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sábado, 1 de fevereiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


 
Marianne Faithfull deixou-nos. Restam as canções, as muitas e variadas histórias.

Tempo para ir buscar um velho vinil da Marianne, em que a primeira canção do lado 2 é «Ballad of Lucy Jordan», o sol da manhã a tocar, no seu quarto branco, na cidade suburbana branca, levemente os olhos de Lucy Jordan, uma canção que, não por acaso, acompanha as loucuras de Susan Sarandon e Geena Davis em «Thelma & Louise», filme de Ridley Scott.

E voltar a KeithRichards e as suas memórias com Marianne:

«Só depois disso chegaram os dois a Tânger, acompanhados da Marianne, que ia ter com o Mick a Marraquexe. O Brian estava tão combalido que a Anita e a Marianne, qual competentes enfermeiras, tiveram a brilhante ideia de lhe dar ácido no avião, para ver se ele arrebitava. Elas próprias acabavam de passar uma noite em branco e a ácido. Quando finalmente chegaram a Tânger, um incidente junto à loja do Ahmed instalou o pânico. O sari da Marianne (única peça de roupa que trazia vestida) ficou preso algures e desenrolou-se, deixando-a subitamente nua no casbá.»


sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Os vícios tornam as canções mais reais.

Marianne Faithfully


 DECCA RECORDS  - MCPS 820 482-2 - 1987


As Tears Go By – Come And Stay With Me – Scarborough Fair – Monday, Monday – Yesterday – The Last Thing On My Mind – This Little Bird – Something Better – In My Time Of Sorrow – Is This What I Get For Loving You? – Tomorrow’s Calling – Reason to Believe – Sister Morphine – Go Away From My World – Summer Nights


Incondicional que é de Marianne Faithfull, tentou encontrar o vinil mas saíu-lhe o CD.

Se bem que muito contrariado, não se fez rogado. Um best de Marianne, que tem canções de Jagger e Richards, Lennon e McCartney, Tom Paxton, Tim Hardin, fora os outros, é uma benção dos céus, seja lá o que isso for.

Depois olha-se a fotografia da capa e dá para concluir que o dia está ganho e lembrar outras histórias.

Keith Richards lamenta-se na sua «Life» que elas iam todas chorar no seu ombro quando descobriam que o Jagger andava a comer fora.

Que há-de um homem fazer?

Por uma noite, «quem foi ao mar perdeu o lugar», Keith perdeu-se a contar outras músicas a Marianne.

Eis senão quando os dois ouvem o carro de Mick Jagger chegar.

«Grande alvoroço, pego nos sapatos e salto janela fora para o jardim. Tinha-me esquecido das meias! Mas o Mick também não era gajo para se pôr à procura de meias. E assim ficámos com uma piada para sempre – ainda hoje, a Marianne me diz: «Ainda não consegui encontrar as tuas meias!»

MARIANNE FAITHFULL (1946-2025)


Morreu Marianne Faithfully.

sábado, 15 de maio de 2021

POSTAIS SEM SELO


Tenho 74 anos e não me sinto amaldiçoada nem invencível. I just feel fucking human.

Marianne Faithfull

CAMINHANDO COM A BELEZA


Era domingo, um triste domingo daqueles dias difíceis, cruéis mesmo, de Abril de 2020.

Acabava de saber que Marianne Faithfull dera entrada nas urgências/cuidados intensivos de um hospital de Londres e podia depreender-se que as probabilidades de sobreviver eram mínimas.

Foi este o registo que deixei:

«Leio que Marianne Faithfull foi internada num hospital londrino depois de o seu teste ao Covid-19 ter dado positivo. Acresce que Marianne Faithfull, com 73 anos, sofre de hepatite C e isso não augura nada de bom.

O António Variações dizia que quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga.

Keith Richards, na sua autobiografia Life, lamentava-se que as moças iam todas chorar no seu ombro.

Quando soube que Mick Jagger andava a comer fora, Marianne procurou o ombro de Keith.

Que há-de um homem fazer?

 Por uma noite, «quem foi ao mar perdeu o lugar», Keith perdeu-se a contar outras músicas a Marianne.

Eis senão quando os dois ouvem o carro de Mick Jagger chegar.

