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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Herodes

                       Para Miguel Viqueira

 

Gritam, mijam, cheiram a leite

azedo. Andam por aí

pelos colos das mães, montados

em burros poeirentos. E há um

que aqueles pretos dizem que há-de um dia

sentar no meu coxim o cu borrado.

Não sabem nada, uns e outros,

soltam vagidos que ninguém entende.

Dou-lhes na mona a uns

e os outros que passeiem.

Detesto gente parva.

 

Pedro Tamén em Natal… Natais

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

OUTRA VEZ, REVISITANDO POEMAS DE NATAL


S. MATEUS, POR EXEMPLO


fica tranquila, direi o que quero

 daí neste natal, tranquiliza-te,

um saco de plástico purificado

cheio de mar, um copo de vinho,

 um cesto de lapas, um pouco

de tabaco, um postal ilustrado

 

neste natal, direi o que quero

 um chá quente em barro da lagoa

 um copo de vinho, dois copos

 de vinho de cheiro, umas favas

de molho, uma vaca a abanar o rabo

em pasto verde, o céu cinzento

38° de humidade relativa

que me façam vomitar cinco anos

de angústia

 

fica tranquila, neste natal

vais enviar-nos a ilha ou

S. Mateus, por exemplo

 

Ivone Chinita em Natal… Natais

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Herodes

     Para Miguel Viqueira

 

Gritam, mijam, cheiram a leite

azedo. Andam por aí

pelos colos das mães, montados

em burros poeirentos. E há um

que aqueles pretos dizem que há-de um dia

sentar no meu coxim o cu borrado.

Não sabem nada, uns e outros,

soltam vagidos que ninguém entende.

Dou-lhes na mona a uns

e os outros que passeiem.

Detesto gente parva.

 

Pedro Tamén em Natal… Natais

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 espero que me calhe aquela fava

que é costume meter no bolo-rei:

quer dizer que o comi, que o partilhei

no natal com quem mais o partilhava

 

numa ordem das coisas cuja lei

de afectos e memória em nós se grava

nalgum lugar da alma e que destrava

tanta coisa sumida que, bem sei,

 

pela sua presença cristaliza

saudade e alegria em sons e brilhos,

sabores, cores, luzes, estribilhos...

e até por quem nos falta então se irisa

 

na mais pobre semente a intensa dança

de tempo adulto e tempo de criança.

 

Vasco Graça Moura

 

Poema retirado de Natal… Natais

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Primeiro Natal

sem que faças o presépio.

Todos os anos compravas

algum pastor, um bicho

e os magos do Oriente repetiste.

Maria, José, o Menino,

A estrebaria:

Por aí começaste. E a ti

Deponho a seu lado, a ti e a meu pai,

Luz do Espírito santo na Palha.

 

António Osório em Natal... Natais

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

REVISITAÇÂO DE POEMAS DE NATAL


Natal de 1972

Neste comércio festivo que há dois mil anos quase
perdura mal cobrindo remendadamente
o solstício do Inverno e os deuses sempre vivos
de cuja falsa morte o mundo paga em crimes,
como em vileza humana, o medo que escolheu
quando ao claror da aurora rósea e livre
de viver como os deuses e com eles
preferiu a lei e a ordem projectadas
na sombra em sombras da caverna obscura
e desejou o mal em preço de ser-se homem —
tudo o que em milhares de anos é tribal
congrega-se feliz num doce rebolar-se
da traição de que fomos contra a vida.
Tão vil que levou séculos a inventar
um deus assassinado para desculpá-la,
e fez dele o comércio das famílias
que cortam no peru as raivas de existirem,
beijando-se visguentas, comovidas,
tal como têm babado os pés dos deuses,
ah não eles mesmos mas imagens vãs
que não resplendam da grandeza humana.
Alguma vez teremos o dinheiro
para comprar de novo o Paraíso,
em vez de prendas para o sapatinho?
O Paraíso aqui — aquele que venderam
no começar do mundo. E que nos trocam
por outros no futuro ou nos aléns,
agora, aqui, aberto a todos, claro
- um sol sem fim nos bosques ou nas praias,
uma nudez sem morte nos corpos sem alma.

 

Jorge de Sena

Poema retirado de Natal… Natais

domingo, 19 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Natal

Neste caminho cortado

Entre pureza e pecado

Que chamo vida,

Nesta vertigem de altura

Que me absorve e depura

De tanta queda caída,

É que Tu nasces ainda

Como nasceste

Do ventre da Tua mãe.

Bendita a Tua candura.

Bendita a minha também.

 

Mas se me perco e Te perco,

Quando me afogo no esterco

Do meu destino cumprido,

À hora em que Te rejeito

E sangra e dói no Teu peito

A chaga de eu ter esquecido,

É que Tu jazes por mim

Como jazeste

No colo da Tua mãe.

Bendita a Tua amargura

Bendita a minha também.

