domingo, 30 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Eu só me pus a cantar para me sentir menos só.

Sam Shepard em Atravessando o Paraíso

OLHAR AS CAPAS



O Verão 80

Marguerite Duras
Tradução: João Costa
Capa: A. Pedro
Colecção Dois Mundos nº 184
Livros do brasil, Lisboa, 1990

Portanto. Aqui está, escrevo para Libération. Encontro-me sem tema para o artigo. Mas talvez não seja necessário. Creio que vou escrever a propósito da chuva. Chove. Desde quinze de Junho que chove. Deveria escrever-se para um jornal como se caminha na rua. Caminha-se, escreve-se, atravessa-se a cidade, fica atravessada, cessa, a caminhada continua, do mesmo modo atravessa-se o tempo, uma data, um dia, e depois, fica atravessado, cessa. Chove no mar. Nas florestas, na praia vazia. Não há os chapéus de sol mesmo fechados do Verão.

sábado, 29 de junho de 2019

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Estes são os colaboradores do nº 5, e último, dos Cadernos do Meio-Dia.
Falta-me o nº 4, porque quando comprei a colecção, na Livraria Divulgação do Porto, encontrava-se esgotado e, penso, nunca se fez uma reedição.

OLHAR AS CAPAS


Cadernos do Meio-Dia
Nº 5

Coordenação de António Ramos Rosa, Casimiro de Brito, Fernando Moreira
Ferreira, Hernâni de Lencastre
Capa: Baptista
Edição dos Coordenadores, Faro, Fevereiro de 1960

Ruínas

Um sopro passará sobre a cidade
e ela será relevo de destroços
sob os ossos sem cor desmedulados
das gerações que nunca nascerão

As raízes queimaram-se na terra
ruíram pelas ruas casas feridas
e os homens vão nascendo para a morte

Há na cidade um ritmo de ruínas
em todos nós um ritmo de ruínas

há partos glaciais dentro da morte

Poema de Gastão Cruz

sexta-feira, 28 de junho de 2019

SALMO


A vida
é o sangue
do mistério,
o bago de uva
macerado

nos lagares do mundo,
e aqui se diz
para proveito dos que vivem
que a dor
é vã
e a alma
breve.

Carlos Oliveira de Cantata em Poesias

quinta-feira, 27 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo.

Marguerite Yourcenar

Legenda: Marguerite Yourcenar

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


A Aida frequenta muito esses vãos de escada que, em alguns bairros populares, vendem de tudo: livros, discos, cassettes, toda uma série de objectos que as pessoas consideram inutilidades e deles se desfazem.

Numa dessas incursões, encontrou um EP de Frankie Laine, cantor que já ninguém ouve, e outros nem sabem quem seja, e que era um dos cantores favoritos do meu pai, um dos seus clássicos.

Recordo que lá por casa existiam uns discos da Philips denominados “Popular Favourites”: orquestras e cantores norte-americanos. Um pouco por aqui, o meu pai encaminhou-me para o gosto por “crooners” e “big bands”.

Desses “Popular Favourites” nenhum exemplar chegou aos dias de hoje.
Por um tempo aniversariante, de há dois anos, uma cortesia de amigos  embrulhou-me num concerto do José Cid no “Maxime”. Ainda hoje as minhas noites são desassossegadas. Com amigos destes, os meus eventuais inimigos são um doce de crianças.., bom, adiante.

Acontece que numa das vitrinas do “Maxime”, mesmo ao lado do Bar, encontravam-se, em exposição, diversos objectos de outros bons tempos e um desses objectos, era a capa do nr. 5 dos “Popular Favourites”.

A sala escura, a não possibilidade, por causa dos reflexos, de usar “flash”, não permitiram que a fotografia fosse um tanto mais explícita. Mas ainda se consegue perceber que, neste “Popular Favourites”  passeavam-se, entre outros, Doris Day, Johnny Ray, o trompetista Harry James, Rosemary Clooney, Frankie Laine, a orquestra de Xavier Cugat.

Foi nesta colecção que ouvi, pela primeira vez, canções que ainda hoje me acompanham: “Mack The Knife” pelo Louis Armstrong, “Sixteen Tons” pelo Frankie Laine, outras, muitas, que a parte adormecida do meu cérebro já não consegue vislumbrar.

Por terças-feiras de feira da ladra, amarguras, ilusões, trapos, cacos, contradições, tenho procurado exemplares destes “Popular Favourites”, até hoje sem sucesso.

Frankie Laine é um senhor de outras músicas, de outros tempos, é ele que, nesse maravilhoso  Gunfight at the O.K. Corral ,que em português se chamou Duelo de Fogo, com o Kirk Douglas, o Burt Lancaster, a Rhonda Fleming, e o que o meu pai gostava da Rhonda Fleming, canta o tema musical composto por Dimitri Tiomkin.




OLHAR AS CAPAS


O Caçador de Histórias

Eduardo Galeano
Tradução: José Colaço Barreiros
Capa: Rui Silva
Antígona Editores, Lisboa, Setembro de 2017

O vento apaga o rasto das gaivotas.
As chuvas apagam o rasto dos passos humanos.
O sol apaga o rasto do tempo.
Os contadores de histórias procuram o rasto da memória perdida, do amor e da dor, que não se vê, mas não se apaga.

HÁ UMA SOLIDÃO


Há uma solidão do espaço
E do mar há solidão
Solidão da morte, mas
Alegres parecerão
Comparada à mais funda
E polar intimidade
De uma Alma diante de si própria –
A Finita Infinidade.

Emily Dickinson em 80 Poemas de Emily Dickinson

Legenda: não foi possível indicar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Ao contrário do que geralmente se crê, por muito que se tente convencer-nos do contrário, as verdades únicas não existem: as verdades são múltiplas, só a mentira é global. 