Relato de Keith:

«Grande alvoroço, pego nos sapatos e salto janela fora para o jardim. Tinha-me esquecido das meias! Mas o Mick também não era gajo para se pôr à procura de meias. E assim ficámos com uma piada para sempre – ainda hoje, a Marianne me diz: «Ainda não consegui encontrar as tuas meias!»

Após 22 dias de internamento, Marianne acabou por dar a volta a todos os textos.

João Lisboa (Expresso de 30 de Abril) ocupa-se do último trabalho de Marianne («O Mais Belo Álbum») e referindo as notícias pessimistas que envolveram a entrada no hospital de Marianne, esperando-se o pior, diz-nos: «isso não era senão menosprezar Marianne Evelyn Gabriel Fairhfull, aliás, a baronesa Erisso Von Sacher-Masoch, sobrinha-bisneta do infame Leopold: quem ao longo da vida, já sobrevivera a uma prolongada dependência de heroína – que a lançara para a rua, sem abrigo -, à bulimia, ao alcoolismo, a diversas tentativas de suicídio, a um cancro da mama, à hepatite C e a uma fratura da anca com infecção pós-operatória, não haveria de ser um qualquer SARS-CoV-2 que a iria derrotar.»

Há semanas saiu o seu 21º álbum de estúdio, um disco que sempre desejara gravar – She Walks in Beauty.

Marianne,  aos 14 anos, leu uma antologia de poetas ingleses, apaixonando-se pela poesia romântica e em entrevista ao The Guardian, respigada por João Lisboa, conta:

«Nunca tive a menor dúvida. Tinha-o na cabeça. Penso nele há tanto tempo que sabia exactamente o que pretendia. Tive sempre esta ideia de gravar o mais belo álbum de poesia com acompanhamento musical mas não conseguia imaginar quem poderia estar interessado em publicá-lo. Quando conheci estes poemas, era uma miúda esperta e bonita e imaginava que eram todos acerca de mim. Agora, creio ser a coisa mais perfeita para este momento que vivemos. Quando os leio, vejo-os como um rio, uma montanha, são belíssimos e reconfortantes. E acabei por descobrir que não tinham sido escritos sobre mim.»

A envolvência musical, que acompanha a recitação das poesias, deve-se ao arquitecto sonoro Warren Ellis, uma vida a trabalhar com Nick Cave. e os Bad Seeds.

É um belo álbum.

Ao mesmo tempo, Marianne Faithfull e Keith Richards, ainda não encontraram as meias deixadas em casa de Mick Jagger.

Abençoados deuses.

domingo, 5 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Hoje é domingo.

Merdoso domingo, chove e faz frio.

A cidade envolta numa sinfonia de silêncio.

Leio que Marianne Faithfull foi internada num hospital londrino depois de o seu teste ao Covid-19 ter dado positivo. Acresce que Marianne Faithfull, com 73 anos, sofre de hepatite C e isso não augura nada de bom.

O António Variações dizia que quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga.

Keith Richards, na sua autobiografia Life, lamentava-se que as moças iam todas chorar no seu ombro.

Quando soube que Mick Jagger andava a comer fora, Marianne procurou o ombro de Keith.

Que há-de um homem fazer?

Por uma noite, «quem foi ao mar perdeu o lugar», Keith perdeu-se a contar outras músicas a Marianne.

Eis senão quando os dois ouvem o carro de Mick Jagger chegar.

Relato de Keith:

«Grande alvoroço, pego nos sapatos e salto janela fora para o jardim. Tinha-me esquecido das meias! Mas o Mick também não era gajo para se pôr à procura de meias. E assim ficámos com uma piada para sempre – ainda hoje, a Marianne me diz: «Ainda não consegui encontrar as tuas meias!»

Momento adequado para ir buscar um velho vinil da Marianne, em que a primeira canção do lado 2 é «Ballad of Lucy Jordan, o sol da manhã a tocar, no seu quarto branco, na cidade suburbana branca, levemente os olhos de Lucy Jordan, uma canção que, não por acaso, acompanha as loucuras de Susan Sarandon e Geena Davis em «Thelma & Louise», filme de Ridley Scott.




