Em 1949 foi peso José
Moreira, funcionário do Partido Comunista Português, responsável pelas ligações
com as tipografias. A polícoa sabia qual era a sua tarefa. Quis arrancar-lhe,
através de violências inauditas, a confissão dos locais onde elas se
encontravam. José Moreira costumava dizer: «Uma tipografia
clandestina é o coração da luta popular. Um corpo sem coração não pode viver.»
Os
primeiros versos do soneto, li-os como epígrafe do texto «35 Anos de
Opressão Fascista» de José Dias Coelho, que consta do livro A
Resistência em Portugal, que hoje se apresenta em Olhar as Capas,
livro que comprei nos primeiros meses, após o 25 de Abril.
O
caminho das pedras trouxe-me até aqui.
Cheguei
aos 80 anos.
Nunca
esperei viver tanto!
Senti
que era tempo de lembrar os escritores, os poetas, os cantores, os músicos, os
actores, os realizadores, os pintores, tanta gente, tanta gente, que me
ajudaram a fazer o caminho.
É
um difícil passo, provavelmente, não terei tempo para os apresentar todos.
A
abertura da secção cabe a José Dias Coelho, morto pela PIDE no dia 19 de
Dezembro de 1961, acontecimento denunciado num poema de António Quadros(pintor), para o qual José Afonso fez música, palavras e canção que muitos, nem
todos, conhecem, e que nos grita que a
morte saiu à rua num dia assim.
Palavras
de Margarida Tengarrinha, sua mulher, no prefácio de «A Resistência em
Portugal»:
«Quando podia, e era
muito raro poder, fazia pequenas esculturas, desenhos e gravuras, muitas das
quais foram publicadas na imprensa clandestina do Partido. A sua última
gravura, feita em Novembro de 1961 para o «Avante», representava o operário
Cândido Martins assassinado na frente da manifestação do Barreiro contra a
burla eleitoral.»
houve um tempo antes de
abril.
um tempo monstruoso
caladosamordaçadossitiadosvigiados
o medo sobretudo o medo
era de noite e levaram quem nesta cama dormia, perseguições prisões mortes
silêncios lutas
também um tempo de canções quem deu a cara as palavras as músicas as vozes
um dia foi a tal madrugada por que esperámos tanto tempo
depois os que entraram na barca para a afundar.
um retrato de desencanto, de impotência franjas de uma esperança apenas sonhada
e no entanto era possível
mas algum erro os filhos da madrugada cometeram
a culpa é de todos a culpa não é de ninguém
por aqui, têm passadio algumas das canções, alguns dos poetas, alguns dos
músicos, alguns dos cantores, que nos ajudaram a ir ao encontro da manhã clara.
os que foram protagonistas duma grande esperança e são hoje figurantes dum
grande desencanto
Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias Coelho seguia pela Rua
dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de um automóvel e
alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam outro tiro
quando já se encontrava por terra.
Antes de ser
assassinado, José Dias Coelho estivera em casa de Mário Castrim que, na altura,
morava na Rua Luís de Camões, perto da estação dos carros eléctricos de Santo
Amaro.
No livro “Viagens”,
o poema “Viagem Através de Uma Fatia de Bolo-Rei”, Mário
Castrim assinala esses últimos momentos de vida de José Dias
Coelho:
Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã
O único móvel existente é um «bailique, prateleira de
madeira que serve de cama, muitas vezes nem enxerganem cobertores. Naquele espaço exíguo de 4
passos por 2, infindavelmente contados, o preso entra numa nova luta – a luta
contra o tempo. Passa as longas noites de insónia esperando a manhã, quantas
vezes temeroso do sono que lhe trará pesadelos – um dos mais frequentes é o de
estar enterrado vivo, ou encerrado num jazigo – para os quais o acordar não é
alívio.
O dia, monótono, solitário, sem ter que ler, é
infindavelmente vazio e para o preencher o preso inventa as mais infantis
maneiras de passar o tempo: brinca com fósforos, com os quais tenta escrever e
desenhar nas paredes, modela bonecos de miolos de pão, joga damas sozinho. Mesmo
estas distracções são reprimidas pelos carcereiros se se apercebem delas.
O escultor José Dias Coelho foi
assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, junto ao
Largo do Calvário. rua que hoje tem o seu nome.
O assassinato está assinalado na canção de José Afonso A
Morte Saiu à Rua do álbum Eu Vou
Ser Como a Toupeira, gravado em 1972, letra de António Quadros
(pintor), música de José Afonso.
