segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Lisboa.
Árvore na Praça do Comércio.

OS JORNAIS, O PEIXE E A VERDADE


Dizia-se antigamente que as notícias e as crónicas de jornais, após serem lidas, só serviam para embrulhar o peixe ou as castanhas assadas. O advérbio "só" acentuava a vacuidade do gesto, a pretensão do autor e o pragmatismo do leitor. Passadas algumas décadas talvez devêssemos trocar o "só" por um "ainda". Sim, era possível reutilizar as notícias, dar-lhes um propósito e um fim digno e utilitário.
Talvez nos embrulhemos a nós, protegendo não as mãos mas as cabeças de tanto ruído, de tantos boatos, de tanta manipulação produzida por fontes incertas ou mal-intencionadas.
Uma pergunta segue a constatação: Para que servem os jornais de hoje? Que fim lhes havemos de dar se, muitas vezes, nem matéria são, capazes de isolar o calor ou de absorver a gordura que não queremos nas mãos? Que poderemos embrulhar nos muitos bits e bytes que nos chegam a todo o momento?
Talvez nos embrulhemos a nós, protegendo não as mãos mas as cabeças de tanto ruído, de tantos boatos, de tanta manipulação produzida por fontes incertas ou mal-intencionadas. Os jornais continuam a embrulhar ideias, factos e, de vez em quando, um pouco de poesia. É pouco? Não, não é nada pouco.

Nuno Camarneiro no Diário de Notícias, on-line

POR SARAMAGO

Por Saramago

Anabela Mota Ribeiro
Posfácio:: Fernando Gómez Aguilera
Capa: Filipe Silva
Fotografias Estelle Valente
Temas e Debates, Lisboa, Novembro de 2018

Se tenho algum motivo de orgulho, e creio ter direito a tê-lo, é poder dizer que a mim não me calam. Ninguém me cala.

A Fundação José Saramago revela que este livro é uma homenagem ao escritor por altura do vigésimo aniversário do Nobel da Literatura.

Inclui entrevistas a José Saramago e a Pilar del Río – entrevistas que dizem respeito aos três últimos livros: As Pequenas Memórias, A Viagem do Elefante e Caim – bem como textos sobre a casa de Lanzarote e uma viagem ao México com Saramago. Ilustrado com cerca de 65 fotografias de Estelle Valente, originais, que percorrem alguns dos caminhos do escritor, tanto em Lanzarote como em Lisboa.


ADEUS ANO VELHO


Mais logo, despedimo-nos de mais um ano velho.

A Sophia de Mello Breyner Andresen não sabia por que as pessoas celebravam a passagem do ano. O ano está sempre a mudar, dizia.

Novo ano.

O que for será, como naquela velha canção da Doris Day.

Ou a Criação do Mundo que é um lindíssimo poema da Maria do Rosário Pedreira:

«Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas – um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.

Abriu-as devagar e deixou cair as trevas como sementes,
para que então servissem unicamente de sombras
e prolongassem a memória das coisas por vir. Foi assim
que inventou a luz e separou um dia do seguinte.

Depois afastou o céu daquilo que viria a ser o mar,
como quem divide um lenço azul em dois e limpa
as lágrimas apenas a metade. No meio, deixou que
crescesse tudo quanto do chão quisesse escapar-se
para traçar a primeira geografia dos caminhos. E assim

descobriu a cor e encheu a sua paleta de animais
que rasgariam os céus, cruzariam os oceanos e
resolveriam as entranhas da terra na estação
das chuvas. Por fim, semeou pequenas clareiras

nas florestas, pedras nas vertentes das cordilheiras,
cristais de neve no contorno dos lagos, estrelas cadentes
na vizinhança do desespero e rios serpenteantes
entre as searas louras, mordidas por um sol que lhe caiu
quase sem querer dos dedos, mas lhes aproveitou o calor

E, apesar da alegria que experimentou, sentiu que o seu
mundo era tão frágil que, se desviasse os olhos, tudo acabaria
por regressar ao pó, às trevas e ao verbo. Só por isso criou alguém
que também o visse e lhe dissesse todos os dias como era belo.»


Maria do Rosário Pedreira em O Canto doVento nos Ciprestes


domingo, 30 de dezembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde, respondeu-lhe Caim.

José Saramago em Caim

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Quisemos ser enganados, foi o que foi.

O pior é que tudo isto se passou com pessoas que tinham hábitos de frequentar livrarias e discotecas.

Só que, como diz a frase histórica, não se pode enganar toda a gente todo o tempo.

Foi quando, um dia, deu com ele a perguntar-se: A FNAC, em algum dia, foi uma livraria, uma loja de venda de discos? Não terá sido antes um olhar ingénuo e distraído sobre a novidade que nos levou a pensar que…?

Enquanto foi novidade, a FNAC agradou pela diversidade, alguma competência.

Depois começou lentamente a derrapar até chegar à javardice que hoje é.

Há 12 anos, quando apareceu em Portugal, conseguiu arrasar literalmente com toda a concorrência nacional. Qual árvore de borracha, secou tudo em volta.

