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terça-feira, 21 de outubro de 2025

ELOGIO DA DIALÉTICA

A injustiça avança hoje a passo firme;
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

Bertold Brecht

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

TEMPOS DIFÍCEIS

De pé à escrivaninha

Vejo pela janela no jardim um sabugueiro

E reconheço nele coisas vermelhas e pretas

E lembro-me de repente do sabugueiro

Da minha infância em Augsburgo.

Vários minutos fico a pensar

Muito a sério, se irei ou não à mesa

Buscar os óculos para ver outra vez

As bagas pretas nos raminhos vermelhos.

 

Bertold Brecht em Poemas e Canções

sexta-feira, 20 de maio de 2022

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


O secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou à acção do Conselho de Segurança na questão da segurança alimentar, alertando que a fome aguda afectava, no ano passado, cerca de 140 milhões de pessoas em apenas 10 países, Afeganistão, República Democrática do Congo, Etiópia, Haiti, Nigéria, Paquistão, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iémen, ao mesmo tempo afirmou que cerca de 67% das pessoas subnutridas do mundo vivem em áreas afetadas por conflitos.

A eterna pergunta:

Mas para que serve a ONU?

Quase se pode concluir que toda aquele gente, chorudos ordenados e regalias várias, apenas assiste, sentada em secretárias a guerras e à fome no mundo.

Tempo para lembrar Bertolt Brecht:

O HORROR DE SER POBRE

 Risco c’ um traço

(um traço fino, sem azedume)

todos os que conheço, eu mesmo incluído.

Para todos estes não me verão

nunca mais

olhar com azedume.

 

O horror de ser pobre!

Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver-lhes

as caras alguns anos depois!

Cheiros de latrina e papéis de parede podres

atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros.

As couves aguadas

destroem planos que fazem forte um povo.

Sem água de banho, solidão e tabaco

Nada há que exigir.

O desprezo do público

arruína o espinhaço.

 

O pobre

nunca está sozinho. Estão todos sempre

a espreitar-lhe para o quarto. Abrem-lhe buracos

no prato da comida. Não sabe pra onde há-de ir.

O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá para dentro.

A Terra enxota-o. O vento

não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia

deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.

Mas nada ajuda

Quem dinheiro não tem.

 

Em Poemas e Canções, selecção e versão portuguesa de Paulo Quintela

sábado, 1 de maio de 2021

DE QUE SERVE A BONDADE


1

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor:
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio! 

Bertolt Brecht em Poemas eCanções

terça-feira, 8 de maio de 2018

QUANDO NOS MÁGICOS CARROCÉIS


Quando nos mágicos carrocéis
Cavalgava à compita c’os meninos –
A baloiçar-me em trapézios e cordéis
Pra claro e belo céu feliz como os meninos –
Parava muita gente à minha volta a rir
E diziam todos como minha mãe:
Ele é outra pessoa, é outra pessoa,
É outra pessoa de todo diferente de nós.

Quando estou sentado ao pé de gente fina
E me ponho a contar o que inda ninguém sabe,
Fico todo a suar ao ver a gente fina
- Que não está a suar – a rir como ela sabe.
Todos sentados à roda de mim e a rir
E todos a dizer como minha mãe:
Ele é outra pessoa, é outra pessoa,
É outra pessoa de todo diferente de nós.

E quando um dia for para ao Céu
- porque vou para lá, parem aí c’o riso! –
Dizem os santos todos da Corte do Céu:
Só este nos faltava pra o perfeito Paraíso!
Põem-se a olhar pra mim e desatam a rir
E todos a dizer como minha mãe:
Ele é outra pessoa, é outra pessoa,
É outra pessoa de todo diferente de nós.

