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domingo, 9 de março de 2025

CRONICAND POR AÍ


 Quem conhece bem Viena por certo já foi a Grinzig, um antigo subúrbio da capital austríaca, hoje já integrado na cidade, onde se bebe um vinho branco característico (eu acho que com algumas semelhanças com o galaico-duriense “vinho verde”), que não deixa especial memória, feito com a casta Grüner Veltliner, numas tabernas que se pretendem típicas (Heuriger). Também já por lá passei, mais do que uma vez, a última das quais tentando esquecer aquilo a que acabara de assistir “ao vivo”: um golo que um tal Frank Rijkaard acabava de marcar mesmo à minha frente e que derrotara sem apelo o “meu” glorioso na sua 7ª final da Taça dos Campeões. O local? Apenas a uma centenas de metros da “grande roda” que marca uma das sequências do filme de que lhes vou falar de seguida, a uns quilómetros (poucos) de Grinzig, hoje em dia local demasiado turístico (já o era), mas que não deixa de valer uma “espreitadela” apesar dos autocarros de japoneses e turistas afins.

Pois nessas tabernas de Grinzig também há música - que se pretende, claro, também ela típica - e foi numa delas que Carol Reed - rezam as crónicas ou as lendas, mas não as certezas – descobriu um tal Anton Karas, a quem convidou criar a música do seu “The Third Man” (1949). Certo é que Anton por lá tocava para arredondar as contas do mês e que Reed em boa hora o contratou, pois este é um daqueles casos em que a música excede o filme em notoriedade, mesmo que por vezes nos interroguemos “onde é que eu já ouvi isto”? Diz o meu amigo “Gin-Tonic”, a quem devo a ideia para este post, que o filme tem mais de Orson Welles (actor no filme) do que de Reed. Bom, eu acrescentaria que tem mais de Welles, Joseph Cotten (que seria do filme sem ele?), Karas e, talvez, Alida Valli, embora esta seja sempre, para mim, a condessa Lívia Serpieri de “Senso”, o mais trágico e operático filme da história do cinema. Mas também muito de uma Viena sombria, do pós-guerra e do início de uma "guerra fria" que quase atirou a Áustria para a órbita soviética.

 Quanto a Karas, o filme mudou a sua vida. Tornado famoso, actuou em todo o mundo, nos locais mais “badalados” de então, e nos anos 50 abriu a sua própria Heuriger. Morreu em 1985. Já Carol Reed, que morreu em 1976, viria a ganhar um Óscar como realizador de “Oliver”, em 1968. Outro dos nomeados nesse ano foi... imaginem lá, Stanley Kubrick pelo seu “2001”. Ao que os Óscares tinham chegado... e chegaram!

 João Cília em O Gato Maltês

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

... E OS DIAS DIMINUEM

São Dias.

Dia das Bruxas. Dia de Todos os Santos. Dia de Finados.

Pode brincar-se com coisas sérias?

Não sei o que o meu avô diria.

Sabe-se que não se morre quando de quer mas quando se pode.

Será mesmo?

Há um delirante filme de Jim Jarmuch em que se brinca com coisas sérias.

A canção que faz parte do filme, tem o cantor country Sturgill Simpson, a interpretar a canção-tema que nos diz  que os mortos são fantasmas dentro de um sonho, uma vida que não possuímos, que a vida continua para além da morte.

 É tão estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumula­mos uma vida inteira. não esteja este: aprender a morrer.

 O Mário de Sá-Carneiro deixou um poema em que exigia:

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Não se morre quando se quer mas quando se pode.

Falará apenas do que sobre o assunto, variadas vezes, o pai lhe disse: «Não quero lutos. Os lutos ofendem-me. Terão que arranjar forças para que tudo o que for festas, as façam como se eu também lá estivesse. Se assim não fizerem, venho por aí abaixo e desato à bofetada».

Foi este o recado. Qualquer dia passará o discurso aos filhos...

Não é fácil...

