os meus verões são tão diversos como diversa
tem sido toda a minha vida arroz de pimentos e pasteis de bacalhau aos domingos
até algés ou cruz quebrada, o mar da infância ficava longe castelos na areia
anos mais tarde dois meses na trafaria em casa alugada a pescadores, quando as
férias eram grandes uma juke box na esplanada do marques o lucho gatica a
cantar o moliendo café o marino marini a cantar honeymoon também um barrote
espetado no meio do areal, um alti-falante no topo a ouvir-se o armando marques
ferreira a apresentar o programa da manhã do rádio clube português as canções
das praias de todos os anos uma kanimambo pelo joão maria tudela a lenda da
conchinha da celly campelo o ouro negro setembro chegou vamo-nos separar os
golfinhos a percorrer o tejo a caminho da barra os bailes de despedida dos
banhistas no salão de festas dos bombeiros e agora senhoras minhas meus
senhores o conjunto faz um pequeno intervalo damas ao bufete um enorme alguidar
de zinco cheio de gelo e garrafas de vinho branco camilo alves, cada taça vinte
e cinco tostões dois para esquerda um para a direita directrizes para o pezudo
que sempre fui as férias da infância não se repetem o ruy belo que esperava
pelo verão como por outra vida depois passei a odiar, o verão dou-me muito mal
com o calor longe muito longe da sophia que dizia que metade da vida dela era
maresia e eu a acreditar baixinho que o verão é um território do pecado, todos
os pecados se confundem e de pecados fujo a sete pés e gozar que nem um perdido
com a marilyn
monroe num filme do billy wilder a dizer ao vizinho de baixo que se
vai vestir à cozinha, o vizinho na cozinha porquê e ela a dizer que no verão
anda nua pela casa e põe as cuecas no congelador o verão prestes a chegar o meu
pai a dizer-me que em setembro voltamos a ser gente e sempre sempre os gatos
selvagens e o verão a chegar sur la plage por fim mas não como última coisa há
longos anos que deixei de passar férias e apenas sinto que as férias é que
passam por mim a uma velocidade tão louca e muito longe da calma e serenidade
das férias do sr. hulot ou brigitte bardot em 1955 de biquíni em saint-tropez,
aquele grande sorriso e o resto que poderá ser um refresco de limão, muito gelo
um dedal de gin e lembrar-me ainda que nunca usei óculos de sol
Não
será, como alguns dizem, o grande clássico de Jaques Brel, mas é uma
extraordinária canção.
Milhentas
são as versões que correm mundo pelos mais variados intérpretes.
Jacques
Brel considerou a versão de Nina Simone como algo de extraordinário, fazendo
referência ao modo como Nina fazia deslizar o seu francês e José Duarte, na sua
crónica a «A fotografia da música», não
deixou de salientar que «o sotaque do seu francês é saborosíssimo».
Existe
uma outra excelente versão da canção de Brel, uma interpretação da
brasileira Maysa Matarazzo. Possivelmente Brel ouviu-a mas não conheço qualquer
referência que lhe tenha feito.
Hoje
ficamos com a versão de Nina Simone, numa outra ocasião, traremos aqui Maysa.
sexta-feira, 22 de outubro de 2021
PYE
- PATS 7002
Make Me An Island – If You Care A Little Bit About Me
Permitam-lhe que ele desarrume a memória e que, por uma história de nada – ou
de tudo? – ponha o Joe Dolan a rodar.
Um café de província, Alfeizerão, junto a uma bomba de gasolina, uma bomba de
gasolina da Mobil, que não era como as bombas de gasolina que o imaginário dos
filmes americanos lhe transmitiu.
Duas, três mesas, uma jukebox a um canto, todas as sextas-feiras do último mês,
de quase quarenta meses de tropa, dez tostões na ranhura da jukebox e o Make Me An Island do Joe Dolan a cantar
no sonolento café, 2, 3 gins tónicos a completar o cenário.
Ele que até à data, depois de um milhão de gin-tónicos – chapelada a Mr.
Humphrey Bogart – bebidos, em muitos e diversos bares, uns rascas, outros a
armar ao fino, terá sempre na memória o sabor daqueles gins.