José Saramago

OLHAR AS CAPAS


Madrugada Sangrenta

Hartley Howard
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Livros do Brasil, Lisboa s/d

- Continuo a pensar que foi uma pena, senhor inspector, mas suponho que tem razão.
O inspector sorriu e viu as horas.
- Se tenho razão, é a primeira vez em muito, muito tempo – comentou. – Que lhe parece, sargento, se fizermos às nossas respectivas e respeitáveis esposas a surpresa de ir para casa cedo?
- Parece-me que é uma boa ideia. Ultimamente a minha anda a dizer que os pequenos me veriam mais se eu fosse marinheiro…
- A minha prefere mostrar-se distante quando eu chego tarde para jantar. A sua única saudação é: «Está no forno.»
Já à porta, o sargento Coe observou:
- Não creio que tenhamos grande razão de queixa, comparados com alguém que conhecemos…
- Quem?
- Um fulano chamado Ratchford. Aposto que a mulher o espicaçará até ao fim dos seus dias, Tinha razão ao afirmar que ouvira dois tiros, e nunca mais o deixará esquecer esse facto.
- Todos nós temos a nossa cruz, sargento… A minha, actualmente, são equações quadráticas… e como se isso não chegasse, há ainda uma coisa fantástica chamada cálculo…
- Esta noite tem trabalho para casa, senhor inspector?
- receio bem que sim. E você?
- Vou ver televisão. Vejo sempre, às terças-feiras, se consigo chegar a casa a tempo.
- Qual é o programa?
Um sorriso iluminou as feições coriáceas de Coe, que respondeu:
- Um destes mistérios policiais em que o inspector nunca se engana… Boas noites.

CANÇÃO DE HANS, O MARINHEIRO


Se tu soubesses
que em todos os portos do mundo
há uma mão desconhecida
a acenar - adeus, adeus - quando se parte prò mar;
se tu soubesses
que o mar não tem fronteiras nem distâncias
é sempre o mar;
se tu soubesses
a noite nas águas
onde os barcos são berços
e os marinheiros meninos a sonhar;
se tu soubesses
o desamor à vida quando o vento grita temporais
e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas;
se tu soubesses
que em todos os portos do mundo
há um sorriso para quem chega chega do mar;
se tu soubesses vinhas comigo prò mar
embora as nuvens do céu
e os ventos que vêm do Este e do Oeste, do Sul e do Norte
digam ao mundo que vai haver o temporal maior que todos!

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

Legenda: pintura de Pierre Bonnard

terça-feira, 25 de junho de 2019

O RELÓGIO DA TORRE


Quando alguém nos é apresentado como sendo possuidor de determinados dons e qualidades, nós não podemos deixar de relacionar esses predicados com o  reflexo  que eles terão na felicidade comum. E ocorre-nos se podemos realmente participar da boa sorte que essa pessoa sabe atrair com o uso dos seus talentos. Mas talento é uma coisa, e felicidade é outra. Felicidade é o círculo mágico dentro do qual nós desejamos encontrarmo-nos. O que nem sempre acontece. 
Exemplo de uma pessoa feliz é o seguinte: um indivíduo acorda no meio da noite e vê o quarto ligeiramente iluminado. Não sabe se é madrugada ou se o candeeiro da rua projecta o clarão nos vidros da janela. Pergunta para si própria: «Que horas serão?» Nesse preciso momento, o relógio da torre bate duas, três ou seis badaladas. A pessoa fica imediatamente elucidada e dissipa-se o seu problema. Devo dizer que esta hipótese é muito rara.
Outro caso é o de alguém que igualmente acorda fazendo ainda escuro, e pretende saber se a noite vai ou não adiantada. Então o relógio da torre bate uma badalada. A pessoa fica um bocado perplexa. Espera acordada meia hora; o relógio faz ouvir três, cinco ou seis badaladas. Aquela pessoa fica esclarecida. Esta é uma criatura medianamente feliz, pois não teve de esperar muito para que as suas dúvidas se dissipassem.
No terceiro caso, acontece isto: a pessoa, que acordou sobressaltada e sem a noção do tempo, ouve uma badalada. Não sabe se é meia-noite e meia hora, se é uma hora, se é hora e meia da manhã. Espera, e ouve ainda uma badalada. Espera mais... e adormece. Eu ia dizer «e morre», mas não; adormece, e é tudo. Não chega a saber a quantas anda. Esta é uma pessoa sem sorte.
Em qualquer dos casos, o que acontece nada tem que ver com as qualidades de cada um. Mas uma coisa é certa: todos nos encontramos no relógio da torre.

Agustina Bessa-Luís em Caderno de Significados

segunda-feira, 24 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Tenho medo de morrer depois da morte. Tenho medo de morrer antes da vida.

Daniel Faria, citado por José Tolentino Mendonça

Legenda: fotografia de Jane Fleming

SARAMAGUEANDO


Na obra de José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia é um dos meus livros preferidos.

Gostei logo à primeira leitura.

Joaquim Vicente no seu Rota de Vida, aborda com algum pormenor o livro.

Conta que Nelson de Matos terá dito que o Manual tinha vendido três exemplares, um dos quais comprado por Mário Soares, que quando o adquiriu  na Livraria Moraes, terá dito: «Manual de Pintura e Caligrafia? Mas o que é que o Saramago sabe disto?»

Mais uma história mal contada. Eu comprei o livro. E ao tempo, sei de mais pessoas que compraram.

Passemos à frente.

«É inegável a característica autobiográfica de todo o livro. Foi o que logo sentiu Nelson de Matos: «Era normal que a personagem do livro correspondesse ao escritor que estava a começar. No qual ele não confiava ainda.» «É talvez o meu livro mais autobiográfico», reconhecerá o próprio Saramago.
(…)
Nelson de Matos terá ficado longe de se sentir eufórico com o texto, mas, não obstante, optou por arriscar: «Lembro-me de que não gostei do livro, não me entusiasmou. Comentei pouco o livro com ele, mas publiquei. O Saramago estava próximo, e o livro não era tão mau assim. Foi um desastre editorial, comercialmente, não se vendeu. A escrita dele sempre foi muito rebuscada, muito barroca.».

