sexta-feira, 31 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Já nem sabemos se as lágrimas serão gotas do mar que nos envolve, se é o mar a água das nossas próprias lágrimas.

Mário Dionísios, dos Poemas do Cão Danado em Novo Cancioneiro

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

LÊ, SÃO ESTES OS NOMES DAS COISAS


Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,
uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

Legenda: pintura de Van Gogh

OS IDOS DE JULHO DE JULHO DE 1975


31 de Julho de 1975

OTELO Saraiva de Carvalho regressou, ontem, da sua viagem a Cuba.

No Aeroporto, uma multidão recebeu-o entusiasticamente e houve conferência de imprensa, com dezenas e dezenas de jornalistas portugueses e estrangeiros.

Eu e a delegação portuguesa vimos profundamente impressionados com tudo o que nos foi dado apreciar. Depois daquilo que vi concluí que vale realmente a pena construir uma sociedade socialista.

Um jornalista pergunta-lhe sobre a eventual participação do V Governo Provisório.

Não posso comentar absolutamente nada sobre isso, porque não tenho qualquer confirmação. Só depois de contactar os responsáveis é que me posso pronunciar.

Sobre o recrudescimento das campanhas de violência, declarou:

Gostaria de não fazer ameaças, mas afirmarei que, nessa altura o M.F.A. estaria disposto a entrar também num caminho muito duro de repressão, que temos evitado até agora. Aqui há tempo quando muito candidamente e dei o meu voto negativo e desejando que oxalá nunca tivéssemos de meter no Campo Pequeno os contra-revolucionários, recebi inúmeras cartas de censura. Mas estou convencido de que, a curto prazo, termos de o fazer… Infelizmente, a coisa parece que se está a encaminhar nesse sentido. Parece que se vai tornando impossível fazer uma revolução
Socialista na totalidade pela via pacífica revolução.


Tal como disse em Cuba: o P.S., actualmente, é  a grande esperança da direita em Portugal. Neste momento o P. S. consegue absorver toda a direita, toda a reacção, neste País, sendo o inimigo mais poderoso da esquerda… Terei de falar com o dr. Mário Soares, pois não se concebem as posições que ele tem assumido, ele, um homem que sempre foi um grande lutador antifascista. Estranho muito.

OS JORNAIS continuam a dar amplas notícias da enorme onda de violência, de anti-comunismo desencadeada nos últimos tempos.
As Forças Armadas têm sido chamadas para por cobro aos graves incidentes,
Segundo o vespertino A Capital, um grupo armado fez ir pelo ar a modesta casa onde habita, em Évora, Dinis Miranda, membro do Comité Central do Partido Comunista Português. A explosão provocou ferimentos em três familiares do deputado comunista.

FOI DEMITIDO da função pública o catedrático Soares Martinez, admirador de Salazar de quem foi ministro da Saúde e solicito anfitrião aos «gorilas» enviados, durante a ditadura, por Veiga Simão para a brutal repressão que se abateu sobre os estudantes.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

Legenda: fotografia tirada de Os Dias Loucos do PREC

APENAS ROCK AND ROLL


Elvis à escrita.
Mais uma visita ao Unseen Archives de Marie Clayton.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Deixa de espreitar para o outro lado do que és, Maynard, de te esconderes nas esquinas de ti próprio, nas esquinas das ruas onde te perdes. Esse jogo não dá nada. É por demais cansativo e inútil. Há aquela história, Maynard, que quis fugir à própria sombra, e parece que já foi há muito tempo, e dizem que ele ainda a correr pelos tempos fora, e o raio da sombra nunca mais o larga.

Dennis McShade em Requiem por D. Quixote.

