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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

DA SOLIDÃO DA LUZ

A casa em ruínas que vejo daqui
salta da janela, entra nesta sala,
mas não tem janelas que a façam brilhar,
as molduras rotas carregadas de ar,
as portas cobertas da hera mais pura,
as telhas brilhantes de ausência de cor,
e um buraco imenso onde o coração
devia luzir, se as ruínas não –
 
Morre devagar, como o universo,
galáxias e mares de estrelas e sóis:
política rara sem reis nem senhores,
mas tenso equilíbrio de forças sem luz.
 
Morrem devagar o tempo e os livros,
as estantes todas que habitam a sala:
pobre microcosmo do Bem e do Mal,
e do que nem isso, que é o mais vulgar.
 
Lembra-me, escarlate, só pela memória,
um livro maior de forças a sério:
o claro e o escuro de um igual terror
 
À casa em ruínas salvam-na essas asas
que vejo daqui, saltam da janela
e entram nesta sala. Não são as do anjo,
mas têm nas penas um sistema hidráulico
que as faz oscilar e rasar os ventos.
 
Olham-me, sombrias, dentro de um futuro
liso e sem ruínas – só de um chão mais puro
onde a casa houve, de janelas rasas
carregadas de ar. Só ele é comum
ao anjo e a elas, elas cheias dele,
ele, transportando e oscilando em paz.
 
Quando for sem ser? Só um limpo instante
de equalizador: ruínas e ventos,
janelas e anjo, heras e senhores
em mudas frequências, enxutos os sons?
 
E um poço vazio onde o coração
foi visto bater: partícula igual
ao pó de um cometa que um dia rompeu,
devorando o ar. E a casa em ruínas
abrandada em tempo, vogando no branco
de resplandecentes seis sílabas. Sós.

Ana Luísa Amaral

 

 

 

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

ENTRE O INFERNO E OS ANJOS


Se o amor se vestisse
de sentidos vernáculos e plenos:
um palco vicentino
a acomodar coragens de falar
 
A língua transitória
– caminho a meio entre o inferno
 
e os anjos, e ao fundo
dessa porta, em baixa-esquerda:
a glória
de escolher o adereço certo
 
A pluma mais brilhante,
a capa de veludo mais macio,
e a fivela
(que, vista assim de perto, era só isso),
ali: um quase diadema
 
O palco vicentino agora
em cor,
o que antes só amor
agora livre,
 
e de um ponto
vernáculo
no tempo,
 
vestir-me outra vez luz,
e olhando os teus olhos
outra vez,
morrer junto à coluna de papel,
num solilóquio que marcasse o fim
do século em viragem
 
e em coragem de espelho ou de punhal,
oferecer-te só isso:
o som, a fúria,
mesmo sabendo-os só sentidos
vãos

 

Ana Luísa Amaral

quinta-feira, 22 de maio de 2025

PASSOS DE VELUDO

Não permitas que a noite se desabe,

habituada e negra. Antes confunde

as regras e as sombras que lhe obedecem,

cegas. Não descanses olhar sobre

o vazio, nem no silêncio seduzindo

em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,

ou tampas de barulho avesso à almofada.

Grita, blasfema, geme em timbre agudo,

mas não deixes a lua, com passos de veludo

entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.

Nem lhe ofereças um lar de cabeceira

e penumbra doente. Argumenta-a de frente

e à seda roçagante dos seus passos;

numa filosofia de algibeira,

resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga

a sua máscara ausente de suor. Não entres

docemente nessa noite. Não entres

tão depressa.

 

Ana Luísa Amaral

domingo, 17 de março de 2024

OLHAR AS CAPAS


Poesia de Ricardo Reis

Selecção de textos e prefácio: Ana Luísa Amaral

Capa: Pedro Proença

Colecção:  Obra Essencial de Fernando Pessoa nº5

Expresso, Lisboa, Outubro de 2015

Para ser grande, sê inteiro: nada
      Teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
      No mínimo que fazes. 
Assim em cada lago a lua toda 
      Brilha, porque alta vive.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

A IMPOSSÍVEL SARÇA

Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer
 
Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita        abençoada
mas de mais e cristã
também castigo
 
Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras
 
que não chegam
– mas cegam

 Ana Luísa Amaral

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

SILOGISMOS

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)


Ana Luísa Amaral

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

ANA LUÍSA AMARAL (1956-2022)


 Morreu Ana LuísaAmaral.


