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terça-feira, 28 de abril de 2026

RETRATOS


«Luiz Pacheco envia-me um artigo que publicou em O Inimigo de 29 de Abril sobre o primeiro volume des­tes Cadernos. Melhor do que outros encartados críticos e observadores de olho de falcão, mostra ter compreen­dido porquê e para quem ando eu a escrever estas sin­ceridades. Ao postal e aos livros que também enviou, teve a delicadeza de juntar uma colecção de reproduções do Retábulo da Igreja de Jesus, de Setúbal. Só quem não conheça o Pacheco o julgará incapaz de atenções assim. Relendo O Teodolito, repassando os Textos Sadinos (o título é pouco feliz, o que ali está não tem nada que ver com o Sado), pensei: «Por que bulas infernais não está este homem traduzido em Espanha e outras partes?» Na verdade, andam aí uns quantos espertos a fingir de li­teratos marginais e de escritores malditos que nem che­gam aos calcanhares do Pacheco, e prosperam, e são aplaudidos - enquanto uma das mais fortes expressões que conheço de uma vida e uma obra ao lado perma­nece desconhecida fora das fronteiras.»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, 2º volume

«Talvez seja o maior prosador da língua portuguesa, talvez seja o mais corrosivo, aquele que maior número de inimigos tem, contudo aqueles que o atacam talvez porque por ele foram mordiscados, não são certamente os amadores transformados na coisa amada. Ser mordido  por Luís Pacheco é ser vacinado contra o grande mal da nossa literatura, a mediocridade a escrita piegas, a escrita a metro para os prémios e outros afins.

Libertino, maldito, marginal, tudo do pior para uns e do melhor para outros, mas sobretudo um Anjo sobrevoando galáxias, rindo muito sendo muito feliz.»

João Carlos Raposos Nunes, contra capa de Textos Sadinos

«Eu não sou um marginal, porra. Sou um senhor.»

Luiz Pacheco numa entrevista a Pedro Castro em A Capital, Julho de 2005   

quarta-feira, 8 de abril de 2026

RETRATOS


Tinha 47 anos, quando morreu a 1 de Abril de 1996.

Por isso, a denominada morte de Mário Viegas, é uma redonda mentira.

Porque ele ainda anda por aí, a beber gin-tónico, a sair do «João Sebastião Bar», cigarro ao canto da boca, abraçado a um rapaz.

No meio de um gin, dizia poemas e palavras.

 Como estas:

« O Humor é a coisa mais séria do mundo.

Esta frase já toda agente conhece… mas tem muita graça! E a mais triste e solitária do Mundo, digo eu. É muito triste e angustiante fazer rir.»

Ou estas:

«Quem não aguenta o silêncio não aguenta a vida».

No tal dia da mentirosa morte de Mário Viegas, José Saramago estava em Lanzarote, e escreveu:

«Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargão da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.» 

domingo, 5 de abril de 2026

NESTE DIA


No 1º volume dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1993, Carmélia telefonou a Saramago, aos gritos de 25 se Abril sempre!, mas o entusiasmo de Carmélia deixou-o «lamentavelmente frio».

Neste Dia, estamos com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1994, 5 de Abril: 

«Mal refeito ainda da viagem de regresso, tive de decidir-me a responder, enfim, aos inquéritos do Público e do Expresso, ambos sobre o vigésimo aniversário do 25 de Abril. A Vicente Jorge Silva, que convidou «vinte personalidades representativas dos mais variados secto­res e quadrantes da vida nacional» a escolherem «os dez melhores e os dez piores acontecimentos, situações e fenómenos registados» desde a revolução, respondi brevissimamente: que o pior do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; que o pior de ateio foi Saraiva de Carvalho; que o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço; que o pior do Primeiro de Maio foi o Dois de Maio; que o pior da Reforma Agrária foi António Barreto; que o pior da Descolonização foi Agora Amanhem-se; que o pior das Nacionalizações foi Salve-se Quem Puder; que o pior da Reforma do Ensino foi Não Haver Ensino; que o pior da Liberdade de Expressão foi ser Liberdade Sem Expressão; que o pior da Democracia (até agora) foi Ca­vaco Silva. E a Joaquim Vieira, que me pedira 125 pala­vras sobre as circunstâncias em que recebi «a notícia de que estava em curso o derrube do Estado Novo» e «as recordações mais marcantes do período que se seguiu, até [mais de 1975», dei-lhe rigorosamente as palavras pedi­das, que assim rezam: «Nesse mês dormi algumas noites em casas de amigos não marcados pelo regime. Vários camaradas meus haviam sido presos, a minha vez podia não tardar. Passei uns dias em Madrid, mas, como a po­lícia não se "manifestou", regressei a Lisboa. Vim a sa­ber depois que a minha prisão estava marcada para o dia 29... Numa reunião na Seara (ouviam-se ainda tiros nas ruas) fui encarregado de escrever o editorial para o pri­meiro número "livre" da revista.» E rematei: «Não esque­cerei o Primeiro de Maio, nem o 26 de Setembro, nem o 11 de Março, nem a Assembleia do MF A em Tancos, nem os meses em que fui director-adjunto do Diário de Notícias. Não esquecerei o Alentejo nem a Cintura Indus­trial. Não esquecerei o que então chamámos Esperança.

Suspeito que não terão apreciado as respostas nem o tom em que foram dadas. O caso é que inquéritos destes me irritam pela sua inutilidade. Servem para en­cher papel.»

domingo, 8 de março de 2026

RETRATOS


 «A melhor definição de Saramago é de Juan Marsé: “Não é um escritor, é um pregador”.

