O Homem que
lia o jornal é o título de uma crónica de António Guerreiro, publicada ontem no
Público:
«Num destes dias de Agosto, vi um homem de meia-idade a ler um jornal no metro.
A cena despertou em mim, de repente, a recordação nostálgica de um medium que
começou a declinar no princípio deste século e, em poucos anos, quase se tornou
um objecto vintage. Num segundo momento, ergui-me do “choque”, achando que
tinha caído na amplificação demagógica de um gesto banal, ao sentir que tinha
apreendido com um misto de espanto e nostalgia aquele leitor de um jornal
impresso que persistia na lenta maneira de viver as emoções suscitadas pela
actualidade, pelos rumores do dia.
Claro
que a cena me impressionou porque o lugar onde se desenrolava (o metro) a fazia
sobressair com um efeito de contraste: à volta do homem que folheava as páginas
do jornal e que me fazia ver que há expressões gestuais que se perdem com a
mudança de época, toda a gente ia de olhos inclinados para os ecrãs — uma
inclinação, aliás, diferente da do homem que lia o jornal: enquanto este
mantinha uma posição que lhe permitia, por vezes, lançar um olhar à distância,
por cima das páginas do jornal, os passageiros abismados no ecrã do seu smartphone obrigavam a cabeça a uma
inclinação mais acentuada, em direcção ao chão da carruagem, repetindo um gesto
vertical que não tem fim: o scrolling.
A cena trouxe-me à memória as “pequenas totalidades” de que se ocupou um genial
analista (sociólogo? Filósofo? Inventor de uma disciplina sem nome?) das
“manifestações de superfície” da sua época que as ruas da grande metrópole
berlinense lhe tinham proporcionado: Siefried Kracauer(1889-1966). Em O Ornamento da Massa (ou
será que o título original, Das Ornament der Masse, deve antes ser traduzido
por A Massa como Ornamento?), de 1930, Kracauer, um intelectual arquetípico da
civilização do jornal, escreveu: “Quando pego no meu jornal, pela manhã,
sinto-me em companhia de milhões de pessoas que, como eu, lêem nesse mesmo
instante as mesmas notícias”. Este forte sentimento de ser parte de uma
comunidade invisível, de partilhar com desconhecidos uma mesma experiência do
mundo, é um dos fundamentos do espaço público, tal como ele foi criado pela
modernidade. O jornal — e o jornalismo —, tal como ele se “modernizou” e
desenvolveu no século XVIII, foi um órgão de formação de uma opinião pública
racional, de um espaço público.
Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o
centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história
mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida
cívica, política e cultural.
Esse ciclo chegou ao fim com a entrada em cena, fulgurante, dos artefactos
mediáticos digitais, que transformaram completamente o funcionamento do espaço
público, fundado em ideais que nos parecem hoje anulados, apesar de nos ter
sido prometido que seriam ampliados e fortalecidos: o pluralismo e a
transparência. A lição de McLuhan, segundo a qual “o medium é a mensagem”,
encontra aqui a sua mais eloquente significação: a cultura do jornal nascida no
século XIX desapareceu quando o suporte mudou. A extinção quase completa do
jornal impresso, a substituição do gesto de “abrir o jornal” pelo gesto de
“imersão no smartphone” (não se diz “abrir o smartphone”, na verdade ele
raramente está fechado), implica uma outra relação com o tempo e com o espaço.
E o ambiente digital deixa traços sociais e psíquicos diferentes dos que
caracterizam a cultura impressa. Entrámos numa nova época dos afectos e a
rápida digestão do jornal no ecrã mergulha-nos numa total reconfiguração
daquilo a que Yves Citton chamou médiarchie, “mediarquia”.
É interessante verificar que a sensibilidade mediática que me levou a olhar
para o homem que lia o jornal no metro como se fosse uma raridade não é a mesma
dos chamados “nativos digitais”. Esta sensibilidade de quem atravessou uma
história dos media que na escala do tempo histórico é curtíssima, mas na escala
das transformações visíveis é longuíssima, incita-me à análise das
manifestações de superfície da época, fiel à lição de Kracauer, segundo a qual
essas manifestações ajudam-nos muito mais a determinar o lugar que a época
assume no processo histórico do que todos os juízos e interpretações que ela
constrói de si própria. Uma época, ensinou-nos Kracauer, pode ser interpretada
através dos seus sonhos colectivos, que se desenrolam de olhos abertos. E, no
metro, vi bem que o modo como aquele homem abria os olhos para ler o seu
jornal-papel era muito diferente do modo como os outros passageiros olhavam
para os seus ecrãs. A esses dois olhares correspondem dois sonhos e duas
civilizações diferentes. É muito interessante ter vivido numa época de
transição.»
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