O
segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso
pacto com a solidão.
Gabriel Garcia Márquez
O
segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso
pacto com a solidão.
Gabriel Garcia Márquez
Ao ler Vemo-nos em Agosto de Gabriel García Márquez
encontramos Van Morrison a entrar num convento.
A filha Micaela namorava com um músico de jazz. Ana
veio a saber que os telefonemas internacionais não eram para o namorado-músico
mas sim para uma catequista oficial das Carmelitas Descalças.
«O destino da filha resolveu-se com
facilidade e sem pressa. Despediram-se dela com um serão íntimo, para o qual
convidaram o músico de jazz com a sua nova namorada. Doménico e ele
improvisaram uma revisão muito pessoal dos contrastes para piano e saxofone de
Béla Bartók e todos se tornaram amigos à primeira vista.
Entregaram-na às Carmelitas descalças na missa ordinária do convento. Ana Magdalena vestiram-se como para um funeral, mas Micaela chegou com uma hora de atraso e sem ter dormido, com o hipil da mãe, os seus eternos sapatos de ténis, uma mala com os seus artigos de higiene pessoal e um álbum de Van Morrison que lhe tinham oferecido à última da hora.»
Primeiro vão-se as memórias, depois as ligações. Ou
vice-versa. É assim que se morre.
A segunda frase neste texto não é minha.
Não sei quem a escreveu, onde a li.
Se pudéssemos arrumar as memórias numa caixa de
cartão, onde guardamos tantas outras coisas…
A demência chegou a António Lobo Antunes.
Tem chegado a tantos e tantos outros.
Lembremos Gabriel García Márquez.
Na livraria estive a folhear o livro «Gabo e Mercedes» que um dos filhos de
Garcia Márquez e a sua mulher Mercedes escreveram sobre Gabo.
Calhei na parte da história em que se escreve sobre o
internamento hospitalar do escritor, na cidade do México, corria o ano de 2004,
com um cancro em fase terminal, e o seu regresso a casa para morrer.
Tinha então 87 anos, em 2004 publicara o seu último
romance «Memórias das Minhas Putas Tristes»
Levo o livro, não levo.
Tenho quase 80 anos.
Apercebi-me ultimamente que me tornei sensível a
certas coisas e, como tarefa diária, resolvi poupar-me.
Lentamente, fui pousando o livro no escaparate da
livraria.
Tristemente, saí para a rua… E chovia…
Estamos em
Agosto, faz um calor de ananases, como diria o nosso Eça.
Li há uma semanas um bonito livro de Gabriel García Márquez, aqui já referido, um bonito título
Vemo-nos em Agosto, não tem o acabamento final de Gabo, mas andam por lá os
perfumes. Todos os anos a 16 de Agosto, Ana Magdalena Bach apanha o ferry que a
leva até à ilha onde a mãe está enterrada.
«O
denominador comum do livro é que tratará de histórias de amore de gente de
idade», diz Cristóbal Perra, o editor do livro.
Durante a
leitura ficaram alguns pedaços sublinhados. Este é um deles, situa-se na página
61:
«Quando recuperou o humor passava da meia-noite. Doía-lhe a cabeça, mas doía-lhe mais ter perdido a sua noite. Arranjou-se um pouco e desceu, disposta a recuperá-la. Tomou um gim com soda num tamborete do bar frente ao jardim abandonado pelos turistas madrugadores. Chegou um hermafrodita de músculos artificiais com correntes e pulseiras de ouro, cabelo dourado e a pele avermelhada com unguentes para o Sol. Tomou ao balcão uma bebida fosforescente. Ela perguntou a si mesma se seria capaz de se insinuar ao empregado do bar, que era jovem e bem proporcionado, e respondeu a si própria que não. Chegou a interrogar-se sobre se seria capaz de sair par a rua e mandar parar automóveis até encontrar alguém que lhe fizesse o favor de seu gosto, e a resposta foi a mesma: não. Perder a noite era perder um ano, mas eram três da madrugada e não havia remédio: perdera-o.»
Aquele
começo de Cem Anos de Solidão!...
Gosto da capa deste livro de Gabriel García Marquez e eu que tanto gosto de capas,
fico impossibilitado de saber o autor. Esse monstro chamado Leya onde as
Publicações Dom Quixote e outras estimadas editoras, estão alojadas, entende
que isso não é importante.
Importante
é o dinheirinho!
Uma mulher, Ana Magdalena Bach, de seu nome, casada, filhos, por Agosto, solitariamente, aporta a uma ilha do Caribe em que está sepultada sua mãe.
Visita a campa onde sempre deixa um ramo de gladíolos.
Nas
noites quentes da ilha senta-se no bar do hotel onde se hospedou, até que um
qualquer alguém aparece, convida-a para uma bebida, ela bebe sempre um gin,
trava conversa, os variados enigmas da solidão no crepúsculo da vida, enquanto uma mulata canta a audácia serena de um bolero e Ana
sente no peito o esvoaçar de borboletas.
