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sexta-feira, 8 de maio de 2026

OS DIAS DA RÁDIO


The Golden Age of Old American Radio
Starring Bing Crosby
United Artists Records  UAK  30115

With Jud Conlon’s Rhythmaires
John Scott Trotter and His Orchestra

Apresentador: Ken Carpenter     

Side One

1-Where The Blue Of The Night Meets The Gold Of The Day - Orchestra   
2- Lady Of Spain – Bing Crosby 
3 - Hello, Hello – Kay Thompson and The William Brothers   
4 -For Me And My Gal - Judy Garland and Bing Crosby
5 - Young At Heart – Bing Crosby
6 - Lazy River And Paper Doll       - The Mills Brothers and Bing Crosby
7 - Where Is Your Heart – Bing Crosby 
8 - Lullaby Of Broadway – Dick Powell and Bing Crosby       
9 - It Might As Well Be Spring – George Burns abd Bing Crosby     
10 - It's Only A Paper Moon – Bing Crosby       
11 -That's A Plenty – Connie Bonwell and Bing Crosby         
12 - You Go To My Head – Bing Crosby
13 - Where The Blue Night Meets The Gold Of The Day (Reprise) – Orchestra


1- Zip-A-Dee-Doo-Dah – Bing Crosby   
2 - I Can Dream Can't I? – The Andrews Sisters and Bing Crosby   
3- Tell Me Why – The Four Aces and Bing Crosby     
4 - Two To Tango – Rosemary Clooney and Bing Crosby       
5 - Mona Lisa – Bing Crosby       
6 - If I Knew You Were Coming I'd Have Baked A Cak - Bob Hope and
     Bing Crosby   
7 - On A Slow Boat To China – Peggy Lee and Bing Crosby 
8 - Medley   
     (You Gotta Start Off Each Day With A Song - Maurice Chevalier and Bing
     Crosby, My Love Parade – Maurice Chevalier- Louise – Maurice Chevalier and
      Bing Crosby - Mimi – Maurice Chevalier)
9 - You Gotta Start Off Each Day With a Song – Jimmy Durante and Bing
      Crosby
10 -You Belong To Me – Bing Crosby     
11 -Wish You Were Here – Bing Crosby
12 - May The Good Lord Bless And Keep You - Nat King Cole, The Andrew
        Sisters and Bing Crosby   
13 - Orchestral Closing
       Where The Blue Of The Night Meets The Gold Of The Day

Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobrevive na memória.

Se bem que o malandro do José Gomes Ferreira lhe tenha dito que «saudades, só do futuro», mas há coisas em que gosta mesmo de voltar lá atrás.

Cresceu a ouvir rádio.

 Primeiro num velho «Pilot», mais tarde, muito mais tarde, num «Blaupunkt já com dois altifalantes laterais, um luxo!, diziam que era estéreo.

 O rádio tocava todo o dia.

 O avô chamava-lhe telefonia.

Os mais variados programas, das mais variadas estações: o folhetim do «Tide» da mãe e da avó, a música clássica do avô, os relatos de hóquei em patins do Torneio de Montreux em cada tempo de Páscoa, ao domingo os relatos de futebol.

 De todas as músicas, ficou-lhe um gosto por «big bands», por «crooners».

 As canções dos primeiros amores, os primeiros bailes, slows, boleros - «a menina dança?»

O modo como uma mão nas costas nos conduzia, podia mudar tudo, passagem quase certa para lá do arco-íris.

 Aquilo a que chamaram a idade da inocência.

 O tempo, onde as promessas, as causas, porque também nos fomos apaixonando por ideias, nos preenchiam os quotidianos.

 Quando ainda acreditávamos, que iríamos ficar fiéis àqueles amigos, àqueles ideais.

 As músicas é que ficaram.

Memórias também: Brigitte Bardot a acenar num velho filme a preto e branco, Sophia Loren a não caber no écran do Cine-Oriente, Eusébio no Mundial de 66 em Inglaterra.

Não vivíamos para ouvir rádio. Somente para melhorar essa vida.

«Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.

Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.

Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets

Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?»

Diálogo do filme «Smoke» de Paul Auster/Wayne Wang

Extinta está a rádio que grande parte da vida o acompanhou.

Degradou-se a partir de um tempo que não sabe onde mora.

 Ou melhor: quando os programas de autores e de vozes eméritos deram lugar às «play-lists», em que uma garotada inculta, aos guinchos, às piadolas sem graça alguma, às conversinhas parvas tiraram o lugar a profissionais como Cândido Mota, Rui Morrison, Maria José Mauperrin, Jaime Fernandes, António Cartaxo, José Duarte, Adelino Gomes, António Curvelo, Aníbal Cabrita, António Sérgio, João David Nunes, Luís Pinheiro de Almeida - «why not?»

E não tem qualquer ponta de esperança que essa rádio regresse nos tempos que ainda terá para andar por aqui.