Este velho recorte é um belíssimo texto do Mário Castrim, e assim, sem quase ninguém dar por isso, passou o centenário do seu nascimento (31 de Julho de 1920).

Bom dia, Mário.

Também não te vou ver ao cemitério. Estás sempre por aqui, os mortos que vão ao nosso lado como dizia o José Gomes Ferreira.

Aquela letra é do próprio Castrim que foi professor de caligrafia na Escola Francisco de Arruda.

O texto é ilustrado com a cena final de O Terceiro Homem de Carol Reed, mais de Orson Welles do que Carl Reed ,  dizia o meu pai.

A  paixão assolapada que ele tinha  por Alida Valli, e o meu pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução.»

Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.

«Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


O meu pai tinha uma profunda admiração por Orson Welles.

Gostava muito de O Terceiro do Homem e alinhava na conspiração de que o filme tem tudo de Orson Welles e nada de Carol Reed.

Tinha uma pancada pelo tema musical do filme, The Harry Lime Theme, tocado pela cítara de Anton Karas, e não lhe restava qualquer dúvida quando dizia que o filme foi feito para aquela música.

Ainda me lembro do 78/rpm que, na altura, comprou.

Tinha no lado B The Cafe Moxart Waltz, que também faz parte deste EP, que um dia comprei por 1 euro na Feira da Ladra.

Junte-se-lhe a paixão assolapada por Alina Valli, e o meu pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução.»

Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.

«Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.




sábado, 28 de julho de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O principio de tudo num velho disco de 78 rpm que o meu pai comprou.

Anton Karars, mais a sua cítara, a tocar o tema do filme O Terceiro Homem.

Tinha visto o filme com o meu avô e ambos ficaram encantados com a música.

Tinha para aí 9 anos e a música, de tanto rodada no gira-discos, o que eu gosto desta palavra e tudo o que a envolve, ficou-me também no ouvido.

Só muito mais tarde vi o filme de Carol Reed e encontra-se na minha lista de filmes negros preferidos, longa lista diga-se.

Dizem as más-línguas que o filme tem mais de Orson Welles do que Carol Reed, mas isso já são contas de outro rosário.

Todo o filme está pontuado pelo tema musical e quase se poderá pensar que o filme foi feito para aquela música, filme que ainda tem Orson Welles Josephh Cotten, Alida Valli, os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução, e aquele final de filme, um dos muitos grandes finais que o cinema já nos deu.





Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.

Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim, para voltar a citar João Bénard da Costa.

Em Itália, Alida Valli, manteve suspensa a sua carreira por se recusar a aparecer naquilo que, no seu lúcido entender, considerava ser propaganda fascista.

Orson Welles deixou escrito: Não penso no que ficará de mim, nem isso me importa. Creio que é tão vulgar trabalhar para a posteridade como por dinheiro.

Quando no seu Muito Lá de Casa, João Bénard da Costa, chama à boca de cena Alida Valli, o título que escolhe é: Condessa Alida Livia Valli Serpieri e começa assim:

Disse Proust que nunca se deve desejar demasiado ardentemente qualquer coisa. Porque a alancaremos, mas tarde demais.

Apaixonei-me por Alida Valli quando me curei da minha paixão por Esther Wulliams. Por muito estranho que pareça, assim foi. E foi a segunda vez (a terceira, se incluir inconsciências de que só muito mais tarde tive consciência) que mulher foi melhor e que nela todo inteiro me despenhei. O meu desejo era tão mais ardente quanto mais se assumia por impossível. Saciá-lo era pecado contra o meu espírito e a natureza dela. Nessa altura, não sonhava transgredir tanto. Era novo de mais na terra e na carne. Se um duende, maligno ou benigno, me viesse profetizar que um dia lha seguraria o pulso e lhe fecharia os olhos, respondia-lhes que não abusasse da minha tendência para excessos imaginativos. E se o dito espírito acrescentasse que isso só não aconteceria por recusa ou incompetência minha, mais nomes violentos lhe teria chamado.