Legenda: imagem de Pol Úbeda Hervâs

EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA


Em Catabalanza, Quilolo e Volta, Fernando Assis Pacheco deixa, ao leitor, esta advertência:

Catabalanza, Quilolo e Volta é basicamente a versão original de um título que publiquei em Maio de 1972, Cau Kien: um Resumo, tirado a 500 exemplares para ofertas.
A toponímia vietnamita, e outros disfarces de circunstância, não têm já razão de ser. Reposto o texto tal como era, junto agora alguns poemas, todos da mesma época e quase todos considerados para o Câu Kien, mas então eliminados.
Catabalanza vai dedicado a João Cabral de Andrade, um amigo morto em Angola.

Nota do Editor: o poema escolhido nas duas capas é o mesmo: Não Dormias, Não Dormes.
Em Catalabanza está o original, em Câu Kiên aparece o disfarce vietnamita.

OLHAR AS CAPAS


Catabalanza Quilolo e Volta

Fernando Assis Pacheco
Capa: A.J. Cortez Pinto
Centelha Editora, Coimbra, Maio de 1976


NÃO DORMIAS, NÃO DORMES

(1)
    Olha, Nambuangongo! As bombas explodem na mesa de cabeceira.

(2)
    Mais de um vi eu que se lhe prendiam as fezes e saía cá para fora falando alto contra o regime (leia-se alimentar)

(3)
   Num sábado fui para um morro à espera da coluna, se soubesses o que a gente imagina, imagina tudo, imagina que uma cabra duma bala ou um estilhaço ou uma bailarina e depois a gente tristemente põe-se a fumar, mija de manso no camuflado, grita coisas que são versos para 1980, ah.

(4)
   Eu mostrar-te-ia o Quengue, o Camecungo aprendi depressa uma guerra e digo: algum dia hás-de ouvir-me, digo que mão dormias, não dormes, quem dorme é o Luiz Pacheco mas a esse desculpo e empresto vintes.

(5)
   Olha, a picada do Huong. Julgas que tirei, se tiram fotografias? Aquilo a gente, vai, volta, e sossegadinhos. Tem capim desta altura!

(6)
   As bombas – e tu se calhar crês que não – explodiam na mesa de cabeceira. Literalmente. Explodiam às três e às quatro. Morri uma sexta-feira, uma quinta, no dia seguinte davam-se massas ao faxina para recolher tudo para o balde – ossos, tripas tudo.

(7)
   Por favor olha: onde estive, onde o capim passava do ombro, a morte passava e a melancolia.

OLHAR AS CAPAS


Câu Kiên: Um Resumo

Fernando Assis Pacheco

Capa: A.J. Cortez Pinto
Edição do Autor, Lisboa, Maio de 1972

NÃO DORMIAS, NÃO DORMES

(1)
    Olha, Câu Kien! As bombas explodem na mesa de cabeceira.

(2)
    Mais de um vi eu que se lhe prendiam as fezes e saía cá para fora falando alto contra o regime (leia-se alimentar)

(3)
   Num sábado fui para um morro à espera da coluna, se soubesses o que a gente imagina, imagina tudo, imagina que uma cabra duma bala ou um estilhaço ou uma bailarina e depois a gente tristemente põe-se a fumar, mija de manso no camuflado, grita coisas que são versos para 1980, ah.

(4)
   Eu mostrar-te-ia Bac Ai, Than Van Phuc, Song My, aprendi depressa uma guerra e digo: algum dia hás-de ouvir-me, digo que mão dormias, não dormes, quem dorme é o Luiz Pacheco mas a esse desculpo e empresto vintes.

(5)
   Olha, a picada do Hinda. Julgas que tirei, se tiram fotografias? Aquilo a gente, vai, volta, e sossegadinhos. Tem capim desta altura!

(6)
   As bombas – e tu se calhar crês que não – explodiam na mesa de cabeceira. Literalmente. Explodiam às três e às quatro. Morri uma sexta-feira, uma quinta, no dia seguinte davam-se massas ao faxina para recolher tudo para o balde – ossos, tripas tudo.

(7)
   Por favor olha: onde estive, onde o capim passava do ombro, a morte passava e a melancolia.

POEMA


Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.

Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.

Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.