 Não, eu não sou malcriado. Conheci-o numa viagem ao Brasil. Apareceu aí uma brasileira que andou com um poeta e levou ao Brasil uma série de escritores, o Zé, o Fernando Assis Pacheco, o Saramago, o Egito Gonçalves, o Alexandre O’Neill, de quem fiquei amigo. Eu era o mais novo de todos. Eles estavam todos publicados no Brasil e eu não. No dia seguinte, aqueles velhos recebiam dez ou 15 cartas e eu zero. Nada. Com o Saramago nunca tive uma conversa. Nesse ano, era também o primeiro ano daquele grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, e que o Zé ganhou com “Balada da Praia dos Cães”, contra o “Memorial do Convento”, e o Saramago ficou numa fúria. O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros.»

António Lobo Antunes

sábado, 28 de fevereiro de 2026

SOLTAS

Faleceu Vítor Dias.

É com profundo pesar que o Secretariado do Comité Central do PCP informa que faleceu Vítor Dias, com 80 anos, recordando a sua intervenção destacada na actividade do Partido, onde desempenhou importantes tarefas e responsabilidades.

Vítor Dias, empregado de escritório, aderiu ao PCP em 1973 sendo funcionário do Partido desde 1976.

Tendo integrado diversas associações culturais e desportivas do concelho de Vila Franca de Xira, foi dirigente da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa em 1966/1967 e membro da direcção da Cooperativa Livreira e Cultural “DEVIR”. A partir de 1969 integrou diversas estruturas da CDE de Lisboa, pelo qual foi candidato na batalha política aquando da farsa eleitoral fascista de 1973 e dirigente do MDP/CDE até 1976. Militante antifascista, integrou a luta pela democracia e a liberdade tendo sido preso a 6 de Abril de 1974 e libertado com a Revolução de Abril.

Membro do Comité Central desde o IX Congresso, Vítor Dias integrou a Comissão Política do Comité Central do PCP de Maio de 1990 até 2008. Assumindo diversas tarefas, foi responsável pelo trabalho de Informação e Propaganda Central, autor de inúmeros textos na imprensa do Partido e activo participante nas diversas batalhas eleitorais a que o Partido foi chamado. Foi ainda membro da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira no primeiro mandato autárquico de 1976/1979. Nos últimos anos manteve uma atenção à situação do País e do Mundo intervindo com a sua opinião a partir do blogue Tempo das Cerejas de que era autor.

1.

Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, apenas ultrapassado pela Itália.

2.

A procura turística por Portugal continua em alta e os próximos tempos esperam-se animadores para o setor hoteleiro. Há mais de 70 hotéis que vão abrir portas durante este ano, acrescentando mais de 3800 quartos ao mercado. A maioria é em Lisboa, no Algarve e no Porto.

3.

«A comparação é cruel, justa e conduz inevitavelmente à conclusão de que os protagonistas políticos são hoje, de um modo geral, bastante medíocres e fazem deslizar para a mediocridade o discurso e toda a circunstância política».

4.

Todos nos enganamos.

Uns mais do que outros.

Todos acreditamos.

Uns mais do que outros.

Zita Seabra

Militante do PCP desde os 15 anos, passou à clandestinidade com 17 anos. Participou nas lutas estudantis até ao 25 de Abril, sendo responsável pela criação da União dos Estudantes Comunistas.

Dirigente comunista e Deputada à Assembleia da República de 1975 a 1988 pelo PCP e pela APU, foi expulsa do PCP em 1988.

Foi deputada eleita pelo Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD na X Legislatura. Foi, ainda, vice-presidente do PSD em 2009.

Coordenou o Secretariado Nacional para o Audiovisual em 1993, ano em que assumiu a presidência do Instituto Português de Cinema. De 1994 a 1995, foi presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual.

Coordenou o Secretariado Nacional para o Audiovisual em 1993, ano em que assumiu a presidência do Instituto Português de Cinema. De 1994 a 1995, foi presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual. Aderiu ao Partido Social Democrata  e, nessa condição, Eleita pelo PSD no círculo de Coimbra em 2005, foi deputada na X legislatura e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República até outubro de 2007. Nessa legislatura, destacou-se pelas posições que tomou contra a legalização do aborto, de que havia sido uma das mais acérrimas defensoras nos tempos de militância comunista. No XXX Congresso do PSD, em 2007, passou a ser uma dos seis vice-presidentes da Comissão Política Nacional deste partido, cargo que desempenhou até maio de 2008.

Cadernos de Lanzarote 2º volume de José Saramago:

Entrada do dia 8 de Janeiro de 1994:

« Chegaram-me ecos do desastre que terá sido a participação de Zita Seabra no programa de Manuela Moura Guedes. Entristece-me verificar como afinal valia tão pouco, intelectual e eticamente falando, alguém a  quem os acasos e  as necessidades políticas colocaram em funções e confiaram missões de responsabilidade dentro e fora do Partido. Que Zita Seabra se tenha desempenhado delas, nesse tempo, com coragem e dignidade, não pode servir para disfarçar nem desculpar o seu comportamento actual. Zita Seabra é hoje o exemplo perfeito e acabado do videirinho, palavra suja que significa, segundo os dicionários e a opinião da gente honrada, «aquele que para chegar aos fins não olha aos meios nem hesita em humilhar-se e cometer baixezas». Ouço, leio, e chego a uma conclusão: esta mulher vai acabar mal.»

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

NESTE DIA


Estamos a 25 de Maio de 1994, com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote de José Sartamago e o tema é Miguel Torga e uma sua frase ao agradecer um prémio: «Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu destino.»