Bertolt Brecht em Poemas e Canções

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Teatro I
Ti Coragem e os Seus Dois Filhos
A Boa Alma de Sé-Chuão

Bertolt Brecht
Tradução: Ilse Losa
Poemas de Ti Coragem e os Seus Dois Filhos traduzidos por Jorge de Sena
Poemas de A Boa Alma de Sé-Chuão traduzidos por Alexandre O’Neill
Capa e desenho: Tóssan
Portugália Editora, Lisboa, 1961

A Canção do Fumo

O avô:

Em tempos, ainda não tinha eu estes cabelos brancos,
Julgava poder viver perfeitamente
Só da minha esperteza, como tantos…
Mas hoje sei: não há esperteza que sobre
Para encher o estômago dum pobre.
Portanto digo: deixa-te disso,
Olha o fumo cinzento que vai para além
De regiões frias, cada vez mais frias.
Assim vais tu também…

O homem:

Vi espancar os bons, vi espancar os justos,
E resolvi então seguir o meu caminho,
Mas por esse caminho, nós, os brutos,
Ainda mais brutos vamos ser.
Agora já não sei o que fazer.
Portanto digo: deixa-te disso,
Olha o fumo cinzento que vai para além
De regiões frias, cada vez mais frias.
Assim vais tu também…

A sobrinha:

Oiço dizer que os velhos já não esperam
Pois o tempo – e o tempo é tudo! – já lhes falta,
Que aos jovens como eu – foi o que me disseram –
A porta se oferece escancarada,
Mas disseram-me ainda: aberta sobre o nada.
E então digo também: deixa-te disso,
Olha o fumo cinzento que vai para além
De regiões frias, cada vez mais frias.

Assim vais tu também…

quarta-feira, 2 de março de 2016

CANÇÃO ALEMÃ


Outra vez falam eles de tempos novos
(Ana não chores)
O merceeiro já não nos fia os ovos.

Outra vez estão eles de honra a falar
(Ana não chores)
No armário não há nada do que vamos precisar.

Outra vez estão eles de vitórias a falar
(Ana, não chores)
A mim é que eles me não hão-de apanhar.

Exércitos a marchar
(Ana não chores)
Mas quando eu voltar
Volto sob outras bandeiras.

Bertolt Brecht em Poemas e Canções

terça-feira, 3 de novembro de 2015

ELOGIO DA DIALÉCTICA


A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo não diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

Bertold Brecht em Poemas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

DE QUE SERVE A BONDADE?


 1 

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio! 

Bertolt Brecht em Poemas e Canções


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poemas e Canções

Bertolt Brecht
Selecção e versão portuguesa de Paulo Quintela
Livraria Almedina, Coimbra 1975

Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
 

Viajar, cantar
Ser amável.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1974


16 a 31 de Outubro

A F.N.L.A, único dos movimentos emancipalistas armados angolanos que mantinha uma actividade militar efectiva, ordenou a todos os combatentes o cessar-fogo.
Agostinho Neto:
O povo angolano já conquistou através de 13 anos de luta heroica o direito à sua independência.

OS TRABALHADORES do Jornal do Comércio, empresa do Grupo Borges & Irmão, terminaram a greve, iniciada há 33 dias, quando a administração recusou negociar o caderno reivindicativo então apresentado e no qual se exigia o saneamento do director do jornal, Carlos Machado.
Entretanto, em consequência da intentona de 28 de setembro, as autoridades militares passaram um mandato de captura contra Carlos Machado, o que levou a administração a reconsiderar a sua posição.

O PRESIDENTE Costa Gomes discursa perante a Assembleia Geral da ONU no dia 17:
Não mais admitiremos trocar a liberdade de consciência colectiva por sonhos grandiosos de imperialismo estéril.

PROJECTO DE Lei Eleitoral:
- Direito de voto aos 18 anos e para emigrantes.
- Não podem ser eleitores os indivíduos comprometidos em organizações antidemocráticas.

- Obrigatório e oficioso o recenseamento.


COM A PRESENÇA do Ministro da Justiça, Salgado Zenha, de representantes dos partidos políticos, de muito povo, a Ponte Salazar passou a chamar-se Ponte 25 de Abril.

SEIS MESES volvidos sobre o 25 de Abril.

O Diário de Notícias perguntou a uma série de personalidades:

Que pensa destes seis meses decorridos desde o 25 de Abril?

Respigaram-se estes:

Ilse Losa:
Duma maneira geral, no País e no estrangeiro tinha-se o povo português como pachorrento, passivo e desalentado. Durante quase meio século dominado por um grupelho poderoso que não se dignava dar-lhe a mínima satisfação sobre as medidas tomadas e o dinheiro gasto, parecia, de facto, alheio o seu próprio destino. Eis que em 25 de Abril, a mais humana revolução desde sempre, fez estalar a casca da indiferença e de aparente adormecimento, e surge-nos um povo decidido a provar que se conservou vivo apesar de tudo e de todos.
José Augusto França:
É claro que há gente que não tinha e ainda não tem vergonha – e muito há fazer em todas as frentes, da cultura à economia, para evitar enganos de governo, mal-entendidos de partidos, e, numa história que corre veloz, perdas de tempo. Após estes seis meses, há que ganhar sem descanso outros meses e outras batalhas que hão-de vir. A revolução de 25 de Abril é um facto da civilização e, portanto, um facto moral.
José Cardoso Pires:
Nestes seis meses vivemos mais do que em vinte anos.

Luzia Maria Martins:

Quantos anos serão necessários para que surja essa nova sociedade ansiada pela maioria? Não me atrevo a fazer previsões neste campo. Creio que já é importante que estejamos a caminhar para ela. E  estes seis meses têm sido uma experiência notável, e, na sua generosidade, muito positiva.

Paulo Quintela:

O meu ofício é estudar poetas e transmitir-lhes a mensagem. Ora, os poetas, em momentos altos, são também profetas. Um deles, e dos maiores e mais castigados pelas desgraças do nosso século, Bertolt Brecht, deixou-nos estes versos que agora entrego à vossa meditação, como «vademecum» de todo o homem que quer ser livre e quer ajudar a construir um mundo de justiça e de razão:

De que Serve a Bondade

I

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

II

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio! 


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo.

terça-feira, 11 de junho de 2013

O COMBOIO DE SERVIÇO

1

Por ordem Expressa do Fuhrer,
O comboio de luxo expressamente feito para o congresso do Partido em Nuremberga
Recebeu o nome simples de COMBOIO DE SERVIÇO.
                                               O que quer dizer que
Os que o tomam prestam com isso um serviço
Ao povo alemão.


2

O comboio de serviço
É uma obra-prima da técnica ferroviária. Os passageiros
Têm apartamentos privativos. Pelas largas janelas
Vêem os camponeses alemães mourejar os campos.
Se por acaso transpirassem nesse momento
Poderiam tomar banho
Em cabines cobertas de ladrilhos.
Um sutil sistema de luzes permite-lhes
Ler à noite, de pé, sentados ou deitados, os jornais
Com as grandes reportagens sobre os benefícios do regime
Os vários apartamentos
Comunicam entre si por linhas telefônicas
Tal como as mesas dos grandes dancing's cujos clientes
Podem pedir às mulheres das mesas vizinhas
O preço que cobram.
Sem sair da cama os passageiros também podem
Ligar o rádio, que transmite as grandes reportagens
Sobre os erros do regime. Jantam,
Se assim o desejarem, no respectivo apartamento, e fazem as respectivas necessidades
Em privadas revestidas de mármore.
Cagam
Na Alemanha.
Bertold Brecht, Poemas, Selecção, tradução e notas de Arnaldo Saraiva, Editorial Presença, Lisboa s/d

quinta-feira, 11 de abril de 2013

PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO LETRADO



Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht, Poemas, Selecção, tradução de Arnaldo Saraiva, Editorial Presença, Lisboa s/d

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

OLHAR AS CAPAS



Poemas

Bertold Brecht
Selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva
Colecção Forma nº 6
Editorial Presença, Lisboa s/d

Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar. É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem? Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.

Você é um idiota.
Está realmente a escutar-me?
Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então
Repito: você é um idiota.
Um idiota.
I como Isabel; D como Dinis; outro I como Irene; O como Orlando; T como Teodoro; A
                               como Ana.
Idiota.

Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada. Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.
Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes.
Se você não é um I.
Claro, a você não lho dirão,
Porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas
Os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.

É típico que você o negue.
Isso mesmo: é típico que o I negue que o é.
Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um I.
É francamente fatigante.

Como vê, preciso de dizer mais uma vez
Que você é um I.
E no entanto não é desinteressante para você saber o que você é
E no entanto é uma desvantagem para você não saber o que toda a gente sabe.
Ah sim, acha você que tem exactamente as mesmas ideias do seu parceiro.

Mas também ele é um idiota.
Faça favor, não se console a dizer
Que há outros I.
Você é um I.
De resto isso não é grave.
É assim que você consegue chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague.
Na qualidade de I você não precisa de se preocupar com mais nada.
E você é I.
(Formidável, não acha?)

Você ainda não está ao corrente?
Quem há-de então dizer-lho?
O próprio Brecht acha que você é um I.
Por favor, Brecht, você que é um perito na matéria, dê a sua opinião.
Este homem é um I.
Nada mais.

Não basta tocar o disco uma só vez.

domingo, 6 de maio de 2012

CANÇÃO DA MINHA MÃE


1.   Já me não lembro, de como era quando ela ainda não tinha dores. Afastava de leve e cansada os cabelos negros da testa, que era magra, a mão ainda a vejo ao fazer aquilo.

2.   Vinte invernos tinham-na ameaçado, os seus sofrimentos eram legião, a morte envergonhava-se diante dela. Então morreu, e foi-se dar com um corpo de criança.

3.   Ela cresceu na floresta.

4.   Morreu entre caras que olharam demasiado para o seu morrer, e que nisso tinham endurecido. Perdoavam-lhe que ela sofresse, mas ela avançou errante por entre aquelas caras, antes de cair de todo.

5.   Muitos partem de nós sem que os detenhamos. Dissémos-lhes tudo, não havia mais nada entre eles e nós, as nossas caras endurecem à despedida. Mas o importante não o dissémos, antes poupámos no necessário.

6.   Oh, porque é que não dizemos o importante, seria tão fácil e somos amaldiçoados por isso. Eram palavras leves, mesmo por trás dos dentes, caíam cá para fora ao rir, e sufocamos com elas n garganta.

7.   E agora a minha mãe morreu, ontem, ao cair da tarde, no 1º de Maio! Não se pode arrancá-la da terra com as unhas das mãos!


Bertold Brecht em Poemas e Canções, Selecção e Versão Portuguesa de Paulo Quintela,  Livraria Almedina, Coimbra, Outubro 1975


Legenda: Pietà

terça-feira, 20 de março de 2012

HÁ SILÊNCIOS QUE DOEM!


Em plena ditadura (1960) Alexandre O’Neill escreveu o Poema Original do Medo.

As suas palavras avisavam que o medo ia ter tudo, penso no que o medo vai ter e tenho medo, que justamente o que o medo quer e cada um por seu caminho havemos de chegar todos a ratos.

Para ainda ficarmos entre poetas, cite-se o francês Eugène Guillevic quando escreveu: é mau quando a gente se habitua.

O povo e os trabalhadores portugueses não necessitam que lhes falem dos números de desempregados, das famílias que se deixaram loucamente endividar pelos bancos, porque, diariamente, sentem isso na pele.

Os que nos conduziram, à precaridade, ao estado de miséria, sim miséria!, em que vivemos, passeiam-se, por aí, na maior das impunidades.

Botam discurso, dizem que nos temos de sacrificar, até ao limite da fome, para que a banca não vá ao fundo, para que eles possam continuar a usufruir de chorudos ordenados de benesses múltiplas e várias.

Uma aberrante que é eurodeputado do CDS no Parlamento Europeu, em entrevista, arrotou um destes dias:

Cada greve feita acaba por ser uma machadada na imagem do país.

Tempos dramáticos, os tempos que vivemos.

Mais, ainda, quando olhamos a atónita passividade, com que grande parte dos portugueses enfrenta a dramática situação e sem que pressinta, nem de perto nem de longe, qualquer luzinha ao fundo do túnel

É aqui que entra o medo de que falava o O’Neill?

É!

O medo paralisou os portugueses.

Mas dizer: quando a situação pode depender de nós, há que lutar, há que vincar a forte indignação a que temos direito.

Para podermos chegar á tal cidade sem muros, nem ameias, de que já falava José Afonso, ou o Elogio de Um Revolucionário, de que falava um tal de Bertold Brecht:

Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.
Interroga o capital:
De onde vens?
Pergunta a cada ideia:
Serves a quem?
Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino,
ele cita os nomes.
À mesa onde ele se senta
 senta-se também a insatisfação.
A comida sabe mal e a sala  torna-se estreita.
Aonde o perseguem chega a revolta
e de onde o expulsam persiste a agitação.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

UM FILME DO CÓMICO CHAPLIN



A um café do Boulevard Saint-Michel
Chegou um jovem pintor numa chuvosa tarde de Outono.
Bebeu quatro ou cinco cálices de um licor esverdeado
E pôs-se a contar aos ociosos jogadores de bilhar o encontro comovido
Com uma amada de outrora, muito meiga mulher
No momento casada com um rico carniceiro.
«Meus senhores, suplicou, dêem-me depressa, por favor,
O giz que colocam na ponta dos tacos.» Depois, de joelhos,
Tentou com a mão trémula fazer o retrato
Da amada dos dias idos. Mas logo desesperado
Apagou o que fizera, começou de novo,
E de novo parou, e outros traços traçou
Enquanto repetia: «Ainda ontem o sabia».
Clientes tropeçaram, resmungando, nele. O gerente, furioso,
Pegou-o pela gola do casaco e pô-lo no olho da rua. Já no passeio,
Ele abanava a cabeça e ainda perseguia com o giz
os traços fugitivos.

Bertold Brecht em Poemas

Legenda: fotografia de Willy Ronis

domingo, 24 de abril de 2011

PRIMAVERA DE 1938


Hoje, domingo de Páscoa, de manhã
Passou pela ilha uma tempestade de neve.
Entre as sebes verdejantes havia neve. O meu filhinho
Pra me mostrar um pequeno damasqueiro junto à casa
Veio arrancar-me a um verso em que apontava com o dedo
Para aqueles que estão a preparar uma guerra que talvez
Venha a destruir o Continente, esta ilha, o meu povo,
A minha família e a mim. Calados
Pusemos um saco
Sobre a árvore gelada

Bertolt Brecht em Poemas e Canções.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O TEMPO DAS CEREJAS


Dizem-me: as cerejeiras começam a florescer.

Claro que não vale a pena lamuriar o já não esperarmos a fruta da época porque as frutas se estendem por todo o ano, vindas daqui, dali, dacolá.

No Natal, vindas do Chile, é possível comprar cerejas.

O ciclo, o ritmo das estações, já não é aquele que aprendemos na instrução primária, juntamente com as serras e os rios, os seus afluentes, as linhas férreas de Moçambique e Angola.

Mas é acariciante saber que para os lados da Gardunha, nos quintais por aí, as cerejeiras começam a estar em flor.

O LADRÃO DE CEREJAS

“Uma manhãzinha, muito antes do cantar do galo,
Fui acordado por um assobio e fui à janela.
Na minha Cerdeira – o crepúsculo enchia o jardim –
Estava sentado um moço de calças remendadas
A colher muito animado as minhas cerejas. Ao ver-me
Acenou-me co’a cabeça, e com ambas as mãos
Colhia as cerejas dos ramos para os bolsos.
Durante muito tempo, já outra vez na cama,
Ainda o ouvi assobiara a sua canção alegre.”

Bertolt Brecht em “Poemas e Canções”, tradução  de Paulo Quintela, Livraria Almedina, Coimbra, 1975.

Legenda: “O Tempo das Cerejas”, aguarela de Bruschetti

sexta-feira, 25 de março de 2011

ELOGIO DA DIALÉCTICA


“A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo não diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.”

Bertolt Brecht em “Poemas”, tradução de Arnaldo Saraiva, Editorial Presença, Lisboa s/d