Antes de ser assassinado, José Dias Coelho estivera em
casa de Mário Castrim que, na altura, morava na Rua Luís de Camões, perto da
estação dos carros eléctricos de Santo Amaro.
No livro Viagens,
o poema Viagem Através de Uma
Fatia de Bolo-Rei, Mário Castrim pormenoriza as últimas
palavras, os últimos momentos de vida de José Dias Coelho:
Corria o ano de
1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã
e eu
perguntei-lhe
se queria comer
alguma coisa.
Disse que sim.
Mas que
estava com muita
pressa.
Enquanto vestia
a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de
fiambre
um copo de vinho
uma fatia de
bolo-rei.
Estava de pé
comia como se
fosse a primeira vez
desde a
infância.
- Há quantos
anos
deixa cá ver
há quantos anos
é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe
a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe
migalhas
aparava-as com a
outra mão
em concha)
- Comes outra
fatia, camarada?
- Isso não.
Estou atrasado
já.
Mas se ma
embrulhasses...
Através da
janela
do quarto às
escuras
fico a vê-lo
atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua
dos Lusíadas.
Nenhum de nós
sabia
que estava já
erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.
Quando talvez o
gosto do bolo-rei
mais forte do
que nunca
tivesse ainda na
boca.
Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias
Coelho seguia pela Rua dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de
um automóvel e alvejaram-no, à queima-roupa, com um tiro no peito, e dispararam
outro tiro quando já se encontrava por terra.
Legenda: A imagem de topo é uma gravura de
José Dias Coelho, representando o operário Cândido Martins, assassinado na
frente da manifestação do Barreiro contra a burla eleitoral e publicada
no “Avante” nº 130 de
Novembro de 1961. Para a que seria a sua última gravura, José Dias Coelho
escreveu: «De todas as sementes
deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais
copiosas searas.»
O escultor José Dias Coelho foi assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de
1961, na Rua da Creche, junto ao Largo do Calvário. rua que hoje tem o seu nome.
O assassinato está assinalado na canção de José Afonso “A Morte Saiu à Rua”do
álbum “Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em 1972 letra
de António Quadros (pintor), música de José Afonso.
Antes de ser assassinado, José Dias Coelho estivera em
casa de Mário Castrim que, na altura, morava na Rua Luís de Camões, perto da
estação dos carros eléctricos de Santo Amaro.
No livro Viagens, o poema Viagem Através de Uma Fatia de Bolo-Rei, Mário
Castrim pormenoriza as últimas palavras, os últimos momentos de vida de
José Dias Coelho:
Corria o ano de 1961. Estávamos à porta do Natal. Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.
Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.
- Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)
- Comes outra fatia, camarada?
- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...
Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.
Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.
Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.
Funcionário clandestino do Partido Comunista, José Dias
Coelho seguia pela Rua dos Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de
um automóvel e alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam
outro tiro quando já se encontrava por terra.
Legenda: A imagem de topo é uma gravura
de José Dias Coelho, representando o operário Cândido Martins, assassinado na
frente da manifestação do Barreiro contra a burla eleitoral e publicada
no “Avante” nº 130 de Novembro de 1961. Para a que seria a sua
última gravura, José Dias Coelho escreveu: “De todas as sementes deitadas
à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas
searas.»
José Dias Coelho e Margarida Tengarrinha
usariam o que aprenderam sobre as suas artes para falsificar documentos e
apoiar a resistência à ditadura.
Antes de ser assassinado, José DiasCoelho estivera numa reunião na casa de Mário Castrim que então morava junto à
estação da Carris em Santo Amaro, tal como conta num poema que consta do seu
livro Viagens:
VIAGEM ATRAVÉS DE UMA FATIA DE BOLO-REI
Corria o ano de 1961. Estávamos à porta do Natal. Eram quase duas horas da manhã
No dia 25 de Novembro
de 1976, Mário Castrim, no seu Canal da Crítica intercalou os últimos momentos
de vida do pintor e militante comunista José Dias Coelho com a crítica de
televisão.
Neste nº 9 de Notícias do Bloqueioencontramos poemas
de José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz, José
Fernandes Fafe e poemas do poeta búlgaro Nicolau Vaptzarov, traduzidos por Egito
Gonçalves.
O poema de Pedro
Alvim chama-se Lisboa e encerra
quadros poéticos do Cais do So- dré, Praça de Camões, Rossio, e Alcântara.