 Razão única para ter uma ternura especial por este velho LP, que o leva, volta e meia, a pôr o disco a rodar e amiúde senta-se no sofá a ver Os Dias da Rádio do Woody Allen, copo de gin ao lado.


Texto publicado em 11 de Maio de 2018 no inesquecível «IÉ-IÉ» blogue do Luís Pinheiro de Almeida.

terça-feira, 29 de abril de 2025

QUOTIDIANOS


Em pleno Apagão, o voltar ao Rádio de Pilhas, ouvir os gritos de alegria na rua quando a luz começou a aparecer, os que chegaram a lançar foguetes, o açambarcamento nos supermercados, as notícias falsas que começaram a ser lançadas para o ar pelo ministro Adjunto e da Coesão Territorial, Castro Almeida, a admitir a hipótese de um ciberataque, a dependência das nossas vidas face aos telemóveis que aconteceu sem termos dado por isso, ou a frase que um dia ouviu de quem não tem telemóvel e nisso reside a relativa felicidade em que vive…


«O aparelho de rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias, nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas: estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido, quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.»

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida.

Sam Shepard em Crónicas Americanas

Andava sempre à pesca de qualquer coisa na rádio. A par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha vida.

 

Bob Dylan em Crónicas 

Já não estou muito capaz de trabalhar, porque a memória, a vista, tudo isso inibe um tipo. Já não leio os jornais, não consigo. A minha ligação com o mundo é a rádio.

Luiz Pacheco

«Ouça, importa-se de baixar mais o rádio?»

«Ora essa. Desculpe, tenho a mania de o pôr muito alto.»

«Como os taberneiros.»

«Ou como os apreciadores de jazz. Como as prostitutas baratas, se quiser. O rádio, Guida, é um vício de solitários.»

José Cardoso Pires em O Anjo Ancorado

Durante o dia, a telefonia estava ligada para o emissor clássico da Emissora Nacional. Apenas ao serão havia uma interrupção do fluxo da grande música quando a voz do meu avô ordenava: “Meninas vamos ouvir a BBC”. Mudava-se de onda durante os minutos com as notícias de Londres lidas pelo Ferando Pessa ou pelo Augusto da Silva, sobre o desenrolar da guerra. “Aqui Londres, Estação da BBC na banda dos 41 e 49 metros”.

António Cartaxo em Quase Verdade Como São Memórias

sexta-feira, 5 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

             Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


5 de Abril de 1974

A Rádio Renascença despediu o jornalista Rui Pedro.

Em carta assinada pelo director da estação, Padre Américo Brás da Costa, é invocada como justa causa uma entrevista que Rui Pedro deu à revista Cinéfilo, na qual o jornalista tomou uma “posição de desobediência e desrespeito à entidade patronal”, causando com isso “manifesto prejuízo moral, social e material da Rádio Renascença”.

A parte da entrevista que deixou os senhores bispos completamente fora de si, refere a resposta de Rui Pedro quando lhe é perguntado o porquê de estar ao serviço dos noticiários da Rádio Renascença:

“Entricheirar-me numa estação de rádio, evitando assim que o inimigo ocupe aquele espaço de tempo.”

Tão só. 

Ainda com a tal madrugada por chegar, Rui Pedro, declarava-se disposto a colocar um pauzinho na engrenagem do regime, antevendo metas, os grandes pequenos nadas que desbravaram os caminhos. De todos esses pequenos nada, alguns ainda por conhecer, um dia se fará a História.
A carta da Rádio Renascença enviada a Rui Pedro:


“Atendendo a que já por várias vezes foi admoestado por transgredir as normas disciplinares que regem o trabalho do noticiário da Rádio Renascença que lhe foi confiado, atendendo a que veio agora a público, numa entrevista, revelar as intenções que o levaram a introduzir-se neste serviço da estação de rádio, manifestamente contrárias à sua directriz e disciplina, que bem conhece, e a que publicamente declara que está na disposição de não acatar as normas e a disciplina de que a estação não pode abdicar, tornando-se assim uma posição de desobediência e de desrespeito à entidade patronal e causando manifesto prejuízo moral, social e material à Rádio Renascença, o conselho de gerência, tendo presente o artº 20 , da lei geral do contrato de trabalho, ao abrigo do artº 101, comunica-lhe que a partir de agora fica despedido do seu lugar de funcionário, com justa causa.”

Esta foi a Carta Aberta que a Direcção da revista Cinéfilo enviou à Rádio Renascença.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ATÉ MAIO


26 de Abril de 1974

O segundo dia da nossa vida em liberdade.

Aos poucos, a rotina do quotidiano vai entrando na normalidade.

Caminha-se para os empregos, para as escolas, para as fábricas, são os mesmos passos, os mesmos rostos, mas têm uma outra vivacidade, um outro fulgor.

Os jornais dão todo o destaque aos acontecimentos da data histórica.

Diário de Lisboa é o único que puxa para a primeira página a grande notícia dos dias que vão correndo: a libertação dos presos políticos, a rendição da PIDE/DGS.