Lembram-se das grandes, médias e pequenas livrarias de Lisboa, das lojas Valentim de Carvalho, Loja da Música, Discoteca Roma e outras? Até a Virgin!

Deram cabo de tudo e hoje a FNAC mais não é que uma loja de venda de equipamentos informáticos, relógios, outras tretas e onde reina a ignorância, a incompetência, a má educação.

Por ele, há muito, mas mesmo muito, que deixou de pôr os pés na FNAC.

Agora conta a história macabra que se passou, na FNAC do Chiado, com um amigo.

O amigo escolheu uns livros, uns DVDs. Dirigiu-se depois à bilheteira para comprar bilhetes para o concerto do James Taylor e, como já fizera em anteriores ocasiões, pagaria tudo no mesmo balcão: bilhetes, livros e DVDs.

Era a hora de almoço e a situação estava um pouco para o complicado e para o lento. O amigo resolveu passar noutra ocasião. E saiu.

Esquecera que debaixo do braço tinha os livros e os DVDs, que não pagara, e os censores dispararam o alerta. Entrara em simples transgressão.

De imediato se lhe dirigiu o segurança, indagou o que tinha para indagar, o amigo explicou a situação e foi de imediato pagar os livros e os DVDs.

Aguardava a sua vez para pagar, quando o segurança voltou a dirigir-se-lhe dizendo que, após o pagamento, teria que passar, para alguns esclarecimentos, pela sala de segurança.

O que se passou na sala de segurança? O que pretendiam?

Puro achincalhamento, o sindroma dos pequeninos poderes que se sentem no direito de chatear quem lhe apetece.

Uma autêntica conversa da treta que aqui tem short version.

Aguardavam-no três capangas e uma capanga. Começaram com um sermão beato que estas coisas não são bonitas, não são decentes. O amigo voltou a explicar o sucedido e, cansado já, saiu-lhe aquele humano desabafo se eles o achavam com cara de andar a gamar DVS e livros.

Aí a capanga, com um sorriso de escárnio, bolsou: “ah se eu lhe contasse o que apanhamos por aqui. Até juízes de direito!”.

Aos poucos a paciência do amigo estava nos limites e chegou a passar-lhe pela cabeça espetar uma cabeçada no céu-da-boca daquela gentalha. Campainhas soaram: pior a emenda que o soneto, estava em digressão, não era tempo para se armar em Kung Fu.

Se a FNAC é má, a empresa de segurança que lhe presta serviço, acompanha o nível. Estão bem uns para os outros.

Findo o achincalhamento - volta a recordar que isto é uma short version - o amigo dirigiu-se de imediato ao “apoio ao cliente” para apresentar reclamação e desistir do cartão FNAC.

Deram-lhe um papel e o amigo disse ao empregado que na folha não constava o tipo de reclamação que queria fazer.

O empregado enfastiado: “Escreva por aí qualquer coisa".

Contou a história e, candidamente, ficou a aguardar um telefonema, uma carta da FNAC, não só para um formal pedido de desculpas, mas algo mais, aquilo que a relação empresas/clientes exige.

Nada! Esta história passou-se no Verão passado.

Que terá acontecido?

O empregado, para defender a empresa de segurança, não fez avançar a reclamação para quem de direito.

A reclamação foi lida por quem de direito que entendeu que a história era a velha cena dos habituais gamadores de mercadorias e não esteve para mais chatices. O facto de se tratar de um bom cliente, centenas de euros por mês, milhares por ano, poderia ser até um cliente de um euro, não foi suficiente para qualquer diligência.

Em suma a FNAC, pura e simplesmente, borrifa-se nos seus clientes.

O ar arrogante de quem se sente, confortável, no topo do negócio e não necessita da ralé para nada.

Possivelmente nunca irão compreender a porcaria de empresa que são.

Talvez aprendessem se ninguém lá pusesse os pés…

Ou então, como diz o russo, no café do bairro, entre a bica e o bagaço: “só à chapada!...”.


Colaboração de Gin-Tonic


Textos tirados daqui.

PEACE IN THE VALLEY




Já várias vezes o tenho dito: não frequento a FNAC.
Motivos vários e inultrapassáveis.
Hoje, por via de uma troca de presente natalício, tive de lá ir.
Agoniado, muito agoniado, mesmo.
Valeu ter encontrado a uma esquina da sala de música clássica ter um escaparate com discos de vinil, mais concretamente discos de Natal.
Valeu o sacrifício…




ILUMINAÇÕES DE NATAL




Lisboa.: Praça do Município.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Ainda Natal.

sábado, 29 de dezembro de 2018

OLHARES


Chiado, hoje, ao cair da tarde, dois jovens tocam «Adeste Fidelis».

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Lisboa.
Rua Nova do Almada.

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro no largo da Igreja da Penha de França.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

ILUMINAÇÕES DE NATAL


Lisboa. 
Rua do Carmo.

