Mostrar mensagens com a etiqueta Raul Brandão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Raul Brandão. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 27 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS

Camões, Camilo, Eça, e Alguns Mais

Aquilino Ribeiro

Livraria Bertrans, Lisboa s/d

É louvada a longanimidade e tolerância de Fr. Bartolomeu Ferreira porque estando os Lusíadas à mercê do seu lápis de revedor não suprimiu a jóia erótica sem para da ilha voluptuosa e outras belezas desenvoltas do poema.

sábado, 2 de julho de 2022

CONVERSANDO


Certo, certo, não poderei garantir, mas a primeira vez que ouvi falar nas Berlengas foi na velha edição de Os Pescadores de Raúl Brandão, edição da Bertrand de 1923, que estava em casa do meu pai.

Sempre desejei ir às Berlengas.

Nunca arranjei companheiros para a viagem, talvez nem sequer me tenha esforçado em arranjá-los. Também nunca fui ao Bugio, ali na barra do Tejo, mas, por motivos profissionais, passei bem perto.

Leio agora que está difícil chegar até às Berlengas.

Burocracias várias e, acima de tudo, questões de segurança, regras que impõem um limite de 550 visitantes em simultâneo.

As Berlengas atraem milhares de pessoas, 65 mil por ano, mais de metade no Verão.

Gosto de faróis.

Ainda segundo Raul Brandão:

«Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado.»

Não sendo um leitor atento e regular de Mário Cláudio, um dia, apenas pelo título, comprei O Último Faroleiro de Muckle Flugga. Tinha que ser pelo título que havia de comprar o livro, pois não tenho um grande entusiasmo pela escrita de Mário Cláudio.

O livro tem este começo:

 «Com os cotovelos da camisola gastos por se apoiar no balcão de linóleo, levantando a caneca de lager, e os fundilhos dos jeans puídos por se suster no banco do costume, à espera da tarde ou da noite de inopinada maravilha, decidiu que se impunha, que diabo, radicalizar a mudança de vida. Persistia a chuva de Aberdeen que molha profundamente, ainda quando não parece cair, e tardava a Primavera mais do que seria admissível, pondo a doer, de tão imobilizadas, as ubiquas lâmpadas de vapor de mercúrio.»

Li num Fugas do Público que, desde o início da automatização das funções reservadas aos faróis, não só resultou o fim de uma profissão lendária como ainda o consequente afastamento de faroleiros e respectivas famílias das pequenas fortificações, deixando espaço ao abandono e destruição. Foi a partir deste cenário que a Trinity House, a organização responsável pela gestão dos faróis na costa inglesa, encontrou na reconversão e renovação dos faróis a hotéis ou casas de turismo rural, uma saída para a situação. Murmurei então de mim para comigo: ora aqui está uma estupenda ideia para passar uns dias. Recortei o endereço e lancei a ideia para o baú das viagens-que-queria-fazer-mas-que-nunca-irão-acontecer . 

Fico-me então a olhar para as falésias verdes e selvagens da Grã Bretanha, para aquela costa da Cornualha.

E aqui o velho texto do Raul Brandão lido em Os Pesacdores:

Se houvesse justiça no planeta, eu já tinha sido nomeado vereador deste castelo, onde vivem três veteranos que de velhos criaram musgo — ou pelo menos faroleiro. Como sou um contemplativo, o lugar convinha-me perfeitamente. Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado De Inverno nenhum barco atraca às Berlengas. Só e Deus no mais belo sítio da costa portuguesa!... Atrevo-me a falar a um velho musaranho, de focinho arreliador, que está metido no farol, de costas para o mar, fingindo que me não vê, a esfregar e a polir os metais reluzentes.

— Hein?...

— Hum!...

Rosna e não diz palavra que se entenda.

— Olá!

Olha-me com desprezo e continua a polir os metais já polidos, como se eu não existisse. Mas não desanimo facilmente e teimo:

— Que beleza, han?!...