 

Reinaldo Ferreira em Natal… Natais, antologia organizada porVasco Graça Moura, Público, Lisboa s/d

Legenda: pintura de Heidi Malott

sábado, 18 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Em Que se Fala do Menino Jesus


Fiz a maldade e olhei Jesus.

Ele baixou os olhos e corou
e toda a gente julgou...
que quem fez a maldade foi Jesus .

E todos Lhe perdoaram ...

- Obrigado, Menino ! Mas agora
tira os olhos do bebé e vem brincar,
que eu prometo pra não Te ver corar,
já não fazer das minhas .
Anda jogar ao pé das flores, no chão,
comigo às cinco pedrinhas ...
anda jogar pra esqueceres
o preço do meu perdão ...

Sebastião da Gama em Natal… Natais

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Oratória do Natal Cósmico

 

Natividade. Um deus rompe e sai

sai da terra no romper da haste

seu presépio é uma flor de urânio

a vaca, trator branco

o burro, um guindaste

 

carpinteiro de astronaves seu pai

 

reis magos em nuvem supersónica

 

harpas eletrónicas

 

e o anjo que ao sol despia

o resplendor, as asas e o véu

às gentes descrentes anuncia:

 

- quando ele volta, livre, do cosmos

deuses morrem à míngua de céu

 

Luís Veiga Leitão em Natal… Natais

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Puer Natus Est Nobis

Dos contos de fadas da

minha infância, este da Divina

Criança era dos mais maravilhosos. Não

faltaram os exóticos magos guiados

pela mística estrela, a noite gelada, os

mansos animais, o desvalido ermo, a pobreza

transformada em glória. O bem

sucedido parto de uma virgem, tantos séculos

antes das pesquisas genéticas. O pior

foi quando quiseram contar o Tempo

a partir desta história. Podiam ter escolhido

outra, com um fim menos cruel. Antes

a da Cinderela ou a do Príncipe Sapo, onde

todos viveram felizes para sempre. Sempre?

E o que é

   

    Sempre?

 

Inês Lourenço em Natal… Natais

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Prelúdio de Natal

Tudo principiava

pela cúmplice neblina

que vinha perfumada

de lenha e tangerinas

 

Só depois se rasgava

a primeira cortina

E dispersa e dourada

no palco das vitrinas

 

a festa começava

entre odor a resina

a gosto a noz-moscada

de paisagens alpinas

 

E a multidão passava

E a chuva era tão fina

que parecia filtrada

de taças clandestinas

 

Finalmente chegava

triunfal    em surdina

a noite convocada

em todas as esquinas

 

Mas não se derramava

Como tinta-da-china

Na cidade acordada

já se ouviam matinas

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Se Ao Menos Nevasse

Nesse tempo chegávamos ao natal pelas estradas
dos ingleses construídas em yes
num emaranhado de malfadadas curvas em obras que haveriam
mais tarde de justificar discussões políticas sobre
o emprego dos fundos comunitários
uns diziam que era preciso o progresso avançar
assim ao ritmo do asfalto cortando declives
aproximando as encostas de um e outro lado do vale mesmo
ou sobretudo que a urze e a lírica passassem ao caralho
outros que na educação e na formação é que estava
o futuro de um povo e por essa altura vá
lá saber-se porquê davam como exemplo a dinamarca

As minhas primas cagavam-se no discurso ideológico e
metiam-se às costelas de vinho e alho à carne da peça
às rabanadas e ao vinho quente das fatias de parida
a lírica delas eram os sonho fritados às colheres até
rebentar ou golpearem-se à tesoura
as filhós as orelhas de abade o
bolo de monja com seu bico de grinalda e muitos ovos que
as galinhas quase nem davam feito e
na consoada amandavam-se gulosas ao polvo e
ao bacalhau cozido e à couve galega idem com
azeite de vila flor a escorrer-lhes salvo seja
dos carnudos lábios adolescentes
que era um mimo

E chegávamos também ao natal pelo
tronco dos vidoeiros antes da neve e pelo fogo do pobo e
pelo presépio nos degraus da câmara
com musgo e serradura nos caminhos e santinhos de barro
esculpidos decerto em braga em tamanho natural que
a gente era como se o menino jesus tivesse acabado de nascer
e até se benzia mesmo antes da missa do
galo quando o meu tio baptista bêbado que nem uma puta
rezava o pai nosso em siríaco e a família
tapava o rosto com as mãos muito
dividida entre o orgulho na erudição clássica do
velho seminarista e a vergonha pela sua queda em
sentido literal pelo tinto de valpaços