No miolo da reportagem uma pergunta óbvia, uma resposta com o seu quê daquilo que, tristemente, mais tarde irá acontecer:

- O que vão fazer aos pides, pergunta o repórter ao comandante dos páras.

- Temos que ter compaixão e humanidade para com eles, respondeu-nos o capitão.

Mário Castrim coloca em título no seu Canal da Crítica: Televisão, alegria do povo.

Mas são de louvor à rádio, as suas primeiras palavras da crónica:


Na página 12, uma notícia que, de modo algum, a censura deixaria passar:

Na página 13, destaque para as primeiras posições dos movimentos de libertação, face aos acontecimentos ocorridos em Portugal:


Em Kinshasa, Holden Roberto recusou-se a fazer quaisquer comentários até que a situação em Portugal evolua.

Aguarda-se uma declaração formal do porta-voz oficial do MPLA.

Não foi possível contactar com responsáveis da Frelimo.

Desde Lusaka, os combatentes dos Movimentos de Libertação nos territórios africanos de Portugal, não se sentem seguros se o golpe militar em Lisboa virá ajudar a luta que travam pela independência total das colónias:


Na página 15 do República a reprodução de uma carta em que o Presidente da Comissão Central pedia explicações ao Director do jornal, Raul Rego, por ter publicado um artigo que fora alvo de cortes da censura:


Na mesma página, uma pequena, mas lamentável, notícia dá conta de que, apesar da intervenção dos militares, não foi possível salvar muitos arquivos e documentos da Censura que o povo lançou à rua e foram destruídos.

Aqueles documentos eram parte importante da nossa história.

Estava lá nesse momento, assisti ao crime, mas como se poderia tê-lo evitado?

Quarenta e oito anos de ódio e repressão sobre um povo, cegam, pesam muito:


Na primeira página do Diário Popular amplo destaque à apresentação da Junta de Salvação Nacional.

Com chamada para a página 12: O Almirante Américo Tomás e o Prof. Marcello Caetano Chegaram à Ilha da Madeira.

Na página 9 foco  para as cinco edições que o Diário Popular publicara no dia anterior.

Tanto o Diário de Notícias, como O Século dão amplo desenvolvimento a tudo o que foi acontecendo no dia em que ditadura caiu.

Em O Século realce para o relato da última sessão da Assembleia Nacional:


Em O Século, a primeira fotografia publicada na imprensa da prisão de três pides, passos iniciais do que vai ficar a ser conhecido como a «caça ao pide.» e durará alguns dias:

Por fim, três curiosos destaques  retirados da 1ª página da Época, jornal oficial do ex-regime, ainda com o nome do ultra Barradas de Oliveira como director:

- Um movimento Militar depõe o Governo.

- O Prof. Marcelo Caetano rendeu-se ao General António de Spínola.

Garantir a sobrevivência da nação como pátria soberana no seu todo  pluricontinental, é um dos compromissos da Junta de Salvação Nacional perante o país segundo a proclamação que o General António de Spínola leu à Nação.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

RECORDAR RUBEN DE CARVALHO

 

Começou ontem a ser transmitido, pela Antena 1, de segunda a sexta-feira, o programa Panfletos.

Copio do site da Antena 1:

«As palavras-chave deste projeto são estas: música-política, canções-poder, criatividade-resistência, cultura-opressão, talento-censura, poesia-liberdade, arte-causas.
Panfletos foi um programa de Ruben de Carvalho na antiga Telefonia de Lisboa. Recriado agora por Pedro Tadeu, na Antena 1, trata da relação íntima, ao longo dos tempos, da arte musical com a vida e a luta dos povos.
Diariamente: uma canção na História.»

A canção transmitida no primeiro programa foi Sixteen Tons, gravada em 1946 por Merle Travis, mais tarde, em 1955, Tennessee Ernie Ford gravou uma versão, que é a que foi utilizada no programa.

Reproduzo a versão de Ernie Ford mas também a de Frankie Laine.

O meu pai gostava muito de Frankie Laine e, particularmente desta canção, que estava incluída num Popular Favourites LPs da Philips,  discos que reuniam diversas cantores interpretando standards. Muitas vezes ouvi essa canção, mas só mais tarde o meu pai contou-me a história e o que se lá cantava.

A canção narra a vida de um mineiro nos Estados Unidos: carregas 16 toneladas e o que ganhas?, outro dia mais velho, mais endividado e não podes morrer porque deves a tua alma à companhia.

De acordo com Merle Travis o verso, devo a minha alma à loja da companhia,  refere o sistema imposto aos trabalhadores, não recebiam salário em dinheiro mas crédito na loja da companhia, assim como o custo do alojamento em barracões cedidos pelos patrões, uma prática generalizada nos Estados Unidos que, só após árduas lutas dos trabalhadores, tiveram o seu fim.