A obra passou despercebida do público, para grande frustração do autor, pelo que testemunhou Mário de Carvalho: «O Manual de Pintura e Caligrafia foi uma desilusão para ele, Foi um livro em que o Saramago apostou muito, Recordo-me da mágoa com que ele viu que o livro não estava a ser bem acolhido.»

Contudo, o regresso de José Saramago á ficção, três décadas após Terra do Pecado, teve os seus defensores. Na Seara Nova, Ana Hatherly, num artigo sobre o Manual de Pintura e Caligrafia, constituindo acima de tudo uma reflexão acerca das possibilidades do romance contemporâneo, com citações de Louis Althusser, Paul Valéry, Claude Levi-Strauss, Émile Benveniste, William Blake, Maurice Blanchor, Kafka, Julia Kristeva, Walter Benjamim e Jacinto do Prado Coelho, deixava entrever a importância atribuída ao livro, não propriamente por uma opinião crítica, mas pelo espaço que lhe dedicava – três densas páginas. E no balanço literário nacional do ano seguinte, que faria para a Colóquio/Letras, Eduardo Prado Coelho coloca o volume de Saramago no seio de um «desfiar imenso de obras interessantes a vários títulos», referindo-se a Manual de Pintura e Caligrafia como a «a estreia (aparente) dum ficcionista» (se bem que as obras que destacasse para esse período, «dois livros excecionais», fossem Casas Pardas, de Maria Velho da Costa, e Directa, de Nuno Bragança). Em contrapartida, na mesma revista, Maria Alzira Seixo exporá mais tarde reservas por observar na obra «uma serenidade de relato que não cumpre a tensão temática proposta» e «uma efabulação que não acompanha os meandros intricados da simbólica utilizada».

Já José Manuel Mendes inserirá o livro do amigo na coerência de um percurso literário: «Se lermos com atenção os dois livros que ele escreveu antes, Terra do Pecado e Claraboia (sobretudo Claraboia), entendemos que está ali integralmente um homem capaz de fazer uma obra de grande envergadura. Depois, a tarimba do jornal e particularmente da crónica, mais do que os artigos de opinião, servem-lhe para experimentação de mecanismos de escrita e de procedimentos textuais de vária ordem. E quando um dia parte para a escrita do Manual de Pintura e Caligrafia, livro que valorizo bastante, ele está maduro para fazer esse tipo de experiência e levá-la a bom porto, a um bom resultado. O romance é um bom romance.»

Também Carlos Reis acha que aqui se anuncia mais do que à primeira leitura parece: «No Manual de Pintura e Caligrafia, que é um romance subvalorizado – passou despercebido -, está muito do projecto de Saramago, de transformar o artista de pintor em escritor e de fazer com que o escritor olhe para a realidade histórica. No fundo é uma reflexão muito metaficcional, metaliterária - o pensar a escrita, pensar a História, pensar a ficção. Isso está tudo inscrito ali.» Baptista-Bastos lamentará até que o autor não tenha aprofundado essa via: «Acho que o Manuel de Pintura e Caligrafia é um grande livro, que devia ser um caminho que ele devia ter encetado. É a minha opinião. Porque é uma coisa gira sob o ponto de vista das interrogações que um artista tem para fazer as coisas. É um bocado parecido com Os Sonâmbulos, do Herman Broch, é um bocado umas perplexidades do autor.»

Saramaguiano que já era, encantou-me de imediato, e sempre entendi Manual de Pintura e Caligrafia como um livro para ser vigilantemente pensado.

Lido de um só fôlego, a ele voltei para lentamente o apreciar, tal como se faz com uma velha aguardente.

domingo, 23 de junho de 2019

OLHAR AS CAPAS


 Correspondência
(1969-1978)

Jorge de Sena
Carlo Vittorio Cattaneo
Edição: Mécia de Sena, Jorge Fazenda Lourenço e Joana Meirim
Tradução do italiano. Jorge Vaz de Carvalho
Guimarães Editores, Lisboa, Novembro de 2013

Lamento que V. não tenha recebido a sua bolsa (alguém a recebeu em vez de si?). e vejo que o encargo de organizar a biblioteca do Instituto é assim como um prémio de consolação (ao menos pagam-lhe). Quanto ao prémio de poesia… meu caro: os prémios de poesia só se dão aos consagrados, aos amigos dos consagrados, aos amantes ou às amantes dos consagrados e dos júris. E, para ser-se um consagrado e recebê-los, é preciso ou ser-se um milagre de diplomacia e de bonomia com os idiotas deste mundo, ou fazer parte da pandilha. Eu que o diga, que nunca concorri pessoalmente a nenhum, mas que várias vezes entrei em prémios a que os editores, concorriam, por mim. Há anos, não sei se lhe contei, apesar de oposições velhas de anos, e muita raiva surda, o Prémio Nacional do Diário de Notícias foi votado para mim (50 contos que me faziam um arranjo enorme, caríssimo) – não havia saída, eu ia ganhar… ah, havia uma saída, não podiam premiar-me porque sou cidadão brasileiro (e viva a dupla nacionalidade das pátrias irmãs… ) e não apanhei o prémio que foi para o sujeito que tem apanhado sempre (é a terceira vez) os prémios que me tiram, o Torga.

(Duma carta de Jorge de Sena, datada de 16 de Novembro de 1971, para Carlo Vittorio Cattaneo).

AS CRIANÇAS


Elas crescem em segredo, as crianças. Escondem-se no mais oculto da casa para serem gado bravio, bétula branca.
Chega um dia em que estás descuidado a olhar o rebanho que regressa com a poeira da tarde, e uma delas, a mais bonita, aproxima-se me bicos de pés, diz-te ao ouvido que te ama, que te espera sobre o feno.
A tremer, vais buscar a caçadeira, e passas o resto da tarde a atirar sobre as gralhas, inumeráveis, àquela hora.