A interpretação Saramaguiana da frase:

«Sem saber que palavras o conduziram a estas, sem conhecer as outras que proferiu depois, umas expondo os dados prévios do pensamento, outras apresentando as conclusões, leio algo que disse Miguel Torga ao agra­decer o Prémio da Crítica: «Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu destino.» À primeira vista, parece que Torga quis reunir numa mesma irremovível fatalidade a lógica e o destino. Po­rém, o que ele quis dizer, imagino, é que, tendo em conta o fim-do-mundo onde nasceu (as serranias de Trás-os- Montes) e a dura vida dos seus primeiros anos (uma família pobre), dever-se-ia esperar que dali saís­se, logicamente, um cavador, nunca um poeta, ou, quan­do muito, no caso de a vocação apertar, alguém que, intelectualmente, se ficaria pelas quadras de pé-quebra­do para reforço de galanteios e animação de récitas e ro­marias. Sabemos, contudo, que nem sempre as coisas se passaram assim: a vida lá encontrava maneira de partir os dentes à lógica, e o destino, duvidoso nos rumos, mais do que se crê, não raro acabou por levar aos ma­res do Sul quem do Norte julgava não poder sair. Hou­ve mesmo um tempo em que parecia que ninguém nascera nas cidades grandes, éramos todos da província.»

José Saramago apreciava Miguel Torga.

Lamento de José Saramago no momento da morte de Miguel Torga:

«Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele.

(…)

Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.

Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde».

O sentido das palavras de Torga, ou muito eu me engano, tem mais que se lhe diga. Equivalem ao discur­so de qualquer velhice lúcida - «Cheguei até aqui, fiz o que podia, lástima não ter sabido ir mais além, agora já é tarde» -, mas representam principalmente a cons­ciência dorida de que nada dura, quiçá algo mais a obra que a vida, mas tão pouco, e que, no fundo, tanto monta à felicidade, própria e alheia, ter sido capaz de escre­ver A Criação do Mundo, como, de olhos no chão, ter ficado a cavar as terras do mesmo mundo, sem outro desejo e outra necessidade que ver crescer a seara, moer o trigo e comer o pão.»

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

NESTE DIA


Neste dia, estamos no dia 2 de Maio de 1968, no 4º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira.

 Dois dos escritores que pertencem ao Panteão Literário da Biblioteca da Casa, encontram-se hoje: José Gomes Ferreira e José Saramago.

Para preparar um texto sobre os cafés de Lisboa, de que José Gomes Ferreira foi assíduo frequentador, dei com uma entrada do 4º Volume dos Dias Comuns, referente ao dia 2 de Maio de 1968, em que o Zé Gomes assinalava o número especial da Seara Nova que registava os 50 anos da sua actividade literária, deste modo:

«O Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é o meu maior poeta».

Comoveu-me. (Sintoma de velhice?)

Por fim, José Saramago que mal conheço, termina assim o seu depoimento: «Ao lado da poesia de José Gomes Ferreira está o poeta que ele é: parece um pleonasmo, uma redundância, talvez um lugar-comum, um dizer-por-dizer. Pois muito se engana quem o julga.»

O que é curioso é que, àquela data quase se desconheciam («José Saramago que mal conheço»), («José Gomes Ferreira a quem mal conheço, a quem nada devo senão a alegria e o conforto de o admirar»).

José Gomes Ferreira morreu a 8 de Fevereiro de 1985.

José Saramago ganhou o prémio Nobel em 1998.

De certeza garantida o Nobel teria dado uma enorme alegria ao Zé Gomes.

Fica aqui o depoimento de José Saramago sobre José Gomes Ferreira publicado na Seara Nova nº 1471, referente a Maio de 1968:

                   

Fomos em busca do depoimento que José Saramago escreveu para a Fotobiografia de José Gomes Ferreira, organizada pelo seu filho mais velho, Raúl Hestnes Ferreira

Para a cópia que reproduzimos, servimo-nos do aquivo da Fundação José Saramago:

«Em Maio de 1973, o suplemento literário do jornal Diário de Lisboa publicou uma entrevista ao poeta  José Gomes Ferreira (Porto, 1900 – 1985). Décadas depois, José Saramago escreveria um texto contando que fora ele o autor dessa entrevista que não aparecia assinada. Contou também lembranças e os ensinamentos que guardava daquela conversa realizada há 50 anos.

José Saramago no papel de entrevistador

Saber a idade que José Gomes Ferreira ia cumprindo era facílimo, só tínhamos de pensar nos algarismos das unidades e das dezenas do ano em que estivéssemos. Mas era difícil acreditar que em 1973, por exemplo, ele já enchera 73 anos de vida. Podia-se admitir, sem demasiada discussão, que aquelas rugas, por serem as cabidas, e aqueles cabelos, por terem branqueado, mais ou menos concordassem com o registo do calendário, mas isso era só enquanto elas repousassem e eles esperassem o vento que infalivelmente os haveria de revolver. Então os números, os da idade e os do ano, desandavam, corriam velozmente para trás, e em menos tempo do que leva a contá-lo transfigurava-se o José Gomes Ferreira, tornado outra vez em homem novo, em adolescente entusiasta pronto a correr ao Batalhão Académico Republicano para realistar-se, em menino a olhar fascinado o deslizar de uma gota de água na vidraça, e sempre, em todas as circunstâncias, iluminado por aquele fundo de incorruptível e desconcertante inocência que iria ser, por toda a vida, a sua mais leal companhia.

