Há dias, para
o Mundial de Futebol, a Argentina jogou coma Inglaterra e, epicamente, ganhou.
AntónioRodrigues, no Público de ontem, lembra uma canção dramática de Fito
Paez. Aproveitamos tudo isso, e essa será a nossa música pela manhã de hoje.
«A
canção estende-se por 11 minutos e 28 segundos de uma ambiciosa tentativa de
traçar um retrato das sombras traumáticas com que se fazia a Argentina depois
de uma década de neocapitalismo selvagem que se tinha seguido a décadas de
violência, com ditaduras e guerrilha e milhares de desaparecidos muito
presentes no quotidiano.
La Casa Desaparecida, incluído por Fito Paez no seu
álbum Abre,
de 1999, é, como o próprio afirmou, uma “canção incómoda”. Levou-lhe 37 anos a
escrever, porque tinha 37 anos quando a escreveu, mas tardou-lhe apenas uma
hora a compor, porque “a tinha guardada em algum canto, em alguma gaveta”.
É um rio caudaloso de palavras que começa, precisamente, no desastre das
Malvinas, com um veterano carregado de medalhas que perdeu as pernas na guerra
de 1982 e que ainda hoje, tergiversado pelo alcoolismo (o “malvino”,
num tão acertado trocadilho que se perde na tradução para o português mau
vinho) deixa o refrão e o mote: “Argentinos, argentinos/ que destino, meu
amigo, argentinos,/ ninguém sabe responder.”
Em 2014, Paez voltaria a falar das Malvinas noutro tema, La canción del soldado y Rosita Pazos,
para a qual gravou um vídeo vestido de militar, sozinho combatendo os seus
demónios num local inóspito. Rosita está apaixonada por ele e quer “mudar o seu
mundo”, mas “o que o seu amor não conhecia/ é que a guerra nos assassina/ não
sinto amor, não sinto nada”.
Como escreveu no Instagram o treinador e veterano da guerra Omar De Felippe,
junto à foto dos jogadores argentinos no relvado com a faixa sobre as Malvinas,
“o desporto nunca muda a história, mas às vezes ajuda a curar emoções que
continuam muito vivas”. Como as canções: há vídeos nas redes sociais que
assinalam a vitória da Argentina com a banda sonora de Otoño del 82 dos Airbag, que também fala das
Malvinas: “Ninguém me irá devolver a minha recordação perdida.”»
Legenda: Em plena euforia da seleção da Argentina, surgiu uma tarja com uma referência à ferida aberta entre os dois países, a guerra das Malvinas (ou Falklands, em inglês), que opôs as duas nações em 1982, e que terminou com o triunfo britânico. Ainda se desconhece o castigo que a FIFA irá aplicar aos argentinos.

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