Eugénio de Andrade em Memória Doutro Rio

COMO QUEM REGRESSA AO PAÍS DA SUA INFÂNCIA


Eis que voltámos ao Cais.

Este regresso levou-me a pensar em Mário Castrim.

Foi a grande bússola da crítica de televisão neste nosso país.

Começou a fazer crítica de televisão, no Diário de Lisboa, em 14 de Maio de 1965.

Nos tempos da ditadura, a malta encontrava-se nos cafés e quando algum chegava, a primeira pergunta não variava muito: «Já leste o Castrim?»

Quase quarenta anos a fazer crítica de televisão.

Em 1990, Fernando Assis Pacheco calculou que Mário Castrim já passara 17 mil horas frente ao televisor. Em Outubro de 2002, tempo da sua morte, as contas foram calculadas em 70 mil horas.

A censura, diariamente, esquartejava-lhe a prosa.

Mesmo assim, um dia, entenderam que o homem estava a ir longe de mais e proibiram o «Canal da Crítica»

Proveniente de todos os quadrantes, levantou-se um vendaval de protestos.
Outra coisa não restou às múmias ditatoriais, senão aceitarem o regresso de Mário Castrim.

Quando esse dia chegou, Castrim abriu com um lindíssimo texto.

Foi assim:

«Regresso. Comovido, como quem regressa ao país da sua infância. Ficou para trás a calma, o sono reencontrado, o silêncio por toda a casa. Ficou para trás a visita de amigos, a frescura da noite, o deambular descuidado. Ficou para trás o ser “como toda a gente”. E no entanto, este regresso, na sua felicidade perdida, tem o sabor de uma felicidade reencontrada. Vou de porta em porta apertando as mãos que se estendem, forte de uma grande família. Vou crucificar os olhos no fulgor violento do televisor. Vou, pelo túnel da noite, em perseguição das palavras úteis, ou necessárias, ou simplesmente possíveis. Difíceis sempre, arrancadas da carne a grande profundidade da pele. Palavras que seriam de amizade, a selar a presença vivida, revivida, de tantos rostos desconhecidos e atentos. Palavras de quem, regressando ao frio da noite, regressa também, a morosamente, ao país da sua infância, ao país do seu país.»

Legenda: Mário Castrim

terça-feira, 18 de junho de 2019

AVISO À NAVEGAÇÃO


Conforme se noticiou, este Cais vai entrar em obras de manutenção.
Prometemos ser breves.
Obrigado pela vossa compreensão.
Até já!

segunda-feira, 17 de junho de 2019

A FESTA DO LIVRO


Há quem defenda que a Feira do Livro devia sair do Parque Eduardo VII.

Por causa daquele sobe-e-desce, também pelo vento, pelo sol, pela chuva.

Que a escolha poderia recair num espaço fechado.

Não estou nada de acordo.

Gosto que ela esteja ali.


Pelos jacarandás.


Por aquela nesga de Tejo que, lá do alto se consegue vislumbrar.

Para mim, a única coisa chata que a Feira tem, é essa parvoeira aberrante que as Leyas, as Porto Editora, as Bertrand arranjaram com aqueles condomínios de praças e pracinhas, com seguranças e sensores que apitam por tudo e por nada e levam o cidadão a provar que não gamou nenhum livro. Ao passo que em outras editoras pagamos os livros no próprio stand, com aquela rapaziada temos que ir para uma fila enorme de compradores que quase dá vontade de deixar os livros e zarpar dali para fora.

No topo do texto, o stand da &etc. sem a presença do Vitor Silva Tavares.

É um recordar das muitas conversas que, durante muitas feiras, com ele tive, a fotografia é um clássico que nunca deixo de registar.

A Feira fechou ontem portas.

Como dizia o Francisco  Vale, editor da Relógio d’Água:

«Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas na Feira do Livro de Lisboa com um «até para o ano, se ainda houver livros».

domingo, 16 de junho de 2019

CARVALHESA


                             

No Cemitério do Alto de S. João, decorreu hoje a cremação de Ruben de Carvalho.
Não é fácil descrever uma personalidade como Ruben de Carvalho.
Amava a vida, o povo, a liberdade, a cultura.
Ocorre o lugar-comum: com a sua morte ficámos tremendamente mais pobres.
São raros aqueles de quem podemos dizer o mesmo.
Se outros motivos não existissem, sempre, mas sempre mesmo, que os acordes da «Carvalhesa subirem nos ares, nos lembraremos de Ruben de Carvalho
E fica uma imensa saudade.

OLHAR AS CAPAS


Folk Music: More Than a Song
Kristin Baggelaar and Donald Milton
Library of Congress, 1976

Woodie Guthrie: Cantor, guitarrista, intérprete, escritor, poeta popular.
Sobre o trabalho de Woody Guthrie, seu filho Arlo, disse que o pai sentia que tinha nascido para escrever músicas sobre todas as experiências e o envolvimento com as pessoas e isso era tudo para ele. Woody Guthrie escreveu centenas de canções sobre a América e o seu povo. Quando se ouve uma canção de Guthrie ouve-se a América a cantar. O profundo compromisso de Woody com o seu país e o seu povo, as suas canções, é todo um trabalho que fica perpetuado para sempre.

DITOS & REDITOS


É o mesmo que comparar o olho do cú com a Feira de Castro.

No saber trabalhar, amar e sofrer, está a arte de bem viver.

Conforme é o toque assim é a dança. 

Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem. 

A memória é um estado de afeição.

Fazem-se cordeiros doces com pastos salgados.

Depressa e bem não há quem.

Escreve-se à procura de quem nos leia.

sábado, 15 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Ó menina, vem no Marx. Não há omeletes sem ovos. Aumenta os salários que os resultados aparecem.