Toquei-o. O homem sacode os ombros, levanta-se, atira o pa¬no fora, encara-me de frente, com os bigodes assanhados entre as rugas e um olho azul de faiança cheio de cólera:

— Que beleza o quê? Que beleza?... Isto?! — E ri-se. — O vento e o mar! Sempre o vento e o mar! O vento, que no Inverno não me deixa chegar à porta, e o mar todo o dia, toda a noite a bramir! O mar desesperado, o vento desesperado... Eu não sou um faroleiro — sou um náufrago. Que beleza, hein?... Nem posso dormir! Nem dormir! Toda a noite o vento uiva, toda a noite o mar ecoa, ameaçando submergir esta ilha do diabo!...

Julguei-me autorizado a interrompê-lo:

— Mas no Verão é esplêndido...

- Nem olho. Só me resta uma esperança — fugir. Se não me mudam, endoideço. O amigo sabe quantos endoideceram já? Três!...

E atirando os braços para o ar:

— Uma calamidade! Aqui não se sabe nada, aqui não chega nada. Nunca! Nunca! Nem a pneumónica aqui chegou. E não posso ter uma couve, não posso ter uma abóbora... Os coelhos devoram tudo. É uma praga!

— Dê-lhes tiros.

— Tiros?! — E ri-se com dois dentes e desprezo. - Quando quero um coelho, ato um anzol a um pau, meto o pau na lura e tiro o coelho para fora; quando quero um peixe, ato um anzol a uma linha e deito a linha à água... Mas o que eu quero é fugir! Fugir! Fugir para muito longe, para onde não ouça o mar, para onde não veja o mar!

Roncou... Percebi que repetia com escárnio: — Que beleza, han!... — E voltando-se, outra vez com o pano na mão, continuou a esfregar e a polir com desespero os metais — de costas viradas para o mar...

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

AINDA POR CIMA TARTAMUDEANTE

12 de Janeiro de 1967

Telefonei ao Vergílio Ferreira para lhe expor os motivos da minha recusa – sim, porque recusei definitivamente colaborar na sessão de homenagem a Raul Brandão em Guimarães.

Sem tempo para reler e estudar o Húmus, a Farsa, Os Pobres, A História de um Palhaço, etc.., que raio queriam eu fosse lá dizer? (ainda por cima tartamudeante.) Repetir as banalidades vãs do costume? Coroá-lo de lugares-comuns?

Não. Raul Brandão merece palavras sempre virgens e ideias acabadas de nascer, com sabor a fonte…

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, II

sexta-feira, 23 de março de 2018

POSTAIS SEM SELO


Por mim, penso que Raul Brandão é um dos nossos pouquíssimos escritores merecedores de exportação.

José Saramago

Legenda: retrato de Raul Brandão por Columbano Bordalo Pinheiro

RELACIONADOS


Raul Brandão é um dos escritores abordados na troca de Correspondência entre José Saramago e José Rodrigues Miguéis.

José Rodrigues Miguéis, carta datada de 10 de Abril de 1961, informa que mandou para a Gazeta Musical e de Todas as Artes, um artigo sobre Raul Brandão.

Em carta, datada de 12 de Maio de 1961, Saramago escreve:

Espero com o maior interesse o seu artigo sobre o Raul Brandão, que é uma das maiores e mais velhas admirações minhas em literatura. Um livro como Húmus, por exemplo, como é possível que tanta gente o ignore? Não percebo, palavra. Falava o Régio, já aqui há tempos, no mau gosto de certas passagens. Bolas! Sempre gostava que me dissessem onde há, nos livros do Régio, às vezes de uma pieguice muito professor-de-liceu-em-cidade-da-província, algo que iguale em ternura aquelas «mãos como cepos» da Joana, dessa criação única da nossa literatura que é a mulher da esfrega! «Há sonhos humildes que ninguém quer sonhar: servem à Joana que quando os usa os vira do avesso.» Quantas vezes exprimiu assim a frustração um escritor português, uma frustração que nega até o direito a sonhos próprios?...

E em outra carta, datada de 30 de Junho de 1961, Saramago volta a Raul Brandão:

Saiu a Gazeta, dedicada ao Raul Brandão. Esperava outra coisa. Evocações a mais, e não o estudo lúcido que venha pôr Raul Brandão no altíssimo lugar que lhe compete. O Joel Serrão tê-lo-á tentado, mas falta-lhe sensibilidade e também audácia de dar às coisas os seus nomes: Raul Brandão é dos maiores criadores (não digo escritor) da nossa literatura, se não estou enganado, como diria António Sérgio, ou o seu discípulo Rogério Fernandes (no estilo, entenda-se). Por mim, penso que Raul Brandão é um dos nossos pouquíssimos escritores merecedores de exportação.


