Se o amor se vestisse
de sentidos vernáculos e plenos:
um palco vicentino
a acomodar coragens de falar
A língua transitória
– caminho a meio entre o inferno
e os anjos, e ao fundo
dessa porta, em baixa-esquerda:
a glória
de escolher o adereço certo
A pluma mais brilhante,
a capa de veludo mais macio,
e a fivela
(que, vista assim de perto, era só isso),
ali: um quase diadema
O palco vicentino agora
em cor,
o que antes só amor
agora livre,
e de um ponto
vernáculo
no tempo,
vestir-me outra vez luz,
e olhando os teus olhos
outra vez,
morrer junto à coluna de papel,
num solilóquio que marcasse o fim
do século em viragem
e em coragem de espelho ou de punhal,
oferecer-te só isso:
o som, a fúria,
mesmo sabendo-os só sentidos
vãos
Ana Luísa Amaral
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