A canção, ao longo dos tempos, conheceu muitas versões e popularizou-se entre os mineiros espalhados pelo mundo, principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra. 



terça-feira, 21 de julho de 2020

LUÍS FILIPE COSTA (1936-2020)


Aos 84 anos, morreu Luís Filipe Costa.

Foi outras coisas, mas é como homem da rádio que o quero lembrar.

Essencialmente num noticiário do Rádio Clube Português no dia em que a PIDE prendeu Palma Inácio, dirigente da LUAR.

Impedido de dar a notícia da prisão, acabou o noticiário com a frase «Hoje esteve um dia de calor, mas esta noite felizmente há luar!»

Respiguei os textos que aqui deixo sobre a rádio, para lembrar o que a rádio ao longo dos anos da ditadura me deu e, duma certa maneira, também como homenagem a Luís Filipe Costa no dia emque, fisicamente, nos deixou.

O aparelho de rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias, nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas: estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido, quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida.

Sam Shepard em Crónicas Americanas

Andava sempre à pesca de qualquer coisa na rádio. A par dos comboios e dos sinos, a rádio fazia parte da banda sonora da minha vida.

Bob Dylan em Crónicas 

Já não estou muito capaz de trabalhar, porque a memória, a vista, tudo isso inibe um tipo. Já não leio os jornais, não consigo. A minha ligação com o mundo é a rádio.

Luiz Pacheco

«Ouça, importa-se de baixar mais o rádio?»
«Ora essa. Desculpe, tenho a mania de o pôr muito alto.»
«Como os taberneiros.»
«Ou como os apreciadores de jazz. Como as prostitutas baratas, se quiser. O rádio, Guida, é um vício de solitários.»

José Cardoso Pires em O Anjo Ancorado

Durante o dia, a telefonia estava ligada para o emissor clássico da Emissora Nacional. Apenas ao serão havia uma interrupção do fluxo da grande música quando a voz do meu avô ordenava: “Meninas vamos ouvir a BBC”. Mudava-se de onda durante os minutos com as notícias de Londres lidas pelo Ferando Pessa ou pelo Augusto da Silva, sobre o desenrolar da guerra. “Aqui Londres, Estação da BBC na banda dos 41 e 49 metros.

António Cartaxo em Quase Verdade Como São Memórias

domingo, 17 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

RÁDIO PORTUGAL LIVRE

Capa da cassette, editada em 1977, pelas Edições Avante, contendo extractos de emissões da Rádio Portugal Livre.

A 12 de março de 1972, emitida desde Bucareste, o Partido Comunista Português fazia ouvir a sua voz através da Rádio Portugal Livre.

Através das ondas curtas, após a transmissão do Hino Nacional ouviu-se: 
«Aqui Rádio Portugal Livre! A Emissora Portuguesa ao serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional.»

Foi nestes termos que o Avante de Abril de 1962 anunciou na sua primeira página a entrada em funcionamento da emissora clandestina do Partido Comunista Português – a Rádio Portugal Livre:

«A notícia divulgou-se mais que depressa e em pouco tempo o entusiasmo correu de Norte a Sul.» «Finalmente ouviu-se a voz de Portugal Livre, grande aspiração de todos os antifascistas portugueses. Mais um golpe profundo foi dado pelo nosso povo na censura salazarista.»


Foi através da Rádio Portugal Livre que pela primeira vez se fez ouvir a voz da cantora comunista Luísa Basto a cantar «Avante, camarada Avante!», da autoria de Luís Cília, que, hoje, funciona como hino do Partido.

A Rádio Portugal Livre encerrou a sua actividade em fins de Outubro de 1974, após a realização do VII Congresso Extraordinário do Partido Comunista Português que se realizou em 20 de Outubro desse ano.

A ideia da criação de uma rádio do Partido, segundo Rui Perdição, principiou a germinar pouco depois da fuga de Álvaro Cunhal de Peniche. O slogan «Aqui Rádio Portugal Livre! A Emissora Portuguesa ao serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional», foi escolhido por Pedro Soares e pelo próprio Rui Perdigão que o proferiu na primeira emissão.

Além de Rui Perdigão, e de sua mulher Fernanda Perdigão, trabalharam na RPL, entre outros, Aurélio dos Santos, Alda Nogueira, Margarida Tengarrinha, Álvaro Mateus, Teresa Mendes, Maria da Piedade Morgadinho.

Durante a ditadura existiu uma outra rádio clandestina: a Rádio Voz da Liberdade da responsabilidade da Frente Popular de Libertação Nacional, a emitir desde Argel, dirigida por Manuel Alegre e em que trabalharam, entre outros, Fernando Piteira Santos e sua mulher Estela, a primeira voz a dizer:

«Amigos, companheiros e camaradas, daqui fala a Rádio Voz da Liberdade, em nome da Frente Patriótica de Libertação Nacional.»

Legenda:  a capa da cassette é um desenho do pintor António Domingues, datado de 1953.