( Texto publicado em  5 de Março de 2017).

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

QUE ADMIRÁVEL TEMA PARA O RAUL BRANDÃO


27 de Setembro de 1969

Estive ontem em casa do Fafe que me falou de uma entrevista recente concedida pelo Salazar a um jornal parisiense (L’Aurore). Anda por aí de mão em mão em fotocópias.
Da leitura dessa entrevista conclui-se que o ex-ditador está convencido de que continua a ser Presidente do Conselho!
Que admirável tema para o Raul Brandão!... O Salazar hemiplégico, meio tonto e zaranza, a mandar em coisa nenhuma no meio de fantasmas que se reúnem em casa do Presidente em Conselhos de Ministros espectrais.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

domingo, 5 de março de 2017

O DIREITO A TER SONHOS PRÓPRIOS


Raul Brandão é um dos escritores abordados na troca de Correspondência entre José Saramago e José Rodrigues Miguéis.

José Rodrigues Miguéis, carta datada de 10 de Abril de 1961, informa que mandou para a Gazeta Musical e de Todas as Artes, um artigo sobre Raul Brandão.

Em carta, datada de 12 de Maio de 1961, Saramago escreve:

Espero com o maior interesse o seu artigo sobre o Raul Brandão, que é uma das maiores e mais velhas admirações minhas em literatura. Um livro como Húmus, por exemplo, como é possível que tanta gente o ignore? Não percebo, palavra. Falava o Régio, já aqui há tempos, no mau gosto de certas passagens. Bolas! Sempre gostava que me dissessem onde há, nos livros do Régio, às vezes de uma pieguice muito professor-de-liceu-em-cidade-da-província, algo que iguale em ternura aquelas «mãos como cepos» da Joana, dessa criação única da nossa literatura que é a mulher da esfrega! «Há sonhos humildes que ninguém quer sonhar: servem à Joana que quando os usa os vira do avesso.» Quantas vezes exprimiu assim a frustração um escritor português, uma frustração que nega até o direito a sonhos próprios?...

E em outra carta, datada de 30 de Junho de 1961, Saramago volta a Raul Brandão:

Saiu a Gazeta, dedicada ao Raul Brandão. Esperava outra coisa. Evocações a mais, e não o estudo lúcido que venha pôr Raul Brandão no altíssimo lugar que lhe compete. O Joel Serrão tê-lo-á tentado, mas falta-lhe sensibilidade e também audácia de dar às coisas os seus nomes: Raul Brandão é dos maiores criadores (não digo escritor) da nossa literatura, se não estou enganado, como diria António Sérgio, ou o seu discípulo Rogério Fernandes (no estilo, entenda-se). Por mim, penso que Raul Brandão é um dos nossos pouquíssimos escritores merecedores de exportação.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

GRUPOS LITERÁRIOS


A cada passo se formam por aí grupos literários. Há-os em todas as gerações. Os rapazes sentiram sempre necessidade de comunicar e juntam-se conforme o caso, as afinidades ou as aspirações.
É um momento delicioso que nos deixa para sempre um nada de poeira no fundo da alma – algum pó dourado que teima em reluzir até ao fim da vida. Já o passado fica muito longe, já as figuras de apagadas mal se distinguem e ainda a poeira de sonho teima lá no fundo… E que essas horas são como a primeira flor das árvores: não há nada que as pague. Por melhores e mais conscientes amizades que mais tarde se adquiram, nenhuma chega à dos vinte anos, quando o homem não tem interesses a defender e os sentimentos estão em pleno viço. Não há um de nós que saiba ainda o que vale a existência e todos de mãos dadas olhamos com sofreguidão e candura. É o começo delicioso duma aventura. Estamos juntos e unidos como irmãos e já sentimos o travor da separação: só mais um passo e cada um parte para o seu lado, sem às vezes se tornar a ver.
Valia a pena determo-nos a olhar a vida, tingida de névoa azul como certas paisagens que só são belas de longe – a vida como nunca mais nos será dado vê-la – mas quem é que nessa idade se detém?

