa colonial no passeio de sol do parque de San Nicolás, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram os meus pais, e onde me propus morrer só, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo distante e sem dor.

Gabriel Garcia Márquez em Memória das Minha Putas Tristes

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

LÊ-SE SOMENTE PARA MELHOR VIVER


Agosto chega ao fim.

Como dizia o meu pai: «amanhã voltamos a ser gente».

Férias em Agosto, só lembro de as ter enquanto miúdo.

Quando comecei a trabalhar nunca escolhi o mês de Agosto para férias.

Os colegas agradeciam.

No entretento voltei a ouvir falar em livros para férias.

Ah! livros para férias!


Não há livros para férias, há livros para todo um ano.

Ler dá trabalho, é certo.

O destino dos livros para férias é regressarem a casa cheios de areia e não lidos.

Não é, porém, por falta de tempo que não se lê.

Agustina Bessa Luís, no seu Caderno de Significados, diz o que fazer com os livros para férias, ela, que a páginas 49, declarou que não gosta de férias:

«Um livro para férias não deve ser escolhido. O que se escolhe serve à personalidade, e as férias são o pretexto para sermos impessoais, fazer o que muitos fazem, ir para onde muitos vão. Pegue num livro que não pese mais de 200 gramas e leve-o consigo. Leia três páginas, esqueça-o na gare ou no banco das termas, na praia ou no restaurante, e aí, sobretudo, aí tenha a certeza que é o bom livro para férias; se você não tiver pena de o ter perdido».

Camilo Castelo Branco deixou escrito:


«A poderosa razão que o lavrador Roberto Rodrigues opunha para não mandar ensinar a ler o filho, era - que ele pai também não sabia ler, e mais arranjava
lindamente a sua vida. Esta vinha a ser a razão capital, reforçada por outras subalternas e praticamente bastante persuasivas.
- Se o rapaz souber ler – argumentava triunfantemente o idiota – assim que chegar a idade, às duas por três, fazem-no jurado, regedor, camarista, juiz ordinário, juiz de paz, juiz eleito. São favas contadas. Depois, enquanto ele vai à audiência ou à Camara, a Cabeçais, daqui uma légua, os criados e os jornaleiros ferram-se
a dormir a sesta de cangalhas à sombra dos carvalhos, e o arado fica também a dormir no rego. E ademais, isto de saber ler é meio caminho andado para asno e
vadio. E citava exemplos, personalizando meia dúzia de brejeiros que sabiam ler e eram mais asnos e vadios que os analfabetos.»


Terão razão os que dizem que não se vive para ler, lê-se somente para melhor viver?

Mas, agora, gostava de dizer que, durante muitos tempos de férias, havia um livro que ia sempre comigo: Cem Anos de Solidão do Gabriel Garcia Márquez.

Pegava-lhe sempre e ao acaso ia relendo esse livro fantástico centrado na imaginária terra de Macondo e das sete gerações da família Buendía, uma autêntica pérola do realismo mágico.

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.»

terça-feira, 28 de agosto de 2018

POSTAIS SEM SELO


Sou fundamentalmente um jornalista. O jornalismo é uma paixão insaciável que só pode ser digerida e humanizada no confronto descarnado com a realidade. Quem não tiver nascido para isto, quem não estiver disposto a viver exclusivamente para isto, jamais poderá permanecer neste ofício incompreensível e voraz, cuja obra termina após cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não concede tréguas até começar tudo de novo, com mais ardor do que nunca, no minuto seguinte.

Gabriel Garcia Márquez

sábado, 25 de julho de 2015

NINGUÉM ESCREVE A NINGUÉM


Já ninguém escreve a ninguém.
Disso também se queixava o coronel no livro do Gabriel Garcia Marquez.
Abre-se ao caixa do correio e nem uma carta, um simples postal dos amigos.
Os amigos preferem mandar os abraços pelas modernices frias da tecnologia.
Já não se escrevem cartas como antigamente.
Um mundo de silêncio em que nos convertemos ou onde nos encerrámos, esquecendo  que as palavras que se escrevem substituem a depressão.
Graham Greene perguntava-se como é que as pessoas que não escrevem escapam à melancolia.
Sim o enigma de escrever para se amnter vivo.

sábado, 11 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.