Texto publicado em 12 de Março de 2014

sábado, 21 de março de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

A MINHA AMIGA RÁDIO

Agora que a bola voltou a rolar, a sério, nos relvados do Reino, lembro os meus tempos dos relatos de futebol na rádio. Escrevi rádio mas gosto mais de dizer telefonia.

Quando o futebol era jogado apenas nas tardes de domingo, Inverno às três da tarde, Verão às quatro da tarde.

No restaurante que a Aida teve em Almoçageme, não descansámos enquanto não pusemos, na parte da tasca, um velho rádio, que só dava onda média e ondas curtas. E nem sempre!

Assim como uma velha crónica do brasileiro Maurício Neves:

«No princípio era o verbo. O Flamengo era pouco mais do que o burburinho do rádio, composto pelo alvoroço dos locutores e pelo chiado das ondas médias, que meu pai tentava reduzir girando o botão maior, o da sintonia. Pacientemente. Às vezes mexia na antena, mudava o aparelho de lugar alguns milímetros, com o cuidado tenso de quem desarma uma bomba. De repente a voz de bluesman de Jorge Curi enchia a sala: “Anooooteeem... Teeeeempo e placaaaarr no maaiooorrrr do muuuundoooo...” Eu sabia poucas coisas. Mas sabia que maior do mundo era como Jorge Curi chamava o Maracanã, e sabia que logo ele estaria gritando um gol de Zico. Aliás, Zico não. Um gol de Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai seguia olhando o rádio, onde estava escrito Philco acima da tela metálica e furadinha. O som enchia a sala de heróis que circulavam ao redor de nós. Uma sucessão de espectros rubro-negros: Zico tocava a Adílio, que driblava um e abria para Júlio César, o entortador, que entortava um, dois, três, e a bola voltava para Zico que então virava Zico, Zicão, Zicaço. Meu pai sorria olhando para o rádio: o Flamengo saía dali.»

Os relatos do futebol pela rádio.

As perfeitas tardes de domingo de um tempo perdido para sempre, vozes que ainda ouço apesar de já não andarem por aqui.

As tardes de domingo, os jogos a começarem todos à mesma hora, os relatos na Emissora Nacional, as marchas do John Philip de Sousa, enquanto se aguardava a ligação ao estádio, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Nuno Brás e era apenas o relato de um jogo, mais tarde passaram a dois: «atenção Nuno, jogada perigosa».

João César Monteiro, em As Recordações da Casa Amarela, deitado na cama do quarto alugado, ouvindo, num rádio de pilhas, o relato da Emissora Nacional. A voz do locutor, de repente, grita: «golo do Benfica», o João César ergue-se, de braços no ar a vitoriar o golo.

Manuel Alegre, no seu livro Alma, recorda essas tardes de relatos de futebol nas tardes de domingo, a voz de Alfredo Quádrios Raposo que eu já não apanhei:

…os jogos de domingo e os relatos de Alfredo Quádrios Raposo, o melhor locutor desportivo de todos os tempos. Nesse tempo não havia transmissões directas e ao fim das tardes de domingo ainda não se sabiam os resultados. Era preciso esperar pelo resumo da primeira parte e o relato da segunda, que eu ouvia no RCA, em companhia dos meus amigos que não tinham rádio. Ouvíamos então a voz inconfundível de Alfredo Quádrios Raposo anunciar os golos do Peyroteu, os tentos do Julinho, as grandes jogadas do Vasques e do Travassos, os cortes de cabeça de Feliciano, os dribles de Mariano Amaro, a recepção de bola com o peito de Francisco Ferreira, capitão do Benfica. E as defesa do Azevedo, do Capela, do Martins, do Barrigana, as intercepções do Guilhar, os remates fulminantes de Araújo. Ou os nomes raros dos jogadores do Sul, como o Abraão e o Grazina, do Olhanense, o Patalino e o Massano, do Elvas. Eram momentos inesquecíveis, sobretudo quando havia jogos entre os grandes. A minha irmã por vezes ia espreitar por detrás do aparelho e nenhum de nós compreendia muito bem como era possível o jogo estar a decorrer nas Salésias, em Alvalade, no Campo Grande ou na Constituição e nós em Alma a ouvir o relato como se estivéssemos a ver. Seguíamos as palavras, as entoações de voz, as mudanças de ritmo, as pausas. E víamos. Era uma forma de ficção, quase sempre mais verdadeira do que a realidade. Nunca ninguém relatou como Alfredo Quádrios Raposo. Ele era a nossa ligação à capital, ao Estádio, ao jogo. Durante muito tempo ele foi a nossa festa, todos os domingos, ao fim da tarde.
Os jogadores viviam na nossa imaginação como figuras de lenda. Conhecíamo-los apenas das fotografias dos jornais, da revista Stadium e dos cromos que comprávamos embrulhados em rebuçados para depois colarmos numa caderneta. Mas era na voz de Alfredo Quádrios Raposo que verdadeiramente víamos os jogadores. Entravam em nossa casa, todos os domingos, ao fim da tarde. Vinham na voz daquele locutor de quem nunca vi o rosto nem faço a mínima ideia de como era, se alto ou baixo, se magro, se gordo, se velho, se novo. Era uma voz, um brado na tarde triste, um drible, um centro cruzado, um remate de cabeça, uma defesa para canto, uma recarga, um golo. Primeiro no RCA, depois no Telefunken trazido da Alemanha por Tiago de Faria, meu tio, que o deu a meu pai, juntamente com uma espingarda, a troco de uma edição rara, senão mesmo a primeira, da Arte de Bem Cavalgar a toda a Sela, de D. Duarte.
Também esses velhos aparelhos, quando aqueciam, tinham um cheiro. Eu guardo comigo o cheiro do RCA e do Telefunken nas tardes de domingo, um cheiro inseparável da voz de Alfredo Quádrios Raposo e da imagem de Peyroteu a marcar, com Feliciano à ilharga, mais um golo do Sporting contra o Belenenses, no Estádio das Salésias.