sábado, 7 de maio de 2016

ESTADOS DE ALMA


O Diário de K. Maurício é constituído pelos pedaços de alma que aí vão. É um monólogo destacado e rouco, com frases incompreensíveis e quase sem ligação. Alguns pedaços eu corto: é que há coisas que se não publicam - farsa para que os outros se riam, dores para que os outros sintam piedade. Lembra-me um clown que tivesse por força de fazer rir a multidão ignara. Esses corto-os e para mim os guardo; os outros aí vão, apesar de ver que perdem o interesse com que sangram aqui, no caderno de papel gelado, nestes sarrabiscos que têm vida e contam a sua dor.
Tal como são, dão-me, porém, o que nesse tempo, já remoto, se chamava um estado de alma. Parece que ele, em noites de desespero, fazia literatura da sua dor, para se esquecer. São frases bruscas às vezes, páginas entrecortadas e monólogos espremidos do fel. E de súbito, num acesso, julga-se ouvir uma boca dizer-nos, na noite e ao ouvido, segredos que nos transem.
Todo este Diário é áspero, com frases inacabadas, monólogo de quem vai numa subida a pique, mas, como é vivido e sofrido, amo-o e enternece-me, como se o próprio K. Maurício, numa longa conversa, me mostrasse a sua alma de grotesco, incompleta, mas tão dorida e tímida, que me enche de piedade. A cada ilusão morta, como a sua sensibilidade estremece e como ele chora! Que estranho pessimista este, tão ingénuo! Decerto que nem sempre foi sincero, mas no Diário raramente pensou que teria leitores, assim como em todas as páginas que a seguir transcrevo, e em muitos pedaços atirados para o papel numa sofreguidão de se contar...


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Que dúvidas? Pois se a minha vida é esta e não há outra vida; se o minuto é este e não há outro minuto, que força me pode deter para que eu não realize o meu destino contra ti e contra todos?

Legenda: pintura de Julien Dupré

domingo, 15 de abril de 2012

UM INTERIOR ESCONDIDO


Em todas as almas, como em todas as casas,
além da fachada há um interior escondido.

Raul Brandão, epigrafe em Claraboia de José Saramago

quarta-feira, 11 de abril de 2012

POSTAIS SEM SELO


Todos os sonhos se põem a caminho.


Legenda: fotografia de Elliott Erwitt

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

FAROL DA BERLENGA



 Os homens devem ser felizes diante deste espectáculo sempre igual e sempre renovado.”

Raul Brandão em Os Pescadores

Legenda imagem do Google.

domingo, 29 de agosto de 2010

TRAFARIA


Em 1923, num texto que vem “Os Pescadores”, Raul Brandão escrevia: 

“Da horrível Trafaria à Caparica gastam-se dezoito minutos num carrinho pela estrada através do pinheiral plantado há pouco”.

Num apontamento, a que deu o título “Amor de Trafaria”, Jorge Listopad escreveu, no “JL”, a 4 de Julho de um ano que o recorte não menciona:


A Trafaria nunca foi grande coisa mas tinha a poética do banal, a praia com vista para o mar (!) um panorama de Lisboa ocidental, umas tasquinhas de fim-de-semana com saborosa caldeirada, e até grupos de teatro de merecimento. Sobretudo ia-se de barco, ida e volta, numa viagem azulada, simpática, com paragem no meio do caminho, Porto Brandão, para columbófilos apaixonados.




A Trafaria continua a não ser grande coisa: mais parece um advérbio. Não se declina, não se conjuga, não tem plural. Parou. Não melhorou, não piorou, ou se sim, a praia é agora dos cães, dos meninos perdidos, os engenhos industriais tapam as vistas, as tascas transformaram-se em restaurantes, o café da esquina embora não mudasse, parece o café de estação de comboios, ou de garagem de autocarros. Não respira. Não se move.
São assim os nossos pequenos amores de outrora. Ficou o barco: ida e volta, sem descer, sem parar, com rumo contínuo, como no sonho.”