sábado, 15 de agosto de 2026

CRONICANDO POR AÍ

O Homem que lia o jornal é o título de uma crónica de António Guerreiro, publicada ontem no Público:


«Num destes dias de Agosto, vi um homem de meia-idade a ler um jornal no metro. A cena despertou em mim, de repente, a recordação nostálgica de um medium que começou a declinar no princípio deste século e, em poucos anos, quase se tornou um objecto vintage. Num segundo momento, ergui-me do “choque”, achando que tinha caído na amplificação demagógica de um gesto banal, ao sentir que tinha apreendido com um misto de espanto e nostalgia aquele leitor de um jornal impresso que persistia na lenta maneira de viver as emoções suscitadas pela actualidade, pelos rumores do dia.


Claro que a cena me impressionou porque o lugar onde se desenrolava (o metro) a fazia sobressair com um efeito de contraste: à volta do homem que folheava as páginas do jornal e que me fazia ver que há expressões gestuais que se perdem com a mudança de época, toda a gente ia de olhos inclinados para os ecrãs — uma inclinação, aliás, diferente da do homem que lia o jornal: enquanto este mantinha uma posição que lhe permitia, por vezes, lançar um olhar à distância, por cima das páginas do jornal, os passageiros abismados no ecrã do seu smartphone obrigavam a cabeça a uma inclinação mais acentuada, em direcção ao chão da carruagem, repetindo um gesto vertical que não tem fim: o scrolling.

A cena trouxe-me à memória as “pequenas totalidades” de que se ocupou um genial analista (sociólogo? Filósofo? Inventor de uma disciplina sem nome?) das “manifestações de superfície” da sua época que as ruas da grande metrópole berlinense lhe tinham proporcionado: Siefried Kracauer(1889-1966). Em O Ornamento da Massa (ou será que o título original, Das Ornament der Masse, deve antes ser traduzido por A Massa como Ornamento?), de 1930, Kracauer, um intelectual arquetípico da civilização do jornal, escreveu: “Quando pego no meu jornal, pela manhã, sinto-me em companhia de milhões de pessoas que, como eu, lêem nesse mesmo instante as mesmas notícias”. Este forte sentimento de ser parte de uma comunidade invisível, de partilhar com desconhecidos uma mesma experiência do mundo, é um dos fundamentos do espaço público, tal como ele foi criado pela modernidade. O jornal — e o jornalismo —, tal como ele se “modernizou” e desenvolveu no século XVIII, foi um órgão de formação de uma opinião pública racional, de um espaço público.

Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida cívica, política e cultural.

Esse ciclo chegou ao fim com a entrada em cena, fulgurante, dos artefactos mediáticos digitais, que transformaram completamente o funcionamento do espaço público, fundado em ideais que nos parecem hoje anulados, apesar de nos ter sido prometido que seriam ampliados e fortalecidos: o pluralismo e a transparência. A lição de McLuhan, segundo a qual “o medium é a mensagem”, encontra aqui a sua mais eloquente significação: a cultura do jornal nascida no século XIX desapareceu quando o suporte mudou. A extinção quase completa do jornal impresso, a substituição do gesto de “abrir o jornal” pelo gesto de “imersão no smartphone” (não se diz “abrir o smartphone”, na verdade ele raramente está fechado), implica uma outra relação com o tempo e com o espaço. E o ambiente digital deixa traços sociais e psíquicos diferentes dos que caracterizam a cultura impressa. Entrámos numa nova época dos afectos e a rápida digestão do jornal no ecrã mergulha-nos numa total reconfiguração daquilo a que Yves Citton  chamou médiarchie, “mediarquia”.

É interessante verificar que a sensibilidade mediática que me levou a olhar para o homem que lia o jornal no metro como se fosse uma raridade não é a mesma dos chamados “nativos digitais”. Esta sensibilidade de quem atravessou uma história dos media que na escala do tempo histórico é curtíssima, mas na escala das transformações visíveis é longuíssima, incita-me à análise das manifestações de superfície da época, fiel à lição de Kracauer, segundo a qual essas manifestações ajudam-nos muito mais a determinar o lugar que a época assume no processo histórico do que todos os juízos e interpretações que ela constrói de si própria. Uma época, ensinou-nos Kracauer, pode ser interpretada através dos seus sonhos colectivos, que se desenrolam de olhos abertos. E, no metro, vi bem que o modo como aquele homem abria os olhos para ler o seu jornal-papel era muito diferente do modo como os outros passageiros olhavam para os seus ecrãs. A esses dois olhares correspondem dois sonhos e duas civilizações diferentes. É muito interessante ter vivido numa época de transição.»


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