Gabriel Garcia Marquez

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sábado, 19 de abril de 2014

SARAMAGUEANDO


Os escritores dividem-se (imaginando que aceitem ser assim divididos…) em dois grupos: o mais reduzido, daqueles que foram capazes de rasgar à literatura novos caminhos, o mais numeroso, o dos que vão atrás e se servem desses caminhos para a sua própria viagem. É assim desde o princípio do planeta e a (legítima?) vaidade dos autores nada pode contra as claridades da evidência. Gabriel García Márquez usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado “realismo mágico” por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem Anos de Solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de cinquenta páginas. Necessitava pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de orientar-me nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu. Se a palavra traumatismo pudesse ter um significado positivo, de bom grado a aplicaria ao caso. Mas, já que foi escrita, aí a deixo ficar. Espero que se entenda.

José Saramago em O Caderno 2, Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 2010

Legenda: fotografia da Fundação José Saramgo

sexta-feira, 18 de abril de 2014

GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ (1927-2014)


Muito cedo compreendi que não há livros para ou de férias.

Ou se gosta de ler, e fazemo-lo todos os dias como quem bebe água, ou o resto não são mais que balelas.

Mas tenho que dizer que durante muitos anos, a minha bagagem de férias incluía sempre Cem Anos de Solidão de GabrielGarcía Márquez.

E sempre renovei a beleza, o espanto de nele (re)encontrar coisas novas.

Nelson Rodrigues disse um dia que deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.

Estas palavras assentam em Cem Anos de Solidão, um livro mágico, um livro que me marcou para lá do imaginável.

Não há um livro da nossa vida porque num correr de tempo temos muitas vidas.


Mas se pudesse escolher uma vida, nela acabaria por encontrar Cem Anos de Solidão.


Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas, brancas e  enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo.

Disse Fernando Pessoa que a morte é apenas deixarmos de ser vistos.

Assim é.
Gabriel García Márquez morreu aos 87anos e não poucas vezes se terá lembrado, nestes últimos meses, que as mortes são sempre anunciadas.

Apenas isso.

Os seus livros caminharão sempre a nosso lado.

Gostava de rosas amarelas e nunca se preocupou que o mundo soubesse que era amigo de Fidel de Castro. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

POSTAIS SEM SELO


Meu caro amigo, a terceira idade é aquela em que a gente põe óculos para ouvir o rádio.

terça-feira, 15 de maio de 2012

CARLOS FUENTES (1928-2012)


Aos 83 anos, morreu hoje na Cidade do México o escritor mexicano Carlos Fuentes.

Nos últimos dias a morte tem invadido os corredores da casa, e levado quem tanto  nos ajudou a olhar a vida, a olhar as gentes, a olhar o mundo: Antonio Tabucchi, Fernando Lopes, Miguel Portas Bernardo Sassetti, agora Carlos Fuentes.

É de arrepiar.

O impacto dos seus primeiros romances -projetaram-no como um dos principais actores da literatura latino-americana.
À semelhança de outros intelectuais seus contemporâneos, de Gabriel García Márquez a Mario Vargas Llosa ou Julio Cortázar, Fuentes nunca pôs de lado o compromisso político e social.

Carlos Fuentes foi o mais ‘infeliz’ dos três grandes nomes do 'boom' da literatura latino-americana: Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e ele”,
diz Manuel Alberto Valente, seu editor em Portugal.

Só que os outros dois ganharam o Prémio Nobel. Do Fuentes falava-se sempre que podia ser um candidato ao Nobel mas infelizmente não o teve. Manuel Valente lembra que, também em termos de vendas, foi sempre um autor menos lido do que os outros, Márquez e Llosa. “Pelo menos em Portugal nunca teve um grande sucesso de público. Mas é um autor extremamente importante e o facto de ter tido sempre menos sucesso que os outros dois pode explicar-se por ser o mais político dos três. A obra dele é muito o espelho do México e das suas vicissitudes políticas. É um autor muito marcado ideologicamente e isso talvez tenha contribuído para que não tenha sido um autor tão popular. Mas é indiscutivelmente um dos grandes nomes da literatura latino-americana e da literatura mundial.Em 1955, fundou com Octávio Paz e Emmanuel Carballo, a Revista Mexicana de Literatura. Era um homem de esquerda, membro do Partido Comunista, próximo de Fidel Castro antes de se afastar depois da prisão (1971) do poeta cubano Ernesto Padilla.

Num ensaio da revista Tiempo Mexicano, de 1972, escreveu: O que um escritor pode fazer politicamente deve fazê-lo também como cidadão. Num país como o nosso, o escritor, o intelectual, não pode alhear-se da luta pela mudança política que, em última instância, supõe também uma transformação cultural.

Fonte: jornal Público.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

POSTAIS SEM SELO



A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.

Gabriel García Márquez em Viver para Contá-la.

Legenda: Desenho de João da Câmara Leme, pormenor da capa de Viver Com os Outros de Isabel da Nóbrega.