Alcântara denuncia a
morte do pintor José Dias Coelho, pela Pide, na Rua da Creche, em 19 de
Dezembro de 1961:
Há quem tombe por um rio
Impetuoso e comum:
Alcântara dos tiros cegos
Alcântara sessenta e um.
Na etiqueta José DiasCoelho deste blogue, pode encontrar outras evocações poéticas, e não só, do
assassínio de José Dias Coelho.
Uma delas é o poema A
Morte Saíu à Rua, letra e música de José Afonso, incluído no seu álbum Eu Vou
Ser Como a Toupeira, editado no Natal de 1972
A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pr'a qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai
O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o rei morreu!
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.
O escultor José
Dias Coelho foi assassinado pela PIDE no dia 19 de Dezembro de 1961, na Rua da
Creche, rua que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário.
O assassinato
está assinalado na canção de José Afonso “A Morte Saiu à Rua”do álbum “Eu
Vou Ser Como a Toupeira", gravado em 1972.
Antes de ser
assassinado, José Dias Coelho estivera em casa de Mário Castrim que, na altura,
morava na Rua Luís de Camões, perto da estação dos carros eléctricos de Santo
Amaro.
No livro “Viagens”,
o poema “Viagem Através de Uma Fatia de Bolo-Rei”, Mário
Castrim assinala esses últimos momentos de vida de José Dias
Coelho:
Corria o ano de 1961. Estávamos à porta do Natal. Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.
Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.
- Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)
- Comes outra fatia, camarada?
- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...
Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.
Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.
Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.
Funcionário
clandestino do Partido Comunista, José Dias Coelho seguia pela Rua dos
Lusíadas, quando cinco agentes da PIDE, saltaram de um automóvel e
alvejaram-no, à queima-toupa, com um tiro no peito, e dispararam outro tiro
quando já se encontrava por terra.
No nº
9, referente a Março de 1962, de “Notícias do Bloqueio”, Pedro Alvim, no poema
intitulado “Lisboa”, refere o assassínio de Dias Coelho:
4 – Alcântara
Há quem tombe por um rio
Impetuoso e comum:
Alcântara dos tiros cegos
Alcântara sessenta e um.
No dia 24 de
Novembro de 1976, começava, no 1º Tribunal Militar Territorial de Lisboa, o
julgamento do ex-agente da PIDE António Domingues, acusado de ter assassinado
José Dias Coelho, julgamento que só terminaria no ano seguinte:
Na 1ª página do “Diário
de Notícias”, de 6 de Janeiro de 1977, lia-se:
“O antigo agente da PIDE/DGS António Domingues,
responsável pela morte do escultor comunista José Dias Coelho, foi, ontem,
condenado em três anos e nove meses de prisão maior. Perdoados 90 dias e tomado
em conta o tempo de prisão preventiva que já sofreu, desde 1974, vai o réu
cumprir apenas mais cerca de 10 meses de cadeia. O tribunal (3ºTMTL) considerou
não ter havido homicídio voluntário, mas apenas “ofensa corporal voluntária, de
que resultou a morte “praeter-intencional”. Dado como provado o disparo de dois
tiros, o último dos quais com a arama “muito próxima da roupa da vítima, a
sentença foi recebida pela assistência com uma manifestação de protesto.”
No editorial do
“Diário de Lisboa," também de 6 de Janeiro, lia-se:
“Na verdade, reconhece-se a legitimidade da
“profissão” de assassino de adversários políticos de um regime. É um insulto à
memória de José Dias Coelho.
Um insulto aos mortos e aos vivos da resistência
antifascista.
Um insulto ao 25 de Abril.”
Legenda: A
imagem de topo é uma gravura de José Dias Coelho, representando o operário
Cândido Martins, assassinado na frente da manifestação do Barreiro contra a
burla eleitoral e publicada no “Avante” nº 130 de Novembro de
1961. Para a que seria a sua última gravura, José Dias Coelho escreveu: “De
todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz
levantar as mais copiosas searas”
A polícia não pode meter na prisão todas as pessoas de
quem desconfia. Aliás o regime fascista encontrou uma boa e simples maneira de
resolver este problema. Caxias é apenas uma prisão dentro doutra prisão maior,
que é o país. É prático, como se vê. Em geral, os suspeitos circulam à vontade
dentro da prisão maior; quando se tornam perigosos, passam para as prisões mais
pequenas: Caxias, Peniche e outros lugares menos conhecidos.
FACE
aos últimos acontecimentos ocorridos em Angola com a população branca é criada
uma Junta Militar à qual preside o vice-almirante Rosa Coutinho membro da Junta
de Salvação Nacional.