Em
cada regresso a casa acaba por desvendar o motivo de a mãe ter escolhido aquela
ilha e ali ser enterrada.
Gabo nunca completou a revisão final e nas margens dos rascunhos, deixou a nota: «Este livro não presta. É preciso destruí-lo».
Saramago nunca completou «Alabardas», provavelmente não deixou nenhuma nota sobre a publicação das páginas já escritas. Pilar del Rio entendeu que, apesar de tudo, deveriam ser publicadas.
Há
quem defenda que originais não concluídos e devidamente afinados pelos seus
autores, não deveriam ser publicados.
Não estou muito de acordo e acrescento que, no tocante a alguns autores, como por exemplo, Gabriel García Márquez e José Saramago, não serão prosas em estado puro mas saberemos que, muito dificilmente, encontraremos fruta tocada por falta de jardineiro.
O segredo de uma boa velhice não é mais do que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.
Já deixei por aí escrito que um dos
livros que mais encantaram os meus dias de leitor, foi Cem
Anos de Solidão. De Gabriel Garcia Marquez. Da primeira à última palavra e
tem um começo extraordinário:
«Muitos anos depois, diante do pelotão
de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde
remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.»
No
segundo volume de O Caderno, José Saramago fala desse livro, ao texto chamou
simplesmente «Gabo»:
«Os escritores dividem-se (imaginando que aceitem ser assim divididos…) em dois grupos: o mais reduzido, daqueles que foram capazes de rasgar à literatura novos caminhos, o mais numeroso, o dos que vão atrás e se servem desses caminhos para a sua própria viagem. É assim desde o princípio do planeta e a (legítima?) vaidade dos autores nada pode contra as claridades da evidência. Gabriel García Márquez usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado “realismo mágico” por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem Anos de Solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de cinquenta páginas. Necesitava pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de orientar-me nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu. Se a palavra traumatismo pudesse ter um significado positivo, de bom grado a aplicaria ao caso. Mas, já que foi escrita, aí a deixo ficar. Espero que se entenda.»
Há
empresas que só fazem marcações através da aplicação da empresa.
E
se eu não tiver telemóvel?
Se
eu não souber o que é uma aplicação?
Se
eu não quiser que as empresas tenham o meu número de telefone, ou telemóvel ou
os meus dados pessoais?
A
automação de serviços elementares, a robotização de atendimento tomou conta do
nosso quotidiano.
Por
outro lado qualquer mensagem, seja do que for, avia-se rapidamente através de
um e-mail de um SNS, ou uma qualquer laracha deixada no facebook, no raio
que os parta a todos, porque tudo agora se despacha com um toma lá e não chateeis
mais, coisas que deixam um sabor frio e triste.
Já ninguém escreve a ninguém.
O Coronel de um romance do Gabriel Garcia Marquez esperava ansiosamente o dia
em que a data da reforma chegasse por carta, enquanto a mulher, aparvalhadamente,
o enchia de minudências:
-
Gostaria de plantar rosas,
disse.
-
Se quer plantar rosas, porque não planta?,
perguntou o Coronel.
-
Os porcos comem-nas
todos, disse a mulher.
- Óptimo, porco engordado com rosas deve ser muito bom, disse o Coronel.
As mulheres são mesmo o diabo.
O António Alçada Baptista contava que, sempre que a mulher se punha com
arrumações, lhe aparecia com listas telefónicas na mão que faço a isto, Alçada interrompia a leitura e murmurava: Olhe: dê aos pobres!
Já
ninguém escreve a ninguém.
Há
uma velha canção dos Box Tops: The
Letter.
Cansado dos dias solitários tenho que
regressar depressa a casa e nem posso ir de comboio rápido, terei que apanhar
um avião, não sei o que isso me vai custar, mas tenho de regressar a casa
porque a minha miúda, numa carta, diz que não pode viver sem mim.
Já agora, a propósito, ou a despropósito, fiquem-se com uma história, lida já
não sabe onde, ou contada já não sabe por quem:
Durante as actividades num campo de férias, o monitor perguntou à rapaziada,
como preferiam receber, de um amigo distante, o convite para um encontro.
Dividiram-se as opiniões, uns disseram logo que seria por e-mail, outros por
SMS, mas uma moça disse:
- Preferia receber por carta.
Sentiu os olhares de espanto – por carta? - e em voz lenta, mas clara,
explicou:
Porque uma carta dá mais trabalho a escrever e ainda é preciso comprar um selo,
metê-la no correio. E depois, se for verdadeiramente meu amigo, ainda me vai
mandar qualquer coisa a acompanhar: uma pétala de flor, uma qualquer
ilustração...
O escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, autor de dois romances que ficarão para sempre na História da Literatura – Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos de Cólera -, explicou, um dia, a origem da ficção: «A ficção foi inventada no dia em que Jonas regressou a casa e contou à mulher que chegou com três dias de atraso por ter sido engolido por uma baleia.»
João Tordo em Manual de Sobrevivência de Um Escritor.