OLHAR AS CAPAS


Obra Escrita
Volume 3

João César Monteiro
Coordenação: Vitor Silva Tavares
Capa: Luís Henriques
Livraria Letra Livre, Lisboa, Setembro de 2017

João de Deus: Estás aonde? Em casa ou na fábrica? Esse Tomé só arranja confusões. Não, não. De amaneira nenhuma. Não te preocupes. Está tudo a andar. O costume. A mulher da limpeza voltou a não aparecer. Depois vem com umas grandes tretas. É uma chatice. Mas lá terá que ser… O problema é que não posso deixar isto entregue aos bichos. Quando o Romão vier. Combino as coisas com ele. Se tiver uma aberta passo ainda hoje pelo banco e dou uma palavrinha ao gerente. Fica descansada. E ainda temos quantos quilos em stock? Estamos à vontade. Não senhor. A ideia é muito simples: deixa-se os clientes a salivar durante uns dias com o anúncio de esgotado e relança-se o Paraíso em força. . Claro. Com um novo preço que faça jus à especialidade da casa e à originalidade do sabor. Ò menina, vem no Marx. Não há omeletes sem ovos. Aumenta os salários que os resultados aparecem. É elementar e tu sabe-lo por experiência própria: também te saiu do pêlo. Também fiquei com muito boa impressão, sim senhor. Vive sozinha com a mãe numa barraca? Também não me pareceu nada doidivanas. A ver vamos, mas uma andorinha não faz a Primavera. É. De que parte do Minho? Conheço muito bem. Papei por lá, se não estou em erro, a melhor cabidela da minha vida. É boa gente, lá isso é. É muito bonita e ainda não perdeu aquela inocência fresca e provinciana. Vou retocá-la ao  gosto das madonnas venezianas, mas sem apagar os traços rurais. Pode ser um chamariz, pode, mas toda a sabedoria vai estar no conservá-la. Alguma vez te deixei ficar mal? Ó Judite, sabes perfeitamente que em serviço não brinco. Está bem. Cá a espero. Rosário. Rosário quê? Não, não. A mim, essa Francisca nunca me enganou. Vi logo. Queixa na Judiciária? Não te metas nisso. Não paga o incómodo. Também está debaixo de olho, mas deixa-a pousar. Não quero levantar a lebre.

Alexandra aparece a abotoar a bata.

João de Deus: Chaozinho, minha cara, e boas melhoras.

João de Deus desliga o telefone.

João de Deus (para Alexandra): Mostra-me essas mãos.

Alexandra aproxima-se e estende as mãos a João de Deus. Este cheira-as.

João de Deus: Estão lavadinhas. Assim é que deve ser. E queres saber porquê? A razão é simples e não me canso de a repetir. Uma parte muito substancial dos clientes desta casa são crianças. Ora., assim sendo, quem quer que seja que trabalhe sob as minhas ordens é obrigado a lavar as mãos, seja após a utilização das instalações sanitárias, seja após a extracção de mucos nasais, vulgo macacos,, por exemplo, sob pena de despedimento imediato e sem prejuízo de ulterior procedimento criminal. O que está em jogo é a saúde pública. Entendido?

Alexandra acena que sim.

João de Deus: Ao servires um gelado, nunca te esqueças que, um dia, serás mãe.

OS SEUS ÓDIOS E OS SEUS AMORES


Um comunista é um homem como outro qualquer; com excessos e depressões, temeridades e fraquezas, um tanto de sangue nas veias, cinco sentidos e inteligência mais ou menos desenvolvida. Gramsci repete precisamente que “o Partido é a guarda-avançada consciente do proletariado” e que o dever do militante é estar particularmente instruído sobre cada circunstância determinada. Tudo marcha na perfeição quando se trocam ideias e há combinação, mas quando alguém está só, em intimidade com os seus instintos e com a consciência ainda não moldada, fortalecido apenas com os seus ódios e os seus amores, é fácil andar fora da “linha do Partido”.

Vasco Pratolini em Crónica dos Pobres Amantes

sexta-feira, 14 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Muito cedo na minha vida foi tarde de mais.

Marguerite Duras em O Amante

AGUSTINA ENTRE DOURO E MINHO


Agustina Bessa-Luís está sobrevalorizada na Literatura Portuguesa.
Na sua morte, ocorrida há dias, a genialidade foi chamada diversas vezes.
Os seus pares e os jornalistas esgotaram os adjectvos.
No fundo, Agustina tinha razão: era mais conhecida que lida.
Mas José Carlos de Vasconcelos no JL adianta que Agustina, só houve, só há, uma.
Vasco Pulido Valente, na sua expressão venenosa, resume a sua morte em meia- dúzia de linhas publicada no Público:

«Morreu Agustina e teve justamente uma aclamação nacional. Peço desculpa de me excluir da imensa multidão dos seus devotos. Enquanto ele era celebrada na Sé Catedral do Porto, os litterati comentavam o facto lamentável de ela não ser também um grande autor internacional. Porque será? Porque Agustina é uma filha de Entre Douro e Minho, que nunca percebeu o que ficava para lá das fronteiras em que sempre se fechou. Nós podemos, como portugueses, ter uma certa inclinação por ela. Partilho o gosto pela retórica. Mas nunca consegui desculpar a ausência de arquitectura dos romances, nem a prosa imperdoavelmente irresponsável, como diria Borges. Assim vai o mundo.»

Legenda: capa do JL   1270, de 5 a 15 de Junho de 2019.