FOI
ENTREGUE ao Conselho de Estado pelo advogado Dr. Afonso de Carvalho um
requerimento para que o referido órgão se pronuncie sobre a inconstitucionalidade
do artigo 26 da Concordata celebrada entre o Estado Português e a Santa Sé em
1940 e do artigo 1790 do Código Civil em vigor que vedam aos cidadãos que
contraíram casamento canónico depois de 1 de Agosto de 1940 o direito de
obterem o divórcio através dos tribunais.
NA
SUA PRIMEIRA conferência de Imprensa o CDS, através do Prof. Freitas do Amaral,
apresenta-se ao povo português afirmando que deseja uma distribuição melhor do
rendimento do povo português.
EM
MATOSINHOS termina a greve da pesca da sardinha.
REALIZA-SE
no Estádio 1º de Maio uma grandiosa manifestação de apoio ao MFA e ao Governo
Provisório na qual tomam parte os Partidos Comunista, Socialista e Popular
Democrático.
HELENA
NEVES publica no República do dia 24 um trabalho sobre os informadores da
PIDE/DGS. Por ano eram gastos mais de nove mil contos com a rede de
informadores. Vendiam tudo: a família, os amigos, os vizinhos, os companheiros
de trabalho, a escola, o sindicato. Alimentavam a repressão e alimentavam-se
dela.. Até simples casamentos eram objecto da vigilância dos informadores da PIDE.
Uma denúncia valia ente 250 e 750 escudos.
A
POLÍCIA JUDICIÁRIA Militar levou a tribunal um processo-crime em que é arguido
o agente da ex-PIDE/DGS António Domingues acusado do assassínio do pintor e
militante comunista na clandestinidade, José Dias Coelho.
ÀS
12,00 HORAS DE 27 de Julho o Presidente a República General António de Spínola
anunciou perante o País que, sobre reconhecer o direito dos povos das colónias
a assumirem o seu próprio destino, podendo encaminhar-se sem qualquer ambiguidade
para a independência política, Portugal está pronto a iniciar o respectivo
processo de transmissão de poderes.
Do
discurso de António Spínola:
Legenda:
Título da 1ª página do Diário de Lisboa de 27 de Julho de 1974.
Mário
Soares, Magalhães Mota, Álvaro Cunhal no comício no Estádio 1º de Maio.
.
Fontes:
Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora,
Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino
Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de
1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e
Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.
NA ILHA TERCEIRA, Spínola e Richard Nixon analisaram o problema dos territórios do
ex-Ultramar e da cedência da Base das Lajes.
AINDA sem solução greve dos pescadores de sardinha de Matosinhos.
CONTINUANDO o impasse naTimexos trabalhadores aventam a hipótese de vender os relógios armazenados.
O MAJOR Pedro Pires, chefe da delegação do PAIGC às conversações de Argel declarou
que não houve respostas concretas da parte da delegação portuguesa.
AdAM MALIK, ministro indonésio dos Negócios estrangeiros, afirma que a Indonésia não
intervirá nos assuntos de Timor.
CERCA de 35 mil trabalhadores dos CTTestão em greve.
COMEÇOU a ser discutido em Conselho de Ministros o diploma de criação da comissão «ad hoc»
para controlo dos meios de comunicação social, até à publicação das novas leis
especificas.
O
jornal República recordava:
Num
artigo «Política e Cinema Político», assinado por João Lopes e publicado na Seara
Nova de Junho de
1974 citava-se Jean-Luc Godard:
É preciso começar por aprender a pôr os problemas de uma
forma diferente. De outro modo, no cinema como em qualquer outra luta social,
não saberemos responder senão de uma forma antiquada a questões completamente
novas.
EFECTUA-SE a primeira homenagem pública a José Dias Coelho com o descerramento de uma
lápide na Rua da Creche, onde em Dezembro de 1961, o pintor e escritor
comunista foi assassinado por elementos da PIDE.
O PAINEL executado em 10 de Junho por 48 artistas do Movimento Democrático de
Artistas Plásticos, passará a estar exposto na Galeria de Arte Moderna em
Belém.
COMPLICOU-SE inesperadamente a situação na Siderurgia Nacional. Os trabalhadores aguardam um
encontro com António Champalimaud.
FINAL DE UMA Carta Aberta a 200 Capitães da autoria de Artur Portela Filho e publicada no República
de 17 de Junho
de 1974:
Uma revolução não aparece feita, faz-se.
Uma revolução não se deixa a meio acaba-se.