Talvez o problema seja só o
de envelhecermos mal e nos habituarmos a
culpar o mundo em abstracto a
darmos um outro nome à tristeza que a nós mesmos apenas pertence
talvez o problema seja desta raiz metálica que
nos perfura o estômago e
que nem folhas dá quanto mais flores a
verdade é que tudo agora é difuso e insípido
a gente chega ao natal de auto-estrada pagando as portagens
e ele é o algodão nos pinheirinhos de plástico com
o logotipo da sociedade ponto verde a
garantir que tudo será reciclado e
apetece logo poluir o alto do larouco
a gente chega ao natal e ao meu tio baptista dão-lhe
comprimidos e chá de cidreira
e até o clafouti de maçã reineta já não leva conhaque e vai
ao forno com manteiga sem sal e
as minhas primas muito magras erguendo-se a medir a cintura
discutem a dieta e as sessões de mesoterapia
e se bem compreendo não coisam nem com os legítimos esposos se
a retoiça não vier especificada na tabela de calorias do livro que
é agora uma bíblia
da senhora doutora isabel do carmo

Que saudades da neve se
ao menos nevasse
penso por instantes enquanto
venho à rua e acendo um cigarro
às quatro da manhã

José Carlos Barros em Resumo. A Poesia em 2009, Assírio & Alvim, Lisboa Março 2010

Legenda: fotografia da Magnum

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Natal

 

Há um sapato pequeno para encher de brinquedos:
um sapatinho azul
como uma história antiga.

Há uma espera no olhar
da criança que espera
a sonhar cavaleiros e canções.

 

E os meus braços caem abertos,

paralelos à vida.

 

(As arcas da Índia

de sândalo e pérolas

ignoram a chama de um sapato frio.)

 

A noite envelheceu.

O sapatinho azul

(história antiga)

vazio de brinquedos,

cansado de sonhar,

adormece sem fé.


Fernando Guedes, poema tirado da Antologia Natal… Natais

domingo, 12 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


O verde tenro e vivo, de folhagem,

presépio dos meus sonhos, em menino,

pôs-se de luto a par do meu destino,

cego-me a vê-lo imagem de miragem.

 

Quando, iludido, o busco na ramagem,

já com seus tons mais brandos não atino.

E nesta escuridão, só me ilumino

vendo-o compor-me interior da paisagem.

 

Paisagem de ouro verde, que de mim

sai alongada em foco para a terra

a procurar vencer-lhe a cerração.

 

E onde num crepúsculo sem fim

tonta, a esperança, esvoaçando, erra

sobre torres de encanto e de traição!


Edmundo de Bettencourt, poema tirado da Antologia Natal… Natais 

sábado, 11 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


Dezembro


Trago ao pescoço terço e alfaia,

Contas de névoa e fé ferrugenta;

A cal do cemitério já desmaia…

- As flores viu-as a morte ciumenta!

 

Frita-se na ribeira açucarada

(E vezes sem conta na mesma água)

Outro Natal de farinha amassada –

- Memória que tiveram eu pago-a!

 

Os cães que ladram no cimo do povo

Tão sempre os mesmos e tão longínquos –

- já parecem à noite algo de novo…

 

Ladram às estrelas, regressam tudo:

Os bailes de Verão, o cheiro a fumo

- E a roupa, mãe, onde é que arrumo?

 

Rui Lage, poema retirado da Antologia Natal… Natais

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Natal


A velha imagem. Um deus à minha espera,

nu e pobre.

Com firmeza artesanal da hera,

presa ao muro que cobre.

 

Mas uma pedra humaníssima destrói

a estrutura vegetal do pólipo gigante:

bichinho que rói, rói,

e segue adiante.

 

Entanto, permanece

o mistério velado.

E uma rosa amanhece

neste Maio adiado.

 

Daniel Flipe em Natal… Natais

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Um Natal de Cabo Verde


Da longa haste a despontar do Gólgota

não desceu até agora

a flor sobre esta face da terra.

 

Nem  na noite de Natal!...

 

Nossa encosta é ressequida,

nem um prelúdio de asa

ou uma gota

a pontilhar a fímbria

do amplo céu espraiado.

 

Terra dos olhos fincados

numa ruga do horizonte

oh, longas mãos apontando

a alaúde de chuva

no mais além insculpido!...

 

Nuno de Miranda

Legenda: pintura de Nuno de Siqueira

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Natal - 1950

Nenhum Natal será possível: sei

que tudo enfim suspenso aguarda

não já Natais sempre de guerra mas

a morte iluminada como aurora

entre esta gente que se junta rindo

e as luzes interiores, muitas cabeças juntas;

entre as lágrimas de ternura e os murmúrios de esperança,

entre as vozes e os silêncios, as pedras e as árvores,

entre muralhas de janelas sob a chuva,

entre agonias dos que lutam porque são mandados

e a cobarde angústia dos que apenas mandam,

no meio da vida, círculo de fogo,

à luz de que se vê uma calçada suja

de restos de comida e de papéis rasgados

– se sei, embora saiba, quanto soube:

ah canto do meu canto, olhar do meu olhar,

nenhum Natal, bem sei, mas outra gente,

e tanta gente, e mesmo que um só fosse,

já louco, envelhecido, apenas hábito,

que poderei fazer, senão humildemente cantar?

 

Jorge de Sena em Natal… Natais