Nuno Júdice

quarta-feira, 29 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Se a palavra que vais dizer não é mais bela que o silêncio, não a digas.


Legenda: ilustração de Bansksy

DA MINHA GALERIA


Um Americano em Paris de Vincente Minnelli.

NÃO SIRVO PARA GRANDE COISA


Sou deveras incompetente, inepto, a lista das coisas que todo o mundo sabe fazer e eu não sei é longa. Aqui inscrevo apenas alguns exemplos: não sei dançar, assoviar, nadar, multiplicar, dividir por mais de dois números, empregar os verbos, pronunciar correctamente, dirigir automóvel (mas já soube andar de bicicleta com razoável equilíbrio). Não sirvo para grande coisa.

Jorge Amado em Navegaçãode Cabotagem

OLHAR AS CAPAS


A Nau de Quixibá

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: Luiz  Duran
Moraes Editores, Lisboa, Outubro de 1977

«Podemos defender o Império sem sermos estúpidos».
Meu pai tornou a pegar no folheto que começara a manusear quando se sentou:
«Parece que é um pouco difícil, a avaliar pelo que se escreve em toda esta papelada… Suponhamos, porém, que Paulino é um estúpido. Está como quer: já pertence aos eleitos. Ou não diz a sabedoria das nações que quanto mais burro é o súbdito melhor compreende quem o governa?»

A LISBOA DE GEDEÃO


As colunas de pedra estão rodeadas de água porque a hora é de maré-cheia mas noutras horas pode-se chegar a elas, e até ultrapassá-las, descendo as escadas do cais que vão direitas ao rio. A essa pequena zona de degraus de pedra, chama-se o CAIS DAS COLUNAS. As colunas foram aí colocadas em 1929, em lugar de outras que tinham caído havia dezenas de anos.

Fotografia e legenda de António Gedeão Memória de Lisboa

terça-feira, 28 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Não há nada que exponha da forma mais devastadora a nossa incapacidade de mudar o mundo do que o desejo ou o sonho de uma criança.

Afonso Cruz

Legenda: fotografia de Arthur Rothstein

IDEIAS NO FUNDO DA CABEÇA


Uma das primeiras colaborações tive-a com o Tom Waits, em meados dos anos 80. Só mais tarde descobri que ele nunca antes tinha escrito nada a meias com ninguém, a não ser com a Kathleen, a sua mulher. O tom é um espécime único e maravilhosos, um escritor de canções particularmente original. Fazer alguma coisa com ele era uma ideia que sempre tinha estado no fundo da minha cabeça.

Keith Richards em Life

Nota de Tom Waits: Mick Jagger entrou em três canções de Rain Dogs: em Union Square, em Blind Love, onde cantámos juntos, e em Big Black Mariah, onde tocou uma guitarra ritmo impecável. Para mim, só isso bastou para pôr o disco lá em cima. Quero lá saber de quanto vendeu. Na parte que me tocava, já estava amais que vendido.

O DIREITO DE (NÃO) ACREDITAR



Não acredito no que reza o Papa Francisco.


Já por aqui escrevi que aceito, compreendo e respeito a fé de cada um.

Gostaria que aceitassem, compreendessem e respeitassem a minha não fé.

Não acontece.

Pelo menos na quantidade que eu julgaria sensata.

João Bénard da Costa:

Foi em Maio de 1967 que deixei de me reconhecer na Igreja, fora da qual tinha achado que não havia salvação. Podia ser muita coisa, então como hoje. Mas já não me podia chamar mais católico apostólico romano. Tudo começou nesse ano em que me sentei de fora, à espera, no limiar, mas já não lá dentro.

Albert Camus:

Quem ousará condenar-me neste mundo.
Odeio este mundo em que estamos reduzidos a Deus.
Creio cada vez mais que não devemos estabelecer um juízo sobre Deus a partir deste mundo, que não é senão um esboço que lhe saiu mal.