QUE SE ABRAM OS MEUS OLHOS

Que se abram os meus olhos

olhos, devagar

(fechados tanto

tempo, tantas noites

de frio)


Que rebentem em folhas,

devagar: uma

explosão de luz

onde a paz doa,

uma pequena lágrima

renasça


(Toca-me os olhos

devagar

até que o frio me

aqueça)

terça-feira, 25 de maio de 2021

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS


O jornal Público atingiu níveis de ilegibilidade. Pelo menos para os meus olhos. Virou neo-liberal e de direita.

Mas ainda mantém uns certos laivos de outros bons tempos. É o caso de ter iniciado uma colecção, Censura no Feminino, que reúne 10 obras de autoras portuguesas proibidas pela Censura, publicadas em fac-símile, e custam, cada um, 6,50 euros.

O primeiro volume da colecção foi Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

Pelos temas abordados, pela qualidade da escrita, o livro terá de ser, obrigatoriamente, lido por quem nunca o fez e passarão a saber da dimensão política e social que contém. Os tempos eram os da enganosa primavera política de Marcelo Caetano mas ainda hoje retém uma assombrosa actualidade.

«E a minha mãe fartou-se de moer o meu pai com palavras e choros, homem não te metas nestas coisas, olha o resultado que dá, a gente aqui a morrer de fome e os outros de barriga cheia, que o patrão não os castigou mas só a ti que eras o das ideias.

Que uma das tarefas dos patrões é a de castigar os empregados e a tarefa dos empregados é a de trabalhar para os patrões a fim de estes ficarem mais ricos e mais patrões. Talvez eu um dia case com um patrão.

A verdade é que isso não quer dizer nada, pois quando o meu pai vem bêbado e bate na minha mãe, grita: aqui eu é que sou o patrão. E ela cala-se e põe-se a chorar baixinho.»

Segundo Ana Luísa Amaral, foi em Maio de 1971, que Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa decidiram escrever um livro a seis mãos.

Em Janeiro de 1972 dão a obra como concluída e, em Abril, o livro seria publicado  pelas Estúdios Cor, então com direcção literária de Natália Correia que, mesmo tendo sido instada a cortar partes da obra, a publicou na íntegra.

O  pide-censor, a quem a obra foi atribuída para leitura e opinião, não teve dúvidas:

«Sou do parecer que se proíba a circulação no País do livro em referência, enviando-se o mesmo à Polícia Judiciária para efeitos de instrução e processo-crime».

No processo podia ainda ler-se que o livro era pornográfico e a tentório da moral pública.

A Pide invadiu a editora e as livrarias e procedeu à apreensão da obra.

Chamadas à esquadra, as três autoras só não foram imediatamente presas porque Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa pagaram uma caução de quinze contos. Maria Isabel Barreno, por sua vez, provou que não tinha posses para isso e, em contrapartida, teve de comparecer uma vez por mês na polícia, para ofício de corpo presente. Posteriormente, David Mourão-Ferreira emprestou-lhe o valor para que também ela pudesse pagar a caução.

O julgamento começou a 25 de Outubro de 1973 e, nos interrogatórios, a acusação tentou por todos os meios saber quem escrevera o quê. Nunca o souberam e, Maria Teresa Horta, a única das autoras que ainda está entre nós, sobre essa autoria,  já disse que levava com ela o segredo.

O julgamento nunca veio a ter um fim.

Em Abril de 1974, um juiz mandava em paz as três Marias. 

Um livro de coragem dentro do cinzentismo ditatorial daqueles dias tão amargos.

Ana Luísa Amaral, é de opinião que o livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história dos direitos humanos do século XX.

«Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da tua língua, dos teus dentes.

Desço:

macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.

Não necessàriamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa de morte do meu corpo»

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O GATO E A LUA


O gato passeava aqui, ali
E a lua girava como um pião,
E, parente próximo da lua,
O furtivo gato, contemplava o céu.

O negro Minnaloushe admirava fixamente a lua,
Pois, embora miasse, vagueando,
A pura e fria luz no céu
Conturbava o seu sangue animal.
Minnaloushe corre pela erva
Erguendo as delicadas patas.
Danças, Minnaloushe, danças?
Quando dois parentes se encontram
Haverá coisa melhor do que dançar?
Talvez a lua possa aprender,
Cansada dessa moda cortesã,
Um novo passo de dança.
Minnaloushe desliza pela erva
De um lugar enluarado a outro,
E a sagrada lua nas alturas
Entrou agora numa nova fase.
Saberá Minnaloushe que as suas pupilas
Passarão de mudança em mudança,
E que da lua cheia à minguante,
Da minguante à cheia elas irão mudar?
Minnaloushe desliza pela erva
Sozinho, importante e sábio,
E ergue até a lua em transição
Os olhos em mudança.