Quando defendemos, u unidade entre o povo e as Forças
Armadas, não estamos a apenas a defender a unidade entre o povo e a totalidade
das Forças Armadas, de que a Junta de salvação Nacional é uma parte.
De resto, estamos a descobrir uma coisa enorme que é o
facto de que as Forças Armadas somos nós.
A nossa força é sermos todos.
Sermos um é a nossa fraqueza.
Fontes:
Recortes
de acervo pessoal,Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa,
Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues,
Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria
de Estado da Informação e Turismo,
A
Funda,
Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa
No dia 17 de Maio de 1974 saía para as bancas o primeiro número,
legal, do Avante, órgão central do Partido Comunista Português.
António Dias Lourenço é o seu primeiro director e a numeração mostrava nº1, Ano 44, Série VII.
A numeração do Avante está dividida por séries. As
primeiras cinco abrangem o período até à interrupção da publicação em 1938; a
VI série vai de 1941 a 1974.
Segundo uma notícia publicada pelo Diário Popular de 30 de
Maio de 1974 chegou a ser considerada a hipótese do Avante ser um jornal
diário vespertino, mas a ideia acabou
por não se concretizar e o jornal haveria de aparecer com semanário, periodicidade
que ainda hoje mantém. Segundo os
números do Partido a tiragem desse dia atingiu quase meio milhão de exemplares.
O primeiro número doAvanteé
publicado em 15 de Fevereiro de 1931, ou seja, dez anos depois da fundação do
PCP. Qual a razão desse facto? Salienta-se desde já que entre 1921 e 1931 não
deixou de existir uma imprensa partidária. O Partido chegou mesmo a ter o seu
órgão oficial, O Comunista, ainda que de existência efémera, e a Juventude
Comunista, entretanto formada, edita por, sua vez, O jovem Comunista.
Durante esse período o PCP, lutando com grandes dificuldades e
deficiências, viveu momentos muito delicados.
O golpe militar fascista de 28 de Maio de 1926, na véspera do início do
II Congresso do Partido, e a imposição da clandestinidade, no ano seguinte,
vieram agravar ainda mais as condições de trabalho e, naturalmente, dificultar
a existência de uma imprensa partidária capaz de responder às necessidades.
A saída do jornal não é regular, não obstante em certos períodos se
trem obtido importantes êxitos, como foi o caso dos anos 1937/38, em que o
Avante saiu semanalmente, mas seguir-se-á uma interrupção da sua publicação por
mais de dois anos.
Reaparecido em Agosto de 1941, o jornal estabiliza-se com a saída
regular todos os meses que se manteria ininterruptamente até Abril de 1974.
O golpe militar fascista de 28 de Maio de 1926, na véspera do início do
II Congresso do Partido, e a imposição da clandestinidade, no ano seguinte,
vieram agravar ainda mais as condições de trabalho e, naturalmente, dificultar
a existência de uma imprensa partidária capaz de responder às necessidades.
O último número do Avante publicado na clandestinidade
é o 464 e saíu durante o mês de Abril de 1974, com o preço simbólico de um
escudo.
É tremendamente difícil a feitura do Avante clandestino. Apesar
de todos os cuidados, a PIDE consegue localizar e destruir as tipografias
clandestinas que, com regularidade, mudavam de local.
A história do Avante é um manancial de histórias
que demonstram a firmeza e a luta tenaz dos militantes do Partido.
Entre muitos outros, estaca-se o operário vidreiro José Moreira que, em 24 de
Janeiro de 1950 é preso pela PIDE e depois torturado até à morte por se recusar
a revelar a localização da tipografia onde o jornal era impresso.
É dele a frase: uma tipografia clandestina é o coração da
luta popular. Um corpo sem coração não pode viver.
Dizem os camaradas que com José Moreira trabalharam, que ele
percorria em média 2.500 quilómetros por mês, sentado numa «pasteleira», nem bicicleta
era, levando os originais para as tipografias clandestinas, procedendo depois à
sua distribuição.
Esta é uma gravura de José Dias Coelho, publicada no nº 304 do
jornal, Agosto de 1961, e que mostra uma tipografia clandestina do Avante.
Por ocasião do 50º aniversário do Avante, José Cardoso
Pires escreveu este depoimento:
Fontes: Dados
recolhidos num volume em que estão reproduzidas algumas das primeiras páginas do
jornal e publicado por Edições Avante em Março de 1977.
A gravura de José Dias Coelho é retirada do seu livro A
Resistência em Portugal, Editorial Inova, Porto, Junho de 1974.