OLHAR AS CAPAS


Com o Mar Por Meio- Uma Amizade em Cartas

Jorge Amado e José Saramago
Selecção, Organização e Notas de Paloma Jorge Amado, Bete Capinan e
Ricardo Viel
Companhia das Letras,  Rio de Janeiro, Novembro de 2017

Também vão publicados, os parabéns pelo Prémio Camões, não sendo exemplar, é exemplo. Tanta miséria moral mal escondida, tanta inveja, tanto desejo de morte por trás das fachadas compostas de muitos que, num momento, vão ser juiz e sentença. Não obrámos nós assim quando estivemos no júri da União latina. E certamente assim não obrei eu quando me bati pelo Prémio Rainha Sofia para João Cabral…  Meu querido Jorge, viveste mais e mais intensamente do que eu, sabes como muitas vezes é difícil (ou terrivelmente fácil) compreender certos comportamentos humanos. Quando estiveres a receber o prémio, pensa só nos teus leitores, são eles que valem a pena.
Creio entender o que se passa com o teu romance. Quando a ideia inicial de uma narrativa nos parece clara, claríssima, óbvia até, é quando mais vamos ter de sofrer para encontrar-lhe o bom caminho. Nunca sofri tanto, eu, como neste Ensaio Sobre a Cegueira, tão simples, aparentemente, que podia ser explicado em meia dúzia de palavras. Já tenho a meta à vista, mas o que me custou só eu sei. Não te digo que teimes – é o que tens feito toda a vida -, digo-te que não temos outra sina que pelejar com as palavras, e se é certo que elas sempre acabam por ganhar, ao menos que não fiquem a rir-se de nós.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

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Este livro é uma história deliciosa.

No meu tempo, a História que aprendi no liceu, foi-me dada a conhecer em matéria resumida e segundo os conceitos históricos da ditadura. Se quis ter outros olhares sobre essa mesma história, tive que recorrer a outras fontes.

Em 1807, no auge das guerras napoleónicas, o príncipe-regente D. João decide o impensável: apesar de horrorizado com a ideia de cruzar o Atlântico, dá ordem para transferir a Corte inteira e o Governo para a maior colónia de Portugal, o Brasil. 

É assim que, com as tropas de Junot às portas de Lisboa, 10 000 nobres, padres, ministros e criados fogem em debandada a bordo das frágeis embarcações da armada portuguesa. Zarpam sob escolta britânica numa viagem transatlântica de dois meses que se revelaria muito atribulada. Desembarcam enlameados, piolhosos e esfarrapados, para grande surpresa dos súbditos do Novo Mundo.

Assim começa um período de 13 anos de governação imperial portuguesa sediada no Brasil. Depressa o Rio de Janeiro é beneficiado com uma nova ópera, um jardim botânico luxuriante e um Paço Real – uma Versalhes tropical.

Espantei-me com tudo o que desconhecia deste “carnaval” português.

O crítico e professor Claude Lévi-Strauss considera Império à Deriva uma obra-prima, escrita com erudição, simplesmente fascinante.

«O almoço tomado cedo (perto do meio-dia), era um acontecimento importante. Todo o pessoal em funções no palácio nessa altura – os seus validos, assistentes de guarda-roupa, funcionários do palácio e médicos – reuniam-se para estarem presentes à mesa do regente. Segundo todos os relatos, D. João era uma fabulosos comedor de frango, uma caracterização que decorre da análise dos registos que sobreviveram das despesas da corte, em que pombos e perus também figura com destaque. Comia com as mãos – três frangos a cada refeição, de acordo com alguns registos – acompanhados de pão ligeiramente torrado. No Rio de Janeiro, acrescentou mais um elemento a esta lauta refeição – quatro ou cinco mangas da Baía, tudo isto regado com água. (D. João raramente bebia vinho). Os almoços eram acontecimentos cerimoniais, decorriam numa grande mesa oval, com uma toalha branca que chegava ao chão, e terminavam sempre com o ritual da lavagem de mãos. D. Pedro pegava numa bacia de prata na qual D. Miguel despejava á gua de um jarro sobre as mãos gordurosas do pai.»

Legenda: contra capa de Portugal à Deriva

OLHAR AS CAPAS


Império à Deriva

Patrick Wilcken
Tradução: António Costa
Civilização Editora, Porto, Novembro de 2005

A chegada ao Novo Mundo constituiu uma grande reviravolta na vida da família real portuguesa, mas a sua dinâmica emocional sobreviveu intacta à travessia do Atlântico. Família excêntrica e disfuncional, os Braganças instalaram-se no Brasil e as suas guerras intestinas recomeçaram num novo continente. À primeira vista, pareciam quase caricaturas da realeza europeia da sua época: D, Maria I, a rainha louca, no seu luto perpétuo, o indeciso D. João, príncipe regente que, como segundo filho, nunca estivera destinado a reinar, e a sua intriguista mulher. Aprofundemos as suas histórias, porém, e encontraremos uma família mergulhada na infelicidade, na desconfiança e na frustração, fragmentando-se sobre a pressão da era napoleónica.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

OLHARES


O Valentim era um alentejano que vendia, aos fim- de-semana, naquela curva da Azoia que depois se encaminha para a estrada do cabo da Roca, produtos hortícolas que cultivava num pedaço de terreno que tinha junto à barraca em que vivia. Era um conversador nato, coisas da vida, nunca da vidinha, e, nestes dias, que já são prenúncio do Verão que há-de chegar, lembro-me de uma frase sua:

«Beber água entristece.»

terça-feira, 11 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Tiveram a fineza de me apresentar todas as prisões do fascismo.

Ruben de Carvalho

RUBEN DE CARVALHO (1944-2019)


Morreu Ruben de Carvalho.

Uma boa parte dos portugueses talvez não consiga saber o que, com a sua morte, o País perde.

Pedro Tadeu, no Diário de Notícias-on line de hoje, num texto que intitulou «Olá Ruben. Como é a minha vida hoje?...:

«Milhares de vezes, quando aquele número aparecia no mostrador do meu telemóvel, soava no auscultador a voz do Ruben de Carvalho: "Olá Pedro, estás bom?... Olha lá, como é a tua vida hoje?".

Por causa dos telefonemas do Ruben, desde que o conheci, em 1983, a minha vida profissional incluiu o jornal "Avante!", a Festa do "Avante!", a Telefonia de Lisboa, o Lisboa 94, e lembro-me lá agora de tantas outras coisas que fiz com ele, de tantas outras coisas que fiz para ele, de tantas outras coisas que fiz por causa dele. Ruben de Carvalho foi meu chefe

Por causa dos telefonemas do Ruben, tive milhares de horas de conversa, milhares de jantares, milhares de discussões sobre política, história, sociologia, arte, música, relações humanas. Ruben de Carvalho foi meu mestre.