W. B. Yeats, tradução de Ana Luísa Amaral em Assinar a Pele

Legenda: imagem Pinterest

quinta-feira, 8 de maio de 2014

TRÊS MARIAS DE CRAVO AO PEITO


Há 40 anos, no Tribunal da Boa-Hora, o juiz Acácio Lopes Cardoso, mandava em paz Três-Marias de cravo ao peito.

Interrompido pelo 25 de Abril, o processo tinha em vista a condenação de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, o editor da Estúdios Cor, Romeu de Melo, por terem escrito e publicado um livro pornográfico, imoral e obsceno, atentório da moral pública para além de muito mal escrito.

Apreendido pela Pide em 1972, cinco dias depois de ter saído para as livrarias, Novas Cartas Portuguesas é uma escrita a seis mãos, sem qualquer regra pré determinada, mas em que nenhuma das autoras interferiria nos textos de cada uma.

Um livro de coragem dentro do cinzentismo do Estado Novo.

As autoras nunca revelaram quem escreveu o quê.

Maria Teresa Horta já declarou que, muitas vezes, tem dúvidas e pede ajuda às outras duas autoras.

Não será bem assim, mas que fique a lenda.

Elas baralharam e voltaram a dar.

Não deixa se ser um inteligente e divertido passatempo para as noites de Inverno, tentar
descobrir o que escreveu Velho da Costa, Teresa Horta, Isabel Barreno.

Ana Luísa Amaral que, em 1990 preparou para as Publicações Dom Quixote, uma reedição das Novas Cartas Portuguesas, é de opinião que o livro está muito além do seu tempo. Como as grandes obras normalmente estão. Entendo que este livro é uma grande obra, é um grande livro dentro da literatura portuguesa do século XX, dentro da história dos direitos humanos do século XX.







Legenda: recorte do Diário de Lisboa de 8 de Maio de 1974.


A Terceira Carta IV é retirada da edição da Editorial Futura, publicada em Maio de 1974.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

NATAL A FINGIR BRANCO



Ah! os natais de infância
que não tenho em memória,
mas em nostalgia
- através das memórias dos
outros, das suas melodias:os
natais da minha infância

Natais de infância  mas que neve?
Também eu sonho (e quem o não?)
um Natal branco.
Queria neve no meu
natal de nostalgia. Queria
fechar os olhos
e ver por dentro neve. Queria-
-me em país nórdico, ao menos
na nostalgia possível.
Mas o salto nos símbolos
de que é feita a vida:
uma falha de salto por degrau
ausente.

Ah! um natal inocente de ternura
e figos, amigos e a mesa em
nostalgia, como as cores
do presépio.

Um natal inocente
e de perdão


                              [transler: a maldição de ser
                               assim: sempre presente
                               a outra culpa: direito a nostalgia
                               de Natal: ( a morte, a fome,
                               o frio): um privilégio]

Também não ter Natal
nem em memória. Só uma nostalgia
de doer.
Até a nostalgia
finalmente
começando a ceder:
nem país nórdico,
nem a neve por dentro,
nem a neve a sério
na memória.
 
Como em receita,
adicionada a culpa dos direitos,
associada a lucidez da
trans-leitura.

Hoje, na noite de Natal...

ah! os natais de infância
que em nostalgia
me cegam de ternura

Ana Luísa Amaral em Natal… Natais, antologia de Oito Séculos de Poesia Sobre o Natal, organizada por Vasco Graça Moura,  Público, Lisboa s/d

Legenda: pintura de Anton Pieck

sexta-feira, 16 de março de 2012

QUOTIDIANOS


Fui seguindo o meu pai. Que era um homem conservador. Um conservador que me ensinou valores de solidariedade que eu, que sou de esquerda, muitas vezes não encontro em pessoas que se dizem de esquerda ( e que têm gestos que contrariam a ideologia que dizem professar).  Era uma pessoa contraditória. Gosto da contradição. Nunca vi no meu pai jactância pelo facto de ser conservador. Nunca disse; “Eu sou melhor.”

Ana Luísa Amaral, numa entrevista à Pública