Texto publicado em 13 de Agosto de 2017

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

AINDA O EM ÓRBITA


O mítico programa de rádio Em Órbita, teve a sua primeira emissão no dia 1 de Abril de 1965.

Passados 50 anos dessa data, A Antena 1 realizou uma emissão especial conduzida por António Macedo.

Foram convidados Pedro Albergaria, Pedro Castelo, Cândido Mota, José Cid e José Ribeiro.

Sempre me fez uma enorme confusão o facto de os responsáveis, como primeira canção portuguesa passada no programa, terem escolhido A Lenda de El-Rei D. Sebastião interpretada pelo Quarteto 1111, onde pontificava José Cid.

Dizem, Paul McCartney é um dos donos dessa afirmação, que os Beatles chegaram ao fim pela aparição da japonesa Ioko Ono na vida de John Lennon.

Jorge Gil nunca escondeu que o Em Órbita iniciou os seus passos finais a partir do dia em que essa canção do Quarteto 111 passou no programa.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Telefonia

Matos Maia
Prefácio: Adriano Duarte Rodrigues
Capa: A. Rochinha Diogo
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1995

Criar Gosto (como na qualidade que reúne todas as outras), e a procura de novas formas do Dizer Radiofónico, constituem as duas únicas linhas onde se inscreve o horizonte comum a toda a vida do Em Órbita. Se hoje em dia ele for somente entendido e classificado como um “programa de música erudita”, todo o trabalho investido ao longo de quase trinta anos terá sido mal compreendido, ou então teremos falhado no modo como procurámos atribuir-lhe uma identidade própria – que deveria afirmar-se como algo autónomo e independente da música que transmite.
Há contudo razões para acreditar que assim não sucede, já que existem provas seguras da existência de um público que se manteve fiel ao programa, a despeito das mudanças por ele experimentadas com o passar dos anos.
A permanência desse auditório, assim como a conquista de um outro que foi aderindo ao movimento da redescoberta do verdadeiro espírito da Música Antiga (oculto durante vários séculos), não pode decorrer apenas de um fenómeno de identificação mimética do gosto dos ouvintes com as opções que foram sendo assumidas pelos responsáveis do Em órbita.
Não foi só a qualidade da música transmitida que permitiu ao programa manter um público fiel.
O modo como ele questionou o Dizer Radiofónico, e as formas encontradas para levar à prática os resultados de semelhante indagação, estão igualmente na origem daquilo que atribuiu ao Em órbita a condição própria de um “objecto familiar”, à semelhança daqueles retratos antigos de família que não se podem perder – porque nos dizem sempre coisas novas.
Se o programa não tivesse despertado intimidades afectivas naquelas regiões da alma onde as coisas ganham a força do que é credível, nunca teria havido condições para a mudança radical que se operou no início de 1974, quando a chamada música erudita estava excluída de qualquer estação de rádio de vocação comercial.
E se foi possível levar por diante semelhante projecto, com naturais perdas de audiência nos primeiros anos, é porque já existia uma audiência cuja generosidade a tornava receptiva à semente de um gosto musical mais rico e profundo.»
Palavras de Jorge Gil que explicam opções, dão definições e caracterizam espaços e fronteiras para um dos grandes programas de rádio portuguesa e que marcou toda uma geração.
Fundamental para um completo entendimento do espantoso feed-back que o Em órbita provocou é o ter-se em conta que não foi só pela qualidade da música que o programa se consagrou. Foi também por um nível altíssimo de qualidade técnica que contrastava com o desleixo e o amadorismo generalizados na nossa rádio.Uma das mais brilhantes análises ao Em órbita, foi feita, no Expresso, por Rui Vieira Nery:
«Tudo começou com um grupo de jovens profissionais da rádio que em meados da década de 60, em pleno reino do nacional-cançonetismo, de Rafael e de Gianni Morandi, tocava regularmente o que de melhor e mais avançado se fazia na música popular anglo-americana, constituindo um espaço radiofónico alternativo que serviu de referência de qualidade a toda uma geração marcada pelo movimento associativo universitário, pela resistência antifascista, pelo trauma da guerra colonial, pela ruptura com os códigos morais pequeno-burgueses dos filmes cor-de-rosa de Doris Day e Marisol. Depois veio o 25 de Abril, a geração que se formara ao som do Em Órbita entrou de uma vez por todas na esfera do poder e o próprio grupo dos responsáveis pelo programa se dissolveu enquanto tal para gradualmente se ir convertendo – com diferentes graus de felicidade conforme os casos no novo núcleo dirigente da rádio portuguesa».
Mas a vocação alternativa do Em Órbita não se tinha esgotado, quando a consagração institucional do seu primeiro figurino ameaçava transferi-lo das convulsões do desafio para a rotina fácil do sucesso, o programa reconverteu-se radicalmente em termos que muitos consideram quase suicidas e dedicou-se exclusivamente à música erudita, com destaque para o repertório barroco. Os seus níveis de audiência desceram vertiginosamente e tudo indicava que a sua própria sobrevivência estaria em breve seriamente ameaçada.
A nova aposta do Em Órbita assenta sobretudo não só na promoção de um repertório pré-romântico quase desconhecido entre nós como na insistência na sua execução com instrumentos e práticas interpretativas originais, um movimento que em toda a Europa lutava ainda arduamente pela conquista de uma credibilidade que lhe era negada pelos herdeiros da tradição interpretativa oitocentista.
O combate de Jorge Gil, que ficara sozinho à frente do programa, começou pouco a pouco a surtir efeito. Os níveis de audiência começaram de novo a subir (no início da década de 80 eram já dos mais altos da rádio portuguesa) e a consequência mais evidente deste fenómeno que se foi verificando foi uma procura crescente de gravações de música antiga no mercado discográfico nacional.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A MINHA AMIGA RÁDIO