Por causa dos telefonemas do Ruben fui obrigado a estudar livros que ignorava, a ouvir discos que subestimava, a saber duvidar de certezas absolutas, a procurar questionar as minhas convicções para encontrar boas respostas sobre novos problemas, a recusar dogmas e lugares-comuns mas, ao mesmo tempo, a respeitar os milhares de anos de saber acumulado pela humanidade. Ruben de Carvalho ensinou-me a pensar.

Por causa dos telefonemas do Ruben conheci de perto dezenas de pessoas extraordinárias: a incrível companheira dele, a jurista Madalena Santos (que, aliás, nos apresentou); a Ivone Dias Lourenço; o grafista e desenhador José Araújo; o músico, musicólogo e realizador de TV e rádio, Manuel Jorge Veloso; os jornalistas João Chasqueira, Anabela Fino, Carlos Nabais, Domingos Mealha, Henrique Custódio e Leandro Martins; a Noémia; o apresentador Cândido Mota, o locutor Mário Dias...

Ruben de Carvalho foi ponto central e completou a circunferência do meu círculo de relações pessoais. Ruben de Carvalho foi meu amigo.

Contactei com importantes dirigentes comunistas que me impressionaram: António Dias Lourenço, Carlos Brito, Domingos Abrantes, Carlos Carvalhas e, claro, Álvaro Cunhal. Ruben de Carvalho foi meu camarada.

A biografia do Ruben é impressionante.

Foi militante comunista, logo durante a ditadura fascista, antes do 25 de abril; conspirou e lutou contra o regime.

Esteve nos movimentos unitários, da candidatura presidencial de Humberto Delgado às candidaturas eleitorais da CDE; esteve no apoio ao aparelho clandestino do PCP.

Foi preso político seis vezes.

Foi um jovem jornalista que chegou precocemente a subchefe de redação de um grande jornal diário, o "Século".

Fez a guerra colonial em Angola como enfermeiro, decidindo não dar "o salto" para o estrangeiro, mas encontrando uma forma de estar no exército português que não violentasse a sua solidariedade com os movimentos de libertação.
Fez a revista "Vida Mundial", que abriu uma janela de luz na informação opaca da época.

Foi chefe de gabinete de um ministro no primeiro governo da democracia.
Fez a primeira redação legal do "Avante!". Até construiu mobiliário, pois adorava o trabalho manual - não era acaso o brinquedo preferido em criança ter sido o das construções em Meccano.

Esteve no centro da criação da "Carvalhesa", o hino sem letra que tantos trauteiam nas campanhas eleitorais da CDU.

Fez, desde 1976 até hoje, a organização dos espetáculos da Festa do "Avante!".
Fez uma rádio local chamada Telefonia de Lisboa que o cavaquismo, assustado, fechou ilegalmente, como o tribunal administrativo veio a confirmar numa sentença tardia sobre um concurso para novas frequências de rádios.

Fez parte do comissariado do Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura - e isso fez dele, contava com ironia, um dos comendadores da nação, com direito a medalha e tudo.

Fez trabalho parlamentar como deputado eleito por Setúbal.

Foi um vereador empenhado na câmara de Lisboa.

Escreveu, publicou e ajudou a editar várias obras de referência sobre o fado. Lutou muito contra a ideia de que o fado era uma música "salazarenta", como alguma esquerda, mais tonta, logo a seguir à Revolução dos Cravos, crismara o género popular.

Esteve sempre no centro do debate político; publicou milhares de artigos de jornal na "A Capital", "Diário de Notícias", "Público", "Expresso", "Sábado", "24horas", entre outros.

Foi comentador regular na SIC e na RTP.

Fez dois programas na Antena 1 que se tornaram referência na rádio portuguesa e demonstram publicamente a sua personalidade culta, pluralista e tolerante: com Iolanda Ferreira o "Crónicas da Idade Mídia"; com Rui Pego e Jaime Nogueira Pinto, o "Radicais Livres".

Fazer, construir, deixar obra feita num contexto de trabalho coletivo - este era o seu projeto pessoal.

É nesse sentido que deveríamos entender o seu maior legado: o da Festa do "Avante!".

A própria ideia inicial da organização da Festa, inspirada em festas similares de partidos comunistas, como o italiano e o francês, tinha como pressuposto o envolvimento coletivo de milhares de militantes comunistas na organização de um projeto político e cultural que demonstrasse, numa pequena cidade improvisada, o modelo de sociedade igualitária que o PCP defende. A Festa não é, portanto, obra de um indivíduo, é obra de um coletivo.

Com o engenheiro Fernando Vicente e o artista plástico Rogério Ribeiro, o Ruben moldou a forma técnica e estética inicial que milhares de camaradas seus desenvolveram, fizeram evoluir e construíram em vários terrenos e espaços, desde os pavilhões da antiga FIL, na rua da Junqueira, à atual Quinta da Atalaia, no Seixal.

A organização dos espetáculos, a sua tarefa central na Festa do "Avante!", suscitou-me há alguns anos estas palavras:

"Com ele aprendi ser sempre mais difícil decidir quem atua a meio da tarde do que escolher quem encerra a noite. Vi como era preciso ter coragem para dizer não a músicos ligados ao PCP, que caíam na tentação de querer transformar a festa de todos numa coutada exclusiva.

"Aprendi como se fabricam as grandes ideias e as dezenas de horas de discussão redonda, esgotantes, que é preciso ter para lá chegar. Vi como surgiram os filões das músicas brasileiras, folk ou africana, sempre um pouco à frente das modas em que elas depois se transformaram, e registei como aconteceu a que agora é marca definitiva do evento: o grande concerto de música clássica.

"Na Festa do Avante! ensinaram-me, como a muitos outros, o essencial do que me transformou num profissional bem-sucedido: é preciso entender o quadro geral de um problema e dar importância aos detalhes que fazem a diferença".