Não foi casualmente que mencionei acima o ano de 1973. Trabalhava então na redação do Diário de Lisboa, onde, além de exercer a espinhosa e labiríntica função de opinante em tempos de censura, me esforçava, creio que com alguma ventura, por coordenar e fazer publicar todas as semanas as dezasseis páginas de um suplemento literário. Fiquei a dever essa fortuna a quantos colaboradores, em muitos casos por simples gosto pessoal, ou a câmbio de remunerações insignificantes que só o mesmo gosto lograva tornar aceitáveis, generosamente me abasteciam de material obviamente variável na qualidade, mas sempre empenhado, e por mim agradecido. A par dos habituais artigos e críticas, a par dos ensaios, dos poemas, dos contos, o suplemento literário daquele desaparecido Diário de Lisboa foi também palco de algumas das mais suculentas polémicas da época… E, claro está, havia as entrevistas. Em geral, por falta de tempo, sobretudo por falta de jeito, não era eu a fazê-las, mas alguma forte razão, que sou agora incapaz de recordar, me levou a chamar a mim a responsabilidade de entrevistar o José Gomes Ferreira. Que as minhas artes de entrevistador não eram de extremos, ficou logo demonstrado na calina questão inicial que hoje me faz encolher de vergonha: “Tem algum método de trabalho?”, foi a pergunta. À batida ridiculez da questão quis o poeta responder com paciência exemplar, a paciência de quem já tinha visto e ouvido muito do mundo. Disse ele: “Com mais de meio século de vida literária tive, como é óbvio, não um, mas vários métodos de trabalho. E até um método de preguiça com que construí as linhas fundamentais do meu trabalho literário. Pois nos anos de 20, de 30, de 40, etc., trabalhava num ofício que poucos contactos tinha com a literatura, agarrado a uma moviola de escravo. A minha vocação de escritor, que só à custa de muitos sacrifícios e teima consegui preservar, exerci-a nos intervalos desse trabalho, aproveitando a preguiça das horas de descanso para rabiscar papéis, papelinhos e diários, sempre com a sensação de que estava a roubar tempo e dinheiro ao meu bem-estar e ao da família. Era, em resumo, um escritor de Horas Roubadas. Valia-me também o mês de férias anuais em que tentava pôr em ordem os versos rabiscados durante o ano, ou cumprir alguma encomenda que ousava muitas vezes aceitar com uma coragem que ainda hoje me deixa pasmado.

Por exemplo, o prefácio às Folhas Caídas de Garrett escrevi-o em quinze dias de férias passadas em casa do João Cochofel, no Senhor da Serra”. “E hoje?”, perguntei, surpreendido por tal abundância de informação em troca da mais corriqueira das perguntas.

“Bem. Hoje abandonei a moviola, estou reformado, vivo quase exclusivamente dos livros e das minhas colaborações nos jornais e fui obrigado a estabelecer um método de trabalho adaptado à minha idade, sem horários, claro. (Mesmo nos tempos do trabalho-tortura sempre me defendi dos horários.) Actualmente o meu método resume-se a evitar escrever de noite, para escapar às insónias. Não tive outro remédio senão habituar-me a trabalhar de manhã, servindo-me, como já disse, dos materiais que reuni pacientemente durante os árduos anos de preguiça. À tarde, leio, converso com os amigos nos cafés, visito os editores e à noite volto a ler e, às vezes, até a jogar as cartas, para me deitar o mais tarde possível. Pois contínuo a ser noctívago, embora transpusesse as vagabundagens para o corredor da minha casa onde ando quilómetros e quilómetros de ruas desertas imaginárias”..

A pergunta que lancei a seguir – “Obedece ou cumpre conscientemente qualquer ritual que considere propiciatório do trabalho?” – continha a menos original de todas as curiosidades possíveis, certas e prováveis, mas foi tão generosamente atendida como a primeira: “Rodeio-me de livros, de pastas, de apontamentos, de Diários, de cadernos, de improvisos e todo esse caos de papel de que lhe falei e donde arranco, ou tento arrancar, as linhas harmónicas da criação do meu mundo. Porque, como sabe, o que é difícil é criar o caos. Aliás, nos últimos tempos, ensaiei um novo método de criá-lo. É o que eu chamo, no calão íntimo do meu laboratório-oficina, a planificação da cabeça. Assim: estendo na mesa uma folha de papel de máquina e começo a cobri-la, ora em linha recta, ora obliquamente, umas vezes em baixo, outras ao lado, palavras, frases, desenhos mal feitos, pensamentos, ideias, tudo o que me acode à cabeça, que ligo, desligo, formo, deformo e risco, até apurar não sei o quê, quase sempre coisa nenhuma. Porque o que este jogo tem de mais fascinante é o parecer que não serve para nada, pelo menos imediatamente. Só mais tarde, quando junto esses mapas e os analiso, descubro coisas extraordinárias que me sugerem ideias importantes. Flores incríveis enrodilhadas num silvado de teias de aranha incoerentes que depois simplifico em frases e versos aparentemente fáceis. Planificar o cérebro – eis a minha última descoberta”.

Percebia que para José Gomes Ferreira as questões propostas lhe eram de certa maneira indiferentes, que poderiam ser repetitivas, aventureiras, ingénuas, mesmo absurdas, ele se ocuparia de que as respostas lhes dessem sentido. “Emenda, reescreve, ou fixa-se na forma original? Por outras palavras: é um elaborador, ou um impulsivo?” perguntei. E ele respondeu: “Como se subentende do que já disse, sou ao mesmo tempo um impulsivo e um elaborador.