Peça museu da casa, este é o Blaupunkt de olho verde em que ouvia o Em Órbita.

Não sei como se poderá dizer aos jovens de hoje, eu não sei, o que foi o Em Órbita e o que representou.

Aqueles rapazes criaram um gosto, uma cultura musical na esmagadora maioria dos que  viviam enrolados na música francesa, italiana, espanhola, portuguesa.

Passei a conhecer Simon and Garfunkel, Mamas and Papas, Bob Dylan, Bee-Gees, Peter Paul and Mary, Moody Blues, tanta, tanta, tanta gente.

Se disser que graças ao Em Órbita sou uma pessoa diferente, talvez não acreditem ou não entendam o que estou a dizer. As melhores histórias são as que vêm do nada e a história do Em Órbita é uma grande história.

Ficam aí com o indicativo musical do programa, o instrumental Revenge dos Kinks e uma canção divulgada, uma das muitas, no programa: O Crispian St. Peters  a cantar «The Pied Piper» e eu ainda estou a ouvir o Cândido Mota, a melhor voz, o mais competente dos que apresentaram o Em Órbita, «um programa feito por todos e dito por mim», as primeiras espiras a rodarem e ele a dizer: «sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica».

Em memória de Jorge Gil, relembro este texto de San Shepard de que gosto muito:

 «Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida».



domingo, 11 de agosto de 2019

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 Pelos idos de 67, o Em Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito, enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no programa.

O prémio consistia numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a realização do programa feito por nós e dito por mim.

Por esses tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.

Esgalhei um arrazoado sobre essas músicas.

 Os rapazes gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.

Lamentavelmente, perdi esse texto, batido à máquina, na minha velhaErika, que ainda está por aqui, como peça de museu.

Foi um belo pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.

Como convidado, alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas, hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson Airplane.

Disseram-me que aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.

Com o João Manuel Alexandre nasceram laços de estima e consideração.

Numa das conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.

Falei-lhe, então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar  uma sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.

Acertámos em ir falar com o Adriano.

Assistimos ao concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa serena com o Adriano.

Só que o Adriano era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António Borga a dizer à malta que oFernando Lopes Graça estava num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano esqueceu a conversa.

Nada havia a fazer.

Eu, o João e a mulher regressámos a Lisboa no seu Carocha.

Não houve mais oportunidade de voltar ao assunto.
.
Poucas semanas depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.

Para ser preciso no dia 10 de Julho de 1967.

Em Órbita não chegava à caserna do CISMI.

No dia 29 de Julho de 1967 o Em Órbita passava A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111.

Cândido Mota dixit:

É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.

Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.

Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português tocado e cantado por portugueses.

Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo, focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.

O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados.

Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.

É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.

Nunca soube de como se chegou ao Quarteto 1111.

Uma coisa é certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.

Legenda: a capa do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.