Finalize-se voltando a Keith Richards, às suas memórias de Marianne Faithfull:

«Só depois disso chegaram os dois a Tânger, acompanhados da Marianne, que ia ter com o Mick a Marraquexe. O Brian estava tão combalido que a Anita e a Marianne, qual competentes enfermeiras, tiveram a brilhante ideia de lhe dar ácido no avião, para ver se ele arrebitava. Elas próprias acabavam de passar uma noite em branco e a ácido. Quando finalmente chegaram a Tânger, um incidente junto à loja do Ahmed instalou o pânico. O sari da Marianne (única peça de roupa que trazia vestida) ficou preso algures e desenrolou-se, deixando-a subitamente nua no casbá.»

Rápidas melhoras, pequena, tu que, um dia, disseste que os vícios tornam as canções mais reais.

1.

A Fnac Portugal, um dos maiores retalhistas na área da cultura, entretenimento e tecnologia, solicitou um processo de lay-off por um mês, renovável por igual período, com efeitos retroactivos a partir do passado dia 1 de Abril, que abrange cerca de 1650 (91%) dos 1800 trabalhadores ao seu serviço.

É um fartar vilanagem.

Só os cegos e os incondicionais daquela trampa de loja se podem espantar.

A Fnac, em algum dia, foi uma livraria, uma loja de venda de discos?

Não terá sido antes um olhar ingénuo e distraído sobre a novidade que nos levou a pensar que…?

Enquanto foi novidade, a Fnac agradou pela diversidade, alguma competência. Depois começou lentamente a derrapar até chegar à javardice que hoje é.

Quando apareceu em Portugal, conseguiu arrasar literalmente com toda a concorrência nacional.

Qual árvore de borracha, secou tudo em volta.


Lembram-se das grandes, médias e pequenas livrarias, das pequenas discotecas de Lisboa, das lojas Valentim de Carvalho, Loja da Música, Discoteca Roma e outras? Até a Virgin!

Deram cabo de tudo e hoje a Fnac mais não é que uma loja de venda de equipamentos informáticos, relógios, outras tretas e onde reina a ignorância, a incompetência, a má educação.

Sindicatos contestam e afirmam que a  Fnac não está em crise.

2.

Em Portugal já recorreram ao lay-off cerca de 32 mil empresas.

«A situação de emergência em que vivemos apela à partilha de sacrifícios e à solidariedade. No entanto, nas últimas semanas, têm-se multiplicado atropelos gritantes à lei laboral. As denúncias feitas incluem o recurso à chantagem sobre os assalariados, levando-os a renunciarem “livremente” ao exercício de direitos fundamentais.»

- de uma carta ao governo assinada por diversas personalidades.

3.

Com quase todo o comércio fechado, a possibilidades da máquina de lavar, a torradeira, a televisão, o micro-ondas   avariarem, uma pequena tremideira instala-se e acabamos por lembrar aquela frase do Woody Allen:

«Não só Deus não existe como é difícil encontrar um canalizador a um domingo.»

sábado, 6 de abril de 2019

AINDA NÃO CONSEGUI ENCONTRAR AS TUAS MEIAS


Passei longos dias e noites a gravar cassettes, mais tarde Cds, com as músicas e as canções preferidas.

As torradas matinais, o chá, para além do sorriso da Aida, têm músicas e às vezes um livro que não largo enquanto não acabo a leitura ou releitura, sim, agora estou mais no tempo das revisões das leituras feitas.

Hoje, uma das canções seleccionadas no CD, tinha  «Boulevard of Broken Dreams» na interpretação da Marianne Faithfull, uma pequena muito do meu tempo: ela é de Dezembro de 46 e eu sou, mais ou menos, de um ano antes.

A interpretação da Marianne é assim como só ela sabe cantar mas, não sei bem explicar o porquê, prefiro a de Tony Bennett, a solo, ou em dueto com Sting.

Mas com Marianne à mão, nunca resisto a contar aquela história que vem na Life do Keith Richards.

Ele conta que as mulheres de Mike Jagger, quando sabiam que ele andava a petiscar por fora, tinham tendência para procurar o seu ombro para curtir mágoas.

Numa dessas noites de encostar a cabecinha no ombro, Keith e Marianne ouvem o carro de Jagger a chegar.

«Grande alvoroço, pego nos sapatos e salto janela fora para o jardim. Tinha-me esquecido das meias! Mas o Mick também não era gajo para se pôr à procura de meias. E assim ficámos com uma piada para sempre – ainda hoje, a Marianne me diz: «Ainda não consegui encontrar as tuas meias!»