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sábado, 18 de julho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Há dias, para o Mundial de Futebol, a Argentina jogou coma Inglaterra e, epicamente, ganhou.

AntónioRodrigues, no Público de ontem, lembra uma canção dramática de Fito Paez. Aproveitamos tudo isso, e essa será a nossa música pela manhã de hoje.

«A canção estende-se por 11 minutos e 28 segundos de uma ambiciosa tentativa de traçar um retrato das sombras traumáticas com que se fazia a Argentina depois de uma década de neocapitalismo selvagem que se tinha seguido a décadas de violência, com ditaduras e guerrilha e milhares de desaparecidos muito presentes no quotidiano.

La Casa Desaparecida, incluído por Fito Paez no seu álbum Abre, de 1999, é, como o próprio afirmou, uma “canção incómoda”. Levou-lhe 37 anos a escrever, porque tinha 37 anos quando a escreveu, mas tardou-lhe apenas uma hora a compor, porque “a tinha guardada em algum canto, em alguma gaveta”.

É um rio caudaloso de palavras que começa, precisamente, no desastre das Malvinas, com um veterano carregado de medalhas que perdeu as pernas na guerra de 1982 e que ainda hoje, tergiversado pelo alcoolismo (o “
malvino”, num tão acertado trocadilho que se perde na tradução para o português mau vinho) deixa o refrão e o mote: “Argentinos, argentinos/ que destino, meu amigo, argentinos,/ ninguém sabe responder.”

Em 2014, Paez voltaria a falar das Malvinas noutro tema,
La canción del soldado y Rosita Pazos
, para a qual gravou um vídeo vestido de militar, sozinho combatendo os seus demónios num local inóspito. Rosita está apaixonada por ele e quer “mudar o seu mundo”, mas “o que o seu amor não conhecia/ é que a guerra nos assassina/ não sinto amor, não sinto nada”.

Como escreveu no Instagram o treinador e veterano da guerra Omar De Felippe, junto à foto dos jogadores argentinos no relvado com a faixa sobre as Malvinas, “o desporto nunca muda a história, mas às vezes ajuda a curar emoções que continuam muito vivas”. Como as canções: há vídeos nas redes sociais que assinalam a vitória da Argentina com a banda sonora de Otoño del 82  dos Airbag, que também fala das Malvinas: “Ninguém me irá devolver a minha recordação perdida.”»

Legenda: Em plena euforia da seleção da Argentina, surgiu uma tarja com uma referência à ferida aberta entre os dois países, a guerra das Malvinas (ou Falklands, em inglês), que opôs as duas nações em 1982, e que terminou com o triunfo britânico. Ainda se desconhece o castigo que a FIFA irá aplicar aos argentinos.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

BOMBARDEAMENTO DE POEMAS


O Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile, só foi bombardeado duas vezes na sua existência, a primeira, de má memória, quando os aviões da Força Aérea chilena atacaram o palácio governamental para derrubar o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, a 11 de Setembro de 1973. A segunda, de uma forma bem mais bela e criativa, com milhares de poemas soltados de um helicóptero. Foi em 2001, na primeira vez em que o colectivo Casagrande realizou a performance a que chamou, simplesmente, Bombardeamento de Poemas. Desde então, passou por Dubrovnik, Guernica, Varsóvia, Berlim, Londres, Madrid e Roterdão

Ler, o superpoder subversivo que continua a ameaçar ditadores e autocratas
Este sábado, o grupo chileno (Julio Carrasco, Cristóbal Bianchi e Joaquín Prieto) volta a fazê-lo, desta vez em Barcelona, soltando milhares de poemas sobre a Plaça Nova, para assinalar a iniciativa do governo catalão para assinalar o 50.º aniversário da recuperação da democracia depois da ditadura de Franco. A capital catalã foi uma das mais bombardeadas durante a Guerra Civil espanhola entre 1937 e 1939: 1903 impactos e mais de um milhão de quilos de bombas mataram mais de 2700 pessoas. E o bairro da Catedral, onde está a Plaça Nova, foi um dos mais fustigados pela aviação de Mussolini, vinda a pedido do general Franco e das suas forças subversivas.

Ler, o superpoder subversivo que continua a ameaçar ditadores e autocratas
“A nossa acção inverte o significado do bombardeio, substituindo as bombas por poemas”, explica Julio Carrasco, citado no site Espanha em Liberdade. “Este deslocamento não procura apagar o trauma histórico, mas tornar visível a memória inscrita no espaço urbano e reactivar a relação emocional das comunidades com o seu passado.”
Ler, o superpoder subversivo que continua a ameaçar ditadores e autocratas
Os cem mil poemas, que vão descer dos céus impressos em marcadores de página em espanhol e catalão, foram escritos por 50 poetas catalães e outros 50 chilenos (Valeria Marchant entre eles), com menos de 50 anos, e falam de liberdade através da memória, do corpo, da resistência, do exílio e do silêncio.»


António Rodrigues, Público, 19 de Junho