JORGE GIL (1945-2019)


Morreu Jorge Gil.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

TAMBÉM NÃO REPARO NO AR QUE RESPIRO


27 de Dezembro de 1969

Abro a Rádio. O terceiro acto de O Cavaleiro da Rosa de Strauss. O peso de uma voz alemã com arrebiques a tentar ter a leveza austríaca.
Indigestão de chouriços de tédio em três por quatro.
Prefiro a Viúva Alegre.
                                                              
                                                             *

- Pai: já reparaste que tens a rádio sempre. Não te cansas de ouvir música?
- Às vezes nem a oiço. Bem vês, também não reparo no ar que respiro.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

Legenda: imagem Shorpy

domingo, 10 de setembro de 2017

O RÁDIO ESTAVA SEMPRE NA COZINHA


Na casa que ficava em Audubon Place, o rádio estava sempre na cozinha e continuamente sintonizado na WWOZ, a grande estação de Nova Orleães que passa basicamente blues e rural gospel do Sul. O meu DJ favorito era sem dúvida a Brwon Sugar, uma disco jockey. Estava no turno da noite, passava os discos de Wyonic Harris, Roy Brwon, Ivory Joe, Little Walter, Lighttnin’ Hptkins, Chuck Willis, os que eram bons. Fazia-me muita compnhia quando já todos estavam a dormir. Brown Sugar, quem que ela fosse, tinha uma voz grossa, lenta, sonhadora, melosa – potente como um búfalo – divagava pela noite dentro, atendia as chamadas telefónicas, dava conselhos amorosos e punha discos a girar. Pus-me a pensar que idade teria. Se saberia que a sua voz me apaixonara, me enchera de paz interior e serenidade e acabara com a minha frustração. Era relaxante ouvir a sua voz. Ficava vidrado no rádio. Conseguia captar todas as palavras ditas por ela. Gostava de poder ter estado de corpo inteiro onde quer que ela estivesse.
A WWOZ era o tipo de estação que eu costumava ouvir à noite até tarde, e recordou-me os dissabores da minha juventude mergulhando-me nela. Nessas alturas, quando algo corria mal a rádio podia confortar-nos e deixar-nos bem. Havia também uma estação de rádio country, que bem mais cedo, antes do dia nascer, passava todas as canções dos anos 50, muito material western swing – ritmos clip clop, canções como «Jingle, Jangle, Jingle», «Under the Double Eafle», «There’s a New Moon over My Shoulder», a «Deck of Cards», de Tex Ritter, que eu já não ouvia há pelo menos trinta anos e as músicas de Red Foley.

Bob Dylan em Crónicas

Legenda: Brown Sugar e Dwayne Breashears na WWOZ.



domingo, 13 de agosto de 2017

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio tirado de um velho número da revista Ler de que não tenho registo da data.

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O aparelho de rádio tinha um caixilho de madeira e a face era como uma máscara cega, olhos e boca em panos. Havia a mesma melancolia nos brados dos relatos, nas sinfonias, nas novenas de Fátima e na voz quebrada dos discursos de estado. Como se o espírito nos desse sinal do holocausto, alheadas sobre o enlace das silhuetas: estarmos vedadas de tanta finura, veemência ou persuasão. Ainda hoje me assola a tristeza desses sons que não escuto e me temo de um rádio aberto em surdina à minha beira. Vivíamos sob esse rumor a que só mais tardiamente demos sentido, quando o hóquei patinado se tornou uma paixão cívica.

Maria Velho da Costa em Missa in Albis

Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.
Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.
Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets
Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?

Paul Auster em Smoke

A recordação mais antiga que tenho é a de um rádio. O meu pai chegou a casa com uma caixa, e tirou de lá de dentro uma Pilot Baby. Depois o meu pai disse que ia chegar um técnico para montar a telefonia, e nós ficámos todos muito excitados com aquilo, sobretudo uma tia minha que era um bocado nervosa. O técnico chegou, olhou para a mesa onde estava o rádio, olhou para a ficha, e disse "Isto não pode ficar aqui", e arrastou a mesa até à ficha. Depois ajoelhou-se, ligou o rádio, começou a sintonizá-lo, e ouviram-se uns ruídos estranhíssimos (imita esses ruídos). De repente a casa ficou inundada de música. Teria talvez 4 anos. Recordo-me do meu pai encostado ao rádio a ouvir música. Eu fiquei proibido de mexer no rádio, claro. 

Raul Solnado em Infância de Sarah Adamopoulos

A voz aguda do Abelaira (que anda aflito com as provas de “Enreada Amena” contou-me ontem:
- No domingo fui à “matinée” do São Jorge onde se me deparou a seguinte imagem “assombrosa” (palavra de muito agrado do Abelaira): vários espectadores, de rádio portátil na mão e auscultador no ouvido, não perdiam uma sílaba do relato do futebol. Enquanto assistiam, interessados, ao desenrolar da intriga na tela.
Meu Deus! Já não lhe basta um espectáculo. Querem dois ao mesmo tempo! E não tardará o dia em que levarão também uma televisãozinha de bolso para pôr no colo e espreitar, de vez em quando, um episódio qualquer de folhetim parvo.
Em resumo: encher a vida.

José Gomes Ferreira em Passos Efémeros, 1º Volume dos seus Dias Comuns