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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

PARA TODOS A MORTE TEM UM OLHAR


Aos poucos vamos deixando para trás o culto dos mortos.

Por este dia de finados, os caminhos para os cemitérios já não se encontram tão pejados de carros e pessoas como há uns anos atrás.

Os cemitérios já são pouco visitados.

Lembro que a Rua Morais Soares, caminho para o Cemitério do Alto de São João, há uns anos atrás, era um mar de gente com vendedoras de flores ao longo dos passeios.

Aos poucos, vai-se perdendo o culto dos mortos.

A incineração emprestou ao ritual da morte, outros olhares.

José Gomes Ferreira, no dia 2 de Novembro de 1968, escrevia nos seus Dias Comuns

«Hoje, dia de esquecer os mortos… De calcá-los bem na cova – com missas, crepes, luto, flores para coroar caveiras…»

A minha avó marcava o dia de finados acendendo, numa grande cómoda, de madeira muito antiga, lamparinas que se reduziam a um pires com azeite e um paviozinho, colocadas junto aos santos de devoção e às fotografias dos seus mortos.

O  meu avô exasperava-se com esta devoção. Dizia-me que o que devemos é respeitar e amar as pessoas enquanto andam ao nosso lado, o resto é hipocrisia e os fantasmas devemos deixá-los em seu sítio.

Muitos anos depois, hei-de ler em Dóris Graça Dias:

«Apaixonamo-nos pelas pessoas, quando as escutamos. Amamo-las. E só deixamos de as desejar quando deixamos de as ouvir.»

Creio que foi em José Tolentino Mendonça que li a interrogação:

E se pensar na morte fosse a melhor maneira de dar valor à vida?

Escreveu ainda:

À beira do fim há sempre tanta coisa que começa! 

Mas o poeta russo, Vladimir MaiaKovski, expressava:

Não é difícil morrer. Viver é muito mais.

Outro russo, Anton Tchekov:

«Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde estará ela? Qual morte” Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
- É então isto? – disse ele de súbito em voz alta. Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. “Acabou-se a morte – disse a si mesmo – Já não existe.”
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»

Há aquela fala na Grande Paz de Edward Bond:

«Se eu pudesse tirar o ar do corpo dos mortos com o cuidado de quem põe um grão de areia em cima de outro, quando o ar lhes saísse da boca talvez as línguas deles falassem e me dissessem porque razão vivemos e sofremos e porque vivemos nesta terra e somos enterrados nela.»

Legenda: pintura de Jakub Schikaneder.


O título do texto é um verso de Cesare Pavese.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Seria possível a alguém que o que eu procurava era apenas ver uma coisa que já tinha visto?

Cesar Pavese

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Há vestidos tão belos, que dá vontade de os dilacerar.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda; Claudia Cardinale em Once Upon a Time in the West

terça-feira, 5 de agosto de 2025

NESTE DIA


O diário Ofício de Viver de Cesare Pavese, não poderia faltar neste andar pelos dias que certos autores quiseram deixar registado.

Extraordinário livro!

Um comunista solitário, uma intensa vida política e cultural, começou a escrever Ofício de Viver no dia 6 de Outubro de 1935, quando vivia em prisão domiciliária por actividades anti-fascistas mas que mais não tinham sido do que ter escondido umas cartas a pedido de uma mulher que amava.

Não se recordam os dias, recordam-se os instantes.

No dia 6 de Agosto de 1940 escreveu:


segunda-feira, 7 de julho de 2025

VELHOS RECORTES

Já que aqui trouxemos A Praia do Cesare Pavese, o filme do Jorge Silva Melo, leia-se o pequeno recorte tirado  da revista Ler, Verão de 2017, em que Leonor Baldaque aborda o livro de Pavese.

REOLHARES


Talvez por uns largos tempos, Jorge Silva Melo andou às voltas com A Praia de Cesare Pavese. O resultado é o filme Agosto. Tempo de Reolhar o que aqui se publicou em 2 de Agosto de 2022.


O QU’É QUE VAI NO PIOLHO?


Um atento leitor de Cesare Pavese sabe que A Praia será o menos político dos romances de Pavese.

A observação deixou-a, também, Pedro Mexia, no Expresso, quando em 2011 a Ulisseia reeditou A Praia.

Pavese resume A Praia como um relato da amizade de dois rapazes que uma mulher, casada com um deles, ao mesmo tempo une e separa.

Aparentemente nada acontece.

