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quinta-feira, 16 de abril de 2026

CLARA

Disse que se chamava Clara

e sentou-se na mesa, chamando

o criado para pedir um uísque irlandês.

Eles abriram mais espaço, cruzaram

as pernas, perguntaram se os charutos

a incomodavam. Clara disse: «Não!»

Pediu mesmo se lhe ofereciam um.

«Claro!», ofereceu o mais jovem,

emprestando-lhe a tesourinha

niquelada. Disseram banalidades,

vieram mais bebidas. Clara traçava

o rumo da conversa, entre baforadas

azuladas. Quando ela saiu, descruzaram

as pernas e ficaram sem saber o que dizer.

Eduardo Guerra Carneiro em Profissão de Fé

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

GATO

Chama-se Luís o gato do terceiro

e é companheiro de um mestre filósofo.

Em madrugadas altas há por vezes sobressalto,

quando o bichano acorda mal disposto.

O professor, sábio também

em jogos de paciência, acalma

o animal e já o mima. Trata-se,

vendo bem, de outra ciência,

tão difícil de conseguir como

um estudo de Pessoa. Chama-se Agostinho

da Silva, o do terceiro, e tem um gato

com quem, à vontade, discreteia.

Luís, discípulo, ronrona baixinho.

Tudo vai bem, assim, no sete desta rua.

 

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

RETRATOS SOLTOS


Não conheci pessoalmente Luís Veiga Leitão, mas Marta Cristina Araújo, que com ele privou, falou-me da sua extrema sensibilidade, da sua cultura, da sua luta política contra o fascismos, dos maravilhosos desenhos, com que ilustrou alguns dos seus livros.

Daniel Filipe tem um bonito texto sobre os cafés do Porto e segundo o jornalista Germano Silva, o café que Daniel Filipe invoca nessa crónica, é o Café Rialto, que já não existe. Ficava na Praça D. João I  e uma das tertúlias reunia o Daniel Filipe, o Egito Gonçalves, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão, o António Rebordão Navarro, às vezes o José Augusto Seabra. Mantinham na altura uma colecção de poesia: Notícias do Bloqueio.

Na Biblioteca da Casa havia pouquíssimos livros de poesia: Bocage, Luís de Camões, José Régio, Cardoso Marta, pouco mais.

Os poetas que nos impingiam nas Selectas Literárias, por onde estudei, eram uma treta. Falei ao meu pai sobre a necessidade de alargar horizontes que falassem de futuro, amanhãs, revolta, liberdade, esperança, luta, paz.

Pôs-se em campo e sugeriram-lhe os diversos poetas da Colecção Poetas de Hoje editada pela Portugália.

Foi aí que, entre outros, conheci Luís Veiga Leitão, o nº 16 da Colecção, Ciclo de Pedras, com prefácio de Fernando Guimarães.

O poema que hoje se publica pertence a Noite de Pedra.

Em 30 de Março de 1952 Luís Veiga Leitão foi preso pela PIDE e ficou em Caxias cerca de um ano. Na cela 13 do Aljube, incomunicável, iniciou a redacção mental dos poemas que memorizava, dizendo-os repetidas vezes em voz alta e foi-os guardando na memória, os guardas a ouvi-lo chegaram a pensar que estava louco. Veiga Leitão considerou esses poemas, ao todo 20 poemas, um diário de prisão, e um itinerário das cadeias por onde passou: Pide do Porto, Aljube e Caxias. Viria a publicá-los em 1955 num livro com o título Noite de Pedra - imagens da noite fascista e que foi apreendido e proibido pela censura.

Este livro contém outros dois lindíssimos poemas: A Uma Bicicleta Desenhada na Cela e Manhã.

A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA


Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.

Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...

Bem haja a mão que te criou!

Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.

MANHÃ

-Bom dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço...apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.

Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porquê bom dia?

Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom dia lá fora
porque lá fora é que é dia!

Eduardo Guerra Carneiro em Homenagens, do seu livro Contra a Corrente, inclui  um poema dedicado Luís Veiga Leitão.

Luís Veiga Leitão é o pseudónimo de Luís Maria Leitão que nasceu em Moimenta da Beira a 27 de Maio de 1912 e morreu em Niteroi a 9 de Outubro de 1987, onde se encontrava de visita a convite do presidente José Sarney. Tinha 75 anos.