Contam-se por milhões os exemplos que aqui poderia colocar, mas cite-se este:

Corria o dia 12 de Novembro de 1991.

Onde estava Deus, quando no cemitério de Santa Cruz, os indonésios massacraram centenas de timorenses?

OS IDOS DE JULHO DE 1975


28 de Julho de 1975

Desde o dia 21, que um entusiasmado Otelo Saraiva de Carvalho encontra-se de visita a Cuba.
Vou a Cuba para tomar contacto com a revolução cubana a caminho do socialismo. Vou com os olhos e os ouvidos abertos para ver as experiências já adquiridas para, depois poder incentivar a nossa revolução.
Terá sido, no decorrer desta visita que Fidel de Castro colocou a Otelo a possibilidade de Havana se envolver no conflito angolano, correspondendo a um apelo do MPLA.
Fidel também queria saber qual seria a recção do governo português.
Otelo ficou de dizer qualquer coisa mas ter-se-á «esquecido».
Em 1977, numa passagem de Costa Gomes por Havana, Fidel de Castro disse-lhe:
Otelo desiludiu-me muito.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.


Legenda: Otelo em Cuba.fotografia tirada de O Segredo do 25 de Novembro de José Freire Antunes, Publicações Europa- América, Lisboa s/d.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Salazar como financeiro reforçou o escudo à custa da miséria de todo um povo; como estadista, meteu o país numa guerra sem futuro e sem glória; e a sua «neutralidade» na guerra mundial resultou, isso sim, do interesse em jogo das potências beligerantes.

Miguel Urbano Rodrigues

Legenda. Salazar e Christine Garbier. Fotografia do pide Rosa Casaco

DO BAÚ DOS POSTAIS


À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro ao fundo das Escadinhas das Escolas Gerais, Lisboa.

VOU ALI E JÁ VENHO


Se o Cavaco é o príncipe dos economistas, vou ali e já venho; se o Cavaco fosse previdente não tinha engolido um garfo; se o Cavaco se visse ao espelho, não ia à televisão; o Cavaco é uma pérola sem cultura, um maestro sem partitura, uma estátua sem estatura, um ditador sem ditadura.

João Martins Pereira em O Dito E O Feito

HÁ 45 ANOS!


Após a tal queda da cadeira naquele Agosto de 1968, o ditador Salazar ficou agarrado a uma cama em estado de mais para lá do que para cá.

Durante todo esse tempo os ultras montaram um enredo de puro e duro teatro que lhe permitiu (?) pensar (?) que continuava a governar o país.

Durou até à hora da sua morte.

O Diário de Notícias na sua primeira página:

Esta manhã, às 9 horas e 15 minutos, deixou de viver um dos mais ínclitos portugueses da História de Portugal.

Marcelo Caetano decretou três dias de luto nacional.

Salazar foi sepultado, em campa rasa, no cemitério do Vimieiro.

Amiúde, nos dias de hoje ainda vamos ouvindo dizer:

O que está a faltar é um outro Salazar!

OLHAR AS CAPAS


O Hóspede de Job

José Cardoso Pires
Editora Arcádia, Lisboa, Maio de 1965

Espalmada em córregos secos, numa terra de barro e areão que encarquilha ao sol; rasgados os campos pela estrada longa de asfalto ou por baforadas ronceiras de comboio – assim, no despontar da charneca, fica Cercal Novo: um clarim, uma igreja abraçada ao quartel, meia dúzia de casas ao correr da estrada, e principalmente um silvo, um delicado traço de fumo a alastrar sobre a planície:
«Uuuuu…»
«Comboio de Évora», dizem os militares nas casernas.
«Comboio de Évora», diz-se na cadeia, na enfermaria e na Casa do Soldado. «Comboio de Évora, comboio dos correcços e de quem vai de licença.»
E ao balcão das vendas alguém canta:

Lá vai o comboio, lá vai
Lá vai ele a assobiar…

domingo, 26 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


E então a gente sabe que a alegria e a beleza são coisas dolorosas.

Herberto Helder em Retrato em Movimento

OLHARES




Esplanadas no Cais do Sodré,
Deslumbrantes estes dias de sol junto ao Tejo.

À MINHA MÃE


Tenho saudades do pão da minha mãe,
Do café da minha mãe,
Do carinho da minha mãe...
Estou a crescer,
De dia para dia,
E amo a vida, porque
Se morresse,
Teria vergonha das lágrimas da minha mãe!

Se um dia voltar, faz de mim
Uma sombrinha para as tuas pálpebras.
Cobre os meus ossos com a erva
Baptizada sob os teus pés inocentes.
Ata-me
Com uma mecha dos teus cabelos,
Um fio caído da orla do teu vestido...
E serei, talvez, um deus,
Talvez um deus,
Se tocar o teu coração!

Se voltar, esconde-me,
Lenha, na tua lareira.
E pendura-me,
Corda da roupa, no terraço da tua casa.
Falta-me o ânimo
Sem a tua oração diária.
Envelheci. Faz renascer as estrelas da infância
E partilharei com os filhos das aves,
O caminho do regresso...
Ao ninho onde me esperas!

Mahmud Darwich

PORQUE HOJE É DOMINGO


Mais um domingo.
Continuo a meter moedas na Juke Box da Esplanada do Marques na Trafaria.
A escolha de hoje recaíu em A Lenda da Conchinha da Celly Campelo.
Bom domingo!

Nas dobrinhas de uma concha
Nosso amor eu escondia
E a conchinha cor de rosa
Meu segredinho sabia
Nela eu guardava os beijos e
O calor do nosso amor
A conchinha caiu n'água
Mergulhei para buscar
Mas o amor que estava dentro
Escapuliu, ficou no mar
E dois peixinhos que passavam
Então levaram nosso amor
E agora o mar
Tem mais peixinhos a nadar.

sábado, 25 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


O meu olhar descia como um íman
Ao centro mais ardente do teu corpo

Alberto de Lacerda em Exílio

Legenda: pintura de Diego Rivera

PESSOAL E TRANSMISSÍVEL


Um recorte de jornal sobre Woody Guthrie.
Não consegui encontrar a data e o jornal em que foi publicado.
Muito bonito aquele... porque é a principal razão por que a escrevi.

                                     


OLHARES


Flores no Cais do Sodré.
Já foram mais as vendedeiras que, há largos, anos, têm ali negócio montado.
Com a crise as pessoas deixaram de comprar flores.
Ou compram com menos frequência.

NINGUÉM ESCREVE A NINGUÉM


Já ninguém escreve a ninguém.
Disso também se queixava o coronel no livro do Gabriel Garcia Marquez.
Abre-se ao caixa do correio e nem uma carta, um simples postal dos amigos.
Os amigos preferem mandar os abraços pelas modernices frias da tecnologia.
Já não se escrevem cartas como antigamente.
Um mundo de silêncio em que nos convertemos ou onde nos encerrámos, esquecendo  que as palavras que se escrevem substituem a depressão.
Graham Greene perguntava-se como é que as pessoas que não escrevem escapam à melancolia.
Sim o enigma de escrever para se amnter vivo.

QUOTIDIANOS


- Como desejarias morrer?

- Sem dar por isso!

Legenda: fotografia de Raymond Bench

sexta-feira, 24 de julho de 2015

OS IDOS DE JULHO DE 1975


24 de Julho de 1975

AGRAVA-SE a situação político-militar em Angola.
A ponte aérea, entre Luanda e Lisboa tem vindo a ser reforçada chegam ao aeroporto de Lisboa à volta de mil pessoas por dia.
Passarão a ser conhecidos como retornados.
Ao todo, terão regressado mais de 400 mil portugueses.

TANTO o Partido Socialista como o Parido Popular Democrático, proíbem que os seus militantes venham a fazer parte de um novo governo chefiado por Vasco Gonçalves.

Transcreve-se o comunicado do Partido Socialista, bem como um artigo de opinião de Armando Pereira da Silva, publicado no Diário de Lisboa:



VERGÍLIO FERREIRA no seu Conta-Corrente:
A situação política continua grave. Por todo o Norte do País vai despertando o ódio ao comunismo: assaltos, confrontações. A grande questão é agora a substituição do Vasco Gonçalves, que finalmente se revelou um camarada batido. O partido Socialista exige a sua rendição, os comunistas e aliados seguram-no desesperadamente. Há um erro de bom tamanho nos que nos querem infligir o comunismo e é que esse regime só é viável em povos primarizados (culturalmente, civilizacionalmente, economicamente). Nós somos europeus, que é que querem? Temos hábitos evoluídos, uma cultura que está para além da instrução, mesmo uma economia que não tem só que ver com a cortiça, um tipo de relações que vai um pouco além da do senhor/escravo, hábitos de inteligência, de vida que teriam de regressar, voltar ao princípio, à sociedade elementar generalizada do caldo de unto e do abc.

O SEMANÁRIO O JORNAL dedica largo espaço das suas páginas ao clima de anticomunismo que se tem feito sentir no centro e norte do País.
Afonso Praça, que fez a cobertura do assalto ao Centro de Trabalho do Partido Comunista Português em Alcobaça, tem este precioso apontamento que fala por si:.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Conta-Corrente de Vergílio Ferreira

POSTAIS SEM SELO


A vela sobre as vagas é o que importa e o mar não tem fronteiras.

Álvaro Feijó, Poemas

OS PÁSSAROS




Como não lembrar os estranhos acontecimentos em Bodega Bay , contados por Alfred Hitchcock  em  Os Pássaros?

Podemos saber de muita coisa mas, por vezes, algo nos escapa.

Ninguém sabe por que inofensivos pássaros atacam os habitantes de uma pacata vila.

Tão pouco se fica a saber se voltarão a atacar.


Fez bem em não fornecer o motivo da acção agressiva das aves. O filme é nitidamente uma especulação, uma fantasia.

Será mesmo?

Talvez seja por isso que o filme de Alfred Hitchcock não termina com o clássico The End.

Algures na Cornualha, em Aberdeen, em qualquer lugar, algo pode acontecer com pássaros.


OLHAR AS CAPAS


Dama de Copas

Eduardo Guerra Carneiro
Em «hors-texte» um desenho original de Carlos Ferreira
Edições & etc. Lisboa, Setembro de 1981

Era um lugar de encontros clandestinos onde se trocavam pequenos jornais e palavras a meia-voz; onde se inventava a esperança desses dias. Mas, ao longe, afinal tão perto!, barcos partiam para a morte em terras d’África. Era a guerra.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Acreditar no silêncio angustiante das aldeias.

OLHARES


Tuk-Tuks, no Chiado, à espera de clientes.

SARAMAGUEANDO


O prazer inigualável da releitura dos livros de Saramago.

O gosto das releituras reside, essencialmente no encontrar de ideias e palavras que nos escaparam numa primeira leitura.


Um livro incómodo, por vezes, de uma violência que passa limites, mas que é tão real nos dias reais que vão correndo.

Cegos são os que não querem ver ou aqueles que fecham os olhos ao girar do mundo.

A epígrafe:

Se podes olhar, vê. Se pode ver, repara.
(Pág. 9)

Devagar, ainda mais devagar, arrastando o corpo, voltou para trás, para o lugar aonde pertencia, passou ao lado de cegos que pareciam sonâmbulos, sonâmbula ela também para eles, nem tinha que fingir que estava cega. Os cegos enamorados já não estavam de mãos dadas, dormiam deitados ao aldo, encolhidos para conservarem o calor, ela na concha formada pelo corpo dele, afinal, reparando melhor, tinham-se dado as mãos, o braço dele por cima do corpo dela, os dedos entrelaçados. Lá dentro, na camarata, a cega que não conseguia dormir continuava sentada na cama, à espera de que a fadiga do corpo fosse tal que acabasse por render a resistência obstinada da amente. Todos os outros pareciam dormir, alguns com a cabeça tapada, como se ainda estivessem à procura de uma escuridão impossível.
(Pág. 158)

Haverá um governo, disse o primeiro cego. Não creio, mas no caso de o haver, será um governo de cegos a quererem governar cegos, isto é, o nada a pretender organizar o nada, Então não há futuro, disse o velho da venda preta, Não sei se haverá futuro, do que agora se trata é de saber como poderemos viver neste presente, Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considera ainda tão humano como antes cria ser.
(Pág. 244)

O mundo está cheio de cegos vivos, Eu acho que vamos morrer todos, é uma questão de temo, Morrer sempre foi uma questão de tempo, disse o médico, Mas morrer só porque se está cego deve haver pior maneira de morrer, Morremos de doenças, de acidentes, de acasos, E agora morreremos também porque estamos cegos.
(Pág. 282)

Os homens são todos iguais, pensam que basta ter nascido de uma barriga de mulher para saber tudo de mulheres.
(Pág. 290)

Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
(Pág. 310)

Legenda: imagem do filme Blindness

DÍVIDA


A 20 de Março de 1978, Vergílio Ferreira alarmava-se com a nossa dívida.
No 2º volume da sua Conta-Corrente escreve:
Ouvi ontem na TV que a nossa dívida era de 300 milhões de contos. Talvez tivesse ouvido mal. De qualquer modo muitos milhões.
Se ele ainda andasse por cá, e estivesse frente à TV, que diria sobre a nossa dívida?
Continuaria a ouvir mal?

quarta-feira, 22 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


O que eu gostava era de poder falar na tua boca para que as tuas palavras fossem minhas e pudesse permanecer silencioso a teu lado.

Pedro Paixão

Legenda: pintura de Di Cavalcanti

MARCADORES DE LIVROS


APENAS ROCK AND ROLL


Os primeiros olhares.
Maravilhoso Elvis.
Mais uma viagem ao livro de Marie Clayton.

DITOS & REDITOS


Casa de pais, escola de filhos.

Viver é pagar um preço.

A experiência é uma invenção.

Deve-se combater os lobos e não uivar com eles.

Só vale a pena lutar pelas causas perdidas.

A cozinha é uma coisa fácil que é muito difícil.

Fósforo apagado não volta a acender-se.

A tendência inexplicável para adiar o que quer que seja.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Disse o Sr. Joseph L. Mankiewickz que a única diferença entre um filme e a vida real é que um filme tem que fazer sentido.

Aprender a olhar.

Gostar de ver, mesmo que não se entenda o que se olha.

Guarda-se e descobre-se, num qualquer dia, lá muito para a frente, o porquê.

O amargo Sr. Jean-Luc Godard tinha (ainda tem?) a ideia de que o cinema é a mais bela fraude do mundo.

O privilégio de ter um mundo de cinemas em redor da rua onde se nasce, na rua em que a adolescência aconteceu.

Os cinemas chamavam-se Royal, Cine-Oriente, Imperial, Max, Lys, Rex.

Já não existem.

O Royal é um supermercado, o Cine-Oriente deu lugar a um edifício onde se situa a estação de Correios da Graça, o Imperial há longos anos que está fechado sem qualquer tipo de destino, o Max é uma igreja, o Lys é um complexo de escritórios abandonados e uma loja do Calçado Guimarães, o Rex é uma loja de chineses, ou muçulmanos, vai alternando.

Passavam duas fitas por sessão. Uma boa e outra para completar o programa.

Muitas vezes eram as duas más, mas o fascínio acontecia.

Quem andou pelos cinemas de bairro, necessariamente, tem de gostar do cinema para sempre e ter uma enorme relutância em ver um filme fora de uma sala escura.

Legenda: a fachada do Imperial nos dias de hoje.