Improviso em rajadas, nos tais papelinhos. E depois trabalho-os com afinco paciente e teimoso, às vezes durante anos. Sim. Corto, emendo, reescrevo, copio, recopio. E até às vezes conservo religiosamente a forma inicial. Sem tocar na mínima palavra para não desmoronar o poema. Gosto também de trabalhar em coisas diversas na mesma ocasião. Agora, por exemplo, publicada a Poesia-V, em que o século vinte continua a viajar em mim, preparo quatro livros. A Poesia-VI, que encerrará porventura o meu ciclo poético, O Sabor das Trevas, longa narrativa alegórica, Gaveta de Nuvens, compilação dos meus escritos de aparência crítica, e Face em espelho torto, biografia inexacta de um homem exacto. O Sabor das Trevas já vai na segunda versão. É um livro difícil. Uma espécie de João Sem Medo nocturno numa atmosfera insólita de realismo fantástico”.

Para não variar, a pergunta seguinte – “Considera que progrediu desde que começou a escrever?’» também viria a ser salva pela resposta: “Como é natural, a experiência da vida enriqueceu-me (a outros empobrece) e, sentindo-me mais rico, a minha linguagem de raiz barroca simplificou-se, embora cada vez escreva com mais dificuldade e suor. Mas (em arte não há progresso, há às vezes traição) continuo basicamente o mesmo de sempre, a cantar o que me apetece, ou o que possa apetecer-me cantar, cada vez mais livre e ajustado à minha sinceridade”. “Mas há quem o considere sectário…”, insinuei, e logo a resposta: “Nunca o fui nem sou. A não ser que se queira chamar sectarismo à intransigência e fidelidade visceral ao que há de mais profundo em mim mesmo: ao que penso, ao que sonho, ao que desejo, ao que não acredito…”.

Continuou a ser assim, sempre, na Revolução, depois dela, até aos últimos dias de vida. Numa carta datada de 23 de Abril daquele ano e referindo-se a esta entrevista, pedia-me insistentemente que recomendasse aos revisores do jornal que não lhe tirasse o não das palavras finais. Ele lá sabia porquê…»

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

NESTE DIA


 Já se adiantou que o dia do autor que escolhemos, não é «este dia», é um outro, e pegando no 3º volume dos Cadernos de Lanzarote, vamos cair no dia 1 de Dezembro de 1995.

José Saramago escreve:

«Morreu o Fernando Assis Pacheco. A notícia abalou-me profundamente. Não éramos o que se chama amigos, mas havia entre nós relações muito cordiais, de simpatia e respeito mútuos, e a admiração que sentia por ele não a sinto por muitos. Morreu daquele coração que desde há anos o vinha ameaçando. Morreu numa livraria, provavelmente o lugar que ele próprio teria escolhido para quando tivesse de sair da vida.»

O mesmo volume dos Cadernos, José Saramago volta a Fernando Assis Pacheco e estamos a 22 de Dezembro de 1995:

«Carmélia, que veio com a mãe passar as festas connosco, trouxe-nos o último do Jornal de Letras, dedicado, em parte, a Fernando Assis Pacheco. Leio os poemas dele que lá vêm, inéditos, e irresistivelmente penso que Tolentino, se vivesse neste tempo, teria por força de escrever assim. Espero que se encontrem muito mais inéditos comos estes nos papéis que o Assis Pacheco deixou: há obras tão fecundas que continuam a crescer depois da morte do seu autor. Veja-se este soneto, por exemplo que só agora foi escrito:

 

O corpo mal talhado em cujo abdómen

cresceu um aneurisma durante anos

que por fim o condena à cirurgia

vascular de emergência transportado

 

com terror de sirenes por dois homens

de bata branca amáveis que procuram

tocar prà frente a dura traquitana

𝘷𝘢𝘪 𝘷𝘦𝘳 𝘴𝘳. 𝘗𝘢𝘤𝘩𝘦𝘤𝘰 é 𝘴ó 𝘶𝘮 𝘴𝘶𝘴𝘵𝘰

 

chega a Santa Maria gracejando

mas à vista da sala fica mudo

onde o afeitam já sumariamente

 

vinte minutos mais e o ascensor

leva o pobre do corpo até à faca

não pensa noutra coisa: o seu enterro

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

REOLHARES


 ATRÁS DE COPO, COPO VEM

Quando Ricardo Reis desceu para jantar, já perto das nove horas, conforme a si mesmo havia prometido, encontrou a sala deserta, os criados a conversarem a um canto, finalmente apareceu Salvador, mexeram-se os serventuários um pouco, é o que devemos fazer sempre que nos apareça o superior hierárquico, basta, por exemplo, descansar o corpo sobre a perna direita se antes sobre a esquerda repousava, muitas vezes não é preciso mais, ou nem tanto, E jantar, pode-se, perguntou hesitante o hóspede, claro que sim, para isso ali estavam, e também Salvador para dizer que não se admirasse o senhor doutor, na passagem do ano tinham em geral poucos clientes, e os que havia jantavam fora, é o réveillon, ou révelion, que foi a palavra, dantes dava-se aqui no hotel a festa, mas os proprietários acharam que as despesas eram grandes, desorganizava-se o serviço, uma trabalheira, sem falar nos estragos causados pela alegria dos hóspedes, sabe-se como as coisas acontecem, atrás de copo, copo vem, às tantas as pessoas não se entendem, e depois era o barulho, a agitação, as queixas dos que não tinham alegria para festas, que sempre os há, Enfim, acabámos com o révelion, mas tenho pena, confesso, era uma noite bonita, dava ao hotel uma reputação fina e moderna, agora é o que se está vendo, este deserto, Deixe lá, vai mais cedo para a cama, consolou Ricardo Reis, e Salvador respondeu que não, que sempre ouvia as badaladas da meia-noite em casa, era uma tradição da família, comiam doze passas de uva, uma a cada badalada, ouvira dizer que dava sorte para o ano seguinte, no estrangeiro usa-se muito, São países ricos, e a si, acha que lhe dá realmente sorte, Não sei, não posso comparar, se calhar corria-me pior o ano se não as comesse, assim seria, por estas e outras é que quem não tem Deus procura deuses, quem deuses abandonou a Deus inventa, um dia nos livraremos deste e daqueles, Tenho as minhas dúvidas, aparte que alguém lançou, ou antes ou depois, mas não aqui, que não se tomam tais liberdades com os dignos hóspedes.