Quando o tempo de Verão era outro, tão lento, no devagar depressa dos tempo, para citar Guimarães Rosa: bebidas, bailes, jogos na praia, paixões de Verão, que as mães diziam que ficavam enterrados na areia, pores-de-sol, ambientes, sensações, estados de espírito, melancolias, situações de que a maior parte não se conseguem entender mas que gostamos de olhar e sentir, as aparências que revelam mais do que iludem, o carácter efémero das coisas, nostalgias de tempos perdidos, ele, Jorge Silva Melo que, naquele tempo, quando andava a ler romances arrepende-se de não ter dançado o twist e andar de carro descapotável.

No Verão todos os pecados se confundem.

Rilke dizia que só o Verão vale a pena, ou Ruy Belo, mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo Verão.

Jorge Silva Melo lê A Praia em 1965 e, ficou a moer por dentro que a novela poderia dar um filme.

«Sempre li Pavese com os meus “jeans”, uma camisa aos quadrados vermelha e os cigarros Porto que então fumava , entre os postais que regularmente punha no correio.»

Dessas leituras, dessas melancolias, em 1987, Jorge Silva Melo fez um filme e chamou-lhe Agosto.

 La Spiaggia, de Cesare Pavese, cuja acção se passa nos 40, na Itália do pós-guerra, e aborda a ascensão da burguesia intelectual depois de alguns anos de recuperação económica. O meu filme fala do momento em que li a novela: é mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostava de ter feito quando ainda não podia fazer cinema. E um filme que me faltou; é, talvez, o filme que gostava que a geração de João Bénard da Costa tivesse feito quando se encontravam na Arrábida.


É em A Praia  que Pavese deixa escrita a frase que pelos tempos fora tem sido repetida, e sempre continuará a ser, e que vem na pág. 154 da minha velhinha edição de bolso da Portugália Editora:

Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz.

Se fosse vivo, Cesare Pavese faria hoje 106 anos.

 E tão cedo que ele nos deixou, quando apenas tinha 42 anos, e com tanto ainda para nos dar.

Em O Diabo Sobre as Colinas escreve que da sua infância só lhe ficara o Verão, e num daqueles muitos seus dias depressivos e tristes, escreveu: basta-me a companhia do mar. Não quero ninguém. Na vida não tenho nada de meu. Deixem-me ao menos o mar.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

FAZ-SE TARDE...


Éramos muito novos. Nesse ano, julgo que não dormi sequer uma noite. Mas tinha um amigo que dormia ainda menos do que eu, e certas manhãs víamo-lo já a passear diante da estação, à hora a que chegam e partem os primeiros comboios.

Tínhamo-lo deixado, noite alta, à porta de casa; Pieretto dera mais uma volta, assistira realmente ao nascer do Sol, bebera um café. Agora observava as caras ensonadas dos varredores e dos ciclistas. Já não se lembrava das nossas conversas: continuando acordado, tinha-as digerido, e dizia tranquilamente:

- Faz-se tarde. Vou-me deitar.

Cesare Pavese em  O Diabo Sobre as Colinas

sexta-feira, 14 de junho de 2024

POSTAIS SEM SELO


Não nos lembramos de dias, recordamos momentos. A riqueza da vida está nas memórias que esquecemos.

Cesare Pavese

domingo, 28 de abril de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Há uma profunda frase de Cesare Pavese:

«Não nos lembramos de dias, recordamos momentos. A riqueza da vida está nas memórias que esquecemos.»

Agora é o tempo de, ainda, amiúde ouvir: «25 de Abril, sempre!»

A Biblioteca da Casa está cheia de alguns livros que falam do antes e do depois de Abril.

O meu pai com algum ritmo de tempo, lembrava em finais de conversa:

«Tens de ler tudo, mas mesmo tudo. Até autores de que não gostas, que são contrários aos gostos, às ideias que defendes. Não te podes convencer que, estando no meio, consegues aperceber-te dos dois lados, não. E repetia: ficares no meio é como dizer «fuzilem à vontade, senhores!»

Tudo isto para dizer que sentir o 25 de Abril é ler a sua história, conhecer grande parte dos quotidianos, dos dias do antes e do depois.

Nestes últimos dias têm aparecido no Olhar as Capas, livros sobre o 25 de Abril, alguns não tão favoráveis à data, mas fazem parte dos costumes que orientam as vidas.

Já os deveria ter trazido aqui. Os que apareceram não completam, nem pouco mais ou menos, pelo que o processo de ir publicando esses livros, irá prosseguir.

Para se poder dizer «25 de Abril, sempre!» é preciso ler sobre a tal data que nos deu a possibilidade, apesar de tudo, de sermos gente.  

Legenda: Contra capa de 25 de Abril Imagens.

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

POSTAIS SEM SELO


O homem interessa-se tão pouco pelo próximo que até mesmo o cristianismo recomenda fazer o bem por amor a Deus.

Cesare Pavese

Legenda: imagem Shorpy 

quinta-feira, 22 de junho de 2023

CONVERSANDO


 No final da entrevista de Javier Cercas ao Público, que já por aqui referi, o autor diz:

 «A literatura serviu-me para não ser mais perigoso do que aquilo que sou. Sei que escrevo por muitas razões. Gosto do que dizia Beckett: sou escritor porque não sei fazer outra coisa.

Mas acho que, e há muitos casos, a escrita surge de uma carência, de algo essencial que falta, e que se procura na literatura. No meu caso, há algo fundamental que é o desenraizamento. Sou essencialmente um desenraizado. Nasci numa aldeia e aos quatro anos os meus pais levaram-me para um lugar longe onde não conhecia nada. Houve ainda um outro acontecimento, uns anos mais tarde, que me fez perder a fé. A literatura foi para mim um instinto de defesa. Como dizia Pavese, a literatura é uma defesa contra as ofensas da vida. E é também uma forma de vingança.»

Cesare Pavese fez parte da minha educação literária e de que tanto gostei, gosto.

Sei, desde a leitura desta entrevista de Javier Cervas que terei de ler Cervas.

Seve, o nosso habitual viajante, aconselhou-me Os Soldados de Salamina.

Será por aí que começarei.

Repetindo Pavese: «a literatura é uma defesa contra as ofensas da vida.»

 

Legenda: fotografia de Vivian Maier

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

CONVERSANDO

Olhamos lá longe, uma guerra que nos torna pesados os dias.

Começámos a viver com mais dificuldades.

Cabe-me as idas ao supermercado, á loja de frutas e vegetais dos nepaleses no prédio ao lado. A dúzia dos ovos a 2,40 euros, por Agosto ainda me lembro de os pagar a 2,10 euros.

- Como é isto, Chiva?...

- Senhor, faço a mesma pergunta ao fornecedor…

Os poemas de desamor de Pavese:

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como abandonar um vício,
como ver no espelho
ressurgir um rosto morto,
como escutar lábios fechados.
Mudos, desceremos ao abismo.

Um lamento desenhado por João Miguel Fernandes Jorge, no dia 21 de Dezembro de 2012, uma sexta-feira:

 «Quando nos perdemos, resta o passado. O que já não existe é então a porta do caminho. Não porque me tenha perdido de outro, mas somente porque me deixei ficar, esquecido de mim mesmo entre as folhas de um caderno depois de percorridas muitas frases, como se fossem ruas de uma terra estranha, e entre essas páginas permanecesse semelhante a uma cobra em abandono da pele — concha onde a água já não corre para os lábios.»

terça-feira, 2 de agosto de 2022

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Será este o primeiro Agosto sem o Jorge Silva Melo.

Tempo para recordar o que aqui se escreveu sobre o filme em que ele andou às voltas com Pavese:


Um atento leitor de Cesare Pavese sabe que A Praia será o menos político dos romances de Pavese.

A observação deixou-a, também, Pedro Mexia, no Expresso, quando em 2011 a Ulisseia reeditou A Praia.

Pavese resume A Praia como um relato da amizade de dois rapazes que uma mulher, casada com um deles, ao mesmo tempo une e separa.

Aparentemente nada acontece.

Quando o tempo de Verão era outro, tão lento, no devagar depressa dos tempo, para citar Guimarães Rosa: bebidas, bailes, jogos na praia, paixões de Verão, que as mães diziam que ficavam enterrados na areia, pores-de-sol, ambientes, sensações, estados de espírito, melancolias, situações de que a maior parte não se conseguem entender mas que gostamos de olhar e sentir, as aparências que revelam mais do que iludem, o carácter efémero das coisas, nostalgias de tempos perdidos, ele, Jorge Silva Melo que, naquele tempo, quando andava a ler romances arrepende-se de não ter dançado o twist e andar de carro descapotável.

No Verão todos os pecados se confundem.

Rilke dizia que só o Verão vale a pena, ou Ruy Belo, mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo Verão.

Jorge Silva Melo lê A Praia em 1965 e, ficou a moer por dentro que a novela poderia dar um filme.

«Sempre li Pavese com os meus “jeans”, uma camisa aos quadrados vermelha e os cigarros Porto que então fumava , entre os postais que regularmente punha no correio.»

Dessas leituras, dessas melancolias, em 1987, Jorge Silva Melo fez um filme e chamou-lhe Agosto.

 La Spiaggia, de Cesare Pavese, cuja acção se passa nos 40, na Itália do pós-guerra, e aborda a ascensão da burguesia intelectual depois de alguns anos de recuperação económica. O meu filme fala do momento em que li a novela: é mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostava de ter feito quando ainda não podia fazer cinema. E um filme que me faltou; é, talvez, o filme que gostava que a geração de João Bénard da Costa tivesse feito quando se encontravam na Arrábida.

Mas esse tal João Bénard da Costa percebe o recado, e de Agosto dirá: os anos 60 da Arrábida, que Jorge Silva melo imortalizou no seu belíssimo Agosto, ainda lhe revelaram coisas, a ele, que mais nenhum sítio de Portugal lhe podia revelar.

De novo, Jorge Silva Melo a falar de Agosto:

É um filme que tem saudades de um tipo de cinema que existia e era exibido em Lisboa.Um cinema que eu vi no Condes com salas cheias, que os meus pais viram, que as pessoas normais iam ver. Isto é, o cinema dos amores na praia. Esse género de filmes nunca foi feito em Portugal e este meu tem saudades desses filmes do tempo em que sonhávamos com as raparigas de «Vespa» na praia.

O meu filme fala do momento em que li a novela; è mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostaria de ter feito quando ainda não podia fazer cinema porque foi um livro que mais me marcou depois de O Estrangeiro do Camus.

Todos pensamos que aquela prosa impessoal e tão tocante foi escrita apenas para cada um de nós, que foi um sussurro que nos chegou de Itália, um segredo que nos contaram, que foi realmente só para nós.

A minha primeira leitura de A Praia foi encantadora, apressada como sempre são as minhas primeiras leituras de alguns livros, a que depois tenho, naturalmente, de voltar.

E volto até que os olhos me doam.

Gosto do filme do Jorge Silva Melo.

Gostaria de vos dizer o porquê, mas faltam-me unhas...

É em A Praia  que Pavese deixa escrita a frase que pelos tempos fora tem sido repetida, e sempre continuará a ser, e que vem na pág. 154 da minha velhinha edição de bolso da Portugália Editora:

Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz.

Se fosse vivo, Cesare Pavese faria hoje 106 anos.

 E tão cedo que ele nos deixou, quando apenas tinha 42 anos, e com tanto ainda para nos dar.

Em O Diabo Sobre as Colinas escreve que da sua infância só lhe ficara o Verão, e num daqueles muitos seus dias depressivos e tristes, escreveu: basta-me a companhia do mar. Não quero ninguém. Na vida não tenho nada de meu. Deixem-me ao menos o mar.

domingo, 24 de julho de 2022

CONVERSANDO

Continua este Verão sufocante.

Conversar.

Mas de quê?

Talvez livros, sempre os livros...

Ao acaso pego em A Lua e as Fogueiras de Cesare Pavese.

«Ele folheava os livros, batia com eles para sacudir o mofo, mas só por os tocar um bocado as mãos ficavam-lhe geladas. Eram coisas dos avós, do pai do sor Matteo, que tinha estudado em Alba. Havia uns escritos em latim como o livro da missa, daqueles com mouros e feras, e foi assim que vi como era o elefante, o leão, a baleia. Alguns, Nuto tinha pegado neles e tinha-os levado para casa debaixo da camisola, "também", dizia ele, "ninguém lhes dá uso".
- Para que os queres? - perguntei eu. - Não compras já o jornal?
- São livros - disse ele -, lê - os o mais que possas. Serás sempre um desgraçado se não lês livros.»

domingo, 26 de dezembro de 2021

QUANDO JÁ NÃO SÃO PRECISAS PARA NADA

7 de Setembro de 1968

E vou encerrar o meu dia agitado com esta frase que sublinhei mentalmente durante a leitura de Entre Mulheres Solitárias de Pavese:

«Maurizio diz sempre que se obtêm coisas, mas quando já não são precisas para nada.»

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume V

quinta-feira, 15 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO


A ideia de que a infância é poética é apenas uma fantasia da idade madura.

Cesare Pavese em Ofício deViver

sexta-feira, 2 de abril de 2021

POSTAIS SEM SELO


Acredito no que todos os homens esperaram e sofreram. Se outrora subiram a estes cumes pedregosos ou procuraram pântanos mortais sob o céu, foi porque aí encontravam alguma coisa que nós não conhecemos. Não era o pão nem o prazer nem a querida salvação. Estas coisas sabe-se onde estão. Não é aqui. E nós que vivemos longe à beira do mar ou nos campos, essa outra coisa perdemo-la.


Cesare Pavese

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

 


Apenas uma única vez perguntei por livro específico ao atual alfarrabista: O Ofício de Viver, «Sei, do Pavese, edição da Portugália: espere um momento. Saiu do balcão, subiu umas escadas, ouvi os seus passos no andar superior, logo volvendo, Quanto lhe devo? Ele disse, «Paga da próxima. Muita saúde». Gosto de ler diários, é género de escritor ocioso quando ao escritor falta talento; não será o caso do autor de O Ofício de Viver.

Francisco Duarte Mangas em A Cidade das Livrarias Mortas

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

SARAMAGUEANDO

Há um pedacinho nas Férias de Agosto de Cesare Pavese em que se lê: «… e era já manhã, um outro dia tranquilo. Recordo o perfume quente, as vozes nas ruas. Sei onde cai a uma certa hora a quadra do sol na tijoleira da sala.»

 Eu, ainda hoje, recordo a intensidade do sol, as vozes no quiosque, em Manteigas, quando olhei a capa do «24 Horas» e li que José Saramago poderia ganhar o Nobel. Comprei o jornal, não que eu acreditasse que alguma vez a Academia Sueca faria a atribuição do Nobel a um escritor de língua portuguesa e muito menos a um escritor português.

 Mas aconteceu.

 Um escritor português ganhou o Nobel, foi o primeiro.

 Terá sido o último?

 Um país então levantou-se em alegria, escreveu na altura Eduardo Prado Coelho:

 «É possível, como se viu nesta semana, que um país se levante em alegria porque alguém ganhou um prémio de literatura.»

 Muitos já terão esquecido essa alegria.

 Esteve bem a Fundação José Saramago, pelos 20 anos da atribuição do Nobel,  em publicar um livro, Um País Levantado em Alegria, da autoria de Ricardo Viel em que se desenha o caminho do que foi esse acontecimento, algo que se perdeu nas páginas dos jornais da época, acrescentando episódios desconhecidos.

 Em cento e setenta páginas viajamos por esse tempo que eu, mais alguns, direi inesquecível, e disso se dará conta por estes dias de triste e terrível confinamento.

 O livro abre com um texto de Eduardo Lourenço a que chamou «A mão esquerda de Deus…»:

 O merecido sucesso de José Saramago coroa um destino de escritor que deve tudo á violência da sua vontade de escalar os céus, sem pressa, dando tempo ao tempo. José saramago pertence a uma linhagem mais rara do que se julga, a dos que escrevem depois de ter vivido. E à mais rara ainda, sobretudo na nossa tradição, de não ceder à natural tentação de se vingar da vida, do mundo, da História, glosando compulsivamente a sua experiência subjectiva e fazendo girar o mundo à sua volta. Isso não o coloca fora de uma mais arcaica tradição nacional: a do alegorismo que é sempre espelho de uma verdade já revelada. No horizonte da sua ficção há essa íntima convicção de uma verdade de rosto exclusivamente humano que lhe servirá para invocar, por contraste, a inumanidade ofuscante que caracteriza o tempo da cegueira que nos coube. E lhe coube. Salvou-o da hagiografia e do dogmatismo um miraculoso dom de ironia e uma quase inexplicável candura ou simplicidade diante da vida, que a vontade e poderio e o cego arbítrio tantas vezes desvirtuam.

De hoje em diante haverá um «mito Saramago» como existe em torno de Fernando Pessoa, que, como todos os mitos, não tem tanto a ver com o valor das respectivas obras, mas com o vazio que vêm preencher no nosso imaginário nacional em busca do reconhecimento universal. Toda a nossa cultura beneficiará dessa aura que poderia ter recaído sobre outros, mas lhe coube e assenta como um diadema invisível ao autor de Todos os Nomes, a mais bela e profunda das suas alegorias.»

sábado, 19 de setembro de 2020

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

NA VIDA NÃO TENHO NADA DE MEU

Um atento leitor de  Cesare Pavese sabe que A Praia será o menos político dos romances de Pavese.

 A observação deixou-a, também, Pedro Mexia, no Expresso, quando em 2011 a Ulisseia reeditou A Praia.

 Pavese resume A Praia como um relato da amizade de dois rapazes que uma mulher, casada com um deles, ao mesmo tempo une e separa.

 Aparentemente nada acontece.

 Quando o tempo de Verão era outro, tão lento, no devagar depressa dos tempos, para citar Guimarães Rosa: bebidas, bailes, jogos na praia, paixões de Verão, que as mães diziam que ficavam enterrados na areia, pores-de-sol, ambientes, sensações, estados de espírito, melancolias, situações de que a maior parte não se conseguem entender mas que gostamos de olhar e sentir, as aparências que revelam mais do que iludem, o carácter efémero das coisas, nostalgias de tempos perdidos, ele, Jorge Silva Melo que, naquele tempo, quando andava a ler romances arrepende-se de não ter dançado o twist e andar de carro descapotável.

 No Verão todos os pecados se confundem.

 Rilke dizia que só o Verão vale a pena, ou Ruy Belo, mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo Verão.

 Jorge Silva Melo lê A Praia em 1965 e, ficou a moer por dentro que a novela poderia dar um filme.

 Sempre li Pavese com os meus “jeans”, uma camisa aos quadrados vermelha e os cigarros Porto que então fumava, entre os postais que regularmente punha no correio.

 Dessas leituras, dessas melancolias, em 1987, Jorge Silva Melo fez um filme e chamou-lhe Agosto.

 La Spiaggia, de Cesare Pavese, cuja acção se passa nos 40, na Itália do pós-guerra, e aborda a ascensão da burguesia intelectual depois de alguns anos de recuperação económica. O meu filme fala do momento em que li a novela: é mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostava de ter feito quando ainda não podia fazer cinema. E um filme que me faltou; é, talvez, o filme que gostava que a geração de João Bénard da Costa tivesse feito quando se encontravam na Arrábida.

Mas esse tal João Bénard da Costa percebe o recado, e de Agosto dirá: os anos 60 da Arrábida, que Jorge Silva melo imortalizou no seu belíssimo Agosto, ainda lhe revelaram coisas, a ele, que mais nenhum sítio de Portugal lhe podia revelar.

 De novo, Jorge Silva Melo a falar de Agosto:

 É um filme que tem saudades de um tipo de cinema que existia e era exibido em Lisboa. Um cinema que eu vi no Condes com salas cheias, que os meus pais viram, que as pessoas normais iam ver. Isto é, o cinema dos amores na praia. Esse género de filmes nunca foi feito em Portugal e este meu tem saudades desses filmes do tempo em que sonhávamos com as raparigas de «Vespa» na praia.

O meu filme fala do momento em que li a novela; è mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostaria de ter feito quando ainda não podia fazer cinema porque foi um livro que mais me marcou depois de O Estrangeiro do Camus.

Todos pensamos que aquela prosa impessoal e tão tocante foi escrita apenas para cada um de nós, que foi um sussurro que nos chegou de Itália, um segredo que nos contaram, que foi realmente só para nós.

 A minha primeira leitura de A Praia foi encantadora, apressada como sempre são as minhas primeiras leituras de alguns livros, a que depois tenho, naturalmente, de voltar.

 E volto até que os olhos me doam.

 Gosto do filme do Jorge Silva Melo.

 Gostaria de vos dizer o porquê, mas faltam-me unhas…

É em A Praia  que Pavese deixa escrita a frase que pelos tempos fora tem sido repetida, e sempre continuará a ser, e que vem na pág. 154 da minha velhinha edição de bolso da Portugália Editora:

Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz.

Se fosse vivo, Cesare Pavese faria hoje 106 anos.

 E tão cedo que ele nos deixou, quando apenas tinha 42 anos, e com tanto ainda para nos dar.

 Em O Diabo Sobre as Colinas escreve que da sua infância só lhe ficara o Verão, e num daqueles muitos seus dias depressivos e tristes, escreveu: basta-me a companhia do mar. Não quero ninguém. Na vida não tenho nada de meu. Deixem-me ao menos o mar.

 Texto publicado em 9 de Setembro de 2014