As circunstâncias fazem milagres e ele sabe que os gins eram merdosos e
aproveita para citar Nuno Júdice: nada nos faz reviver melhor o
passado do que um cheiro que em tempos lhe esteve associado.
É isso.
O gin era marca Bols, a água tónica
era Canada Dry, o limão não tinha
casca, o dono do café aproveitava as cascas para os martinis, o gelo tirava-o
das paredes da geladeira dos gelados Olás,
mas nada, que Joe Dolan e o seu Make Me
An Island, o saber que, em passo de corrida, o findar da tropa se aproximava
não fizessem esquecer.
Terminou a tropa ao bater do meio-dia de 30 de Setembro de 1970.
Apanhou a camioneta azul da carreira dos Claras,
chegou a casa, pegou na Aida e zarpou para Os
Perús, à Praça do Chile, frango assado, no dizer do escritor e jornalista
Rui Cardoso Martins, os melhores frangos assados do mundo, uma garrafa de
tinto Aliança, pudim flan, Antiqua, em balão aquecido, se faz
favor, e ala que se faz tarde para o 3º anel da Luz, que ainda não
era Catedral, ver o Glorioso espetar 8 a 1 no Olimpija, uma rapaziada que em
Liubilana, na 1º mão da 1ª eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus,
tinha cometido a soberba proeza de empatar a um golo.
Para o informe ficar como deve ser:
O árbitro foi o Sr. Queudeville do Luxemburgo e o Glorioso alinhou com José
Henrique na baliza, Malta da Silva, Humberto Coelho, Zeca e Toni (Barros entrou
aos 80 m), Jaime Graça, Matine, Simões (capitão), Artur Jorge, Torres e
Eusébio.
O treinador era o inglês Jimmy Hagan, o garagista.
O pantera negra meteu 5 golos, Zeca, Artur Jorge, Jaime Graça, completaram o
placard.
Na jukebox de um café de província, junto a uma bomba de gasolina, Joe Dolan
acabou de soltar os últimos versos take me and break me and make me an
island, I'm yours.
Ainda sente o último gole de gin antes de se pôr a caminho para o último
recolher do dia, no RI 5 das Caldas da Rainha, a mesma porta de armas por onde,
42 meses depois, por um 16 de Março, um grupo de militares saiu, a caminho de
Lisboa, para aquilo que, ainda hoje, ninguém sabe explicar muito bem o que foi.
Um ensaio para o 25 de Abril, dizem os que pormaiores querem abreviar.
Há
empresas que só fazem marcações através da aplicação da empresa.
E
se eu não tiver telemóvel?
Se
eu não souber o que é uma aplicação?
Se
eu não quiser que as empresas tenham o meu número de telefone, ou telemóvel ou
os meus dados pessoais?
A
automação de serviços elementares, a robotização de atendimento tomou conta do
nosso quotidiano.
Por
outro lado qualquer mensagem, seja do que for, avia-se rapidamente através de
um e-mail de um SNS, ou uma qualquer laracha deixada no facebook, no raio
que os parta a todos, porque tudo agora se despacha com um toma lá e não chateeis
mais, coisas que deixam um sabor frio e triste.
Já ninguém escreve a ninguém.
O Coronel de um romance do Gabriel Garcia Marquez esperava ansiosamente o dia
em que a data da reforma chegasse por carta, enquanto a mulher, aparvalhadamente,
o enchia de minudências:
-
Gostaria de plantar rosas,
disse.
-
Se quer plantar rosas, porque não planta?,
perguntou o Coronel.
-
Os porcos comem-nas
todos, disse a mulher.
-
Óptimo, porco engordado com rosas deve ser muito bom, disse o Coronel.
As mulheres são mesmo o diabo.
O António Alçada Baptista contava que, sempre que a mulher se punha com
arrumações, lhe aparecia com listas telefónicas na mão que faço a isto, Alçada interrompia a leitura e murmurava: Olhe: dê aos pobres!
Já
ninguém escreve a ninguém.
Há
uma velha canção dos Box Tops: The
Letter.
Cansado dos dias solitários tenho que
regressar depressa a casa e nem posso ir de comboio rápido, terei que apanhar
um avião, não sei o que isso me vai custar, mas tenho de regressar a casa
porque a minha miúda, numa carta, diz que não pode viver sem mim.
Já agora, a propósito, ou a despropósito, fiquem-se com uma história, lida já
não sabe onde, ou contada já não sabe por quem:
Durante as actividades num campo de férias, o monitor perguntou à rapaziada,
como preferiam receber, de um amigo distante, o convite para um encontro.
Dividiram-se as opiniões, uns disseram logo que seria por e-mail, outros por
SMS, mas uma moça disse:
- Preferia receber por carta.
Sentiu os olhares de espanto – por carta? - e em voz lenta, mas clara,
explicou:
Porque uma carta dá mais trabalho a escrever e ainda é preciso comprar um selo,
metê-la no correio. E depois, se for verdadeiramente meu amigo, ainda me vai
mandar qualquer coisa a acompanhar: uma pétala de flor, uma qualquer
ilustração...
Ainda
eu não tinha apanhado o swing de Sammy Davis Jr., já dele sabia, anos 60, por
ter ouvido contar que, num escândalo para a época, ter casado com a loira
actriz sueca May Britt.
Por
que raio o amor havia de ter cor?
Este
standard Hey There tem inúmeras
versões mas gosto particularmente da de Sammy Davis.
Penso que já escrevi mas
repito:
Caetano
Veloso disse um dia que a gente teria outra alma, se não tivesse ouvido estas
canções.
Seríamos espiritualmente menos ricos se não tivéssemos ouvido Without
a Song in My Heart, Let’s Face the Music and Dance.
Pelo seu lado o jornalista brasileiro Paulo Francis disse que uma das razões
por que morrer o incomodava era não ouvir mais as canções de Cole Porter.
Por humor, por ironia, espirra do computador a velha frase: I haven’t changed, only the times have changed.
Gosta de uma canção reaccionária que dá pelo nome de «Quando Sali de
Cuba», de um tal Luís Aguille, e que se transformou num hino dos refugiados
cubanos em Miami e das várias máfias que por ali serpenteiam. Gente que entende
que estrangular Cuba economicamente é um direito perfeitamente humano dos
Estados Unidos. Cuba disso se defender, é uma desumanidade.
Quando Sali de Cuba
Dejé mi vida dejé mi amor
Quando Sali de Cuba
Dejé enterrado mi corazon
Pode-se gostar dos versos da “Guantanamera” de José Marti, mi verso es de un
verde claro, e ao mesmo tempo, deste lamento de quem sai de Cuba porque
entende que um automóvel e outras mordomias são mais importantes que os
cuidados de saúde e educação?
Não devia ser possível, mas é!
Jantares em casa do Luís Mira acabavam com meia dúzia de canções “for the
road”: “My Daddy and Me”, do Tom Paxton, “Yolanda”, do Robert Wyatt, “The
Lonely Dancer”, do Ian Matthews, “Red River Valley”, do Ed McCandy e “Quando
Sali de Cuba”, dos Sandpipers.
Possivelmente vão chamar-lhe alguns nomes. Pensa que é um péssimo número, um
atentado a tudo e mais alguma coisa, mas não consegue sequer disfarçar. Há
fraquezas a que nunca conseguiu dar a volta e já está velho para mudar. Será,
então, justo tudo o que lhe chamarem.
Daqui a pouco vai acordar com aquela sonolência-turbulência de arrastar os pés
após as garrafas de “Murganheira” da véspera. Entretanto, encherá um copo de
água e deixará cair o “Guronsan”. Vagarosamente, ficará a olhar as bolinhas
efervescentes. Vai pôr um bocadinho de água na estrela de Natal, tirará uma ou
duas folhas amarelecidas aos amores –perfeitos e irá à estante tirar a
Liberdade, Liberdade, peça de teatro de Flávio Rangel e Millôr Fernandes.
Irá ler:
Os falangistas, grupo de direita, tinham um hino “Cara al Sol".
Nara Leão e o coro cantam:
Cara ao sol, com a camisa nova,
Que tu bordaste, companheira,
Vou sorrindo a encontrar a morte
E não volto a te ver
Voltarão bandeiras vitoriosas
O passo alegre pela paz;
E trarão, vermelhas, cinco rosas
Do sangue do meu coração,
Voltará a rir a primavera
Cara al sol, para sempre eu estarei
Arriba Espanha, Espanha livre
Viva Espanha, meu amor Espanha”
E Paulo Autran, como narrador, adverte:
“Portanto cuidado. As tiranias também compõem belas canções”.
Se não perceberem por que é que isto aparece aqui, não se preocupem. Ele também
não, mas o Guronsan está a saber-lhe muito bem…
No Teatro Virgínia, em Torres Novas, no dia 21 de Dezembro, num
espectáculo inicialmente anunciado como celebração de 50 anos de carreira, mas
que o músico, veio a revelar ter siso o da sua despedida dos palcos, Pedro
Barroso declarou que não abandona a intervenção crítica, nem a cidadania,
enquanto o último neurónio o permitir.
Na contracapa do álbum Do Lado de Cá de Mim, o crítico Viriato
Teles escrevia que o Pedro Barroso não era o melhor cantor do mundo, mas um
cultivador de cantigas simples, fadigas sem conta, reflexo de um tempo e de um
espaço bem definidos, fazendo o que se pode, como se pode.
Pedro Barroso gravou com Patxi Andión a canção «Rumos» que será
incluída no CD «Novembro» a publicar brevemente.
Patxi Andión, no dia 18 de Dezembro, morreu num estúpido despiste de
automóvel na província de Soria.
Tanto Pedro Barroso como Patxi Andión foram revelados ao público
português, no ano de 1969, através do programa Zip-Zip.
Arrumações tendo em vista o Natal que se aproxima.
E de repente, cai este velho disco da Eurovisão de 1967, quando as
canções da Eurovisão eram mesmo canções e não um folclore de macacadas e
efeitos especiais, excepção feita ao nosso Salvador Sobral em que se chegou a
pensar que o Festival poderia voltar aos velhos tempos… mas não… não voltou…
Devem lembrar-se que a Sandie Shaw apresentou-se a cantar Puppet on
s String, descalça.
Conversa puxa conversa e, de repente, saltou que também existe uma
canção do Elvis Presley que faz parte de um filme do Elvis que nunca vi. Também
se chama Puppet on a String e, escusado será dizer, que o Elvis é sempre
o Elvis e o que canta faz a sua diferença.
Gilda era Rita Hayworth
num tempo em que havia filmes.
Uma canção
«Amado Mio», muitos anos depois revisitada por Pink Martini, uma orquestra que
me foi revelada pelo meu filho Mário, que nos levou a vê-los ao vivo na Aula Magna, 11 de Novembro de 2005, Como
éramos tão novos!...
Canta canta amigo canta
vem cantar a nossa canção
tu sozinho não és nada
juntos temos o mundo na mão
Erguer a voz e cantar
é força de quem é novo
viver sempre a esperar
fraqueza de quem é povo
Viver em casa de tábuas
à espera dum novo dia
enquanto a terra engole
a tua antiga alegri
O teu corpo é um barco
que não tem leme nem velas
a tua vida é uma casa
sem portas e sem janelas
Não vás ao sabor do vento
aprende a canção da esperança
vem semear tempestades
se queres colher a bonança
Eu não lembro se
Heartbreak Hotel foi a primeira canção que ouvi do Elvis, mas sei que
foi aquela que durante mais tempo ouvi. E ainda ouço.
Os pais dos
rapazes do liceu onde John Lennon andava, diziam: «Mantém-te afastado
daquele tipo.»
Lennon não sabia
o que queria ser, excepto que queria acabar como milionário excêntrico. «Se
não conseguisse chegar lá sem ser criminosos, então teria de ser criminoso.»
Mas apareceu
Elvis Presley.
«Foi o Elvis que me tornou viciado em música beat.
Ouvia Heartbreak Hotel e pensava: «É mesmo isto.»