(…)

Ricardo Reis sobe devagar a escada, cansado, parece a personagem daquelas rábulas de revista ou dos desenhos alusivos à época, ano velho carregado de cãs e de rugas, já com a ampulheta vazia, sumindo-se na treva profunda do tempo passado, enquanto o ano novo se aproxima num raio de luz, gordinho como os meninos da farinha lacto-búlgara, e dizendo, em infantil toada, como se nos convidasse para a dança das horas, Sou o ano de mil novecentos e trinta e seis, venham ser felizes comigo. Entra no quarto e senta-se, tem a cama aberta, água renovada na garrafa para as securas nocturnas, os chinelos sobre o tapete, alguém está velando por mim, anjo bom, obrigado. Na rua passa uma algazarra de latas, já deram as onze horas, e é então que Ricardo Reis se levanta bruscamente, quase violento, Que estou eu para aqui a fazer, toda a gente a festejar e a divertir-se, em suas casas, nas ruas, nos bailes, nos teatros e nos cinemas, nos casinos, nos cabarés, ao menos que eu vá ao Rossio ver o relógio da estação central, o olho da tempo, o ciclope que não atira com penedos mas com minutos e segundos, tão ásperos e pesados como eles, e que eu tenho de ir aguentando, como aguentamos todos nós, até que um último e todos somados me rebentem com as tábuas do barco, mas assim não, a olhar para o relógio, aqui, aqui sentado, sobre mim próprio dobrado, aqui sentado, e, tendo rematado o solilóquio, vestiu a gabardina, pôs o chapéu, deitou mão ao guarda-chuva, enérgico, um homem é logo outro homem quando toma uma decisão.

José Saramago em OAno da Morte de Ricardo Reis

Texto publicado em 30 de Março de 2018

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 

José Saramago não gostava do Natal. Tão pouco de festas de aniversário.

Talvez reflexo de uma infância e de uma adolescência muito difíceis o Natal, para Saramago, não foi um toque de mágica. 

Deixou escrito numa crónica; para incréus empedernidos como eu, o caso não tem assim tanta importância: é mais uma das trezentas mil datas assinaladas de que se servem inteligentemente as religiões para aferventar crenças que no passar do tempo se tornariam letra morta e água chilra

De uma maneira seca, quase definitiva, finalizou um poema: É dia de Natal. Nada acontece.

Podia ser Natal e não ser farsa, como escreveu António Manuel Ribeiro numa canção dos “UHF”.

Na obra lida de José Saramago, encontrei três abordagens ao Natal.

O poema Natal em Os Poemas Possíveis,  a crónica A Neve Preta em Deste Mundo e do Outro e outra crónica em A Bagagem do Viajante que, precisamente, intitulou Natalmente crónica.

Tenho conhecimento que na revista “Colóquio/Letras” nº 151/152, Fevereiro 2000, totalmente dedicada a José Saramago, está publicado um conto inédito: Natal.

Fica aqui o excerto de A Neve Preta que consta do livro de crónicas Deste Mundo e do Outro:

«Estes pequenos filhos dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são crianças?

Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de os ver crescer, de os admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos impacientes, nervosos, porque estamos diante de uma espécie desconhecida... Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta: «Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?»

José Saramago em Deste Mundo e do Outro, página 189.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


O livro é uma encantadora homenagem a José Saramago.

Em desenhos e palavras, envolvidos em banda desenhada, ou novela gráfica, o que lhe quiserem chamar, a vida de José Saramago mais a sublime importância dos seus livros.

Um trabalho do galego Tomás Guerrero.

A história dos avós de José Saramago, Josefa e Jerónimo, encontramo-la em duas crónicas que fazem parte de Deste Mundo e do Outro.

Nas cartas trocadas com José Rodrigues Miguéis, José Saramago diz a Miguéis que «ontem (16 de Dezembro de 1968) deu-me para recordar o meu avô camponês – e fiquei assim: amargo. Felizmente para a literatura deu crónica… Manha de literato, defeito de escriba: tudo acaba por se transformar em literatura…».

Será, então no discurso da entrega do Nobel da Literatura, que José Saramago, volta aos seus avós:

 

«O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animalzinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algunas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: “José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira.” Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava … No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: “E depois?” Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tijela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava : “Não faças caso, em sonhos não há firmeza”. Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quanto o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não podería significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer”. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolaçao da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.»

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...

Sou do tempo em que era proibido pisar a relva dos jardins, jogar à bola na rua, mas havia outras possíveis e diversas brincadeiras.

Um tempo em que as avós, as mães diziam aos gaiatos: «vai brincar lá para fora». Agora ficam em casa agarrados a um telemóvel a fazer jogos, a ver e ouvir o que, por vezes, não se sabe o quê.

José Saramago em As Pequenas Memórias:

«Então digo à minha avó: «Avó, vou dar por aí uma volta.» Ela diz «Vai, vai, mas não me recomenda que tenha cuidado.»

Nos dias de férias de Natal, Carnaval, Páscoa, que passava em casa da minha avó paterna, na Rua da Senhora do Monte, saía porta fora e percorria as ruas da Graça, olhava o abundante comércio local, lembro uma pequeníssima tipografia, compunha folhetos para festas e bailes, cartões-de-visita, e ficava por ali a ver as máquinas, aqueles trabalhos, conheci a Vila Berta, a Vila Sousa, perdia largos tempos no Miradouro junto à igreja da Graça, hoje Jardim Sophia de Mello Breyner Andresen, ou no Miradouro da Senhora do Monte, a olhar a cidade.