Foi escriturário da 7.ª Brigada Cadastral da Federação dos Vinicultores da Região do Douro, mas foi demitido por ser contra o regime salazarista. Foi delegado de informação médica de vários laboratórios farmacêuticos.

Para além de poesia, escreveu crónicas de viagens e de costumes. Foi também artista plástico, dedicando-se ao desenho.

Talvez seja possível encontar os seus livros em feiras de oacasião ou alfarrabistas mas, em Setembro de 2005, a Editora Asa publicou a Poesia Completa de Luís Veiga Leitão.

Um poeta a (re)descobrir.

Legenda: Auto-Retrato de Luís Veiga Leitão.

domingo, 17 de setembro de 2023

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Ainda há dias fazíamos lembrar que a frase Isto anda tudo ligado já é antiga, mas quem lhe deu vida nova e foros de expressão erudita foi o escritor e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, que a usou como título num seu livro de poemas, exactamente  Isto Anda Tudo Ligado.

Tão certa é a ideia, que no dia de 3 de Setembro, o título do editorial do jornal Público, referindo o envelhecimento da população em geral, mostrava-nos: «O país envelhece e isto anda tudo ligado.»

Oportunidade para pegar no livrinho e copiar um dos poemas do livrinho do Eduardo:


MAÇÃ


Maçã! Quem diria ao ver-te magnífica

que trazias em ti o sol do Verão?

Abres-te maçã como se fosses um coração

de novo calmo e certo. Inesperada?

Não. Em noites de Inverno te esperava.

E aí estás enorme. Enchendo o quarto.

Maçã vermelha. Bandeira de Maio

Desfraldada. Igual ao teu sorriso.

Aos teus gestos. Ao teu lenço

Descuidado e intencional.

Onde irei enterrar tuas sementes?

Não podes morrer, maçã! Um violento

Verão verá crescer as macieiras.

Eduardo Guerra Carneiro em Isto Anda Tudo Ligado

Legenda: pintura de Paul Cézanne

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Quero dizer-vos que um destes dias apanhei um enorme susto.

Fui à estante da Biblioteca da Casa para consultar o Isto Anda Tudo Ligado do Eduardo Guerra Carneiro e não o encontrei.

Fora do sítio? Emprestado?

Há livros que não empresto mesmo e se por qualquer razão isso acontece, sei bem a quem o empresto.

Comecei a suar frio.

Onde o terei deixado?

Passaram-se os dias e antes de chegar a qualquer alfarrabista, telefonei ao José Antunes Ribeiro se ainda, perdido pelo armazém, tinha algum exemplar.

Da 1ª edição nada resta, mas em 2015 reeditou o livrinho e existem alguns exemplares.

Pedi que mo enviasse pelo correio e passados uns dias, o carteiro bateu à porta.

Voltei a relê-lo num curtíssimo golpe de asa.

Um enorme livro!

Tudo isto se passou há três anos.

Ontem, a mexer numa pasta de papelada antiga, fui dar com o meu velho livrinho  de capa vermelha do Isto Anda Tudo Ligado do Eduardo Guerra Carneiro, possivelmente, a fazer de marca para qualquer coisa  que eu consultei.

Como foi possível?

Acreditam que chorei, eu que até não sou de lágrima fácil?

Se a felicidade é possível, acreditei que é o que agora sinto.

A 1ªedição custou-me, à data de saída, 25 escudos, qualquer coisa como 1,25 euros, a 2 ª edição custou-me 10 euros, mais os portes de correio.

O livro está dividido em duas partes:  «Jardim de Alguns Objectos e Coisas Reais» com 11 poemas e «Isto Anda Tudo Ligado», maravilhosos textos curtos.

Ambas as capas são vermelhas.

Dado o tempo que decorreu, já lá vão 53 anos, caramba! como estou velho, o vermelho  está um tanto ou quanto desmaiado.

Termino esta feliz nota, copiando no Nota que o Editor, José Antunes Ribeiro, entendeu deixar nesta nova edição do livro do Eduardo:

 «Em Janeiro de 1970 este ISTO ANDA TUDO LIGADO, de Eduardo Guerra Carneiro deu início às edições da Ulmeiro, livraria e editora que aparecera um mês antes.

Esta reedição, numa pequena tiragem, numerada e assinada pelo editor, é dedicada à memória do Eduardo Guerra Carneiro que partiu no dia 2 de Janeiro numa hora triste de desespero e desencanto.

O título deste livro anda por aí dito e redito ao mesmo tempo que a memória do poeta é silenciada e ignorada.

Este foi o primeiro livro da Ulmeiro. Um grande livro. Um grande poeta, um grande jornalista. A falta que me fazes , Eduardo. Tinha uns projectos para discutir contigo. “Um dia destes falamos”! Pois é…

ISTO ANDA TUDO LIGADO.

José Antunes Ribeiro»

OLHAR AS CAPAS


 Isto Anda Tudo Ligado

Eduardo Guerra Carneiro

Capa: Ana Nunes

Editor Fólio Exemplar, Lisboa, Outubro de 2015

Pedra

Pedra. Que entre as mãos seguro.

Frágil. Frágeis. Não é fraga da serra.

É pedra ligeira da beira do mar.

A cor? Não posso dizer que é verde

sem lembrar um olhar demasiado.

Pedra em que repouso. Simples

motivo de falar de um gesto.

De. Para. Se me lembro!

sexta-feira, 3 de junho de 2022

CLARA

Disse que se chamava Clara
e sentou-se na mesa, chamando
o criado para pedir um uísque irlandês.
Eles abriram mais espaços, cruzaram
as pernas, perguntaram se os charutos
a incomodavam. Clara disse: «Não!»
Pediu mesmo se lhe ofereciam um.
«Claro!», ofereceu o mais jovem,
emprestando-lhe a tesourinha
niquelada. Disseram banalidades,
vieram mais bebidas. Clara traçava
o rumo da conversa, entre baforadas
azuladas. Quando ela saiu, descruzaram
as pernas e ficaram sem saber o que dizer.


Eduardo Guerra Carneiro em Profissão de Fé

segunda-feira, 16 de maio de 2022

OLHAR AS CAPAS


Mil e Outras Noites

Uma Antologia

Eduardo Guerra Carneiro

Selecção de Miguel Filipe Mochila

Prefácio e Posfácio de Vitor Silva Tavares

Capa: a partir de pintura de Hieronymus Bosh

Língua Morta, Lisboa, Maio de 2018

 

Na ampla praça há apenas plátanos.
Nem crianças a correm de tão fria,
nem estátuas a comovem bronzeadas.
Das margens secas, com ilhas e outras casas,
janelas, se as há, são quase setas.
O frio perfurou tábuas e latas.
Um vento seco corta junto aos olhos.

O espaço é recomposto agora mesmo: na praça
estou na sombra dos plátanos
e tudo vejo com vontade e amor.
Mas não chega a presença ou a vontade.
Outros não chegam, ou aparecem apressados.
Nomes se referem. Desenha-se um olhar.
Apenas gesto, memória, sombra rara.

Envolvo-me na praça. Os plátanos cobrem-me.
Das margens sempre vem algum calor.
Renascem os olhos. Os plátanos movem-se.
As casas iluminam-se. Um grito
cobre a sombra e assim anima
a ampla solidão de todos nós.


Poema de Eduardo Guerra Carneiro do livro Algumas Palavras

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

ABANDONO AGORA ESTAS PALAVRAS


Abandono agora estas palavras

e deixo que elas sirvam de pedal.

À quinta-feira tombam desarmadas.

Em desleixo as largo. Não são estas

já minhas as palavras. São papel.

Delas me sirvo e logo as abandono.

As palavras violo. O sol lhes roubo.

Para nada mais as quero.

Nem sequer me pertencem.

São coisa digna. Seriam

coisa séria. Caminho entre palavras

calcinadas. São símbolos

apenas. Letra a letra as destruo.

Reconstruo mais tarde

outro edifício. Com outras

ou restos destas mesmo.

Para que mais queria eu palavras?

Palavras não deflagram.

Só servem de rastilho.

 

Eduardo Guerra Carneiro em Algumas Palavras

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

ESPELHOS E VULCÕES IV



Dos vulcões gostava de falar, em tom de arrepio, como se um vento de fogo cortasse de súbito os sonhos.

São esses os vulcões do imaginário, acesos quando menos se espera, ao olharmos o negro borralho que julgamos ser apenas cinza morna.

Já voei por cima de um vulcão, na realidade ou na noite dos prodígios. Arrisquei a pele ao provar os álcoois das profundezas, lava espessa a transbordar das taças.

Aos vulcões misturo os espelhos, num retrato imperfeito de algumas ousadias. São violentos os gritos e ressoa o clamor de multidões estilhaçando os vidros dos tiranos.

Caem os muros, revolvem-se as fronteiras. Espantados com a sua força, com o poder ao alcance das mãos, os homens imprimem neste novo tempo as suas impressões digitais, tantas vezes manchadas pelo próprio sangue ainda derramado.

Volto então aos vulcões de modo mais lírico para não me deixar tombar nas ravinas do medo. São, afinal, encostas de prazer, quando os olhamos com a firmeza de tudo querer mudar.

Há vulcões no teu olhar, dizia o homem para o espelho da parede. E explodia então o esmalte e os vidros rompiam os veludos e alcatifas.

Eduardo Guerra Carneiro em Lixo

Legenda: vinheta de Carlos Ferreiro em Lixo

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

ALGUMAS PALAVRAS


Algumas palavras são mais que o som.
Soltam-se delas lâmpadas, por vezes gritos.
Palavras que demoram na boca
com o sabor da manhã de Outubro, o claro gosto
da terra húmida, castanha até doer.

E há noites em que se ouve, além das horas,
um chamar por nós, um apelo
comovido. Podemos afirmar: são irmãos,
são mães, são companheiras. Mas é outra a face
revelada. Todo um ruído quente
quase desanimado. Um ténue vento
queimando-se nos vidros. Posso dizer:
em noites assim algumas morrem, muito antes
de saberem o nome e a voz. De quem
esse clamor? Saber que na antiga casa
as portas se abriram, um ou outro quarto
vai iluminar-se e começa o dia!

Há palavras lança-chamas.
Conheço algumas que nos fazem viver,
por não serem simples som
mas estradas incendiadas por dentro,
duplos corações batendo com o calor
da certeza do dia que se segue.
Assim me apoio às palavras,
procuro a tudo dar um nome,
e em noites destas ─ salientes, defumadas,
com vozes que nos chamam ─ sou um corpo
novo. Quebrando o meu silêncio,
povoo alguns espaços de alegria.
Rasgo o papel. Irado, desejoso
de saber até onde, quando, como,
o corpo vai. Nas palavras me encontro.
Cansado, quase morto, à espera,
sempre à espera. Nas palavras vivo,
denuncio ou ataco. Há um grande sol
à nossa espera. Quantos somos?

Eduardo Guerra Carneiro em Algumas palavras

domingo, 27 de janeiro de 2019

NÃO É O OUTRO


Não é o Outro que tu buscas? Sim,
a explosão dos tais espelhos. Sei
também que olhar esses teus olhos
provoca as miragens – o deserto.
Perto daí estava o estrangeiro,
e as veredas abriam-se sem medo.
Recordas a viagem, ida sem volta,
onde os poemas ferviam já em leite.
Azedo tu estavas, meu escriba,
os comboios povoavam a escuridão
e, de encontrão em encontrão,
tu sorrias à viagem. Lá longe,
no planalto em chamas,
os índios perguntavam pelo livro.

Eduardo Guerra Carneiro em A Noiva das Astúrias

Legenda: desenho de Carlos Ferreiro tirado de A Dama das Astúrias

segunda-feira, 21 de maio de 2018

NUNO BRAGANÇA


Nuno Bragança dizia-me sempre um simpático
«Olá, rapaz!» quando o apanhava na Trindade
em confidências alcoólicas com o Fernandinho Almeida.
Era já o fim da linha e não sei mesmo
se ele chegou a andar na carreira do 24.
Nas prosas se via o desespero, tal como a impaciência
com que escutava tiradas mais literatas.
Enraivecia por dentro, mordido por outros
deuses, venenos aziagos. Encontrei-o
uma vez à chuva, e perguntei-lhe: «Então?»
Respondeu: «Deixa-me estar nesta paragem.»
Era à porta de um hotel. Hesitava.
Sei hoje que talvez bastasse outra palavra
para a sua alma poder ainda ser salva.

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

Legenda: fotografia de Joaquim Lobo tirada da contracapa de DoFim do Mundo

domingo, 4 de março de 2018

AUTO-RETRATO


Quantas horas não choras a pensar
em ti — quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado — assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes,
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.

Eduardo Guerra Carneiro em Conta-Corrente

Legenda: desenho de Carlos Ferreiro em Conta-Corrente

domingo, 10 de dezembro de 2017

LUÍS VEIGA LEITÃO


Veiga Leitão, meu querido, tão nortenhos
nós somos no fim dos anos cinquenta!
À sucapa vamos beber uns tintos
e tu preocupas-te por eu ser ainda
um catraio do liceu de Vila Real.
Mostrava-te versos ruidosos que acolhias
e felizmente dizias que não eram ainda
poesia. Depois, noutras visitas,
a cavaqueira passa p’ra lá do Marão,
limite nessa altura das angústias
dos meus voos. Noite de pedra era o tempo,
como o título do teu livro. Tanta ternura
 cumplicidade, entre dois covilhetes
e algumas taças de branco para rebater.

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

segunda-feira, 12 de junho de 2017

MORRER DE AMOR


A neve queima
mas o fogo do teu corpo
que tanto me incendeia
transforma-se às vezes
numa estátua de pedra.

A neve queima
e nela me deitava
abraçado à montanha.
Brilhava assim na paixão
e não gelava – ardia
o coração.

A neve queima
com flores geladas.
Para mim são labaredas
esses outeiros brancos
a arder num só olhar.

A neve queima
mas gelo nos incêndios
do prazer. Serei fogo
das estrelas? Ou apenas
a confusão dos elementos.
Eu sei: vogar no ar.

A neve queima
mas quero arder
no teu corpo ardente.
E quebrar o gelo
dessa estátua minha.

A neve queima.
Mesmo a tremer de frio
procuro no ar que respiro
o fogo que me leve
às águas mais profundas
dos teus vulcões acesos.

A neve queima
ao sabê-la fria.
Desço aos infernos
dos fantasmas
e procuro água de beber.

A neve queima
e nas veredas encontro
a paz desse silêncio.
Mas gritar eu quero
no ar ardente
dos teus sentidos.

A neve queima
quando nem a sinto
Busco no teu olhar
o sinal mais simples:
unir gelo e chamas.

A neve queima
mas eu quero arder
nos elementos maiores.
Incendeia-me, amor!
Vogar no ar, morrer
nas águas do teu fogo.

Lisboa, Julho de 1994

Eduardo Guerra Carneiro em Ler nº 28, Outubro 1994

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O POETA QUE SE ATIROU PARA O CÉU


No fim das trevas da noite admitia: uma pequena estrela de esperança a brilhar.

Mas naquele começo de um novo ano escolheu a morte.

Como tão certeiro escreveu o Baptista-Bastos: o poeta que se atirou para o céu.

Num qualquer dia do ano de 1999, talvez antes, escrevo com medo de ser tarde, a propósito de fitas, falara das tais luzinhas a brilhar:

Acendem-se já as luzes natalícias e ele escapa-se, no intervalo dos aguaceiros, por entre o empedrado escorregadio das ruas e travessas do bairro, para aparentes portos de abrigo, que buscando a companhia de algumas palavras, mesmo que sejam de ocasião, tentando a cumplicidade de alguns sorrisos, mesmo que sejam de encomenda. Já pouco mais pede, perdidas ilusões, desfeitas quimeras.

Eduardo Guerra Carneiro, no dia 2 de Janeiro de 2004, foi encontrado sem vida junto à casa onde morava sozinho na Travessa do Abarracamento de Peniche, ali ao Bairro Alto que ele tanto amava e conhecia tão bem.


AUTO-RETRATO

Quantas horas não choras a pensar
em ti — quando ando, desando,
neste viver sem mim.
Quantos anos sem tino. De mim
este cantar desencantado — assim.
Embora os dias me afastem já de ti
procuro saber do teu espaço,
nas casas brancas onde o azul desmaia. Sinal
de outro tempo em que ainda rias,
espaço meu. Afinal alteras, aterras, ó desenterrado.
Finges, desarmas, com teu gosto azedo. Procuras,
já vives, nas verdes veredas. Mas não sabes,
nem queres, do teu ao meu, essa coisa
chamada amor.


Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

domingo, 25 de outubro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Como Não Quer a Coisa

Eduardo Guerra Carneiro
Prefácio: Vitor Silva Tavares
Capa e «hors-texte» de Carlos Ferreiro
Edições &etc. Lisboa, Agosto de 1978

PREFÁCIO A UMA HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE

As clarabóias deste lado da cidade acendem-se mais cedo.
sinal que alguém projecta o fogo sobre o bairro
incendiando casas, talvez certas pessoas, as ruas
mais estreitas junto ao Tejo. Em manhãs como esta o sol
entra na mesa e pára junto às teclas. Parece um sorriso;
diria mesmo uma ternura. Poucos são os Palácios, mas imenso
é o espaço. E as águas, no rio e junto às teclas, acendem-se
com o fogo de outras clarabóias.

Depois são as luzes, as indústrias, o último petroleiro.
Descansam moradores em casas altas
enquanto se ergue a cidade nocturna de bares e liamba
e cresce um ou outro clandestino. É tempo de sair
por entre a névoa; rondar as esquinas; sorrir à puta;
apertar o copo; sentir o suor da cidade, corpo a tremer
de frio e febre neste tempo de amoníaco e éter
com ambulâncias lentas a caminho da morgue.

Antes ainda das luzes, quando, à maneira de Cesário,
o fumo se eleva no espaço, o recorte das fachadas
é mais nítido, o vermelho de Lisboa é mais intenso,
podemos imaginar escadas cansadas da madeira,
fogões acesos nas cozinhas,
crianças já com sono,
etc, etc...

domingo, 16 de agosto de 2015

OS CAFÉS


 Nos cafés desenham os paisanos, vulgares
senhores de bagaço e genebra, raspando o mármore
entre as folhas do jornal. Morrem os cafés
com o seu bilhar, bengaleiro e escarrador. Música
de rádio ainda sintoniza a serradura e os vidros
baços quando chove. Recordo cafés
da província, ou da cidade grande,
destruídos por ímpias criaturas do plástico.
Já não servem cevada ou eduardinho e o açúcar
não vem no açucareiro. Alguns ainda assinam
os jornais, o cobre limpam e pagam
aos paquetes. Autorizam cauteleiros, a caixa
do engraxador, a rapariga das violetas. Violentam
os cafés aqueles da usura, ratos do cimento.
Avessos à militança, são os cafés retracto militante
de algumas senhoras de batina e capa, entornando
no pires o leite do caniche. Alvoraçados os velhos
titilam nas retretes e os tabacos esgotam-se em suspiro.
São cafés com espelhos e amarelas luzes onde o néon
ainda não entrou. Também de padres são feitas
essas lojas; de marçanos, rapazelhos e trapistas.
Devolvendo teorias sobre os ditos. Em tempo de ditadura
era o café a teia da intriga, o bocejar jacobino,
o guarda-chuva pingando tristes ais. Insisto pois
no rádio e radiador. Quem lembra os pianos?
Carambolas secas já cortavam o fumo dos charutos;
no marcador quinze de partido; na mesa ao fundo,
igual à história antiga, dois jogadores de xadrez ou de gamão.

 Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente

quarta-feira, 6 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Lixo

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Carlos Ferreiro
& etc, Lisboa, Outubro 1993

Há nomes de luxo onde o lixo
arde — bouças chamejantes.
Medo é a palavra exacta nas travessas
quando bandos circulam protegidos
pela finança alta e licenciada.
Se ele diz que há cavalos e cães
e fala dos doutores, esquecem
que no fundo era o mercado.
O país ergue-se em peões e os baldios
em chamas. Volta ao restolhar do milho
e camponeses dizem da lavoura,
da fome e da calúnia. Basta
olhar os murais onde esse luxo
se transformou no lixo capital.

A canalha junta-se nos pátios
no lusco-fusco de alguns entardeceres.
Galinhas debicam, entre caliça e cimento,
nos torrões onde pode estar semente ou grão.
O bolor cresce, com a humidade, em caixotões
encostados, a esmo, pelos cantos. A canalha
canta nos lugares — nódoas de vinho
e sangue misturados. O ódio ressuma
das frinchas dos tabiques. Na lama
desses pátios surgem flores carnívoras,
alimentadas a grogue e lavadura.
Crioula é a voz, a desmaiar no violão
e o azul ultramarino invade a cantina.
A hora do lobo ainda junta essa canalha.

Não penses que a canalha é lixo.
Nunca o foi. Na secura das terras,
fouce a fouce, ergue as colheitas
dos teus alimentos. Não julgues a canalha
o bode expiatório destes dramas. Lumpen
é quase luz noutra reforma dita
dura. Ouve as sirenes da polícia
e as ambulâncias solenes da morte.
Entre os espelhos quebrados dessas lojas
estão os focos do incêndio dos costumes.
Alarma-te: metrópoles em pânico
estão a arder. Não penses que o lixo
é só ao lado. Eis que ele se aproxima,
raia a raia.