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quinta-feira, 21 de maio de 2026

OLHAR AS CAPAS


Primeiro Poema

Nuno Júdice

Prefácios: Manuela Júdice e Ricardo Marques

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril 2026


O Espelho da estrofe


Se me perguntarem para que serve

a poesia, peço para pegarem num espelho

de vidro limpo e puro. O rosto que ali

aparece, mais do que aquele de quem o olha,

é o rosto que perdura no olhar que, um dia,

encontrou noutro olhar o seu duplo. Assim,

se a poesia serve para alguma coisa,

é para te ver, para lá do tempo

e da ausência, e novamente ter à minha frente

esse olhar que nunca mais esqueci

e que vive, no mais fundo de mim,

quando te encontro, no espelho do poema,

fazendo com que eu peça que o reflexo

se transforme na realidade do teu corpo.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

OLHAR AS CAPAS


O Fruto da Gramática

Nuno Júdice

Capa: Maria Manuel Lacerda

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 2014


Os gatos que gostam de poesia metem-se

nos cantos da casa, escondem-se debaixo das mesas,

aninham-se no travesseiro daquele quarto,

ao fundo, onde há muito ninguém dorme. Vejo-os,

no verão, no parapeito da janela que dá para

a rua, ao sol, e os olhos quase não se abrem

com a luz que os fere. Esses gatos são gordos

como as grandes estrofes dos poemas clássicos,

e os seus bigodes, finos como um verso de sonora

aliteração, têm um brilho dourado quando

a sua língua os lambe e os deixa húmidos

de encontro ao vidro. Quando os chamo, não

vêm ter comigo; e se passo a mão pelo seu

dorso assanham-se com a sensação

de que o tempo lhes pertence. Assim, quando leio

os poemas em que se passa de um verso a outro

com a mesma delicadeza com que eles se movem,

sem ruído nem sombra, compreendo o seu

gosto pela poesia, e deixo-os dormir, ao sol,

com os olhos abertos para o sonho, para

os cantos da casa, e para as marcas de outrora

no travesseiro que agora lhes pertence.

sábado, 10 de abril de 2021

OLHAR AS CAPAS


As Inumeráveis Águas

Nuno Júdice

Capa: Dorindo Carvalho

Colecção Cadernos Peninsulares nº 6

Assírio & Alvim, Lisboa Abril de 1974


Dobro o joelho perante o poema. Mais precisamente,

não só o joelho, mas o corpo todo, e as mãos, até formar

os dois termos de uma figura em cuja interpretação

gastei os olhos e o espírito. Mas o impulso criador libertou-me

desse efémero exercício, atraindo-me ao domínio

da especulação mais abstracta sobre as palavras,

unido em figuras de outro tipo os objectos mais diversos

e contraditórios. Obtive assim um estranho universo,

não o reflexo ou a imagem deste, mas por vezes o seu contrário,

e outras vezes algo que já se situava depois (ou antes)

e em que o brilho intenso do ser original contaminava

o próprio gesto verbal ou poético, despertando-me da letargia

da vida comum, incitando-me ao contacto físico

com essas outras realidades essenciais e primitivas.

Pouco depois, porém, voltando a mim, levantava-me

recuperando o sentido geral do mundo e do acaso. A relação

entre a chávena de café e dois dedos, o polegar

e o indicador, da mão direita, prendia toda a minha

atenção; e ao tactear o rebordo ainda quente,

como se cumprisse um culto, descia vertiginosamente

para dentro da vida, onde finalmente me surpreendia

quieto, com a respiração baixa e o olhar fixo

na súbita revelação de nada.

sábado, 19 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Obra Poética
(1972-1985)

Nuno Júdice
Capa: Rogério Petinga
Quetzal Editores, Lisboa, Junho de 1999

A Imagem do Vento

para a Manuela

No princípio, desenvolveu a ideia de que o arco-íris era
uma ponte: aparecia sobre os barcos, no fim dos temporais,
e o marinheiro da gávea avistava uma mulher de cabelos
de ouro, agitados pelo vento, a atravessá-la; alguns desses
marinheiros enlouqueceram. Conheceu-os, durante os meses
em que estudou os costumes dos portos – sentavam-se à
parte, nas tabernas, e acendiam uma vela. Diziam que o brilho
da chama evocava os cabelos dourados dessa mulher; e
que o azul do álcool os fixava, como um olhar celeste.
Tentou, então, viver essa experiência: embarcou num velho
cargueiro e, durante dois ou três anos, percorreu os mares.
Mas nunca encontrou a deusa; nem os arco-íris formavam
o arco completo da ponte que imaginara. Também ele enlou-
queceu, e dizem que sobe ao telhado da casa nas noites
de temporal, e grita pelo sol, a quem dá um nome de mulher;
até ficar rouco e o trazerem para o quarto. Aí, até
adormecer, murmura esse nome sem corpo, sem imagem, sem luz.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Anjo da Tempestade

Nuno Júdice
Capa: Henrique Cayatte
            Pintura da capa de Jorge Martins
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2004

Com a mulher, que depois dessa manhã já se lhe pode chamar assim, e não apenas noiva, é que as coisas mudam de figura porque, depois de se deitar com um homem, mesmo que nada se tenha passado entre eles, embora a criada jure que não, avaliando pelo estado em que descobriu a colcha, sobre a cama, a sua reputação nunca mais será a mesma, a não ser que se case com o homem, o que não será o caso porque a um morto já não se pede a mão, e mesmo que ela esteja pedida, já a mão deste não se pode estender, na igreja, para receber o anel de casamento. Morto e bem morto, ainda que não houvesse cadáver, nem ele tenha aparecido, a não ser muito tempo depois, e num estado em que ninguém poderia jurar que era ele, ou se seria o ladrão, que ele teria conseguido eliminar, aproveitando-se disso para fugir para onde não mais o encontrassem, que era o que ele queria, para se ver livre não se sabe bem de quê, se dos trabalhos da vida, se das dívidas, se da noiva, cujo corpo não lhe teria parecido igual ou melhor do que outros que conhecera, antes dela, e não se sentia com paciência para lhe transmitir a educação que ela não tivera com outros, namorados ou não, ou pura e simplesmente porque sim, nesse desejo de aventura que poderá acontecer a alguém, num meio de vida que já se sabe não irá durar muito, e ou a irá gozar agora ou depois será demasiado tarde.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

OLHAR AS CAPAS


A Implosão

Nuno Júdice
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa Fevereiro de 2013

Já reparaste que ninguém ouve os pobres? Estão à porta do metropolitano, a estender o chapéu, a vender inutilidades, ou sentados no passeio, junto a grandes lojas, e só balbuciam qualquer coisa quando por eles passamos, coisas que não nos chegam aos ouvidos, palavras, frases que só eles sabem o querem dizer. E cada vez haverá mais pobres, até serem uma multidão, sentados nas praças, debaixo de tectos de paragens de autocarro, e as suas vozes continuarão inaudíveis. É o dinheiro que dá voz aos homens, por isso, se lhes tirarem o dinheiro, ficarão sem voz. É isto que pensam os que governam, é isto que estão a fazer, devagarinho, como quem não quer a coisa, como se nos estivessem a fazer um favor, e tivéssemos de lhes ficar agradecidos por nos cortarem a língua. E qualquer dia virão dizer, como o Ditador dizia, que a mendicidade é um cicio, e são muito capazes de cobrar imposto sobre as esmolas, basta criar um programa informático para a s calcular em função da área em que o mendigo actua.