Ainda Saramago: «Nesse tempo os adultos tinham mais confiança nos pequenos a quem educavam.»

Algo que os miúdos de hoje não sentem: saudades de brincar na rua.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

A RECORDAÇÃO DE UMA PERSONALIDADE EXTRAORDINÁRIA

«Conheci José Rodrigues Miguéis algum tempo depois de, no ano de 1959, ter começado a trabalhar na Editorial Estúdios Cor, de que eram proprietários, meio por meio, Manuel Correia e Fernando Canhão, e director literário Nataniel Costa. Miguéis havia publicado, um ano antes, o livro de contos e novelas Léah, excelentemente acolhido pelo público e pela crítica de então. Foi essa a primeira obra que li dele, e não necessito dizer que me entusiasmou. Não sei exactamente quando conheci Miguéis em pessoa, que por aqueles dias estaria nos Estados Unidos. O que, sim, sei, é que desde a narrativa Um homem sorri à morte com meia cara, publicada em 1959, até ao romance Nikalai! Nikalai!, que apareceria em 1971, passando por A Escola do Paraíso e O passageiro do Expresso, ambos de 1960, Gente da terceira classe, 1962, e É proibido apontar, 1964, os meus contactos com José Rodrigues Miguéis foram constantes, praticamente diários quando se encontrava em Portugal, frequentes, por carta, quando regressava aos Estados Unidos. Essa correspondência, que mereceu ser escolhida para a tese de doutoramento de José Albino Pereira (e no mesmo plano ponho a correspondência trocada com Jorge de Sena), dá-me o direito de dizer que não tenho feito má figura neste mundo. A minha relação epistolar com Miguéis só se rompeu quando saí da Editorial, nos finais de 1971. Vi-o algumas vezes, poucas, depois, não houve mais cartas, que eu recorde, mas ficou-me para sempre a recordação de uma personalidade extraordinária, com uns dons oratórios fora do comum e uma memória capaz de recriar em poucas palavras as situações mais complexas.

 Uma simples conversa com ele era um presente real, dialogar com a sua brilhante inteligência tornava mais inteligente o interlocutor. Pessoalmente, e sem querer gabar-me por isso, aproveitei desses momentos o melhor que pude. Morreu há quase trinta anos, mas recordo-o como se fosse ontem.»

José Saramago em O Caderno 2º volume

domingo, 16 de novembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

José Saramago, muito claramente, disse que Manual de Pintura e Caligrafia que é o mais autobiográfico dos seus livros.

A páginas 242 podemos ler:

 «E, agora repouso em Positano, nesta costa de Salerno que eu baptizei de «bem-aventurada» antes de saber que a propaganda turística oficial lhe chamava «la divina costiera». Ambos temos razão: esta paz é divina e bem-aventurada. Mas ali vai, é ela Melina Mercouri, de chapéu de palha e vestido comprido, pálida e magra, com Jules Dassin. Arranco-me à indolência do sol e imagino este diálogo entre mim e  ela: «Então, Melina, continua fora da Grécia. Aqui tão perto, e não pode entrar na sua terra. Como vão as coisas por lá?» E logo a resposta: «E por lá, como vão as coisas?»

Regresso ao meu lugar, olho as águas paradas deste mar interior que sabe tantas e tão antigas histórias, e repito a mim mesmo a pergunta: E por lá, como vão as coisas?»

Never on Sunday, Nunca aos Domingos é um filme de 1960 de Jules Dassin. Um bonito filme com uma extraordinária Melina Mercouri no papel de uma prostituta do porto de Pireu.

A canção tema do filme é de Manis Hadjidakis.




segunda-feira, 20 de outubro de 2025

CONVERSANDO


Agosto de 1965.

O meu pai chega a casa revelando que o Carvalho da Clássica Editora, antes da chegada da PIDE para proibir o livro, conseguiu esconder alguns.

O livro era A Revolução de 1383 de António Borges Coelho. Em 1964 já tinha colocado «Fora do Mercado», também da autoria de António Borges Coelho um livro editado pela Prelo: Raízes da Expansão Portuguesa.

Lê e depois conversamos, disse-me.

Antóbio Borges Coelho abre o livro com uma citação tirada do Emílio de Jean Jacques Rousseau, seguindo-se uma homenagem a Fernão Lopes:

«Os sublevados de 1383 ganharam a sua causa. Se a tivessem perdido, talvez conhecêssemos tão só as maldições do poder.

Assim todo o 1º e boa parte do 2º volumes da Crónica de D. João I são dedicados à narrativa e exaltação da gesta revolucionária.»

Tenho que ir muito longe nas leituras para balizar a primeira vez que vi uma referência a Rio de Onor. Foi em A Revolução de 1383 de António Borges Coelho. 

E hoje não consigo de adiantar os porquês do fascínio.