POSTAIS DE NATAL


Postal enviado pela Helga e o Dieter.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Entrevistas
1958-1978

Jorge de Sena
Selecção de Jorge Fazenda Lourenço
Capa: João Botelho
Babel, Lisboa, Março de 2013

Escrever, para mim, não é sacrifício: é um prazer. É também um acto moral e social. Eu sempre achei que a criação literária é uma criação comprometida, , ainda que a pessoa não esteja comprometida, digamos no sentido partidário. Mas está comprometida com todo um ideal de justiça, de liberdade, de visão social do mundo. Tudo isso representa um comprometimento sem o qual a literatura acto moral e social. Tudo isso representa um comprometimento sem o qual a literatura para mim não existe.

Da entrevista dada a Baptista-Bastos e publicada no Diário Popular de 30 de Setembro de 1976

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

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- Há quanto tempo tem estes livros, sr. Priam? – perguntou Ellery.
- Há… Há quanto tempo os comprei eu, Delia?
- Foi pouco depois do nosso casamento.
- Para enfeitar uma biblioteca são precisos livros, não é verdade? Chamei um tipo. A quem mandei medir o comprimento total das prateleiras e trazer-me depois os volumes necessários para as encher. «Quero o melhor em tudo», disse eu ao homenzinho. Quando ele voltou com o carregamento de cartapácios, atirei-lho à cara. «O melhor em tudo», foi o que lhe encomendei! Disse-lhe eu. Leve essa pacotilha e mande-a encadernar com tudo quanto haja de melhor no mercado – peles e o resto. Quero pagar, mas ficar bem servido. Senão, de mim não leva um chavo!»
- A sua ordem foi cumprida na perfeição – comentou Ellery. – Todos estes belos livros estão absolutamente intactos… Dir-se-ia mesmo que nunca foram abertos.
- Abertos! Para estragar as capas! Eu mandei avaliar a minha colecção. Vale uma fortuna! Proíbo, seja quem for, de folhear os meus livros!
- Nunca teve curiosidade de saber o que contavam alguns destes autores?
- Não tornei a ler um livro desde que saí da escola.

NOTÍCIA TRISTE EM TEMPO DE NATAL



Gosto da voz dos livros.
Essas vozes encontro-as nas livrarias, livrarias mesmo.
Fujo da FNAC a sete pés, da Leya que outrora foi Barata, da Bertrand.
Em Março fecharam a Pó dos Livros.
Fiquei órfão.
Procurei alternativas.
Encontrei a Leituria, ali na Rua Dona Estefânia.
Com algumas limitações, é certo, mas uma livraria e a amabilidade do Victor a tentar arranjar os livros que lhe pedia.
Soube agora que fechou portas na véspera de Natal.
Vão para um novo espaço, a abrir em Fevereiro, na Rua José Estevão.
Como será?
Até lá, volto a ficar órfão e terei de percorrer as ruas dos bairros populares da cidade  em busca de alguma porta aberta que se assemelhe a uma livraria.
Dizem que em Londres, Paris, Madrid já não há livrarias antes armazéns onde se encontram livros inúteis que afirmam ter um público mas desconfio muito.
Só me falam em globalização, nas Amazons.
Mas onde a voz dos livros?
O cheiro dos livros?

O VELHO DINO


Não me perguntem porque gosto deste «canastrão» que foi cantor, actor de cinema, «entertainer» naquele gang que metia Frank Sinatra e Sammy Davis Jr.
Não me esqueço de O Feitiço da Lua com a lindíssima e insinuante Cher, em que Dean Martin percorre o filme a cantar «That’s Amore»
Morreu no Dia de Natal de 1995.
Para onde foi, transportou., o bucho, milhões de litros de Whisky, nos pulmões toneladas de fumo de cigarros.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

OLHARES


No sobe e desce do Chiado, na tarde cinzenta de véspera de Natal, ouvir Fernando Pessoa, com a queiroziana Casa Havaneza por detrás, citando Alberto Caeiro, dizer à turista espanhola que pornograficamente se empoleira no pescoço, que «o maior mistério do mundo é não haver mistério nenhum».
Mas saberá a tal turista quem foi Fernando Pessoa?
Vamos pensar que sim e, ao mesmo tempo, dizer baixinho os versos lidos, vez primeira, num dos livros da classe primária salazarista:

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

POSTAIS DE NATAL


Nenhum Natal sem flores.

José Gomes Ferreira

domingo, 23 de dezembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


 Cometi alguns erros, mas não faço a menor ideia de quais tenham sido...

SARAMAGUEANDO


O Campo das Cebolas vai passar a designar-se Largo José Saramago.
Em reunião pública da Câmara Municipal de Lisboa foi aprovada, com votos contra do PSD e do CDS, a nova designação daquele espaço da cidade.
Naquele local encontra-se a Fundação José Saramago e é uma outra forma de homenagear o escritor no tempo em que ocorrem vinte anos sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura.

POSTAIS DE NATAL


Postal enviado pela Angelika e o Hans-Martin.
«Not our Christmas-Tree!
We like it more small ans simple decoration!»

sábado, 22 de dezembro de 2018

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Em Olhar as Capas surge a edição da casa de Podem Chamar-me Eurídice, adquirida já depois do 25 de Abril.
Mas a primeira leitura tinha ocorrido antes, livro emprestado pelo Carlos Alberto que era o campeão da rua no que tocava a livros «Fora do Mercado». 
Nunca revelou como os obtinha mas ninguém se preocupava com o pormenor.
Um livro de que gostei muito e que me marcou. 
Reli-o agora e continuo a achá-lo um livro muito bonito, maravilhoso mesmo.
Uma história de amor que tem no contexto histórico a vivência da clandestinidade e repressão da subversão universitária dos anos 60. É também uma metáfora do assassínio do escultor José Dias Coelho, abatido a tiro por agentes da PIDE.
Na etiqueta «José Dias Coelho» deste blogue, encontrarão evocações desse hediondo crime.
E este é o texto com que um qualquer major de cavalaria determinou a proibição do livro:

«Trata-se de um romance de amor entre estudantes universitários, cuja acção se situa num ambiente subversivo e com alguma imoralidade, em que o A. manifesta o propósito de exteriorizar o seu espírito de facção.
Vão assinaladas as passagens das páginas  3º6 a 38, 50, 51, 71 a 76, 100, 103, 109,115, 129, 130, 139 a 141,  153, 174, 175 e 204 até à última página.
É pois de proibir a circulação deste livro dada a sua índole acentuadamente revolucionária e o despudor que o caracterizam.

O leitor

José de Sousa Chaves

Major»

No posfácio a Podem Chamar-me Eurídice, escreve Orlando Costa:

«Durante quasi 50 anos – dos quais o autor partilhou 23 – a Censura cresceu num grande corpo tentacular, opressor de pensamento e voz, para acabar interdirá à porta das nossas casas. E em plena praça pública. Escritores de caneta e lápis, de máquina de escrever ou esferográfica, hoje sabem que a arte e a cultura oprimidas e reprimidas defendem-se com armas.»

Legenda: Orlando Costa

OLHAR AS CAPAS



Podem Chamar-me Eurídice

Orlando da Costa
Posfácio: Orlando da Costa
Capa: Sebastião Rodrigues
Colecção Ficcionistas Portugueses nº 10
Seara Nova, Lisboa, Outubro de 1974

Sob o tremor das mãos, Cesário sentiu o gelo da mortificação. Entre eles era como se erguesse um muro de pedra, frio, rugosos e translúcido, como se o olvido, imóvel, e a saudade súbita, renascessem a um tempo na paisagem da memória.
De pesar e revolta eram essas primeiras lágrimas que não teve força paras para suster e que num repente que toldaram o olhar: quanta amargura e convicção, quanto desânimo havia na fadiga extrema daquela voz de loucura?...
-Quem somos? Quem sou?... – respondera à voz interrogadora. – Podem chamar-me Eurídice… Sim, Eurídice… É um nome estranho… um nome antigo… um nome bonito, já me disseram… - e foi talvez a última vez em que relembrou o rosto daquele velho, seu companheiro numa viagem de comboio, sorrindo com doçura e calma. O seu olhar macerado, erguendo-se num piedoso desafio, percorreu, como se não visse, aqueles rostos desconhecidos. Pousou os olhos em Cesário e emudeceu.
Dentro começava a ouvir-se o tombar dos livros das estantes, o espalhar de papéis no chão no meio do silêncio austero das habitações s assaltadas. Os olhos de alguém fixaram-se com vulgar malícia, naquelas figuras de pedra que, agarradas à parede, talvez parecessem dois fugitivos surpreendidos num acto secreto. Das mãos de outro o disco silenciosos e cúmplice caiu sobre os lençóis amachucados e, num instante, o leito desfeito transformou-se numa testemunha suspeita e tímida.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...



É um clássico natalício: fazer algumas das compras para as jantas no Supermercado do El Corte Inglês. É caro, mas Natal é sempre Natal.
Depois aproveitar a boleia e comprar o CD de Natal da Smooth FM.
Mas para espanto meu não tinham o disco e avisaram que vão deixar de vender CDs.
Lembro os natais em que, nas lojas, se encontravam escaparates com discos de Natal. Foi assim que fui constituindo a já longa colecção de discos de Natal.
Algo em vias de extinção.
É assim que vamos morrendo!...

POSTAIS SEM SELO



Sim, a poesia é a menos saudável das ocupações.
E ser poeta não é uma ambição minha:
É a minha maneira de estar sozinho.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

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Legenda: «Hors-texte» de Carlos Ferreiro do livro «Como Não Quer a Coisa».

OLHAR AS CAPAS


Textinhos, Intróitos & etc

Vitor Silva Tavares
Capa: Luís Henriques
Pianola editores, Lisboa, Outubro de 2017

Como se diz dos elefantes, também ele se considerou morto e morreu. Foi-se indo morrendo. Deixando-se matar nele até que se matou. Subscrevendo o homicídio.
Então se diz do Eduardo: suicida. Para não dizer: suicidado. Que já matado estava quando se chegou à morte.
Não há endereçáveis para a responsabilidade ou culpa. O rapaz do trapézio voador (assim se ficcionou: premonitório?) achava-se pronto ao voo sem rede – metáfora de vida perigosa agora tomada à letra, ao gesto. Certa madrugada, idas as festas felizes, aí vai ele pelo ar baixo: ponto final no pátio das traseiras.
Ninguém teve nada com isso: não fui eu, não foste tu, etc.

(Do texto Na Morte de Eduardo Guerra Carneiro, publicado na revista Telhados de Vidro nº 2, Maio de 2004)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

UM CANTINHO BOM DO ANO


O Natal será sempre o encanto e a ternura da impossibilidade.

O sem sentido de alguns presentes, como naquele conto de O’ Henry: ela vendeu o lindo e comprido cabelo para lhe comprar uma corrente para o relógio, de que ele tanto gostava; ele empenhara o relógio para lhe comprar as travessas, de que ela tanto gostava, para colocar no cabelo.

Karl Valentim preferia que cortássemos do calendário o Dia De Natal, se com isso conseguíssemos que os restantes 364 dias do ano fossem todos de Natal.

Gostaria que o Natal não tivesse o carácter de que se tem revestido nos últimos anos: um consumismo desenfreado que dele fazem o dia mundial da hipocrisia.

As noites de Natal, aquelas que não mais posso repetir, passava-as em casa do meu pai, a família mais chegada, a comer bacalhau cosido com couves, a beber vinho tinto alentejano, a conversar pela noite fora, rematando-se a festa com carne de porco frita envolta em ovos mexidos, a que se seguiam os doces, umas fatias douradas, filhós e uns cálices de licor de ginja que, por Junho, se tinha colocado a marinar numa grande garrafa de vidro, juntamente com açúcar, aguardente branca, um pau de canela.

A manhã começava a nascer, saía para regressar onde vivia e gostava do cheiro de Natal que sentia pelas ruas.

Tentamos fazer o mesmo com os filhos, alcançar a reinvenção dessas noites felizes, mas é mais que certo: nunca se volta aos sítios onde fomos felizes.

Falta, essencialmente, esse passe de mágica, que eram as conversas do meu pai, um brilhante contador de histórias.

Há coisa melhor que o Natal?

Há: os amigos!

E que mais podemos querer do que um amigo para nos acender o dia, e que esse dia seja Natal?

O Natal é um cantinho bom do ano, um aconchego.

Texto de Gin-Tonic

Legenda: Desenho de Alfredo Morais

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

ESTAVA A NEVAR


Lembro-me do nosso primeiro Natal juntos. O nosso único Natal juntos. (E quando os presentes deixam de chegar e as luzes da árvore Natal se apagam, compreendemos que estamos velhos.)
Londres no Inverno. A primeira neve. Lizzie com um casaco azul-escuro de tecido forte e neve nos cabelos. A pista de gelo na Somerset-House. A árvore em Trafalgar Sqaure.
Jantámos fora na véspera de Natal, num “pub” modesto, mas onde a comida era boa. Bebemos vinho, a marca mais cara que eu podia pagar. Depois fomos a um concerto de Natal. Regressámos a casa perto da meia-noite e demos os presentes um ao outro: para ela uns brincos de prata compridos, para mim um cachecol azul.
No final do ano fomos dançar e depois bebemos champagne em Trafalgar Sqaure. O único ano que começámos juntos. Estava a nevar.


Ana Teresa Pereira em O Fim De Lizzie

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

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O poema de Vinicius de Moraes referido no texto do Luís Miguel Mira:

Os assassinos de Emmett
Chegaram sem avisar
Mascando cacos de vidro
Com suas caras de cal
Os assassinos de Emmett
Entraram sem dizer nada
Com seu hálito de couro
E seus olhos de punhal

Os assassinos de Emmett
Quando o viram ajoelhado
Descarregaram-lhe em cima
O fogo de suas armas
Enquanto justificada
A mulher faz um guisado
Para esperar o marido
Que a mando seu foi vingá-la


O ROSTO DE EMMETT TILL


Os assassinos de Emmett
Chegaram sem avisar
Mascando cacos de vidro
Com suas caras de cal

(Vinicius de Moraes – Blues para Emmett Louis Till)

Andar por uma estrada secundária e deserta no Mississippi profundo, numa tarde feia, cinzenta e chuvosa, é como caminhar por um cenário fantasmagórico onde, a todo o momento, um qualquer zombie se pode atravessar no nosso caminho e acenar com os braços, como quem nos pede ajuda…

Numa clareira à beira da estrada, na curva de um rio ou no arvoredo lá ao fundo, um negro pode ter sido espancado, deitado às águas ou pendurado no ramo mais alto de uma árvore…
  
Era bom que estivesse a exagerar, mas não estou…

Basta ouvir ou ler as declarações de quem viveu nestes sítios, há muitos anos atrás.
Toda a gente conhece alguém que um dia partiu de casa para não mais voltar… E os que tiveram a sorte de regressar vieram com as costas abertas a chicote, pernas e braços partidos e a cara feita num bolo…

Poucas dessas histórias viram a luz do dia.

Por vergonha ou medo de represálias, ficaram encerradas no interior da humilhação de quem sofreu na pele, ou na dor de quem viu partir, para sempre, os seus ente-queridos.

Mas a história que hoje vos vou contar viu a luz do dia. Muitos desejaram que não tivesse visto, mas viu…

Corria o ano de 1955 e Emmet Till era um rapaz de Chicago, de 14 anos e órfão de pai, que, como quase todos os anos, tinha vindo passar uns dias de férias em Agosto a casa do seu tio-avô Reverendo Moses Wright, no lugarejo de Money, no Mississippi.

Como todos os rapazes da cidade que gostam de se exibir na província, Emmett era extrovertido e gabarolas. Uma tarde, após terem andado na apanha do algodão, ele e mais uns quantos amigos dirigiram-se a uma mercearia local (a Bryant’s Grocery) para comprarem alguns doces e beberem refrescos. À saída, num ato de pura exibição para os amigos, Emmett terá assobiado à empregada de serviço na mercearia, uma tal Carolyn Bryant, de 21 anos, mulher do proprietário da loja.




Assustados com o que viram e conhecedores das regras locais em que um negro não deve tomar a iniciativa de se dirigir a uma mulher branca que esteja sozinha, e muito menos enviar-lhe um piropo através de um assobio, os amigos de Emmett desataram a fugir para as suas casas, enquanto que este se dirigiu, calmamente, para casa do seu tio-avô, como se nada fosse.

Durante uns dias nada se passou, mas Carolyn Bryant fizera, entretanto, queixa do miúdo ao seu marido e este havia-lhe garantido que lhe iria dar uma lição de boas maneiras…

Quatro dias após o sucedido, o marido, Roy Bryant, e o seu meio-irmão, J. W. Milam, irromperam  pela casa do tio-avô de Emmett e levaram o miúdo à força, dizendo que lhe iriam dar apenas umas quantas  vergastadas, para ele aprender como é que se deve tratar uma mulher branca…

E agora vou abreviar, porque a história está bem contada em vários sítios na Internet e quero poupá-los aos pormenores mais horrorosos…

Dir-vos-ei, apenas, que o perigoso Emmet Till, de 14 anos, foi levado para um celeiro em Glendora e aí morto à pancada. O seu crânio foi esmagado, o seu rosto foi desfigurado a murro e com o tiro de uma caçadeira, e o que restou do seu corpo foi enfiado num saco, enrolado com arame farpado a um velho ventilador de 35 kg dum moinho de algodão, para fazer peso, e deitado ao rio Tallahatchie, vindo a ser descoberto por um pescador vários dias mais tarde.

O corpo do miúdo ficou irreconhecível e só pôde ser identificado porque ainda tinha num dedo um velho anel do seu pai, com as suas iniciais, que a mãe lhe tinha dado antes de partir para casa do seu tio-avô.

As autoridades locais fizeram pressão para o corpo fosse enterrado no Mississippi, o mais rapidamente possível, mas a mãe de Emmett opôs-se e conseguiu que ele fosse transferido para Chicago.

E mais…

Contrariando todos os conselhos que lhe tinham sido dados, bem como todas as pressões que tinha sofrido, mandou abrir o caixão para que todos pudessem ver bem o corpo despedaçado e o rosto desfigurado do seu filho. Jornalistas vieram, como vieram, também, milhares de pessoas durante quatro dias, para prestar ao rapaz uma última homenagem.

E Emmet Till tornou-se uma questão nacional.

Mas a história, infelizmente, não acaba aqui.

Os dois suspeitos foram presos e acusados.

E houve julgamento, claro está…

E rápido…

Naqueles tempos, nos Estados Unidos, havia sempre julgamento…

Uma palhaçada de julgamento!


   Contrariando todas as provas irrefutáveis que foram apresentadas pela acusação, um júri constituído apenas por brancos considerou os acusados “not guilty” dos crimes de rapto e assassinato. Foram necessários apenas 67 minutos para chegarem a essa conclusão.


Em boa verdade, o que é que esperavam…? De que valia a vida de um pobre rapaz de 14 anos, no Mississippi…? Como já não bastasse o incómodo de terem de simular um julgamento, ainda queriam que dois puros homens de raça branca fossem acusados e aprisionados…?

Mas, desculpem-me, a história ainda não acaba aqui…

Como nos EUA, após ter sido julgado e ilibado,  ninguém pode ser acusado duas vezes pelo mesmo crime, quatro meses depois do julgamento os acusados venderam a sua história à revista “Look” por quatro mil dólares (mil e quinhentos para cada um mais mil para o advogado…) e contaram, despudoradamente e com todos os pormenores, a forma como tinham efetuado o rapto e o assassinato do miúdo. O título do artigo – “The Shocking Story of an Approved Killing” – diz tudo…

Mas a história ainda não vai acabar aqui…

Após o funeral, a mãe de Emmet Till, Mamie Bradley, enviou um telegrama ao presidente Eisenhower solicitando a sua intervenção no sentido de repor a justiça no assassinato do seu filho. Não obteve qualquer resposta…

50 anos mais tarde alguns documentos do processo foram divulgados pelo FBI. Entre eles encontra-se uma Circular da Casa Branca redigida por um tal Max Rabb, Conselheiro de Eisenhower para as minorias, na qual se dizia que a mãe de Emmett Till era um mero instrumento dos comunistas e que “qualquer reconhecimento perante ela poderia ser utilizado em prol da causa comunista neste país…”.

Era necessário, portanto, que o caso fosse esquecido o mais depressa possível, como chegou a pedir um jornal do Mississippi, o Jackson Daily News.
Mas o caso não foi esquecido…


William Faulkner, pouco avezo a manifestações públicas em situações desta natureza, escreveu um artigo violento e acusador num jornal local…
Um escritor negro do Mississippi, Jerry W. ward Jr., dedicou-lhe um poema, “Don’t Be Fourteen in Mississipi”, que pode ser lido na Net.

Vinicius de Moraes dedicou-lhe, também, um poema em 1962, “Blues para Emmett Louis Till”, que Toquinho musicou.  

Para terminar em beleza, a virgem ofendida, Carolyn Bryant, acabou por confessar em 2007 que tudo o que havia dito em tribunal acerca do comportamento de Emmet Till era mentira, e a única ofensa que o miúdo lhe tinha feito fora, efetivamente, o assobio…

Não só no âmbito da população negra, mas também junto de um público branco mais esclarecido, o “affaire” Emmet Till foi um escândalo que ajudou a perceber como era a vida e a justiça no Sul profundo, e gerou um movimento de condenação e solidariedade de grandes proporções, a nível nacional.

Poucos meses depois, a 1 de Dezembro de 1955, na cidade de Montgomery, Alabama, Rosa Parks recusou-se a ceder o seu lugar num autocarro a um branco, tendo sido presa. Com Emmet Till ainda na memória de todos, a reação a este ato iria marcar, para sempre, a história da luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, mas isso é história que vos contarei noutra oportunidade.


Como vos disse, o dia estava feio, chuvoso e cinzento quando cheguei a Money, no Mississippi, que é um lugarejo no meio de nenhures com meia-dúzia de casas nas redondezas.

O letreiro do “Mississippi Freedom Trail” não deixava qualquer dúvida. Era ali que se situava a Bryant’s Grocery e fora ali que tudo tinha começado.
Mas olhava-se à volta e não se via nada, a não ser uma velha bomba de gasolina que eu sabia muito bem que não era a mercearia que procurava, porque já a tinha visto em fotografias.

Bryan’s Grocery, nem vê-la…

Paul Theroux, no seu livro “Sul Profundo” que aqui há tempos mencionei, já nos tinha alertado.  A Bryant’s Grocery estava no topo da lista dos “Dez Mais Ameaçados Locais Históricos do Mississippi”, por duas razões: primeiro, porque do edifício inicial mais não restava do que algumas paredes em estado periclitante, cobertas por ervas e arbustos, naquilo a que ele próprio chamou “a estrutura mais fantasmagórica que vira em todas as minhas viagens pelo Sul”; em segundo, porque talvez que aos próprios habitantes locais interessasse mais deixar cair o que restava, para que essa má memória desaparecesse, para sempre, das suas vidas…
  
Lá muito perto, também as águas do rio Tallahatchie, para onde há sessenta e três anos atrás fora lançado o corpo de Emmett Till, corriam feias, tristes e silenciosas, como se também elas sentissem vergonha por se terem visto envolvidas nesta triste história…

Este texto já vai longo e peço-vos desculpa pelo incómodo.

Mas não vos quero deixar sem vos convidar ao visionamento de um pequeno filme de sete minutos que encontrei no YouTube.

Dir-me-ão que não há muita diferença entre aquilo que lá está dito e o que vos acabei de contar…

Mas existe uma diferença muito importante:  é que lá se vê o rosto de Emmet Till.
Também eu, tal como a sua mãe há sessenta e três anos atrás, fiz questão que vissem e fixassem bem esse rosto…

Num Mundo em geral, e numa Europa em particular, em que a xenofobia, a intolerância e o racismo avançam a passos de gigante, é cada vez mais importante vermos e não esquecermos o rosto de Emmett Till.

PS:
Como vos referi no texto, a história de Emmett Till está profusamente documentada na Net. O livro de Paul Theroux (págs 245 a 258) contém informações importantes, nomeadamente no que respeita ao Relatório do FBI de 2004, que não me lembro de ter visto em mais lado nenhum.

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

domingo, 16 de dezembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


A única solidão é aquela que não tem passado.

Agustina Bessa-Luís em A Mãe de um Rio

OLHAR AS CAPAS


A Mãe de um Rio

Agustina Bessa-Luís
Babel, Lisboa, Outubro de 2014

Antigamente, sim, antigamente, a terra tinha a forma quadrada e um rio de fogo corria na superfície. Não havia aves nem plantas, as águas estavam nos ares como nevoeiros cor de ferro e os ventos não as tinham distribuído ainda pelos quatro cantos agudos da Terra. Onde estava o peixe minúsculo de ventre negro, ou as bonitas serpentes de escamas verdes? Não existia o trigo nem a mão humana, nem mesmo o sono ou a dificuldade, que foi o segundo grito da criação. Passamos hoje por um caminho que tem nele marcado outras pegadas, e ocorrem-nos as histórias doutras idades. Por deserto que esteja o campo e frio o sol, o tempo está presente e nos penetra de sabedoria e fortaleza. A única solidão é aquela que não tem passado.
Se hoje percorrermos um velho lugar inóspito, como a serra da Nave, mil lembranças nos acodem, e cada pedra desconhecida, cada ramo de acónito e de malvaísco nos apresenta uma parada de vidas, de funções, de razões e de espiritualidade. Temos que morrer um dia, mas que deixemos no solo húmido a sombra da nossa obediência mortal.
Mas comecemos a história da mãe de um rio.

PEQUENOS CADERNOS


Uma frase, de autor desconhecido, tirada dos meus caderninhos:

Que quem critica o Natal como um pretexto forçado para reunir familiares, distantes ou não, se lembre que é um melhor motivo que o seu próprio funeral.

Colaboração de Aida Santos

sábado, 15 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Um Homem Parado no Inverno

Baptista-Bastos
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, 1991

Ergue-se do banco e dirige-se, lentamente, para a azinhaga. Dissolveu-se a estranha sufocação de cerco. Pára um pouco, olha em redor de si, para a noite e para as sombras. Um pássaro de largo porte voeja pesadamente num círculo largo; depois desfaz o rumo e integra-se na escuridão. Ouve um piar prolongado. O recorte do casario parece alterar-se. O vento traz consigo um odor acre, e distingue o som profundo das águas do mar; folhas de árvores e esporos vagabundos redemoinham. Um murmúrio, um sussurro, algo de impalpável, nada de importante.
O inverno vai ser longo e áspero.
Vou ter muito tempo para recordar.                                                                                                                  

POSTAIS SEM SELO


No meu bairro existia uma tasca. Lembro-me vagamente dela, escura e esconsa, com o seu bafo enjoativo a álcool a cumprimentar quem lhe passava à porta. Desapareceu já há uns anos, dando lugar a um pequeno restaurante de bairro, já de toalha de pano, cardápio esforçadamente sofisticado.

Catarina Portas

ESCANDALIZAR O MUNDO E A RELIGIÃO


6 de Julho de 1970

Contou-me o Graça que o Padre Mário, agora deportado em Macieira de Lixa, estava anteriormente no Lumiar. Foi o primeiro padre que vestiu «civilmente». Aprendeu um ofício (carpinteiro) e vivia numa barraca de lata como a maioria dos paroquianos do Lumiar. Isto com grave escândalo do Patriarcado que queria que el se instalasse numa casa a valer de pedra e cal. Também dava de comer a todos os que lhe batiam à porta com fome.
Resultado: a vida deste padre-operário era tão escandalosamente cristã que o Patriarcado se viu forçado a mandá-lo para longe para Macieira de Lixa, onde, pelo visto, teima em escandalizar o mundo e a religião.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

POSTAIS DE NATAL DE BEATRIX POTTER


Numa Feira do Livro, realizada na APISAL, comprei uma lindíssima colecção de postais de Boas Festas de Beatrix Potter.

Este é o último postal da colecção.

O Alfaiate Velhote

«Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do di de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que dizem).»

Colaboração de Aida Santos

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Sempre que por ali passo, e são muitas as vezes, recordo que José Saramago a frequentou. Di-lo, muito claramente num texto que vem no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote:

«Num artigo de Ângela Caires publicado na Visão, sobre António Champalimaud, leio que o tio Henrique Sommer, em carta com valor testamentário dirigida às manas Albana e Maria Luísa, lhes recomendava que não se esquecessem de distribuir, pelo Natal, dois contos de réis à Sopa dos Pobres da Freguesia dos Anjos, de Lisboa. Naturalmente, o generoso Sommer (que em glória esteja) desejava que não sofresse mudança, depois do seu passamento, a beneficente prática que instituíra.
Quem poderia imaginar que esta informação, escrita ao correr da pena, viria lançar uma luz nova sobre a minha biografia secreta? De facto, não foram poucas as vezes, no tempo da adolescência, que ocupei um envergonhado lugar na fila de aspirantes à sopa e ao quarto de pão que se serviam naquele atarracado e soturno edifício fronteiro à Igreja dos Anjos… Mais ou menos por essa altura devo ter aprendido na aula de Física e Química da Escola Industrial Afonso Domingues o princípio dos vasos comunicantes, mas só hoje é que consegui perceber, sem reservas mentais nem dúvidas formais, como se efectua a transmissão da riqueza e do bem-estar dos que estão em cima para os que estão em baixo, do conto de réis para o quarto de pão, da fartura para falta. Por muitos que fossem os seus pecados, Henrique Sommer nunca ficaria no inferno, sempre haveria uma concha da sopa para o tirar de lá…»