A Festa do "Avante!" é também relevante porque criou uma indústria: foi lá que se formou a primeira geração de técnicos e de produtores que tornaram os concertos e festivais de verão uma banalidade, que antes não existia em Portugal.
O Ruben foi sempre um intelectual ao serviço da classe operária. Era um génio que não acreditava nos golpes de génio, que acreditava cegamente no trabalho de equipa.

Há uma dezena de anos estivemos cerca de 20 minutos chateados.

Num fim de semana que passámos juntos, discutíamos as mudanças no mundo da comunicação que a internet trouxe. Às tantas fiz uma catilinária sobre a "burrice" da esquerda que deixava para a direita e para o PS o domínio ideológico dos "blogues" e das redes sociais. Ele, zangado (ui!, como era bravo...), espantava-se comigo: como é que eu, militante comunista, defendia a utilização de uma forma de comunicação que, pela sua natureza atomizada, promove o individualismo, o egocentrismo, a vaidade pessoal, o desprezo pelo outro? "Vamos mas é fazer bons sites coletivos, deixa lá isso dos blogues e dos Facebooks que isso é para quem tem a mania de ser vedeta..."

Ruben de Carvalho era um intelectual ao serviço da classe operária. Um revolucionário. Foi essa a missão que cumpriu na vida.

Olho para o telefone, depois de receber a notícia da morte do Ruben de Carvalho, o homem mais impressionante que conheci.

Não evito a comoção e pergunto-me: sem Ruben, como é a minha vida hoje?...

Um grande beijo, Madalena.

AVISO À NAVEGAÇÃO


Como dizia o Woody Allen, não só deus não existe como não se consegue encontrar um canalizador num fim-de-semana.
Em relação a deus tenho a mesma ideia e num fim de semana prolongado, que começou na sexta-feira 7, não encontrei o Luís, rapaz de paciência infinita que nos presta assistência pro-bono à maquineta-fora-de tempo com que construímos o Cais em cada dia.
Chegou há instantes, e veio a correr saber do que se passava.
O que se passou é que na noite do dia 7 a maquineta recusou-se a trabalhar. 
Pasmado, quase ad eternum, ficou um postal sem selo em que a Angelina Jolie come um morango e que ilustra um verso de Czselav Milosz.
O Luís, com bonomia, diz que a desgraçada da torre da maquineta não resistiu a tudo isso e deu-lhe o fanico.
Por agora arranjou uma coxa tábua de salvação, mas a maquineta precisa de alguns dias de manutenção, ou então comprar uma nova.
Comprar… fora de questão e o Luís agendou a tal manutenção para o dia 18 deste mês. 
Poderá demorar quatro/cinco dias, algo mais, mas de tudo isso, atempadamente, daremos notícia.
Por agora, como se impõe, pedimos as nossas desculpas aos viajantes que se passeiam por este cais.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Meu deus, como gostava do doce de morangos e da doçura nocturna do teu corpo.


Legenda: Angelina Jolie

A MEDIDA DE WALL STREET


Temos as melhores cerejas do mundo.
As melhores das melhores são exportadas para que os «mon cherie» que se comem pelo mundo, tenham aquele toque tão especial.
Sobre cerejas, Agustina tem uma tirada interessante. Conto a história:
Artur Portela Filho perguntou à escritora se a cultura portuguesa é, Portugal, e só, em que medida é Europa, em que medida é Mundo. Respondeu-lhe a escritora:

«Evidentemente que Portugal é Europa. Mas uma Europa de refugiados, um lugar mantido em independência para servir de exílio a vencidos e enganados. Uma Suiça doutro, onde nada se agita e tudo se murmura. Portugal foi mundo de mercadores, pátria para imigrados, delícia dos tímidos e calamidade para santos e perversos. Para o meio termo é boa casa, e não digo em sentido pejorativo, muito pelo contrário. E Alijó, no tempo das cerejas, tem a medida de Wall Street.»

OLHARES


Há quem se espante que a esquerda não tenha marcado presença significativa no velório de Agustina Bessa Luís, deixando ainda o registo de que o facto impele que a escritora se torne num ícone cultural da direita.
Paciência.
De direita sempre foi.
E a direita lê? Tem uma cultura?
José Saramago que até lhe apreciava a escrita, não deixou de registar que as suas ideias não se limitavam a ser conservadores: eram retrógradas.

Legenda: imagem do Diário de Leiria

quarta-feira, 5 de junho de 2019

SARAMAGUEANDO


Até chegar onde chegou, a vida de José Saramago não foi nada fácil.
Joaquim Vieira, no seu Rota de Vida, assinala que para sobreviver, José Saramago fazia traduções, uma vida espartana:

«Baptista-Bastos: «O Saramago era um indivíduo que se afastava muito. Também. Não ia a bares, era muito parcimonioso e reservado. E depois tinha de trabalhar para comer. E trabalhar é traduzir. E traduzir é muito mau. Porque se ganha muito pouco e trabalha-se… Eu sei o que é isso.»
Das muitas páginas que traduziu, assegurará Saramago: «Foram elas que me serviram de almoço e jantar. Quem quiser viver do que escreve tem de ter uma disciplina de ferro. O trabalho de tradutor é desgastante, frustrante. A capacidade de o realizar, a par de uma obra própria, depende da disciplina e da saúde. A tradução, como forma de sobrevivência do escritor profissional, é uma espécie de trabalho a táxi.»
Além do mais, o estado de necessidade implicava considerar peixe tudo o que viesse à rede: «O mesmo editor que me tinha dado um grande livro podia estar a dar-me algo simplesmente de rotina. Como comer era necessário que se tornasse também numa rotina, então eu fechava os olhos e fazia o trabalho. Li livros políticos, livros que tinham a ver com os países do Leste, muito chatos, sensaborões e com muitos lugares-comuns ideológicos. Mas o editor queria e eu precisava.»

Legenda: capa da versão portuguesa de Ana Karenina, de Leão Tolstoi, traduzida do francês por José Saramago em 1969. Imagem tirada de A Consistência dos Sonhos.