É na Viagem a Portugal de José Saramago que volto a encontrar Rio Onor. Pelo meio há um poema do Ruy Belo, mas só o li depois da Viagem de Saramago, pertence ao livro A Nau dos Corvos e está na página 326 de Todos os Poemas de Ruy Belo:


O GIRASSOL DE RIO DE ONOR


«Existe juro um girassol em rio de onor

mais importante por exemplo para mim que seja lá quem for

Eu vi hoje na andaluzia o girassol de rio de onor

à beira de uma estrada pouco antes de chegar a fernan nuñez

(Amigos que passais em direcção a córdova ou aos cobres de lucena

dai-me notícias desse girassol menos brilhante sol

mas bem mais acessível pelo menos para nós que não temos raízes

mas pomos o que temos sobre a terra)

Reconheci-o logo embora há muitos anos o não visse

além de o conhecer sabia ser ele natural de rio de onor

e lá habitualmente residente

É ele raios o partam disse idênticas as pétalas igual a cor

é ele ó céus é ele sem tirar nem pôr

o meu amigo girassol de rio de onor

(é fácil ter na flor um verdadeiro amigo

se o não sabíeis antes desde agora que o sabeis)

Era mesmo era ele sem tirar nem pôr

o girassol de rio de onor há tantos anos visto

Mas nós os que lá fomos e por lá passámos

nós é que já não somos quem lá fomos

e muito menos nós que somos vivos menos os mesmos somos

que tu ó meu amigo com as tuas

duas pernas pendentes lá da ponte sobre o rio

pequena ponte e diminuto rio

a dois passos dos olhos tão redondos que solares

dessas duas ou três quatro no máximo crianças

(meu deus essas crianças onde é hoje o seu país?)

Viajo  pela espanha mas é este julgo juro o girassol

pois embora não esteja em Portugal

não há ainda julgo plantas nacionais

e além disso aquela terra é meio espanhola

Mas nós que assim passamos pelos campos pelos dias

nós que não temos nem nunca tivemos

coisa pequena como uns palmos de país

pomos tudo  o que somos nestes seres que passamos

e nos fixamos só em certas fotografias que tiramos

Era aquele julgo juro o girassol de há anos

mas nós que como sombras por aqui passamos

porventura seremos os que éramos há anos?

Qual é ao certo o nosso verdadeiro país?

Lanço a pergunta aos verdes campo outonais da andaluzia

mas esta paisagem que tanto me diz

quem sou isso é que ela nem ninguém mo diz»


Mas voltemos A José Saramago:

Mas o viajante reconhece que «Não está bem em si: Afinal chegou a Rio de Onor, tanto o quis e agora nem parece contente. Certas coisas que muito se desejam, não é raro que nos deixem perdidos quando as obtemos.»

Também se encontra confuso. De Rio de Onor, para além do livro comovedor de que atrás fala, Saramago não indica o nome do autor do livro e apenas guarda a generosidade de Daniel São Romão e sua mulher que lhe deram pão e bagaço.

«Afinal de contas, onde está a fronteira? Como se chama este país, aqui? Ainda é Portugal? Já é Espanha? Ou é só Rio de Onor, e nada mais que isso?»

A Rio de Onor chamaram um dia uma das aldeias Maravilhas de Portugal. Ao lado há uma outra aldeia vizinha com o mesmo nome, mas em terras de Espanha. Contudo uma placa lembra:  "Mentalmente somos um só povo.".

E de novo António Borges Coelho:, pág.36 de A Revolução de 1383:


segunda-feira, 13 de outubro de 2025

NESTE DIA


Neste Dia, o dia para José Saramago é 30 de Setembro de 2008, página 43 do 1º volume de O Caderno.

O escrevinhador que sou, pontuou lá para trás, que a esperança não pode ser um nome como outro qualquer.

Álvaro Cunhal disse um dia que «a esperança pode ser um sentimento em relação a algo que não se confia que possa ser alcançado». E fez um largo risco em O Ano da Morte de Ricardo Reis quando Saramago lhe diz: «A esperança, só esperança, nada mais, chega-se a um ponto em que não há mais nada senão ela, é então que descobrimos que ainda temos tudo.»

Estaremos cansados de esperar?, poematizou Eugénio de Andrade.

Miguel Torga, indo mais longe, a dizer-nos que a angústia é o rosto sério da esperança.

Mas estávamos aqui pela leitura do Caderno de Saramago:


«Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se neste nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.»

terça-feira, 23 de setembro de 2025

NESTE DIA


Neste Dia, ou num outro qualquer, que no caso, é 2 de Dezembro de 1994, José Saramago, no 2º volume dos seus Cadernos de Lanzarote, está à volta com a Europa, ele que sempre disse: «Sou um europeu céptico que aprendeu todo o seu cepticismo com uma professora chamada Europa», ou «Um futuro que não passa, com certeza, pela CRR. Nada temos a ver com a Europa.».

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

NESTE DIA


Nos dias recentes em que saí daqui por uns dias, estive sem computador, fiz pequenos exercícios escritos à mão. Percebi rapidamente que já «não» sei escrever à mão, e veio-me à lembrança que já ouvi, ou já li, que escrever é algo que está prestes a desaparecer.

Pelo Natal é comum saber-se que pelo mundo se trocam milhões de SMS com votos de Boas-Festas, mas jamai um postal, uma carta.

Tenho um velho recorte de uma crónica do José Tolentino de Mendonça:

«Uma das coisas que aprendi foi que uma carta começa pelo envelope, pelo selo, pelo papel e que essa materialidade (escolhida, retrabalhada)) participa desse encontro sem palavras que uma carta pode significar.»

O neto foi despedir-se dos avós, agora que ia de férias com os pais.

- Manda-nos um postal, disse a avó.

- O que é um postal, vó?..

Disseram-nos que Saramago escrevia pela manhã, ao som de Mozart, Bach Ou Beethoven, guardando as tardes para  responder às cartas, cerca de 100 que lhe chegavam por mês.

Várias vezes deixou expresso que deveria ser publicada a correspondência que manteve com os seus pares e com o seus leitores. Por motivos nunca declarados, a Fundação  Saramago ainda iniciou esse imprescindível trabalho.

Por cartas, pegamos no 1º Volume dos Cadernos de Lanzarote, e publicanos a entrada que escreveu no último dia do ano de 1993: